All Over Again
9 Capítulo 9
Despertei com sons bem longe e imediatamente associei à limpeza da minha casa após a noite de ontem, eu definitivamente odiava acordar com barulho. O que de alguma forma era estranho é que não foi apenas o som distante que meus sentidos captaram e enviaram para meu cérebro, o tato também identificou um peso sobre mim e, puta merda, eu sabia que peso era aquele. Mantive os olhos fechados por medo, eu não sabia se ao abri-los James estaria acordado me encarando ou se ele lembraria do por quê de estar só de cueca ao meu lado. Milhares de situações passaram pela minha cabeça, até que por fim me dei por vencida e os abri devagar me deparando com um homem forte, preguiçosinho e sonolento dormindo enquanto me abraçava com força como uma criança que aperta seu urso de pelúcia durante um pesadelo. Senti apertar-me mais e fiquei desconfortável sem saber se escapava dali antes que ele percebesse ou se ficava eternamente em seus braços. Enquanto a dúvida me atormentava, me dei conta de que James foi lentamente abrindo seus olhos. Ele me olhou com um pouco de surpresa, mas rapidamente amenizou a expressão para um terno sorriso. Ficamos nos olhando por tempo o suficiente sem em momento algum dizer nada e nossos corpos ainda estavam colados devido ao abraço.
- Bom dia – Murmurei para quebrar o gelo
- Bom dia... – Ele exitou fixando os olhos em qualquer coisa que não fosse meu rosto
Desviei meu olhar para seu braço e meu ex de pronto puxou-o interrompendo nossas peles de continuarem se tocando. Sentei-me na cama e ele fez o mesmo, ainda com pouca conversa. Estaria envergonhado?
- Minha cabeça dói e... — James desviou o olhar para baixo – Estou de cueca?
- Não lembra?
- Curiosamente, lembro. Pelo menos até o momento em que me trouxe para a cama. O que deixa uma pergunta: você me vestiu?
- Vesti – Dei um sorriso tímido e continuei dessa vez com receio — Lembra de tudo?
Ele apenas concordou acenando com a cabeça e continuou:
- Eu te beijei. – Não, não foi uma pergunta.
- Beijou.
- Foi bom. – Ele mencionou em um tom ainda mais baixo e nostálgico Corei com a resposta dele.
- Você disse algumas coisas também...
- Desculpa, mas os diálogos não ficaram gravados com detalhes – ele riu sem graça enquanto coçava a nuca
- Foi melhor assim, você teria se arrependido mesmo de grande parte.
James segurou minha mão e aquela sensação de estar na cama com ele, tão próximos e com poucas peças fazia com que eu recordasse de um passado que adoraria relembrar. Ele começou a acariciá-la com o polegar e cheguei mais perto grudando nele, de imediato minha mão foi abandonada para que seu braço envolvesse meu corpo. Ficamos abraçados por longos minutos, juntos, encontrando conforto em nossos próprios corpos enquanto eu apoiava minha cabeça em seu ombro. James beijou o topo da minha cabeça e delicadamente percorri os dedos pelo seu braço, sorri com os carinhos que trocávamos.
- Se lembra de quando nos conhecemos? – Perguntei
Ele soltou uma gargalhada deliciosa.
- Claro que me lembro! Uma festa da Alice, ela era afim do Andrew e ele foi até lá levando a mim e os guys.
- Nós tomamos um porre aquela noite. Desde então, nunca mais consegui tomar muita vodka, você me fez beber vários copos sem poder misturar, tive que beber pura! – Bati de leve no braço dele, o que fez com que ele se fingisse de ofendido e fizesse bico só para me irritar. Tive vontade de beijá-lo, mas me controlei.
- Estávamos jogando, Gi. Não tenho culpa se você perdia todas as rodadas!
- Eu fui a bêbada mais insuportável. Lembra?
- Como esquecer? Você passou tão mal, fiquei a madrugada toda cuidando de você.
Eu ri envergonhada e James acariciava meu cabelo.
- Depois dormimos no carpete dela.
- Sim, mas só dormimos. Não te tarei aquela noite.
- Não, mas no dia seguinte não me deixou ir embora sem antes te dar um beijo.
- Era minha chance de garantir que não se esqueceria de mim – Ele se defendia
- E agora teve sua chance de se vingar fazendo com que eu cuidasse de você bêbado.
- Não fui tão insuportável – Ele deu de ombros sendo convencido
- Não. Você foi... – Procurei palavras que não tornassem os últimos acontecidos tão especiais, só que não encontrei. Dada por vencida, conclui: — Surpreendentemente meigo.
- É, foi estranho.
- O que?
- Tudo, sabe? Acabamos de nos separar. — James tirou o braço do meu redor dando um afastamento mínimo, mas que percebi de imediato.
- Você confundiu meus sentimentos noite passada. – Fui honesta enquanto soltava um suspiro tão profundo que poderia ter pesado entre nós
- Talvez os meus estejam tão confusos quanto os teus. – Ele por fim concluiu
Se sentíamos falta um do outro? Eu não podia responder pelos dois, mas é claro que eu sentia e era óbvio também que havia algo no meu ex marido maior do que uma simples lembrança. James me amava e eu podia ver isso em seus olhos, só que infelizmente eu também podia ver a maneira como ele ainda não se sentia pronto. Tirar o braço do meu redor, por horas tocar-me e em outras não, dizer que gostou do beijo, mas depois dizer que foi estranho... Haviam polaridades ali que me impediam de decidir o que aquele homem sentia e, mais do que isso, que influenciavam em como eu me sentia.
- Eu já não sei mais se sou capaz de abrir meu coração para daqui há três dias te ver ir embora de novo. – Conclui abaixando a cabeça
- Essa é minha rotina, Gi e você sempre soube que seria assim.
- Sim. Eu só não sabia que seria tão difícil te ver sair por aquela porta a cada final de semana, passar dias inteiros distante, isso me consumia. - Ainda consome.
- Sim, ainda consome. – Repeti exatamente as palavras dele sem acrescentar nada
- É por isso que... – Ele fez uma pausa e eu sabia o que viria a seguir – É por isso que devemos deixar as coisas como estão. Você sabe, o beijo, tudo que falei... Eu estava fora de mim, embriagado e isso não significa que tenhamos que recomeçar.
- Também concordo que seja a melhor solução.
- Verdade?
Respirei fundo. Parecia que eu estava voltando ao fatídico dia em que conversamos sobre de fato tornar a separação a melhor saída para a distância que existia entre nós.
- Você disse que sentia falta de tudo... – Deixei a frase suspensa no ar murmurando quase que inaldívelmente
- O que?
- Aquele dia. — James continuou calado esperando que eu concluisse e então o fiz. – No ensaio, você disse que sentia falta de tudo.
- E sinto, Gi. Mas dói muito mais te ouvir dizer que não consegue mais me ver partir e eu sei que vou precisar ir.
James segurou em meu queixo olhando-me mais uma vez de forma invasiva dentro dos olhos. Se antes ele não o fazia, agora essa atitude tornou-se um hábito que por vezes me constrangia e em outras me deixava boba. Abaixei meu olhar não conseguindo encará-lo, eu não sabia sequer como reagir.
— Esses dias longe tem sido difíceis, mas ao mesmo tempo não quero voltar a abandonar-te como tenho feito.
— Eu sei.
— Shhh... Não fala nada, por favor. É importante o que eu tenho a dizer.
Assenti com a cabeça dando permissão para que ele continuasse.
— Eu quero que saiba que acordar hoje e te ver me olhando com esse olhar tão doce, sentir seu corpo perto do meu, despertar te tendo junto a mim... Foi maravilhoso poder te sentir e me fez repensar. Eu não sei se suportaria acordar os próximos dias da minha vida sem ter seu sorriso como minha primeira visão. Aliás, eu sei, eu não suportaria, Gi.
— Repensou?
— Repensei, só que eu não quero errar dessa vez, não mais. Me deixe ir, fazer os shows da Espanha. Hoje já é domingo, partirei na quarta e no domingo seguinte estarei de volta. Serão poucos dias que sei que podem reacender o que sentimos, sei que a saudade vai aumentar e que isso vai ser útil para nos reaproximar.
Por fim, James soltou meu queixo, mas quando pensei que pararia de me tocar, ele segurou minhas mãos com urgência, apertando-as.
- Promete pra mim que vai pensar nos próximos dias em que estivermos distantes e que quando eu voltar, vamos ter uma resposta para dar um ao outro.
Como eu poderia dizer não a esse pedido? Como poderia vê-lo me pedir com tanta necessidade, querer mudar e dar uma nova chance ao nosso casamento e simplesmente não reagir a isso? É claro que eu pensaria e é mais óbvio ainda que os nove anos que passamos juntos pesariam na minha decisão. Temos um filho, uma história, um conto de fadas completamente fora do comum – quem diria que um cantor famoso se apaixonaria por mim? – e todos esses aspectos valeriam muito para mim. Apertei suas mãos transmitindo a ele a energia gostosa que estava dentro de mim. Sorri verdadeiramente e sussurrei:
— Claro que vou pensar a respeito, está bem?
James puxou-me para um abraço e beijou o topo da minha cabeça. Eu sorri, estávamos caminhando para um recomeço e por que não?
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