“Roooooooooooooooooonk!”

Esse é o som que se escuta, dentro do meu quarto. Me esforço para ser o mais realista possível. Rachel apenas respira profundamente, inspirando e expirando.

“Rooooooooooooooooooonk!” – continuo me esforçando para parecer realista.

“Mimimimimimii” – Rachel sussurra. Se eu pudesse mexer meus braços sem estragar o disfarce, eu lhe daria um tapa. Alguém por um acaso faz “mimimi” enquanto dorme?

“Ok, podem parar com a palhaçada.” – Shelby diz. Abro meus olhos bem devagar.

Emma está prendendo o riso. Meu pai nos olha, também com cara de riso, e até Shelby parace estar rindo um pouco. Rachel continua com os olhos fechados, fazendo “mimimi”. Dou um tapa em seu ombro.

Shelby nos encara, esperando uma resposta. E então nós partimos pro habitual plano B.

“Por favooooooooooooooor.” – imploramos, com as mãos juntas. Faço minha melhor carinha de “garotinho pidão”.

“Ah Shelby, deixa. Rachel já está até usando o pijama do Jesse.” – meu pai diz.

“É mãe, deixa.” – Rachel pede, enquanto eu continuo com a cara de criancinha.

“Além do mais, eles demonstraram uma excelente memória ao utilizarem o mesmo truque de quando tinham 8 anos.” – meu pai diz, e finalmente explode em uma gargalhada. Shelby ri também, e Rachel esconde a cabeça embaixo do travesseiro.

Sim, eu sei, foi uma tentativa idiota. Mas foi a única em que eu consegui pensar tão rapidamente.

E pelo menos deu certo.

“Ok, não tenho argumentos!” – Shelby ergue os braços, e Rachel solta um gritinho de comemoração. Eu estou sorrindo como um idiota agora – “Rachel, banho, escovar os dentes e cama, ok?” – Shelby diz, e Rachel afirma com a cabeça. Estou afirmando também.

“Will, eu estou terrivelmente cansada. E tenho que levantar cedo amanhã e ir até a emissora e...” – Shelby sai, com Emma e meu pai. Rachel e eu sorrimos, e nos jogamos na cama outra vez.

Já se passaram uns 20 minutos quando meu pai abre a porta. Rachel está deitada com a cabeça e as mãos no meu peito, e eu estou mexendo em seu cabelo.

“Rachel,” – ele diz – “sua mala está na sala, então eu acho que você pode dormir com suas próprias roupas.” – Rachel acena com a cabeça, e meu pai trás a mala para o meu quarto. Quando ele sai, ela se deita novamente no meu peito, e boceja.

Isso é comum entre nós, esse tipo de intimidade. Nós somos absurdamente próximos, muito mais do que os melhores amigos costumam ser. Nunca tivemos a comum rivalidade entre meninos e meninas, nunca sentimos ciúmes um do outro. Para nós, e como se fossemos ambos assexuados. O gênero, idade, nada disso importa.

Rachel e eu temos gostos parecidos, mas isso não quer dizer que concordamos em tudo. No entanto, nós nunca, nem uma vez sequer brigamos. Temos o que nossos pais chamam de “relacionamento que todos os irmãos deveriam ter”. Embora tecnicamente nós não sejamos irmãos.

Não a vejo como uma irmã. Embora eu tenha um instinto protetor sobre ela, não acho que seja coisa de irmão. Mais como de um melhor amigo preocupado.

“Está com sono.” – eu afirmo, e ela dá uma risadinha – “Por que você não vai tomar banho enquanto eu arrumo as coisas pra gente dormir?” – eu proponho, e ela apenas confirma com a cabeça. Sai arrastando os pés em direção ao meu banheiro.

Ela vai demorar. Muito. Muito mesmo. Sei disso porque sei de quase tudo sobre ela. Rachel tem um estranho ritual enquanto toma banho, que pode levar horas, dependendo da sua vontade de relaxar. Saio do quarto e vou até o quarto dos meus pais, onde ele está deitado na cama, com o controle remoto na mão.

“Pai, onde está o colchão extra?” – pergunto, e ele aponta para cima do guarda-roupas. Com toda a minha genial destreza, eu subo na cadeira e quase caio. Pego o colchão e saio arrastando-o até meu quarto. Emma traz alguns lençóis e travesseiros extras, e me dá um beijo de boa-noite em seguida.

Arrumo minha cama, para Rachel, e arrumo uma cama no chão para mim, com o colchão extra. Nós costumávamos dormir juntos, mas então, 3 meses antes da mudança para o Canadá, ela com 11 e eu 13 anos, aconteceu.

Rachel estava deitada do mesmo jeito que sempre faz – abraçada em mim, com uma das pernas em cima de minha cintura. Eu estava em um dia de sono muito leve, e embora estivesse dormindo, ainda tinha alguma percepção do que acontecia à minha volta. Eu não me lembro muito bem do que eu estava sonhando. E então, eu senti algo acontecendo comigo.

Acordei rapidamente, em um salto, só para confirmar o que eu já sabia. Meu primeiro momento como homem, por assim dizer. E Rachel estava dormindo bem ao meu lado.

Não sei explicar muito bem o que senti. Vergonha. Dúvida. Apreensão. Meu pai já havia me explicado tudo sobre isso, e eu já tinha aprendido quase tudo na escola, biologicamente falando. No entanto, foi estranho quando aconteceu comigo. E muito mais estranho porque Rachel estava dormindo bem do meu lado.

Então, a única coisa que eu consegui fazer foi ficar deitado lá com cara de idiota, com medo de fazer algum barulho ao levantar, e acabar acordando-a. Eu não queria que a minha melhor amiga, que sempre dividiu a cama comigo, me visse daquela maneira.

E foi exatamente nessa hora que ela se virou. Rachel tem um sono agitado. Rola de um lado pro outro, chuta, fala enquanto dorme. Então, quando se virou, ela esticou o braço com toda a força.

E como tudo tende a dar terrivelmente errado na minha vida, já dá pra adivinhar onde a mão dela bateu.