All Out War
8 The 23rd Psalm
Notas iniciais
— Não acredito que demorou tanto tempo para que eu percebesse isso... Depois de ser levado de um lado a outro, eu finalmente pude ver... O problema são as pessoas, sempre foram! Não acredito que estou dizendo isso, mas os mortos são um problema controlável...
Rick está sentado em uma cadeira de madeira, de frente a cama onde Carl repousa profundamente. O procedimento cirúrgico que Hall precisou realizar para salvar a vida do seu filho durara pelo menos cinco horas, e agora o médico encontra-se no quarto ao lado, ajudando Rosita na troca do curativo de Tom Price. Com o casaco negro manchado de sangue, o xerife leva a mão tomada por sangue seco até a testa, passando os dedos em meio às mechas de cabelo castanho. Grimes acabara de voltar das ruas, onde ele juntamente a sua linha de frente, conseguiram exterminar os errantes que ocupavam Alexandria, restando apenas um pequeno grupo do lado de fora dos muros. Definitivamente, aquele fora um longo dia.
— Vejo agora o erro que cometi querendo fugir... – Prossegue o xerife – Não ficando disposto a lutar... – Ele respira fundo – Isso custou a vida de Amanda e a de Cloyd também, e é uma coisa que terei que carregar pelo resto da vida... – Ele agora ergue o rosto – Só que agora vejo o que podemos fazer com a quantidade de gente que possuímos aqui... Podemos nos organizar, planejar. Se fizermos as coisas certas, poderemos sobreviver a qualquer coisa!
Rick passa a mão brevemente no rosto, que encontra-se sujo de suor e sangue.
— Esse lugar é nosso! – Sua voz parece decidida – Temos cercas, casas, podemos fazer daqui verdadeiramente o nosso lar! Percebo agora que com a quantidade de pessoas que temos aqui, podemos fazer algo mais planejado, deixar Alexandria mais segura! – Ele faz uma breve pausa – Podemos criar obstáculos, fazer um labirinto de carros ao redor do nosso muro para controlar o número de errantes nas redondezas... Vamos reconstruir os muros, fazê-los mais fortes dessa vez!
O xerife agora respira fundo, fecha os olhos e com o punho esquerdo cerrado, prossegue o seu devaneio.
— Essas pessoas precisam de treinamento e melhores equipamentos para que possamos lidar com qualquer coisa que aconteça... Vamos nos transformar em um exército! Isso tudo está claro para mim agora... Agora eu vejo as deficiências, as mesmas que nos levaram a nos esconder ao primeiro sinal dos errantes... Mas agora eu sei como eliminar isso! – Rick sorri brevemente, sua face enche-se de serenidade – Depois de tudo o que passamos, de tudo o que perdemos... Pela primeira vez em muito tempo acho que consegui alcançar algo que parecia impossível... Eu me sinto esperançoso!
O homem se ergue da cadeira e caminha na direção de Carl, agachando-se próximo a cabeceira, ficando de fronte ao rosto enfaixado do garoto.
— Quero te mostrar esse novo mundo, quero que ele seja uma realidade pra você... Por favor, Carl, viva para que eu possa te mostrar tudo isso... – Rick abaixa a cabeça, tristonho – Por favor...
*****
— Mas que caralho! Isso vai durar a vida toda...
Abraham acabara de jogar mais um cadáver de errante sobre a pilha de corpos que agora se encontram sendo incendiada em uma das ruas adjacentes da comunidade. Depois de conseguirem limpar as ruas pela manhã, restava agora a parte mais escusa, arrumar uma forma de se livrar das centenas de patifes sem vida, espalhados pela zona segura.
— Glenn! – Solicita o bigodudo – Vamos precisar de mais uma pilha para queimar esses mortos!
— Tem um descampado perto da casa do Rick, acho que podemos amontoar alguns por lá... – Responde Glenn, o rosto suado denota o trabalho que o rapaz tivera desde que retornara da missão de resgate – Espera... – Algo parece chamar a atenção do asiático – Que porra...
Em meio há alguns corpos ainda não recolhidos, uma mulher, com o rosto totalmente deformado, tenta erguer-se enquanto emite um agudo grunhido, esticando os braços carcomidos, com os tendões pendurados sobre a pele.
— Deus... Essa é... – Glenn leva o dorso da mão direita até a boca, revirando os olhos.
Abraham olha com pesar para a cena.
— Se livra dela antes que alguém veja... – Ordena de forma tristonha o ex-militar.
Após respirar fundo, Glenn retira uma faca da cintura, dirige-se até onde a mulher encontra-se, e sem dificuldades, crava sua arma na têmpora da criatura, acabando de vez com sua vida. Ainda dispneico, o rapaz observa o corpo de Amanda, totalmente dilacerado, mal lembrando a bela mulher que um dia fora.
O ar de Alexandria estava nitidamente pesado, o silêncio sepulcral só era interrompido pelo som do trepidar das enormes chamas que tratavam de queimar os errantes que há algumas horas atrás tentaram tomar posse da comunidade. Um pouco afastada de onde Glenn e Abraham se encontravam, uma rua a frente, Andrea arrastava de forma ininterrupta os pútridos seres humanos em decomposição, amontoando-os em mais uma pilha em chamas. Com os cabelos presos para trás e o rosto ainda tomado pela sujeira da batalha, a loira mulher tinha as feições fechadas, como se dentro dela houvesse um vulcão pronto para entrar em erupção.
Segurando pelos braços uma das criaturas, Andrea a puxava, deixando no asfalto um rastro de sangue e fluidos, enquanto partes do patife soltava-se de seu próprio corpo, como se tratasse apenas de um emaranhado de carnes. A dois passos dela, com uma toalha branca sobre o rosto, ainda tentando recuperar-se de tudo o que ocorrera, Spencer observava os movimentos da mulher sem interferir, como se medisse cada passo dado pela loira.
O nariz fora quebrado em duas partes, assim como uma luxação no zigomático e uma pequena fissura na articulação têmporo-mandibular foram impetradas. Ambos os ferimentos sumariamente identificados pelo doutor Hall, que resolvera tratar do caso de Monroe assim que o estado de Carl fosse estabilizado. Ele seguia ali, com o olhar baixo, encarando de forma tristonha a mulher que era tão bem quista por ele, como se estivesse tomando fôlego para dizer algo.
— Andrea... – A voz saiu baixa, quase uma súplica.
A mulher loira pareceu ignorar, sem destacar o olhar, ela seguiu com o árduo trabalho de carregar corpos, como se ainda estivesse sozinha.
— Precisamos conversar... – Prosseguiu ele – Algumas coisas precisam ser esclarecidas... Você não quer jantar comigo essa noite?
A frase proferida por Spencer pareceu servir de estopim para Andrea que até o momento seguia impávida. Largando o corpo que carregava sumariamente no chão, a mulher deu dois passos na direção do primogênito Monroe e com um grande ódio no olhar, vociferou.
— Mas que porra você está pensando? Jantar? – Ela bufa – Tobin, Morgan, Amanda e Cloyd morreram... Tom foi mordido e Carl levou um tiro... Um tiro! – Ela enfatiza a última frase – Depois do que aconteceu com Ben e Billy eu tenho o Carl como um filho agora... – Ela olha nos olhos de Spencer, que parece querer evitá-la – Rick está destruído... E eu o amo! Você ouviu? – Ela aproxima-se ainda mais, quase colando o rosto no dele – Eu amo o Rick! E depois de enterrarmos os nossos mortos, eu vou passar a noite com ele! Coloca isso na sua cabeça... Nunca existiu “nós dois” e nunca vai existir! – Ela faz uma breve pausa antes de concluir dando as costas – Babaca!
*****
— Vai anoitecer daqui a pouco... – Maggie está com o rosto colado à janela de vidro de sua casa, observando todo o trabalho executado do lado de fora.
Seus olhos parecem procurar por Glenn a todo instante, fixados no vai e vem de corpos sendo arrastados para lá e para cá, empilhados e incendiados. Depois de tudo o que ocorrera, ela sente-se terrivelmente feliz, ou pelo menos aliviada. Seu marido voltara da perigosíssima missão sem nenhum arranhão, e pesar de todas as mortes, é muito bom poder atestar que sua família segue em segurança, mesmo que esse pensamento seja totalmente anti comunitário.
— Obrigado por deixar a Sophia cuidar do Jacob lá em cima... – Prossegue Maggie, sem mudar de posição – Focar a atenção dela em outra coisa vai ser bom... Ela está arrasada pelo que aconteceu com o Carl... – Ela fecha os olhos brevemente, como se acabasse de lembrar-se de algo – E com a Amanda também, é claro... Deve estar sendo muito difícil pra você... – Ela balança a cabeça negativamente, como se novamente tentasse se corrigir – Digo... Está sendo difícil para todos nós...
Susie está sentada no sofá da sala de estar, escutando todas as palavras ditas por Greene. Nas mãos, um álbum de fotos segue sendo folheado, do início ao fim. As imagens, provenientes da família que um dia habitou aquela casa, foram encontradas dentro de um pequeno baú embaixo de uma das camas. Susie gostava de adentrar na intimidade das pessoas que já se foram, quando o seu grupo ainda estava na estrada, e viviam pulando de casa em casa, a jovem mãe fazia questão de saber o nome de quem ali residiu, ver os seus rostos, tentar imaginar o comportamento daquelas pessoas.
— Nossos mortos também serão incendiados? – Perguntou Susie de forma seca, ainda observando as fotografias.
Maggie virou-se imediatamente na direção da jovem, visivelmente surpresa com a pergunta. Os olhos arregalados encaravam-na quase que de forma fulminante.
— É claro que não... – Ela afasta-se brevemente da janela – Assim que a limpeza das ruas terminar, faremos uma cerimônia e os enterraremos como sempre fazemos... Estamos utilizando o velho depósito para abrigar aqueles que morreram nessa tragédia... Gabriel e o casal Johnson irão vesti-los, deixá-los da melhor maneira possível para que possamos nos despedir...
— Não deve ter sobrado muito da Amanda... – Susie segue com o olhar fixo nas fotografias – Eu ouvi os gritos dela... Ouvi os tiros, e ouvi a súplica do Rick... Sabe o que eu pensei Maggie? – Ela olha nos olhos de Greene – “Ainda bem que nada aconteceu comigo ou meu filho”... – Seus olhos começam a encher-se de lágrimas – Amanda me salvou diversas vezes quando estávamos lá fora e ainda assim eu não consegui sentir compaixão... Eu fiquei aliviada por estar viva, por poder continuar segurando o meu bebê nos braços... Foi só o que eu senti! – Ela fecha bruscamente o álbum – O que aconteceu comigo? O que eu me tornei?
Maggie Greene segura firmemente nas mãos de Susie, não havia muito o dizer naquele momento, e possivelmente nenhuma palavra proferida teria força o suficiente para acalmar o oceano em fúria que tomava conta da jovem mãe internamente. As duas então seguiram em silêncio, tentando superar o luto brutal que a manada de errantes trouxera naquele fatídico dia. A única certeza da qual poderiam compartilhar, era de que apenas o tempo poderia trabalhar de forma paliativa sobre as feridas abertas em todos os moradores de Alexandria.
*****
A porta do dormitório onde Carl encontrava-se internado fora aberta cuidadosamente. A passos lentos e silenciosos, Andrea caminhou pela extensão obscura do cômodo, até chegar de fronte a Rick, que ainda sentado em um pequeno banco em frente à cama, permanecia com as mãos entrelaçadas, servindo de apoio para o queixo e com os cotovelos recostados as coxas.
Haviam se passado algumas horas desde que o problema com os mortos fora resolvido, a poeira já parecia ter baixado. Após um breve banho, depois de uma cansativa jornada envolvendo fugas, lutas com errantes e carregamento de corpos para a queima, a mulher loira resolvera fazer uma visita a Rick e Carl, ver como os dois se encontravam, apesar de já imaginar qual seria a resposta. Com os cabelos ainda molhados e soltos, um casaco de mangas longas e um jeans surrado, Andrea ajoelhou-se ao lado do xerife, o olhar baixo, denotava o quanto ela também fora afetada por todos os acontecimentos aterradores.
— Conseguimos dar um jeito nos corpos... – Disse ela – As pilhas já pararam de queimar... Eu pedi a Gabriel e os Johnson para começarem a organizar o funeral... – Ela coloca uma das mexas para trás da orelha – Acho que é melhor para todo mundo terminarmos isso logo, vamos fazer os enterros ainda essa noite... Seria muito bom se você viesse... – Ela leva uma das mãos de encontro à de Rick – Passaria segurança para todos nós!
Grimes sente o contato frio de Andrea sobre os seus dedos, e rapidamente responde ao afago, apertando sua mão. O rosto do xerife ainda está sujo de sangue seco, o cabelo castanho e liso, também trás resquícios da batalha. Na camisa de Rick, exatamente no torso, uma enorme mancha de sangue, oriunda do ferimento a bala no rosto de seu filho, serve como um atestado para a toda a realidade que vivera ali.
O quarto está à meia luz, por conta de toda a aparelhagem que mantém Carl respirando, algumas medidas de austeridade em relação ao consumo energético precisaram ser adotadas. Todas as luzes da casa da finada doutora Denise Cloyd encontram-se apagadas, e o único som ali presente, além das vozes de seus ocupantes, são os bipes de todo o maquinário que mede os sinais vitais do garoto e levam ininterruptamente oxigênio até os seus pulmões.
— Você acha que ele vai acordar Andrea? Consegue imaginar isso acontecendo? – Os olhos de Grimes se enchem de tristeza – Eu olho para ele assim, e mesmo que me esforce... – Ele parece engolir as próprias palavras – Não consigo imaginar ele acordando, não mais... Lembro a todo instante de como o rosto dele ficou... – O xerife segura a mão de sua companheira com ainda mais força, como se buscasse um apoio – Você viu como o Vincent ficou após a cirurgia? Ele estava coberto de sangue, tomado... – Ele respira fundo – Tenho medo do meu garotinho não voltar mais pra mim...
Andrea aproxima-se ainda mais do xerife, tocando o seu rosto com a ponta dos dedos e o encarando profundamente, com extremo carinho no olhar.
— Não diga uma coisa dessas Rick... Nem sequer pense em algo assim... – Ela dirige os seus lábios até o de Grimes, agraciando-o com um beijo – Ele vai ficar bem, ele é tão forte quanto você... Quanto qualquer um de nós! Já superamos muitas coisas juntos, passamos por cima de tudo... Vamos passar por mais essa! Não existem milagres Rick... – Ela vira o rosto do homem carinhosamente, trazendo o seu olhar em direção ao dela – Mas o Carl vai sobreviver! Nós precisamos dele, muito... E precisamos de você também, principalmente agora que ficamos sem chão...
Rick enxuga as lágrimas que começavam a despontar em seus lacrimais. As palavras de incentivo parecem fazer efeito, de uma maneira esquisita, o xerife sente-se bem melhor ao saber que Andrea ainda cultiva esperanças quanto à recuperação de seu filho.
— Vamos pra casa, tome um banho... – Ela sorri brevemente – Se quiser eu até tomo com você... Vincent disse que não vai ao funeral, ficará aqui o tempo inteiro, cuidando do Carl e do Tom... – Ela segura mão esquerda de Rick e ergue-se brevemente, sinalizando para que ele a acompanhe – Todos esperam por suas palavras nessa cerimônia, como eu disse... Precisamos de você!
[...]
— “... Sim, felicidade e amor me acompanham todos os dias da minha vida. Minha morada é a casa de Javé, por dias e mais dias sem fim.”.
A planície mais alta e afastada da grande maioria das casas, próximo a um dos limites das placas de metal e tomada por uma verde grama que já começa a “queimar” graças a incidência da neve, lembrando muito os gramados da velha Green Bay, recebem a grande maioria dos moradores de Alexandria. As últimas camadas de terra acabaram de ser sobrepostas aos corpos nas covas, a última morada daqueles que sucumbiram defendendo a comunidade acabara de ser finalizada.
Dois tonéis queimavam como fogueiras, iluminando a cerimônia que já durava quase uma hora. Placas retangulares de madeira, talhadas pelo velho Kyle, especialmente para a ocasião, serviam como lápides, cravadas sobre a terra a frente do túmulo dos homenageados da noite. Padre Gabriel prostrava-se a frente de todos, vestido totalmente de negro e com uma velha bíblia em mãos, o homem tocava a triste cerimônia, ditando o tom de luto que tomava conta de todos. Na linha de frente, Rick e Andrea, Abraham e Rosita, Maggie, Glenn e Sophia, Aaron e Eric, Susie e Jacob, além de um desconsolado Heath, ouviam atentamente todas as palavra ditas pelo padre, como se cada sílaba fosse extremamente valiosa.
Heath chorava bastante, com os óculos de Cloyd ainda quebrados em mãos, o rapaz parecia tentar entender como tanta coisa acontecera em tão pouco tempo. Ele não conseguia mensurar o motivo de sua felicidade ter sido arrancada de seu peito bruscamente e quase que literalmente, sentia que uma parte sua havia ido embora junto a Denise. Ele nunca tivera a oportunidade de dizer isso, mas definitivamente agora ele tem a certeza do quanto amava aquela mulher, e do quanto queria poder ter passado mais tempo junto a ela.
Michonne também estava ali, porém, afastada de toda a aglomeração, assistia ao cerimonial à distância. Desde que vira Morgan ser dilacerado por um grupo de errantes, a samurai não derramara uma lágrima sequer. Todavia, toda a força demonstrada externamente não a impedira de se sentir aos cacos internamente. Sua vida, desde que o mundo virara de cabeça para baixo, parecia ser cíclica, com os mesmos acontecimentos se repetindo ad eterno.
— Lembremos do que Davi nos deixou no Salmo 27... – Gabriel ergue a voz, alcançando a todos – “...Quando os malfeitores avançam contra mim para devorar minha carne, são eles, meus adversários e inimigos, que tropeçam e caem. Que um exército acampe contra mim! Meu coração nada temerá!” – Ele faz uma breve pausa – Nunca uma passagem me pareceu tão clara – Um breve sorriso sarcástico surge em seu rosto, desaparecendo rapidamente – A morte, hoje ainda mais claro que do em tempos outrora, é apenas um início...
Susie tentava prestar atenção no que o padre proclamava, mas sua cabeça parecia estar distante demais para que ela pudesse se focar em algo. Olhando todo o tempo para o chão, recordava-se dos tempos que passaram na estrada, quando ela, Tom, Vincent, Leah, Amanda, Mike e Goodwin, pareciam um único organismo, uma família que não demonstrava indicativos de que pudessem se partir. Ela reparara que Vincent e Leah não estavam na cerimônia, Amanda havia morrido, Tom estava entre a vida e a morte e Mike e Goodwin desaparecidos para sempre. A jovem ainda tentava compreender o que havia acontecido com todos eles, que fator poderia ter modificado a relação que parecia tão forte.
— “Nunca mais haverá maldições. Nela estará sempre o trono de Deus e do Cordeiro, e seus servos lhe prestarão culto. Verão sua face, e seu nome estará sobre suas frontes. Não haverá mais noite: ninguém mais precisará da luz da lâmpada.”
Gabriel eleva os olhos que faziam a leitura do livro de Revelações, e após tomar um breve fôlego, retoma o discurso.
— Em Deus brilhara a esperança da feliz ressurreição... E aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola... – Todos os olhares estão voltados para o padre – Para os que creem no Senhor, a vida não é tirada, mas sim transformada... E após desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado nos céus, um corpo imperecível – O homem ergue as mãos para o alto – Enquanto aguardamos a realização de suas promessas, ó Deus, oremos...
O silêncio impera por alguns minutos. Todos sem exceção pareceram voltar para si mesmo naquele instante, provavelmente em um momento de reflexão pessoal, fosse ele religioso ou não. Após abrir os olhos, depois de uma profunda oração, Gabriel volta a se pronunciar, regendo os atos finais do funeral.
— Oremos por nossos irmãos que sucumbiram... – Seus olhos fitam as sepulturas – Que Deus possa receber as almas de Bruce, Tobin, Morgan, Denise e Amanda... – Sua voz parece embargar ao pronunciar o nome de todos que se foram em um espaço tão curto de tempo – Alguém gostaria de falar algo?
Susie dá um passo à frente.
— Eu convivi com Amanda por quase dois anos, talvez até mais... Não consigo mais acompanhar a passagem do tempo... – Ela fala de forma altiva, porém, não encara nenhuma das pessoas ali presentes, segue apenas admirando o rosto de sua cria – A conheci pouco depois do incidente... Formamos um grupo por acaso, mas acabamos nos ligando profundamente... É uma daquelas coisas que não tem explicação, simplesmente aconteceu... Quando nos atentamos, já estávamos protegendo uns aos outros como se não houvesse amanhã...
Jacob estica os pequenos e frágeis braços, tocando o rosto de sua mãe.
— Acho que ela nunca teve a real noção do quanto era importante para nós...
...
[Os desenhos na parte central daquela parede, que seguiam retilíneos por toda a extremidade, rodeando o cômodo, davam um ar lúdico ao lugar que carregava uma áurea pesada. Não devia ter mais do que sete metros quadrados e, preenchidos por seis pessoas prostradas circularmente em cadeiras de madeira vermelha, causaria um ataque de pânico a qualquer claustrofóbico que ali estivesse. Eram sete horas da noite, e como de costume, na mesa redonda recostada a parede ao fundo, já haviam sido colocadas as duas garrafas térmicas de chá, além de alguns cookies com uma estranha aparência.
Paralelo à mesa, um homem de meia idade, utilizando um paletó cinza por sobre uma camisa branca, pede a palavra assim que todos tomam as suas posições em definitivo.
— Bom, vamos dar início a mais uma reunião... – As pessoas acomodam-se confortavelmente em suas cadeiras, enquanto movem sua atenção inteiramente para o homem – Todos sabem o motivo de estarmos aqui... De alguma forma passamos do ponto, nos deixamos levar por algo que de alguma maneira acabou nos dominando, tomando conta de nossas vidas... – Ele gesticula com as mãos – É preciso dar um basta, tomar as rédeas da nossa existência, nos tornarmos senhores de nós mesmos... Isso não é fácil, nem hoje e nem amanhã, nunca será... Mas o “estar aqui”, já é um grande passo para que possamos mudar esse quadro...
Todos o observam fixamente, concordando inteiramente com suas palavras. O orador então prossegue.
— Alguém gostaria de começar?
— Eu... – Responde de imediato uma voz feminina.]
...
— Ela foi a primeira a acreditar em Alexandria... – Susie prossegue – Eu me pronunciei a favor primeiro, quando Aaron e Eric nos salvaram na floresta, mas... Eu só queria me agarrar a algo, voltar a ter esperança... Amanda não, ela viu o potencial desse lugar, acreditou que poderíamos ser felizes aqui... Que poderia dar certo enfim! – Ela suspira – Ela era muito confiante, e passava isso a todos nós...
...
[Em meio a tantos olhares perdidos, um pareceu se destacar. Uma mulher negra de olhos amendoados e lábios grossos ergue a mão direita nitidamente trêmula. Sem encarar nenhuma das pessoas que ali se encontravam, ela exibe um semi sorriso, destacando o quanto a situação parece ser desconfortável para ela. A bela mulher de cabelos curtíssimos, raspados em “máquina um”, prostra-se a falar assim que recebe um sinal positivo do mediador.
— Eu me chamo Amanda...
Um sonoro “Olá Amanda” ecoa pela sala em resposta.
— Fui convencida a participar dessa reunião, eu... – Ela parece hesitar, sua voz sai fraca, em um tom baixo – Neguei por muito tempo que esse tipo de terapia em grupo pudesse me ajudar... – Seu olhar segue focado para o chão, ela parece ter medo das íris alheias – Meu psicólogo me recomendou, então...
O mediador que encontra-se sentado a seu lado, estica uma das mãos na direção de Amanda, em sinal de conforto, dizendo em seguindo com o rotineiro lúcido e sereno tom de voz.
— Estamos entre amigos Amanda, não precisa mais ter medo...
— Esse é o grande problema... – Ela ergue o queixo – Eu vivo com medo... Eu tenho medo de viver... – Seus olhos parecem se perder, como se ela não mais estivesse ali – Eu não consigo interagir com as pessoas, e se não estiver com minha medicação em dia... Mal consigo sair de casa...]
...
— Amanda foi uma verdadeira amiga, e nos momentos que mais sentíamos medo... Ela sempre se mostrava presente nem que fosse para uma simples palavra de conforto... – Susie sorri brevemente com as recordações – Depois que eu fiquei grávida e perdi parte da mobilidade, e é claro, nos momentos de ausência do Goodwin por conta da caça, ela sempre estava disposta a me proteger... Ela parecia não ter medo de nada!
...
[— Não tenho mais amigos, nem o apoio da minha família... Tudo porque eu sou fraca! – Uma lágrima escorre por sua face – Uma fraqueza toma conta de mim a todo instante... Eu não consigo mais me reconhecer...]
...
— Todos os momentos em que a vi lutando com aqueles monstros... – A jovem mãe fecha os olhos em repúdio – Ela era uma mulher forte, de atitude... Não merecia partir dessa forma...
...
[— Eu tenho muito medo... Muito medo de morrer sozinha – Amanda leva a mão ao rosto, tentando enxugar as lágrimas – Medo de ser enterrada em uma vala sem ter ninguém para lamentar... Sem ter ninguém que possa se lembrar do que eu fui...]
...
— Todos aqui estão destruídos com a sua partida, minha amiga... – Susie olha agora diretamente para os túmulos.
...
[— Porra, mas o que eu fui? O que eu sou? – Sua voz embarga, o choro não pode mais ser contralado – Eu não faço diferença pra ninguém... Eu me sinto um estorvo para o mundo! – O mediador tenta intervir, mas Amanda não lhe dá brecha – Viver sentindo medo da própria sombra, não é viver!
— Mas eu quero sair dessa... – Amanda emite um breve sorriso, um aparente sinal de esperança – Quero um dia ser uma mulher da qual as pessoas possam se importar... Quero parar de sofrer...]
...
— Você foi muito importante para todos nós... E nunca – Ela enfatiza cerrando os dentes – Nunca a esqueceremos! – Susie respira fundo – Espero que esteja melhor do nós agora... O sofrimento acabou, enfim...
[...]
Após a emocionante despedida àqueles que se foram ante a invasão a Alexandria, Rick resolvera reunir um pequeno grupo na igreja de Gabriel, que ultimamente vinha servindo como uma assembleia, quase um senado romano tamanhas decisões eram ali homologadas. De pé, de fronte a todos que sentavam-se na primeira fileira, cabisbaixos e tristonhos, ainda tomados pelo grande baque, o xerife resolveu dar um sinal de que o seu espírito de liderança não fora abalado, apesar dos fatos ocorridos com o seu filho. Queria demonstrar que podiam haver saídas, e que um próspero recomeço os aguardava.
— Acredito que estávamos encarando isso da maneira errada... – Rick fecha os olhos brevemente, auto corrigindo-se – Eu estava encarando isso da maneira errada! Cheguei a pensar que o “cada um por si” poderia realmente ser uma opção válida... – Ele balança a cabeça negativamente – Agora percebo o quanto fui burro...
Andrea, Glenn, Abraham, Aaron, Michonne, Rosita, Eugine e Heath ouvem atentamente o discurso do mandatário, um tanto intrigados com o teor de suas frases.
— Sempre estive mais atento a quantidade de recursos que gastávamos, aos conflitos pessoais dentro da comunidade... Sempre olhei para as células desse grupo... – Ele gesticula com o coto – Agora vejo que precisamos olhar Alexandria como um todo. Nossa segurança depende de números agora! Temos um grande e real potencial dentro desses muros...
O xerife balança a cabeça positivamente, enquanto lança um olhar focado a cada um.
— Olha o que nós fizemos com a manada que invadiu Alexandria... Nós conseguimos, exterminamos todos os que entraram, impedimos que as demais placas caíssem... Tudo isso porque trabalhamos juntos! Temos muitas possibilidades a partir de agora...
Rick Grimes desce do altar onde se pronunciava, ficando no mesmo nível dos bancos onde os seus espectadores o prestigiavam com toda a atenção.
— Podemos usar carros para criar um labirinto de obstáculos nas principais vias de acesso a nossa comunidade, isso iria tornar o número de errantes em nossos muros controlável... – Ele contempla os ouvintes – Mais alguma ideia?
Eugine, um homem nitidamente acima do peso ideal, com aproximadamente quarenta anos e um cabelo negro em mullet, levanta a mão direita timidamente, como se criasse coragem para se pronunciar. Rick sinaliza positivamente com a mão esquerda, e o homem então se prostra a falar.
— Se colocarmos areia atrás dos muros, deixaremos eles mais firmes... Essa areia poderia ser conseguida ao cavarmos algumas trincheiras ao redor do nosso perímetro... Teríamos duas soluções para nossos problemas de segurança, já que os buracos podem servir de armadilha para derrubar os errantes que se aproximarem... – O homem faz uma breve pausa, mas logo em seguida retoma o pensamento – Se essa areia for alta o suficiente pode servir como base para um vigia... Dessa forma poderíamos olhar para a movimentação fora dos muros sem precisar de alguém efetivamente do lado de fora...
Rick sorri, nitidamente ele se animara com as ideias propostas por Eugine. O amedrontado homem poderia até ser covarde, mas sua inteligência superior a da grande maioria ali era um fator inegável.
— Muito bom Eugine! Alguém tem algo a acrescentar?
Mantendo os braços cruzados e a expressão sisuda, Abraham também resolve se manifestar.
— Definitivamente acho que todos na comunidade deveriam passar a andar armados, eu posso treinar aqueles que não souberem atirar!
— Perdemos pessoas importantes dentro da nossa engrenagem... – Aaron toma a palavra – Sei que elas são insubstituíveis, mas como você mesmo disse Rick... Nossa segurança se baseia em números agora... Eu e Eric sairemos em mais missões de recrutamento!
— Se pusermos mais pessoas na busca por suprimento... – A voz de Heath está rouca, ele ainda parece soluçar, apesar disso, resolve também dar sua contribuição – Podemos cobrir uma área maior, talvez passar a noite fora e chegar a lugares que nunca fomos...
— O doutor Hall disse que a variedade de medicamentos está se esgotando, e não há tantos lugares assim nas redondezas para que possamos suprir essa necessidade... – Rosita parece falar em nome de Vincent, que não fora solicitado a reunião – Ele me falou que se pudéssemos fazer uma espécie de estufa, para o cultivo de alguns certos tipos de plantas, ele poderia produzir alguns analgésicos, talvez até antibióticos... Isso seria quase como uma autossuficiência!
— Estamos destruídos depois de tantas perdas, se continuarmos assim, será muito difícil retomarmos nossas vidas... – Glenn assevera enquanto todos os olhares voltam-se a ele – Precisamos integrar a comunidade, transformá-la em uma família, só assim toda essa engrenagem poderá continuar girando... Podemos fazer alguns eventos, almoços comunitários, ou até mesmo festejos, sei lá... – Ele abaixa a cabeça – Sei que isso pode parecer bobagem agora, principalmente depois de tantas perdas... Mas acho importante que nós nos conheçamos... Só assim vamos verdadeiramente passar a proteger uns aos outros! Só assim vamos verdadeiramente poder trabalhar juntos!
Rick balança a cabeça positivamente, o saldo de sua reunião fora bem maior do que o esperado.
— Ótimas sugestões, todas, sem exceção... – A voz do xerife parece serena, acolhedora – Esse é o espírito, pensar a longo prazo... Tornar Alexandria uma comunidade a prova de falhas! Uma vez que conseguirmos estabelecer uma zona verdadeiramente segura, nada nos impedirá de expandirmos nosso lar, dando mais espaço aos moradores, uma área de plantio quem sabe... Até agora todos os nossos esforços foram voltados para que nos mantivéssemos vivos... Apenas sobrevivência pura e simples... – Ele balança a cabeça negativamente – Temos que deixar isso para trás, dar o próximo passo, reestabelecendo a civilização! É nisso que iremos trabalhar a partir de agora... – Grimes inspira profundamente – Estamos começando algo grande hoje... Confiem em mim e confiem em vocês mesmos... Isso vai funcionar!
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