All of Me
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Passou-se uma semana desde que eu havia chegado definitivamente em Londres, tive que procurar um lugar pra morar e encontrar todas as minhas coisas que havia guardado no fundo de qualquer lugar por aí. Eu encontrei um apartamento bem aconchegante, não era grande, mas era do tamanho exato pra mim e pra minha bagunça.
Para arrumar tudo nem precisei de esforço, né? Acena a varinha e tudo está direitinho do jeito que sempre teve que estar. Adaptar-me com o ritmo de Londres que foi a parte mais complicada de todo o processo, depois de anos viajando o mundo, indo de um lado a outro, vivendo como nômade, eu não reconhecia mais o significado de estabilidade.
Demorei a encontrar mercado, passagens para o mundo bruxo, transporte, tudo era complicado demais e eu simplesmente perdia a paciência fácil demais. Acho que eu me isolei do mundo por muito tempo. A mesma coisa servia para comer, eu desconhecia o significado de cozinhar e toda hora eu precisava juntar vários papeis para poder encomendar comida quando a fome não fosse mais suportável.
–Você sabe, não sabe?- Samanta estava falando comigo no celular enquanto eu procurava um saca rola que eu hipoteticamente tinha, mas não sabia onde havia colocado.
–Do que eu sei? –indaguei e olhei em volta procurando pela minha varinha.
–Bianca apareceu aqui outro dia e ela não estava nada bem. –Samanta começou a contar, mas parou e pelo som percebi que estava mastigando alguma coisa. –Ela e o Albus terminaram.
–É o que? –eu parei o que estava fazendo e apoiei a garrafa de vinho na mesa da cozinha. –Como assim terminaram? Uma semana atrás eu deixei Albus com ela.
–E uma semana atrás ela rompeu o noivado. –Sam riu e depois suspirou no telefone. –Não era isso que você queria?
–Eu nunca quis isso. –sussurrei e depois joguei meu corpo na cadeira. –Eu já estou conformada no que me tornei pra ele, Sam.
–Melissa! Pelo amor de Merlin. –Sam gritou no telefone e eu já sabia o que estava vindo. –Você passou dez anos sem nem se envolver direito com algum cara! Toda vez que você me contava que estava com alguém, no dia seguinte falava que já haviam terminado. E o que é que você falava pra mim?!
–Que eu sempre estava com a sensação que ali não era o meu lugar. –a respondi me sentindo uma criança que havia feito alguma coisa errada e que estava levando bronca da mãe. Bem, a situação era quase essa.
–Essa situação entre vocês sempre me irritou e sempre vai me irritar. Eu já te falei inúmeras vezes pra desistir dele, pra parar de conversar e você nunca ouviu. Eu sei que você ficaria mal, mas uma hora iria se erguer, agora não adianta, já se passou uma década e cá está sua chance de ouro. –eu suspirei e passei a mão livre pelos cabelos e foi quando percebi que havia prendido o cabelo com a varinha. A peguei e abri a garrafa de vinho que estava me encarando.
–Não posso mais fazer isso, Sam. Eu fiz o que eu podia anos atrás, acabou. –desliguei o telefone e bebi o vinho do gargalo mesmo. Meu interior estava confuso, não sabia o que deveria fazer e se deveria fazer alguma coisa. Mas não havia emocional em mim que aguentasse isso, eu já havia entrado em um estado de apenas de aceitação. Aceitava a situação em que me meti, aceitava os caras que se atraiam por mim, aceitava que não havia lugar pra mim com os estranhos pelo mundo.
E a próxima coisa corajosa e produtiva que eu fiz? Peguei meu vinho e minhas pesquisas e fui terminar meu trabalho. Nada como enterrar o emocional esgotado dentro da área da minha vida que eu tinha mais controle.
(...)
O celular começou a tocar Hooked on a Feeling e eu fiquei tateando a minha mesa em busca do som que havia me acordado. Eu consegui adormecer na mesa de trabalho e já havia jogado o meu telefone para o submundo porque já não conseguia o encontrar.
Abaixei-me e o encontrei debaixo da mesa, não conseguia me lembrar como ele chegou até lá, mas preferi não me ater a fatos que desconhecia.
–Espero que seja importante para ter me acordado. –resmunguei no celular quando o atendi. Não olhei nem para saber quem estava me ligando.
–É assim que você cumprimenta os outros no celular? –a voz de Albus soou divertida do outro lado da linha e automaticamente eu senti todo o meu corpo relaxando.
–Não há tratamento especial. –o respondi e o ouvi rindo.
–Me contaram onde você mora e eu estou do outro lado da porta. Como você simplesmente ignorou as batidas na porta, eu resolvi ligar. –eu suspirei e me levantei da mesa. Fui esbarrando nas coisas na minha frente até que chegasse a porta e a abrisse.
–Sinta-se em casa. –falei ainda segurando o telefone e o homem na minha frente revirou os olhos antes de entrar. Eu desliguei o celular e fui para o banheiro melhorar minha aparência. Tomei um banho rápido e troquei as roupas, colocando uma calça jeans e uma camisa xadrez, penteei os cabelos e depois voltei para a sala para encontrá-lo.
–Eu jurava que sua casa seria mais desarrumada, mas só tem livros espalhados por aqui. –Albus pegava um livro ou outro para olhar o título e o devolvia para o seu lugar. Como eu havia dito, meu apartamento era pequeno, assim que adentrava tinha a sala com seu sofá, várias estantes repletas de livros, um tapete e algumas almofadas amontoadas no canto perto da janela que ocupava toda uma parede; à direita havia um balcão que separava a sala da cozinha. Havia um corredor que dava para banheiro e para o meu quarto e fim.
–Que bom que está do seu agrado. –retruquei e me joguei no sofá, assustando meu gato que estava deitado preguiçosamente ali. –Por que está deslumbrando meus olhos com a sua pessoa?
–Seu tom irônico não para um minuto, não é? –Albus estava usando uma calça jeans escura, seus cabelos estavam bem mais curtos do que alguns anos antes, mas continuavam bagunçados, estava usando um casaco cinza e um tênis que deve ter encontrado no fundo da sapateira. Mesmo com a roupa pouco usual, ele não havia perdido em nada seu charme. –Queria saber onde Melissa Alphen se escondia quando não estava viajando.
–Venha, sente-se. – o chamei e ele obedeceu, se sentando ao meu lado e ficou encarando para a estante de livros que estava na nossa frente. –Uma pessoa trouxa normal teria uma televisão em casa.
–Não gosto de televisão. –o respondi e depois fechei os olhos. –Que horas são?
–Dez e meia. –eu arregalei os olhos e depois me obriguei a levantar. –Vou preparar um café para acordar, que tal?
–Adoraria, Alphen. –Albus tirou o casaco e o jogou para o lado, como se realmente se sentisse em casa.
–Abusado. – comentei antes de andar até a cozinha e colocar o café na cafeteira para fazer. Eu peguei duas canecas e coloquei no balcão e fiquei ali o observando enquanto o moreno olhava para as estantes, parecia estar impressionado. Quando o café ficou pronto, coloquei nas canecas e voltei a me sentar no sofá, entregando uma caneca para o moreno.
Eu fiquei bebericando o meu café, sem ter coragem para falar qualquer coisa, afinal, eu não queria falar nada.
–Bianca rompeu o noivado comigo. –Albus falou de repente, mas aquilo não me surpreendeu. Eu apenas continuei impassível, olhando para os meus livros que pareciam me acusar do término, mesmo eu não tendo feito absolutamente nada. Ou talvez eu fiz?
–Dez anos juntos e você conseguiu fazer com que ela rompesse o noivado? Um feito inacreditável. –o respondi usando o resto de ironia que ainda me restava. –Como alguém pôde te aguentar por uma década?
–Existe uma pessoa que aguentou por mais tempo e não é a minha mãe. –eu virei o rosto para encará-lo e seus vibrantes olhos azuis me encaravam. Olhava pra mim como se quisesse capturar todos os meus segredos mais íntimos, todo o sentimento que reprimi, toda a saudade que aguentei, todas as mudanças de humor de Albus que ele sempre havia tido. –Eu fui um completo cego, Melissa.
–Você deve ter puxado a miopia do seu pai. –sussurrei e aquilo não conseguiu arrancar um sorriso dele, seu rosto estava sério demais, avaliativo demais.
–Melissa, eu...
–Albus, não fale nada. Por favor. –falei antes e aquilo o pegou desprevenido. –Você não pode fazer isso, agir como se nada tivesse acontecido. Eu passei por muita coisa por sua causa, aguentei muita coisa, pessoas falando de você, pessoas pensando o que era o melhor pra mim. Aguentei meu próprio reflexo enlouquecendo por não saber o que fazer. Aguentei todos os dias ter que levantar e aguentar quando você não estava de bem com a vida e descontava em mim, tive que ser completamente contra a vontade de desistir de você. E eu nunca desisti, não como você fez.
–Melissa, você está...? –Albus me olhava incrédulo.
–Chorando? Estou. –as lágrimas desciam silenciosas e por nenhum momento eu desviei meus olhos dos deles, queria que ele visse a dor que transbordava pela minha alma pelos anos que a aguardei. –Vá embora, Albus. Não quero vê-lo.
–Melissa, você não pode fazer isso. –Albus tentou me tocar, porém levantei de forma brusca e me afastei.
–Vá embora! –gritei e no segundo seguinte eu sabia que ele não estava mais ali, tinha aparatado. Eu me larguei no chão e comecei a chorar, chorei por todas as noites que havia engolido o choro, por todos os dias que sai com caras que não queria estar, chorei porque só a minha alma não aguentava mais nada daquilo, chorei porque minha maior vontade era de abraçá-lo e dizer que estava tudo bem. Chorei porque não tinha mais forças para me aguentar.
(...)
Os dias seguintes eu havia trancado o caderno no fundo do meu baú, ignorava as cartas que ele me enviava que logo fizeram um montinho na minha janela que agora só vivia fechada. Ignorar as mensagens e ligações que ele me mandava, até que um dia ele simplesmente desistiu de me procurar e eu não sabia se me sentia aliviada ou não.
Eu havia me enterrado no trabalho mais uma vez porque era a única coisa que me trazia satisfação naquele momento. Eu estava confusa demais para poder agir de qualquer outro jeito e eu não queria mais chorar. Minha cozinha havia se tornado um amontoado de pacotinhos de chá gelado, sorvete, pó de café e cookies. Sem contar é claro pelos potes de comida japonesa que eu havia deixado por ali, eu simplesmente não queria sair dali.
Nesse momento estava jogada no sofá, o notbook no colo, uma caneca de chá gelado do lado e pipoca do outro e estava vendo 10 Coisas Que Odeio Em Você para poder me distrair com alguma coisa, eu até me sentia feliz e nostálgica vendo aquele filme que já o conhecia de trás pra frente.
–“Mas eu odeio, principalmente, não conseguir te odiar. Nem um pouco. Nem mesmo por um segundo. Nem mesmo só por te odiar.” –Kat recitava e eu acabava fazendo das palavras dela as minhas. Combinava perfeitamente o que havia se passado por tantos anos. Quando eu me despedi de Hogwarts com ele, eu juro que tentei evitá-lo, mas mesmo passando por treinamentos, pesquisas, estudos, eu simplesmente não conseguia ignorar o poder daquele caderno. Depois de meses tentando eu apenas aceitei suas presença e convivi com o sentimento que eu não sabia reprimir de nenhuma forma. E agora, depois da sua segunda maior declaração, eu havia o negado e ele havia desistido uma segunda vez. Para nós não tinha uma terceira chance.
O telefone vibrou do meu lado e eu fiquei o procurando com o tato para não tirar os olhos do filme que já estava no beijo final, e então levantei o pequeno aparelho diante dos meus olhos e vi que tinha uma mensagem da Sam me mandando abrir a porta. Eu revirei os olhos e joguei o notbook para o lado e me levantei com uma preguiça absurda.
Minha porta era de madeira e não havia olho mágico para ver quem estava do outro lado, mas como eu sabia que era Sam eu nem me preocupei com nada, nem com a minha roupa. Um short, uma regata, um casaco aberto e os cabelos amarrados com a varinha.
–Sam, você sabe que são duas horas da manhã. –resmunguei abrindo a porta e me deparei com Albus Severus Potter me olhando sério, os cabelos molhados assim como as roupas. Esse tempo de Londres. –Você roubou o telefone da Sam?
–Não, ela apenas me ajudou. Disse que já estava na hora de resolver isso. –assim que ele terminou a frase, eu apenas bati a porta na cara dele.
–Vá embora! –gritei e encostei a testa na porta.
–Eu não vou embora. Não até que tenhamos nos resolvido. Você está agindo como eu. –Albus me respondeu do outro lado da porta.
–Não quero ouvi-lo. –apesar do que eu falei, minha outra parte estava louca para abrir aquela porta.
–Melissa! –O Potter socou a porta, o que fez com que eu me assustasse. –Melissa... Mel. –sua voz se tornou mansa. Minhas lágrimas já escorriam pelo rosto livremente e meu coração doía só de bater, meu coração sentia falta do dele. –Melissa, eu sinto muito. Sinto muito pelos anos que me fiz de cego, sinto muito por não ter falado nada quando terminamos. Eu fui um idiota em todos os níveis, pensei que poderia ignorar o que eu estava sentindo, mas eu estava me enganando. Você me quebrou quando terminou comigo e eu não queria voltar, mas você me afetava e ainda afeta de todos os jeitos. –eu coloquei a mão na boca para evitar que algum som escapasse e deixei que ele continuasse a falar. –Como eu a amo, Melissa. Eu te amo, é essa a verdade. Nós sempre dissemos que sentimentos não podem unir pessoas, Mel, mas ações sempre podem. E é isso o que eu estou fazendo. Agindo para demonstrar meus sentimentos!
Foi então que eu abri a porta e me joguei em cima do Potter. Não me importei que suas roupas estivessem encharcada e que ele estivesse gelado, eu apenas o abracei e ele retribuiu, me abraçando com força como se me soltasse fosse fazer com que eu sumisse para sempre. Mas a questão é: não importava quantas vezes eu fosse embora, não importava quantas vezes eu tentasse me afastar, eu sempre voltava e sempre voltarei pra ele.
–Eu te amo, Albus, e espero que você nunca tenha duvidado disso. –eu olhei para aqueles olhos, meu céu, e vi que eles estavam chorando assim como os meus. Albus me puxou para um beijo, um beijo que havia demorado tanto tempo para acontecer e que quando aconteceu fiquei triste por ter que me afastar pela necessidade do ar. Ele encostou sua testa na minha e ficou me encarando enquanto eu limpava suas lágrimas.
O caso é que havia milhões de opções que diziam que iríamos dá errado, mas a gente daria um jeito. Sempre há um jeito.
(...)
“Ele sempre foi o tipo certo mais errado do mundo, e eu gostava disso. Gostava mesmo. Ele sempre foi quem eu deveria manter distância. Mas também foi o que me puxava pra perto. Ele sempre foi chuva, tempestade e até temporal. Mas eu sempre fui furacão. Ele sempre me dá vontade de desistir, e eu desisto até. Vou embora, bato pé e me recuso. Mas é que eu sempre preciso voltar. E ele é difícil. É todo meu oposto, todo meu contrário. Nós não fomos feitos pra ficarmos juntos. Mas é que não servimos pra ficar separados. Ele é x e eu sou y. Na conta não tem solução, na prática muito menos.“
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