Foi então que o leilão começou. Ela estava incrível subindo ao palco e negociando obras de arte, vestidos luxuosos, viagens caríssimas e até mesmo carro com apreciadores de todos os gostos. Essa era minha mulher, uma estilista elegante que não apenas fazia com graciosidade o que gostava, mas que também adorava liderar e usar seu dom para ajudar o próximo de alguma maneira escandalosa e divertida. Giselle era uma mistura de beleza, inteligência, carisma e sensualidade que me atraía o bastante. Eu definitivamente já não sabia se todos esses aspectos positivos eram devido à saudade, à embriaguez ou se de fato ela era tudo isso, o que me parecia confuso é porque não percebi isso nos últimos anos que estivemos juntos. Finalmente tomei coragem de levantar, aproveitei que todos estavam distraídos com as peças e entrei na casa. Parei próximo à porta e respirei fundo tentando manter o foco, desviei meu olhar até o pequeno móvel de bar no canto e surrupiei uma garrafa de vodka barata que nosso motorista Roberto nos deu como agrado no último natal. Em seguida, cambaleante subi as escadas até chegar ao jardim de inverno que dava uma vista perfeita para o lado de fora que hoje possuía tantos indivíduos da high society. Fechei a enorme porta de vidro que protegia o ambiente e de imediato senti o cheiro das plantas. Nossa, como eu odiava plantas! Trocando passos, fui até o banco de madeira que tornava o lugar mais acolhedor e me sentei. Não lembro exatamente quantos minutos permaneci ali de maneira introspectiva com a luz apagada, ora bebendo, ora resmungando. Apenas percebi que tinha sido tempo o bastante quando me dei conta que já não escutava mais a voz de Giselle ecoando pelos arredores e que a garrafa não podia mais me conceder o último gole, pois estava vazia. Foi então que escutei um “oi” fraco, baixo, calmo e seria perfeito se eu dissesse que eram meus pensamentos reproduzindo um delírio, mas não. Ela estava na porta, estava lá observando o estado em que me encontrava e naquele instante eu não conseguia me sentir um homem amadurecido, um pai, um adulto, sentia-me um menino assustado que precisava mais do que tudo do abraço dela.

Giselle POV:

James estava sentado no banco com a cabeça baixa e a garrafa vazia em mãos quando cheguei. Agradeci em meus pensamentos a Andrew por ter discretamente me avisado sobre o quanto meu ex marido havia bebido e finalmente entrei no jardim de inverno. Sentei ao seu lado sem dizer uma única palavra durante o caminho até ele, eu sabia o quanto estava envergonhado, mas sabia também que era de mim que precisava.
– Como sabia que eu estava aqui?
– Nosso jardim de inverno, esqueceu?
– EU ODEIO PLANTAS! – Ele disse um pouco alto e com a voz embolada mudando completamente o assunto sem perceber
– Eu sei, querido, eu também. – Segurei sua mão apertando-a devagar – Lembra do quanto te perturbei para que fizéssemos? Nunca sequer reguei uma dessas rosas aqui.
Ele sorriu. Meu James ainda estava ali.
– Não queria ter bebido assim.
– Pareceu querer quando virava as taças.
– Você viu?
– Não, mas três pássaros verdes me contaram tudinho.
– Baterei neles amanhã.
– Você não bate nem em uma mosca – Eu ri
– Bateria no Alejandro se pudesse.
Respirei fundo tentando manter a calma. Então era isso? Ciúmes?
– Não vai me responder, não? Está por acaso com pena do seu namorado?
– Namorado? James não seja criança, você sabe muito bem que eu não tenho nada com ninguém. Estamos separados a o que? Uma semana? – Ele acenou com a cabeça, concordando – Então para, poxa, isso não é tempo o suficiente para esquecer ninguém, entendeu?

Foquei meus olhos nos dele e me arrependi amargamente disso. Alguma parte do homem que esperei que voltasse por todos esses anos estava ali. James parecia uma criança e... Merda, ele estava chorando!
– Para, para com isso! – Disse atordoada.

Eu não sabia como reagir, o que fazer, o que dizer, eu só... AAAAH, eu só queria que isso parasse. Se havia um ponto fraco em mim era que eu nunca sabia reagir em frente a um choro e nesse caso se tornava mais difícil porque vê-lo tão indefeso mexia com minhas próprias defesas. James limpou o rosto irritado e pude perceber seus olhos ficarem avermelhados.
– VOCÊ NÃO TÁ VENDO QUE EU TO MORRENDO DE CIUMES? – Ele gritou
– James, para. — Falei dessa vez de forma mais amena e calma
– Eu não consigo. Você está linda essa noite, Gi, aliás, todas as noites. Por que te deixei ir embora? Quero dizer, quem saiu fui eu. – Seu discurso já não era mais tão coeso – Eu não quero que o beije, entendeu?
– Ele quem? James, eu não vou beijar ninguém.

Achei graça da maneira infantil com a qual ele se referiu, como se tivessemos treze anos de idade e um beijo fosse a maneira mais grave de trair. Ele se virou para mim e eu fiz o mesmo, ficamos sentados um virado para o outro e eu ainda segurava sua mão.
– Você é minha, ta ouvindo? – Sua mão que estava livre subiu levemente pelo meu braço até segurar meu rosto, concordei apenas. – Seus lábios... – Ele os tocou com ternura. – Seu corpo, seu gosto, seu cheiro... Você é minha, Giselle

Eu estava hipnotizada por sentir aquele toque quente derreter-me e, antes que me desse conta, ele me beijou. Era um beijo urgente, intrusivo, ofegante. Em poucos instantes eu já podia sentir sua língua invadir-me, mas ao mesmo tempo seu toque sobre meu corpo era carinhoso. James estava tão confuso quanto a seus sentimentos que sua linguagem corporal denunciava claramente tudo isso. Até que aos poucos o beijo foi se tornando lento, romântico, gentil e entendi que não se tratava do desespero ou da saudade. Estávamos de fato precisando um do outro, da troca de afeto, do amor que sentíamos. Fui parando devagar até afastar nossos lábios. Meu ex marido olhava-me com um lindo sorriso e, tenho que admitir, fui cativada.
– Venha, vou cuidar de você. – O puxei pela mão até nosso quarto, mais precisamente para a suíte – Tira a roupa.
– Não vou transar com você, vai achar que estou me aproveitando! – Ele protestou
– Você vai transar sim.. Com o chuveiro! – Eu ri – Anda, James, entre para o banho, cuidar de bêbado é horrível! — Brinquei e ele sorriu também.

Tirei devagar seu terno e passei as mãos por cima do tecido por aqueles braços definidos que costumavam me segurar com força, em seguida afrouxei a gravata retirando-a e desabotoei sua camisa até deixá-la cair. Ele permanecia imóvel olhando para mim e isso me fez corar.
– O resto você tira, né?
– Você costumava tirar com os dentes...
– Ha ha ha, engraçadinho, nem com álcool nas idéias você para.

James me deu um lindo sorriso e logo terminou de despir-se. Eu abri o chuveiro deixando o mais gelado possível e ele entrou sob o mesmo resmungando de frio. Fiquei apoiada sobre a pia olhando seu corpo, seus cabelos rebeldes pela chuveirada, sua pele molhada.. Droga, deveria ser proibido ver o homem que te excita quando provavelmente você não deveria sentir-se excitada já que ele partiu seu coração. Juro que se eu pudesse separaria desejo de amor, mas é claro que meu eu interior fez uma pegadinha gostosa fazendo com que eu amasse e desejasse a mesma pessoa. Minha libido já pulsava sob minha derme e decidi que seria a hora perfeita para sair dali.
– Gi — James me chamou assim que fiz menção de sair

Olhei para trás e percebi que ele ainda estava desequilibrado. Respirei fundo e abri o blindex que nos separava. Entrei devagar me certificando de não molhar a calda do vestido, o que não estava dando muito certo visto que alguns respingos gelados já me atingiam. Estiquei os braços para que ele se segurasse em mim e deixei que a água caísse sobre seu corpo por um tempo. Durante todos aqueles longos minutos, James não desviou o olhar do meu em momento algum. Questionei-me se em algum instante ele me tomaria pelos braços e transaria comigo ali mesmo e tenho que admitir que parte dos meus instintos incontroláveis pedia por isso, praticamente implorava. Mas não, não aqui e não agora.