Notas iniciais
Minhas leitoras sumiram mesmo depois que o Nyah me sacaneou. Quem estiver lendo, por favor apareça. Está muito ruim seguir com a história sem ninguém aqui dando incentivo.

Acordei no dia seguinte cansada. Minha noite de sono havia sido terrível, desgastante e despertei diversas vezes na madrugada. Nicolas ainda estava dormindo e foi uma dificuldade enorme para despertá-lo, dar banho e arrumá-lo para o colégio. Ele, certamente, herdou a preguiça que eu e James possuímos. Aproveitei para em seguida também tomar meu banho, fazer minha higiene pessoal e vestir-me para o trabalho.

Assim que desci, meu filho já tinha terminado de comer e estava apenas me esperando. Desviei o olhar para o relógio. Ótimo, atrasada! Peguei um pequeno copinho de salada de frutas e fui andando até a porta enquanto comia – ou melhor, engolia – meu café da manhã. Ainda deu tempo de escutar Julieta me repreendendo, dizendo algo sobre “não ser cavalo para comer de pé”, mas logo entrei no elevador que dava acesso à garagem e escapei de uma bronca de quase-mãe.
— Para onde, senhora? – Roberto prontamente nos aguardava
— Obrigada, Roberto, mas não precisa me levar hoje. Deixarei o Nicolas na escola e em seguida vou para o trabalho. Pode buscá-lo 13h, por favor?

Ele assentiu e com pressa entrei no carro. Certifiquei-me de que o cinto estava devidamente colocado no meu filhote e em menos de uma hora já havia o deixado na escola e estacionava na porta do meu ateliê. Pasta, desenhos, mostra de tecidos, notebook? Ok, eu não havia esquecido nada.
— Bom dia, Katherine. – Cumprimentei minha assistente loira e esbelta que tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo repaginado e com poucos fios escapando.
— Bom dia, Giselle. Atrasada? – Ela sorriu ao mesmo tempo em que seus olhos castanhos fitaram o relógio de LED em seu pulso
— Quase nunca. – Brinquei enquanto entrava na minha sala, ela me seguiu – O que temos para hoje?
— Agora cedo você receberá representantes de algumas marcas que estão interessados em pôr nas lojas algumas de suas peças...
A interrompi.
— Que felicidade, não gosto das minhas exclusividades disponíveis por ai.
— MAS – Katherine deu ênfase – será uma boa oportunidade para que socialites de outros países tenham acesso a um vestido Giselle Walker com exclusividade sem ter que vir aos Estados Unidos. É seu trabalho sendo mais divulgado!
Apesar do argumento ter sido maravilhoso, não pude deixar de prender-me a outro detalhe da frase da minha assistente. Walker, claro, o bendito sobrenome. Respirei fundo e conclui: ainda não havíamos discutido sobre isso. O que me remete a outra situação: James entrou em contato com a advogada? Meu coração apertou protestando contra a ideia e decidi continuar a repassar minha agenda antes que pensamentos inoportunos me possuíssem.
— Giselle?
— Desculpe, me distrai. O que mais temos?
— Em seguida Kourtney Kardashian virá, ela quer uma espécie de traje especial para o primeiro aniversário da filha.
— Achei que iríamos até ela.
— Mudança de planos, ela quer vir.
Dei de ombros.
— Melhor mesmo. E a tarde?
- Pausa para o almoço e depois entrevista para uma blogueira, essas it girls.
Sentei em minha cadeira, liguei o notebook e organizei a bagunça que havia deixado no dia anterior.
- Será mais tranquilo – Por fim respondi
- Sim, será. Café?
- Não, obrigada. Vamos ao trabalho!

A reunião com os representantes foi desgastante. Alguns queriam mais do que peças, queriam coleções, parcerias e eu não estava disposta a tornar minhas roupas algo tão acessível porque ao mesmo tempo cairía o nível dos consumidores e desvalorizaria a marca. Por fim decidi que alguns modelos seriam fornecidos para Rússia, Colombia e China, regiões bem distintas justamente para não haver problemas. Eu estava exausta, nunca é fácil dizer não, ainda mais quando se trata de engravatados que pensam que podem conseguir o que quiserem. Com Kourtney foi mais tranquilo. Ela buscava por algo elegante, porém casual, em tons neutros e seda. Nada difícil quando se trata de alguém que já tem um senso apurado para moda. Em cerca de duas horas ou um pouco mais, conseguimos chegar a um desenho que a agradou e logo a encaminhei pra o departamento seguinte onde ela tiraria medidas e acertaria detalhes finais.

Quando finalmente pensei que descansaria e faria a pausa para almoçar, ouvi duas batidas lentas na porta. “Merda! Não me interrompa agora, Katherine, não no meu momento de sossego”, pensei já me entristecendo e então vi a porta abrir-se devagar deixando espaço para uma pequena rosa branca aparecer. Sorri olhando-a, do que se tratava? Se bem que eu já possuía uma suspeita.
— Posso entrar? – Era a voz de James e então aos poucos sua figura apareceu no espaço que antes a flor estava.
— Entre, por favor. – Falei já deixando transparecer um sorriso.
Meu ex marido entrou em minha sala com um ar descontraído, divertido, parecendo um adolescente chavecando a garota da escola.
— Tornou-se um romântico incurável, Walker?
— Jamais, querida ex esposa, e a senhora sabe muito bem disso! – Ele deu uma piscadinha debochando de si mesmo e em seguida desviou o foco para a rosa – Sabe, é branca, em sinal de paz.
— Está me pedindo uma tregua? – Finalmente levantei da cadeira e me aproximei dele
— Achei que já tinhamos dado uma ontem quando dormi ao seu lado.
— Apenas dormiu. – Repreendi
— Sei bem disso. Então, aceita? – Ele a inclinou suavemente em minha direção e peguei com cuidado sustentando-a entre o polegar e o indicador. Levei-a até o nariz respirando o aroma que exalava e logo subi meus olhos de encontro aos dele
— Muito obrigada. – Murmurei envergonhada
James deu um passo à frente e, encurralada, apenas escorei-me na beirada da mesa. Aos poucos acompanhei seus dedos tocarem os meus e delicadamente segurarem minhas mãos. Ainda não conseguia encará-lo.
— Vim te fazer um convite.
— Por que será que eu suspeitava que não era apenas uma tregua? – Tentei brincar para disfarçar finalmente erguendo a cabeça, mas focando na parede atrás de sua imagem. Por que ele ainda me desconcertava tanto?
— É uma trégua e vamos oficializá-la! – Ele parecia animado demais e isso fazia com que as borboletas escondidas em meu estômago dessem um passeio amigável que me causava a sensação de nervosismo
— O que está sugerindo, Walker?
Me desvencilhei dele e rapidamente dei a volta em minha mesa sentando-me em minha cadeira. James apoiou suas mãos sobre a mesa inclinando-se – acaso estava se oferecendo a mim? – e concluiu:
- Um almoço. – Ele desviou o olhar para o relógio – Está no seu horário, certo?
- Hm, na verdade, eu pretendia almoçar aqui. – Menti

Nesse momento ouvi mais batidas na porta e ordenei que a pessoa entrasse. Era Katherine.
— Giselle, já liguei para o restaurante reservando sua mesa habitual. Aviso que chegará em o quê? Meia hora?
James deu um olhar divertido para mim enquanto mantinha uma de suas sobrancelhas erguidas. Um sorriso brincalhão estava em seus lábios e eu sei que estava fazendo um esforço para não dar uma gargalhada alta.
— Ia almoçar aqui, é? – Ele ironizou – Desmarque o almoço dela, Katherine, minha ex esposa tem um compromisso comigo esssa tarde.
Os olhos da minha assistente se arregalaram em minha direção esperando que eu confirmasse ou negasse a ordem de James. Bufei irritada e conclui:
- Desmarque, Kath. – Balancei minha cabeça indo contra meus próprios pensamentos que se dividiam entre agarrá-lo e esganá-lo, a tendência nesse momento era mais para a primeira opção, admito.
- Cancele também os compromissos da tarde.
- O QUE? – Gritei
Ele veio até mim puxando-me com cuidado pelo braço para que eu me levantasse, em seguida abraçou-me por trás – o que me causou estranheza já que não era uma atitude comum do meu ex — congelei.
- Ah, qual é! Vamos aproveitar a tarde, almoçar sua comida preferida, andar na orla da praia e falar besteiras até nos cansar. – Ele citava mil e uma opções e aproveitou-se para depositar um beijo em meu rosto. Soltei-me de seus braços.
- James, eu não sou uma adolescente. E VOCÊ MUITO MENOS! Não fez isso nos últimos anos, por que o faria agora?
- Eu também não aparecia aqui de surpresa nos últimos anos, nem te trazia flores, ou lhe abraçava assim, ou te chamava pra almoçar, ou tirava o dia para bobagens ao seu lado e é justamente por todos esses motivos que estou querendo fazê-lo agora. – Ele proferiu enquanto olhava em meus olhos. Aqueles azuis profundos invadindo os castanhos dos meus. Merda. Por que esse homem tinha que ser tão inconstante? E, pior, por que isso me atingia e mexia com minhas estribeiras como se eu estivesse tomado uma corrente elétrica diretamente em minhas veias? Ah sim, claro, porque eu o amava.
- Está tentando ser galanteador, Walker?
- Pode parar de me chamar pelo sobrenome? Costumava ser Jay, amor e outros que não posso mencionar aqui.

De repente lembrei-me de Katherine ainda parada ali. Seu rosto estava tão corado e em tons de vermelho até então desconhecidos por qualquer especialista em cores. A coitada não sabia se cavava um buraco ou saía correndo, decidi eu mesma escolher a opção para facilitar nossas vidas.
- Kath, por favor, poderia se retirar?
Sem dizer uma única palavra, minha assistente saiu da sala mais contente do que nunca por ter sido dispensada daquela situação. Virei-me para James com os olhos em fúria e rapidamente dei-lhe um tapa forte no ombro.
- Para de me fazer passar vergonha! – Sussurrei
Meu ex marido, então, puxou-me pela cintura fazendo nossos corpos colarem. O ar desapareceu do cômodo assim como a distância entre nós. Por mais que eu tentasse respirar, o único aroma que me invadia era do Paco Rabanne que ele utilizava.
- Diz para mim como me chamava! – ele sussurrou em um tom ainda mais baixo apoiando os lábios próximos ao meu ouvido enquanto sua mão descia pelas minhas costas até o início da minha bunda. Seu toque era tão sedutor e quente que eu poderia desfalecer em seus braços naquele exato momento
- DE CHATO! – Sorri vitoriosamente e dei uma gargalhada, como sempre o bom humor era uma saída e foi assim que consegui sair do enlace que seus músculos faziam ao meu redor. James riu comigo já se dando conta da estratégia que utilizei. – Vamos! Se quer almoçar mesmo temos que correr, meu estômago está roncando!

Peguei minha bolsa rapidamente e com a outra mão puxei aquele ser escultural pelo braço. Saímos apressadamente dali sendo observados pelos olhos curiosos dos funcionários e não me pergunte como tive forças para escapar. Minhas pernas tremiam, meu coração estava acelerado e é claro que ele sentiu que minhas mãos estavam geladas em sua pele. Eu ia almoçar com meu ex marido que, aparentemente, estava em uma forte investida amorosa sobre mim e não tinha a menor noção de como sobreviveria a tensão (ou tesão?) que existia entre nós.