All Over Again
12 Capítulo 12
– Gi? Desculpa, achei que era o Ryan, é que ele... – Ela me interrompeu– Tudo bem, não há problema. – Disse um pouco sem jeito
– É... eu estou dirigindo. – Tentei desconversar
– Desculpe. Hm, nos falamos depois?
– Não, na verdade, não desligue.
A ouvi ficar em silêncio, então indaguei.
– É a respeito da entrevista?
Mais alguns segundos de silêncio.
– Sim, é. – Giselle finalmente respondeu e após um longo suspiro continuou: — Você me confunde.
– Gi, combinamos que tiraríamos esse tempo para pensar até que eu voltasse.
– Sim, James e de repente você declara em rede nacional que me ama.
– Eu amo...
– Eu sei.
Mais uma vez escutei um suspiro demorado.
GISELLE POV:
Não fui capaz de prosseguir com a minha frase e apesar de toda a confusão que sentia, era inevitável o sentimento de que havia traído a mim mesma. Ligar para meu ex marido nesse exato momento foi como jogar-me aos leões, afinal, eu mesma me coloquei em uma situação constrangedora da qual quero sair desesperadamente. Foi então que escutei um “mamãe” bem baixinho e virei-me imediatamente. Quando percebi que se tratava do nosso filho pude respirar mais aliviada. Minha conversa estaria sendo interrompida e eu poderia escapar de dizer coisas que eu mesma não sabia explicar ou estava pronta para dizer.
– James, espera, Nicolas está aqui.
– Certo. Hm, posso falar com ele? Sabe, é saudade. – Ele parecia sem jeito
– Espere.
Falei depressa e fui até meu filho que se encontrava na porta do meu quarto com os cabelinhos despenteados, um pijama de astronauta e carregando sob o braço um boneco macio do Ben 10 que mantinha apertado. Abaixei-me em sua direção ficando frente a frente e com carinho comecei a percorrer meus dedos pelos fios desorganizados.
– O que foi, meu anjinho?
– Pesadelo, mamãe. – Ele dizia choroso e abraçou-me apertado pulando em mim como se buscasse pelo meu colo. Envolvi meus braços em seu corpo confortando-o
– Sabe, acho que eu tenho um bom antídoto para pesadelos! – O incentivei e pude ver seus olhinhos brilharem de curiosidade
– Qual mamãe?
Meu filho questionava ansioso e apenas estendi o telefone para ele.
– PAPAI?!
Estendi o aparelho e, nossa, a alegria do meu filho ao pegá-lo foi a mesma de uma criança na manhã de natal. Suas mãozinhas se agarraram ao objeto com tanta necessidade e o calor em sua voz ao pronunciar o nome de James foi quase como uma melodia. A voz de Nicolas mudou imediatamente quando escutou a voz do pai do outro lado da linha e conforme conversavam fui vendo suas feições se tornarem mais ternas e tranquilas. Ambos ficaram falando por minutos e imaginei que meu ex marido – por ter escutado meu dialogo de agora a pouco – estava tentando consolá-lo e estimulá-lo de que o mau sonho não se passava de uma imaginação.
– Quero dormir contigo, papai. – Nicolas choramingava
Aquela cena me angustiou e em poucos instantes pude sentir meu coração se apertando. Nicolas sentia falta do pai e isso estava nítido na forma como conversavam, no seu jeitinho de se auto-abraçar enquanto escutava a voz que ouviu por tantos anos, na tristeza que encontrava volta e meia em seu olhar. Será que meu coração seria capaz de suportar isso mais uma vez? Por muitas vezes vi a mídia televisiva mostrar a situação de pais que sofriam ao ver seus filhos pedindo por alimento que não poderiam oferecer devido a pobreza, ao ter ali algo que não podia ser suprido por mais que tentassem. Hoje, no entanto, consigo compreender essa dor, vejo meu filho também em carência. Não que ele estivesse passando por uma necessidade alimentícia ou financeira, graças a Deus esse mal não nos atingia, mas ainda assim aqui se instalava uma ausência. Nicolas estava carente de afeto, de amor, de carinho e por mais que o amasse eu não poderia suprir. Ele também possuía uma necessidade. Necessidade esta que por mais empenho que eu possuísse jamais seriam resolvidas apenas por mim. Meu filho precisava de uma família, do pai ao seu lado contando histórias para que os pesadelos desaparecessem, de um almoço de domingo com todos juntos, de tudo que sempre vivemos e me corroía saber que de alguma maneira eu colaborei para que isso não acontecesse. Ele não mereceria vivenciar tudo isso, não era justo... Com ninguém. Sentei-me na cama e passei as mãos pelo rosto. Eu também possuía culpa pelo situação em que estávamos e também era tão injustiçada quanto. Por vezes era como se não tivesse controle sobre o que sentir, pois todos meus sentimentos pareciam controlados pelas ações de James – independente de serem diretamente realizadas por minha causa. E no momento essas emoções que se instauravam em meu corpo eram perdidas, vazias, confusas, temerosas. Eu adoraria – e só Deus sabe o quanto – pegar o telefone daquelas mãozinhas e dizer: “Venha para a nossa casa agora!”, mas como posso confiar em um homem que me abandona de repente julgando que posso ser feliz sozinha e semanas depois vai ao ar em um talk show e diz me amar? James estava ali em rede nacional dizendo ao mundo que ainda me amava e meus sentimentos me diziam: “Não caia nessa de novo”. Minha mente e meu emocional estavam em uma batalha cujo destino final eu desconhecia. O que, todavia, me parecia confuso era que há alguns dias atrás meu marido partiu alegando que precisava me deixar ser feliz com outro e, ao contrário do que prometeu, ele não deixava ninguém se aproximar. Mais do que isso, ele se mantinha perto... Perto demais. Essa indecisão e misto de sentimentos que ele mesmo vivia refletiam em mim e me deixavam indefesa, sem qualquer reação. Essas cicatrizes ainda eram frescas, recentes e eu ainda podia me lembrar claramente daquele dia em que tomamos a decisão mais difícil de nossas vidas — creio que talvez nunca vá se apagar da minha memória.
– INICIO DO FLASHBACK –
James chegou em casa depois de duas semanas pela América Latina e largou as malas sobre a cama sem dizer qualquer palavra. Permaneci sentada sobre a mesma esperando nem que seja um “boa tarde”, um sorriso ou pelo menos um comentário a respeito dos dias que ficamos longe. Nada.
– Precisamos conversar. – Ele jogou para fora o que parecia estar intalado
– Hm, tudo bem... É, quer sentar?
– Não, na verdade eu não quero, Gi.
James ficou parado em frente a mim, a respiração pesada, os ombros tensos, as mãos apertadas dentro do bolso.
– O que está havendo? Está me deixando nervosa.
– Desculpa, estou tentando encontrar coragem para dizer isso tudo.
Levantei ficando de frente para ele. Podia sentir meu sangue descer para as pernas preparando-me para a fuga e ao mesmo tempo meu rosto empalidecer. Foi então que me ocorreu a idéia:
– Me traiu? – Murmurei em um tom tão baixo que mal consegui me ouvir
– Não, claro que não. – James puxou-me pela mão até que eu ficasse próxima o bastante, em seguida abraçou-me com força – Claro que não. – Repetiu.
– Então? – Olhei para ele enquanto já tremia
Meu marido respirou fundo.
– Quero o divórcio, Giselle.
Se antes já podia sentir o sangue e as forças se esvairem de mim, agora era certeza de que já não possuía mais. Era como se estivesse perdendo todo e qualquer dos meus sentidos, segurei firme nos braços fortes do meu marido que ainda me envolviam e senti que ele os apertou ao meu redor.
– Gi? Gi? Está tudo bem? — Percebi a alteração em sua voz
– Estou bem, só ... Deixa eu respirar.
Não, eu não estava desmaiando, entretanto, de repente uma fraqueza tão grande me invadiu que a sensação era de que minha alma estava saindo do meu corpo. A dor era tão paupável que eu podia sentir meu coração se esvaindo em gotas de sangue e escorrendo por dentro de mim.
– Tá me pedindo para desistir da gente? – Finalmente consegui dizer
– Eu que estou desistindo. Já tem tempo que as coisas não estão correndo da maneira certa. Eu te amo muito, mas sei quando é hora de dar um ponto.
– Tudo bem. – Eu estava tão estática que não conseguia dizer nada além
– Você também está vendo que chegou a hora. – James tentava argumentar
– Me diz o por que. – Eu continuava falando em sussurros
– Porque eu nunca estou aqui, porque estou cansado de abrir a merda daquela porta e te ver como uma submissa me esperando, porque não consigo mais ver você limpar as lágrimas e chorar escondida quando estou prestes a viajar. EU NÃO CONSIGO MAIS AGUENTAR TUDO ISSO, Giselle. – Ele já se exaltava e pude sentir seus braços me soltarem
– A gente ainda pode tentar! – Me desesperei
– Está meio tarde para isso.
– Você não quer que eu me esforce?
– Não, eu cansei. Não quero mais te decepcionar, não vê?
– Mas eu preciso tentar.
– Para quê?
– Para estar com você.
– Não. – Ele deu um passo para trás
– Está me expulsando da sua vida... para sempre? – A ultima parte foi difícil de eu conseguir dizer
Ele se calou.
– RESPONDE! – Voei em cima do meu marido dando pequenos tapas fracos em seu peitoral enquanto sentia o gosto salgado das lágrimas me invadirem
– Vamos ser claros, chega de iludir, chega.
– Não. Você está vendo o quanto tenho tentado, o quanto tenho aguentado durante todos esses anos. Todos sabem que tenho sacrificado tudo para estar ao seu lado, que tenho me mantido forte.
– Eu não quero que tente mais, Gi.
– VOCÊ ESTÁ ME LARGANDO!
James finalmente deixou sua barreira se desmontar.
– CONTINUA –
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