Notas iniciais
Capítulo dedicado para a Vic Schmidt e a Mary, duas leitoras muito queridas que estão sempre marcando presença por aqui. As adoro muitíssimo meninas, obrigada por me acompanharem desde o início.

Meu abdômem ainda estava dolorido pelo soco que Ryan me deu e permaneci sentado no mesmo sofá no qual antes discutimos e fui agredido. Com o passar do tempo os hóspedes logo se dispersaram e o show que protagonizei já não chamou mais tanta atenção. Cerca de quarenta minutos depois decidi que me levantar e dar uma andada pelos arredores do hotel. Assim que sai e tomei o caminho para o jardim, fui surpreendido pela imagem de Anna que chorava sentada em um banco de madeira próximo a uma fonte. Corri até ela com preocupação e parei-me à sua frente.

– Anna! Anninha, o que houve?

Ela continuou chorando sem me responder e então sentei-me ao seu lado tentando de alguma forma consolá-la.

– Estão... Estão dizendo coisas horríveis de nós. – Anna tentou falar entre soluços

– Os rapazes te trataram mal?

– Não, não, mas eu escutei. Eu não quero te tirar da Giselle, Jayzinho.

– Não se preocupe, eu confio em você.

– Fiquei sabendo que o Ryan te bateu.

– Não foi nada demais.

– Onde foi? – Ela tocou meu rosto procurando por hematomas e instintivamente coloquei minha mão sobre a dela

– Não foi ai, está tudo bem.

– Onde foi? – Minha amiga perguntou mais uma vez, sussurrando, e quando percebi suas mãos estavam descendo pela minha camisa. – Foi aqui?

Ela tocou meu abdômem e apenas concordei. Antes que pudesse impedir, Anna ergueu cuidadosamente o tecido e deslizou seus dedos pela minha pele acariciando a área dolorida. Notei que nossos corpos estavam mais próximos, no entanto, não me senti incomodado.

– Eu sinto muito! – Ela disse enquanto continuava acariciando-me e aos poucos foi roçando a ponta do seu nariz no meu, trazendo seus lábios para mais perto.

Coloquei novamente minha mãos sobre a sua e pressionei-a mais contra meu corpo. Era gostoso, o toque de Anna sobre mim me acalmava. Sem pensar duas vezes, puxei-a pela nuca com desespero e a beijei. Não era como os beijos com Giselle que misturavam desejo e amor, esse era apenas... Um beijo. Sem grandes expectativas, sem carinho. Era apenas um momento de consolo para ambos. Assim que o beijo foi interrompido, me dei conta do que havia feito. Estávamos em um lugar público, em área aberta e um deslize daqueles era perigoso demais. Perigoso não apenas para minhas pretenções de um dia – quem sabe – reatar com Giselle, mas também perigoso para a nossa amizade que poderia ficar abalada.

– Desculpe, eu... Eu não devia ter feito isso. – Levantei de imediato

– Jay... – Ela insistiu

– Olha, Anna, me desculpe. Eu te vi frágil, nervosa e você se aproximou... – Eu já estava gaguejando – Simplesmente não posso fazer isso. Eu estou magoado com a minha esposa e você se mostrou uma excelente amiga cuidando de mim, por isso acabei me deixando levar, mas essa história está tomando um rumo inadequado. – Dei outro passo para trás

– Mas James...

– Não, por favor. Me perdoe se dei a entender que planejava algo mais, nunca foi isso. Quero dizer, você me balançou sim, só que meu coração tem dona. Uma dona idiota que me deixou ferido ao não vir comigo, mas que ainda assim só me faz pensar em querer correr de volta para os braços dela quando essa viagem terminar.

Anna abaixou a cabeça.

– De verdade, eu sinto muito.

Dei mais alguns passos para tras e voltei para o meu quarto em desespero. Que diabos estava acontecendo comigo? O que eu havia feito? Eu não sou esse tipo de homem e não quero ser. Estar com a Giselle por todo esse tempo fez que eu me tornasse alguém melhor e no entanto parece que estou disperdiçando todo esse tempo de evolução agindo como um perfeito babaca. Tranquei a porta como se fugisse de uma grande ameaça e mal podia imaginar que estava fugindo de mim mesmo e dos meus atos. Talvez o malígno monstro que nossos pais nos diziam quando eramos novos não esteja tão fora assim, hoje reconheço que está dentro de cada um de nós, dentro de mim. Ainda agitado, pude perceber todo meu corpo se acelerar como se estivesse prestes a correr uma maratona. Passei as mãos com fúria pelos fios dos meus cabelos e pude ver minha própria imagem no espelho.

– Quem é você? – Me questionei assim que vi minha fisionomia marcada pela preocupação

O pior era saber que em qualquer situação desesperadora e em que me sentia pequeno ou indefeso, eu tinha a quem correr. Quando pequeno tive aos meus pais que cuidavam dos “grandes males” que me afligiam – nesse caso, alguns tombos de bicicleta – , quando adolescente possuía apoio com meus amigos ou eventuais namoradas e quando adulto – ah, quando adulto! – todo meu porto seguro e estabilidade estava naquela mulher a quem acabei de enganar. Desde que me lembro, ela esteve ao meu lado dando uma palavra de apoio, incentivando-me e mostrando que não importa o erro, sempre posso torná-lo minusculo perante uma grande compensação. Hoje, todavia, cá estou nesse quarto vazio. Olho para um lado, para o outro e tudo o que tenho são sombras. Sombras da minha alma, do meu antigo eu e do homem que deveria ter sido. Eu não tinha para quem correr, não haviam braços abertos para mim ou abrigo. Não mais.