All Over Again
56 FINAL
Notas iniciais
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Pulei o portão já que o mesmo estava trancado e caminhei até uma porta larga. Entrei com cautela observando o espaço escuro enquanto meu coração acelerava em desespero dentro do meu peito. Tive vontade de chamar por Giselle, mas se Alejandro estivesse ali seria como atrai-lo para a minha presença. Assim que andei fui surpreendido por um ranger de velhas tábuas de madeira conforme pisava. Pisei devagar tentando evitar ruidos maiores e peguei meu celular tentando iluminar o caminho apenas com sua tela até que — mesmo com todo cuidado — tropecei em um tapete levantado. Abaixei olhando para os lados vendo se estava sendo observado e puxei o tecido observando uma espécie de porão. Destranquei o trinco e puxei a pequena portinhola de madeira tendo acesso à uma longa escada. A desci temendo por minha própria vida, acreditando que de fato havia caído em uma emboscada como os policiais tanto recomendaram e cogitei até mesmo que minha esposa não estivesse ali. Caminhei por um longo corredor até chegar em uma porta envelhecida. Girei a maçaneta, mas ela não abriu.
– Merda! — Falei baixo e olhei em volta procurando por um molho de chaves. Nada. Encostei-me, então, na porta acreditando que tudo aquilo era em vão. Todo o esforço que fiz tinha valido para nada! Eu já estava pronto para voltar quando escutei um pequeno soluço vindo de dentro do cômodo. — Tem alguém aqui! — Afirmei para mim mesmo nervoso com a hipótese de estar na casa de algum criminoso procurado
– Jay? — Ouvi minha esposa sussurrar colada à porta — Jay!
– Meu amor, eu estou aqui! — Toquei a madeira desesperado tateando a superfície da porta em uma tentativa inútil de abrir
– VAI EMBORA!
– O que?
– Vai embora agora! — Ela repetiu
– Não vou até te tirar daqui.
– Vá embora e peça ajuda. — Eu podia escutá-la suplicar
– Tem que estar aqui em algum lugar, Giselle. — Respondi virando-me novamente para procurar. Mudei a configuração do celular dando mais brilho à tela para que a luz ficasse mais forte e a foquei nos cantos do corredor, no portal em volta da porta e também por trás de alguns canos expostos. A escuridão tornava mais complicado encontrar a chave, mas nitidamente pude ver algo prateado reluzir quando a claridade iluminou. Me abaixei e encontrei uma chave mínima atrás de um dos canos, a peguei e experimentei na fechadura abrindo facilmente, fácil até demais.
– JAAAAAAAAAAY! — Giselle gritou pulando em meus braços. Tive vontade de chorar ao vê-la tão frágil, indefesa, suja e abatida, mas a alegria em revê-la era maior e a mantive abraçada à mim por um longo tempo.
– Eu cheguei, eu cheguei e está tudo bem! — Beijei sua testa com carinho, mas minha esposa ainda me apertava com medo — Calma meu amor, tem policiais lá embaixo, está tudo bem.
– Onde ele está?
– Ele quem?
– Alejandro. Ele queria que me achasse, ele deixou o celular de propósito e provavelmente a chave também!
– Amor, ele não está na casa.
– Como sabe?
– Eu entrei aqui amor, eu estou aqui contigo. Vem, se levanta, temos que voltar pro nosso lar.
A porta se fechou decididamente atrás de nós causando um estrondo. Giselle levantou-se desesperadamente dando um passo para trás como se estivesse se esquivando, mas logo seu corpo tocou a parede.
– Não tão rápido amiguinhos do tio Ale! — Alejandro ironizou e caminhou decidido até nós dois. Posicionei-me na frente da minha esposa deixando meu braço direito esticado como uma barreira que a protegesse.
– Isso é entre nós dois, deixe-a em paz.
– Mimimi, deixe-a em paz. Isso tudo é principalmente sobre ela!
– Que seja, mas seu inimigo sou eu. Sou eu que te impeço de estar com ela, então se tem alguém com quem deva resolver algo, é comigo. — Giselle aproximou-se de mim segurando-me pelos ombros
– Amor, para. — A ouvi choramingar
– É, "amor", para. Pode ser que fique perigoso, franguinho.
– Solta a minha mulher e resolve comigo. Deixe que ela vá embora!
– E perder o melhor da festa? Nem pensar! Aliás, como toda boa vadia, tenho certeza que ela adoraria ver dois homens brigando por ela, não é mesmo Giselle?
– NÃO FALE ASSIM DA MINHA MULHER! — Ameacei já apertando meus dedos na palma da minha mão
– Ou o que? Por acaso não soube que eu comi sua mulherzinha esses dias todos? Ela não te contou como foi me ter mexendo dentro da boceta dela?
Um sorriso cafajeste e convencido brotou no canto da boca daquele filho da puta e por impulso voei contra seu pescoço segurando-o firmemente contra a parede.
– NUNCA MAIS FALA ASSIM DELA, TÁ ENTENDENDO? — Gritei contra seu rosto subindo um pouco mais minha mão para a base do seu queixo tornando impossivel a passagem de ar
– JAMES, SOLTA! — Giselle pedia enquanto meus dedos se apertavam mais ainda em sua garganta. Alejandro parecia imóvel, não reagia e seus braços ficaram parados em paralelo ao seu tronco. Seus olhos, ao contrário, me desafiavam a continuar como se para ele isso fosse apenas um aquecimento! — SOLTA, PELO AMOR DE DEUS, VOCÊ VAI MATÁ-LO! — Ela insistiu e finalmente soltei. Assim que baixei a guarda, no entanto, meu adversário foi mais rápido. Alejandro envolveu seu braço em mim virando-me de costas para ele em uma chave de braço perfeita enquanto sua mão esquerda atingia meu ombro e costelas. Ele apertava-me fortemente enquanto seus golpes ficavam cada vez mais intensos.
– E agora, hum? Onde está sua força? — Ele indagou.
Virei-me de frente para ele soltando-me e aproveitei da curta distância entre a parede para pressioná-lo mais uma vez contra a mesma deferindo-lhe socos no abdomen. Alejandro aproveitou-se para ajoelhar meu rosto, o que me fez desequilibrar para trás momentaneamente investindo logo em seguida com um soco contra minha face. Tentei atingi-lo mais algumas vezes ora no ombro e outras até mesmo nos braços que ele colocava na frente como escudo. Giselle nos olhava aterrorizada chorando e gritando para que parassemos. Dei-lhe um empurrão um pouco mais forte ganhando tempo para respirar por alguns segundos e investi contra ele mais uma vez atingindo seu nariz que de imediato sangrou. Alejandro moveu-se um pouco para o lado saindo de perto da parede onde estava encurralado e limpou o sangramento com as costas da mão.
– Você vai se arrepender disso! — Em fração de segundos sua perna atingiu meu tórax e seguidamente minhas costelas.
Contorci-me para o lado com a dor e fiquei alguns minutos agachado tentando recuperar-me. — O que foi? Cansou de jogar?
Mais um soco atingiu meu rosto e Alejandro empurrou-me novamente fazendo minhas costas atingirem o chão. Ele imobilizou-me com uma das mãos e com a outra voltou a atingir repetidamente o mesmo ponto que chutou minutos antes. A cada impacto que meus ossos sofriam, meus olhos se fechavam pela dor.
– ALEJANDRO, PARA! POR FAVOR, SOLTA O MEU MARIDO. EU VOU COM VOCÊ, EU VOU PARA ONDE QUISER, MAS SOLTE O JAMES! — Giselle colocou a mão na boca contendo um soluço, mas ainda assim seu sócio não parou a agressão.
– Ah é? Agora você se sacrifica pela vida do maridinho? Que romântico, mas dispenso.
Ele voltou a ficar de pé parando diante de mim. Cuspi uma pequena quantidade de sangue que estava em minha boca e inevitavelmente tentei levantar apesar da enorme dor que sentia. Frio, ele pisou contra meu peitoral arrastando seu sapato contra meu pescoço, mas diferente de mim que tomado por sentimentos bons o soltei, Alejandro certamente não faria o mesmo. Eu podia sentir seu peso contra minha garganta e tentava a todo custo não me sufocar pelo ar já tão escasso. Giselle correu até nós dois e dedicou alguns tapas contra as costas daquele homem que cruelmente me mantinha em seu poder.
– Você poderia ter escolhido todos os homens no mundo, Giselle, mas aparentemente decidiu optar por um homem morto.
Vi Alejandro olhar-me do alto. Seus olhos queimavam diante de mim ainda caído no chão e eu me sentia impune, fraco, impotente. Não posso dizer que sou um péssimo lutador, muito pelo contrário, sempre me sai bem nas brigas que entrei e força não era um problema. Alejandro, todavia, possuía técnicas desconhecidas para mim e que o colocaram em vantagem. Eu já podia senti-lo apertar mais seu pé e uma leve tontura invandiu-me, mas antes que pudesse perder a consciência fui solto. Giselle correu para abraçar-me enquanto eu passava as mãos pela garganta e respirava fundo. Eu não entendi o porque de ter sido poupado e minha mulher chorava em desespero junto a mim dando beijos por todo meu rosto. Alejandro levou as mãos para trás e do cós de sua calça sacou um revólver. Sorridente, ele mirou devagar para minha esposa e ficou durante alguns minutos contemplando nossas expressões de pavor. Seu sorriso aumentava gradativamente e meu coração sobressaltou mais do que qualquer outra dor que meu corpo. Ele brincou com o dedo no gatilho sentindo-se o senhor de nossas vidas, ora mirando em mim e ora nela. Aqueles provavelmente foram os minutos mais longos que vivi, não pelo medo da morte, mas pelo medo de perder o que mais amava.
– Uni, duni, tê! O escolhido foi... Você. — Ele mordeu o canto da boca e voltou o braço na direção de Giselle que estava ao meu lado. Ciente do que aconteceria, empurrei-a para trás fazendo do meu próprio corpo seu escudo e,consequentemente, sendo atravessado pelo disparo.
– NÃÃÃO! — Eu a escutei gritar em desespero
Alejandro parecia nervoso, suas mãos tremeram e eu pude ver todo seu corpo entrando em colapso.
– FILHO DA PUTA! — Alejandro gritou — NÃO ERA... NÃO ERA PARA SER VOCÊ! VOCÊ... VOCÊ DEVIA VIVER SEM ELA COMO EU VIVI! — Ele puxava seus próprios cabelos com força e ainda em choque soltou a arma assustado. Covarde, o observei dar alguns passos para trás até por fim cruzar a porta e alcançar o corredor.
– Vai atrás dele. — Pedi à Giselle
– VOCÊ É LOUCO? — Ela gritou comigo — Eu tenho que te tirar daqui.
– VAI ATRAS DELE! — Pedi novamente colocando a mão sobre a ferida fingindo que estava tudo bem. Ela assentiu e a vi ir até metade do corredor e voltar.
– Eu não vou te abandonar! — Ela choramingou caindo junto a mim. Seus olhos escorriam lágrimas espessas e quase palpáveis. — Preciso que se levante, James!
– Amor...
– ANDA JAMES, LEVANTA! — Giselle brigava comigo, mas eu sabia que era desespero. — POR QUE VOCÊ VEIO ATÉ AQUI? O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA?
– Eu vim por você e viria de novo. — Respondi
– Você não deveria... — Ela não conseguiu terminar e pode, por fim, olhar para o meu corpo — Meu Deus, você está ensanguentado! — Minha esposa apontou para o meu abdomen e fechei os olhos ignorando.
– Me ajude a levantar, temos que sair desse buraco.
Gi se levantou e estendeu a mão dando-me apoio. Ergui-me sentindo dor e ela com cuidado passou meu braço pelas suas costas sustentando todo meu peso.
– Amor, não precisa...
– Quieto. Eu vou cuidar de você assim como cuidou de mim!
Me arrastei junto a ela pelas paredes do corredor e subir as escadas que davam acesso à certamente foi o mais difícil. Tive vontade de desistir e a dor me acometia sem pudor. Assim que alcançamos a saída fomos surpreendidos pelo portão que pulei destrancado, mas eu já não tinha condições de seguir.
– Jay, Jay. — Ela me chamava
– Hm...
– Olha para mim! Nós precisamos chegar até lá embaixo.
A voz da minha esposa ficava longe e algumas vezes minha consciência era recobrada. Lembro de ter andado por longos minutos sendo carregado por ela, mas não exatamente para onde. Giselle certamente não sabia como voltar, ela esteve trancafiada por dias.
– Amor, para, para. — Pedi em um fio de voz
– Jay, temos que continuar.
– Para, por favor. — Implorei deixando escapar um alto gemido de dor. Ela me ajudou a caminhar até um beco onde pude me encostar sentado no chão. — Não vamos conseguir descer, não assim. Você está cansada, fraca e não tem como me carregar. E eu...
– Você o que?
– Nada. Olha, — interrompi para respirar fundo — tem toda uma equipe policial lá embaixo e eu sei que vão subir logo logo. Eles me prometeram que no máximo as seis da manhã estariam te tirando daqui. Logo estarão nos resgatando.
– Eu não vou permanecer por talvez mais uma hora nesse breu com você ferido.
– Não é nada demais, foi de raspão e eu te prometo.
– EU ESTOU VENDO QUE NÃO FOI JAMES!- Ela oscilava entre raiva e angústia
– Shhh.. Não grite. Apenas sente-se aqui do meu lado.
Giselle o fez e permanecemos assim por o que para mim pareceu ser mais de meia hora. Ela, como sempre, abraçando-me com toda a força que podia. Lágrimas sem fim saiam de seus olhos deixando seu rosto molhado na mesma proporção com a qual minha camisa ficava avermelhada conforme o tempo passava. Puxei o tecido observando o pequeno buraco por onde a bala tinha entrado. Por mais que tentasse manter-me forte, a respiração acelerada e um tanto desesperada denunciava as fraquezas expostas diante daquela situação. Minha esposa puxou-me mais forte contra si, o que me fez deixar escapar um baixo gemido de dor.
– Pressione com a mão, por favor, continua pressionando. Não deixe sangrar mais, amor. — Ela implorava e colocou sua mão sobre a minha apertando o ferimento — Eu sei que eles já vão chegar, sei que vão nos encontrar e vai ficar tudo bem. Você vai ver que é só um ferimento.
Olhei-a com ternura, ela sabia que não era, eu sabia que não era e essa vez era ela quem tentava mentir. Nossos olhos se encontraram dizendo muito mais do que quaisquer palavras poderiam um dia expressar e finalmente deixei uma lágrima cair.
– Minha pequena! — A chamei e com minha mão esquerda acariciei seu rosto. Giselle desviou o olhar. — Olha para mim, por favor. — Ela encarou-me e pude notar seu rosto vermelho pelo choro — Você sabe que eles não chegarão a tempo.
– Shhhh, shh.. — Ela calou meus lábios com os seus — Não fala isso. Pelo amor de Deus, não diz uma coisa dessas!
– Eu preciso dizer, Gi.
– Não, NÃO! — Minha esposa gritou agitando a cabeça repetidamente
– Olhe para mim! — Pedi e desviei o olhar para meu abdomen cada vez mais ensanguentado. Acredito que estava pálido e provavelmente não tão bem apessoado porque após alguns segundos mirando minha face pude vê-la desfalecer em um choro maior
– Eu... Eu simplesmente não posso ver isso. Isso não pode acontecer! Você... Você deveria envelhecer comigo, lembra? — Suas mãos tremeram junto à minha e finalmente tirei a mão do ferimento segurando as dela com força.
– Claro que lembro, meu amor. Você me daria bengaladas quando outras mulheres mexessem comigo e eu ia empurrar seu andador, não é isso? — Ela apenas assentiu com a cabeça — Venha cá.
– O que?
– Senta no meu colo.
– VOCÊ ESTÁ LOUCO? Está ferido, você... você está...
– É, estou e por isso mesmo quero que esteja junto de mim. — Pedi e ela obedeceu sentando-se de lado sobre minhas pernas esticadas no chão, envolvi meus braços em seu corpo aconchegando-a junto a mim. Minha esposa apoiou a cabeça em meu ombro e fechei os olhos sentindo-a ali. Pele contra pele, rostos próximos, sua respiração tão preciosa pela qual sacrificaria a minha vida. A ouvi soluçar e meu coração se partiu em mil pedaços. — Posso te contar um segredo? — Sussurrei
– Todos que quiser.
– Há uns nove anos atrás uma mulher com enormes cabelos negros apareceu na minha vida. Ela me fazia rir de um jeito tão especial, fazia com que eu me sentisse o centro do universo dela e eu queria que ela fizesse parte do meu também. Eu a pedi em casamento e ela aceitou ser minha de uma maneira tão terna e doce. — Giselle sorriu — Ela aceitou ser minha para sempre e chegou na minha casa do nada com uma mala enorme, desenhos caindo por todos os lados e um coração bondoso que acolheria o meu.
– É? — Ela disse docemente tentando me passar tranquilidade
– Sim, senhorita. Você entrou na minha vida com a cabeça cheia de sonhos prontos para serem divididos comigo e quando percebi, seus sonhos já eram os meus.
– Meu maior sonho agora é que você volte para casa. — A percebi desviar os olhos para o sangramento
– Oh, meu amor! — Peguei em seu queixo fazendo-a me encarar novamente, mas as dores voltaram mais fortes e apertei os olhos com força — Eu prometi ao Nicolas que a mãe dele atravessaria aquela porta novamente e é essa promessa que será cumprida.
– Isso tudo é culpa minha, não era para você estar aqui.
– Não diga isso. Nunca. Eu estou exatamente onde eu deveria estar e estou olhando uma vista incrível agora. — Brinquei com meus dedos pelo seu rosto contornando carinhosamente o formato, seu nariz arrebitado, suas maças das bochechas sobressaltadas, suas pálpebras com cílios longos, seus lábios carnudos. Memorizar Giselle e suas pequenas expressões era uma maneira de mantê-la eternizada dentro de mim apesar de enxergar tudo um pouco mais turvo no momento. Os olhos da minha esposa — que miravam os meus — ficaram lotados novamente e fiz questão de deixar seu rosto colado ao meu. Senti suas lágrimas me molharem e se misturarem com as minhas em perfeita sincronia de despedida.
– Você sempre será minha melhor visão — Sussurrei sentindo minha voz se tornar cada vez mais baixa
– Não fala desse jeito, Jay. Parece que está se despedindo! — Observei o sangue escorrer pela minha mão pingando no chão.
– Gi, por favor. Você sempre foi e sempre será uma guerreira.
– Mas eu não sei seguir sem você. Prometemos o "para sempre" e você não pode quebrar isso, James Walker, EU NÃO VOU DEIXAR! — ela deu um pequeno tapa contra meu peito caindo sobre o mesmo em seguida com mais alguns soluços
– Minha princesa, você sempre saberá seguir de uma maneira... — pausei buscando condições físicas para seguir falando — ... de uma maneira especial. Sei que vai seguir fazendo seus desenhos e que os jantares de fim de ano continuarão tão bons quanto sempre foram, sei que vai continuar sua vida e quero que a siga. Você precisa encontrar forças aqui — toquei seu coração com meu indicador — e dividi-la com o mundo, precisa fazer isso pelo nosso filho e cuidá-lo.
– Eu não quero dividir nada, eu não quero que isso aconteça. Por que você mesmo não cuida? Você não vai embora, Jay. Você não vai me deixar!
– E quem disse que eu vou deixar, hum? Eu estou aqui — mantive minha mão em seu coração e percebi sua roupa já suja pelo meu sangue — aqui — toquei sua têmpora indicando seus pensamentos — e aqui! — por fim encostei na nossa aliança.
O cansaço estava se tornando cada vez maior, apoiei a cabeça na parede respirando mais devagar e meus sentidos se perdiam cada vez mais. Em um fio de voz pedi que a mulher que escolhi para ser minha até a morte me abraçasse e ela fez isso com mais força.
– Eu fiquei muito feliz em te conhecer, sabia disso? — Disse baixinho antes de todo o meu corpo se relaxar em um sono que seria eterno.
Mas o que de fato é um amor verdadeiro? O que é preciso para que essa veracidade seja provada? Apenas algumas palavras? Um buquê de flores? Algumas pessoas abrem mão da própria vida como prova, outras são mais singelas e fazem declarações ou pedem em casamento. Quando optei por separar-me de Giselle meses atrás acreditei perfeitamente que aquela era a melhor opção. Eu estaria deixando-a livre, estaria dando a oportunidade de buscar uma felicidade que eu mesmo com toda arrogância não pude dar. Optei por deixá-la fazer suas próprias escolhas, reconstruir seu destino e até mesmo reescrever uma história da qual eu não faria parte, mas o amor curiosamente tem razões que eu nunca havia percebido até o devido momento. Nunca acreditei que sacrificaria minha vida por alguém, aliás, nunca pude convencer a mim mesmo que existia um sentimento tão poderoso que me faria mudar ou crescer. Mas eu mudei, eu cresci. Mudei com meus amigos, com meu filho, com minha sogra e, principalmente, com a dona do meu coração. Tornei-me um homem melhor do que jamais pude ser em todos esses anos! Perder Giselle era o estopim que eu precisava para voltar à vida e dar um pouco de alegria a cada um ao meu redor. E, sim, ironicamente a vida pode ter se extinguido de mim nesse momento, mas ela agora estará repartida em milhares de pedaços que aqueles que amo carregarão para sempre em seus corações. Ah, coração! Eu realmente quis dar a liberdade à Giselle um tempo atrás, mas o que eu não sabia na época era que libertando-a, eu libertei a mim mesmo.
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