All Out War
32 Sunshine and Frosty Swirl
Notas iniciais
Aperte! Aperte! Só mais uma vez, uma única vez... O fim é o mesmo para todo mundo! O fim é igual pra todo mundo!
As costas doloridas apoiavam-se em uma pilastra, no úmido e sombrio interior de uma lanchonete abandonada. O pequeno restaurante especializado nos mais diversos tipos de hambúrgueres, comandado por algum imigrante europeu, parecia ter sido vítima de um personalizado e particular furacão.
Mesas jogadas contra o caixa, invólucros e mais invólucros de carne apodrecidos, espalhados pelo solo, pães mofados e bolorentos, cacos de vidro, pichações nas paredes. O lugar tantas vezes saqueado servia agora apenas de refúgio para uma alma perdida. Alguém que ainda tentava encontrar o seu destino. Alguém que não acreditava ainda haver saída.
Aperte! Aperte!
O cheiro do lugar se assemelhava ao de um lixão. O odor de carne morta fazia arder os olhos de qualquer um que se atravesse a permanecer ali por mais de trinta segundos. Lufadas momentâneas, trazidas pelas inúmeras brechas nas janelas quebradas e reboco rachado, ampliava ainda mais a sensação de asco já vigente.
Como um capitão de navio que se preze, o dono do pequeno restaurante resolvera permanecer por ali, cuidando de seu estabelecimento mesmo após todo o caos se instaurar. Se bem que, com os miolos espalhados pela parede da cozinha, resultado de um tiro de .12 contra a própria cabeça, talvez ele não conseguisse vigiar muito bem o seu local de trabalho. O corpo estirado no chão, envolto por uma poça de sangue seco e enegrecido, fazia agora companhia ao invasor, que não parecera se incomodar com o grotesco cadáver.
Não haveria ‘lanches felizes’ naquela tarde. Nenhuma atendente com bordão decorado soltaria um alegre ‘seja bem vindo’ para o comprador de hambúrgueres. Não haveria promoções, nem encontros de amigos para conversas sem sentidos sobre algum assunto que no fim das contas de nada importaria. Não haveria movimento, tampouco compradores ou funcionários.
Não haveria mais nada.
Já acabou... Já acabou... Não há mais nada!
O cano da .38 entre os lábios, o gosto do metal sendo absorvido pelas papilas gustativas, a tensão impressa nas trêmulas mãos que tentavam tomar corajem para pressionar o gatilho. Para dar finalmente um ponto final a tudo.
A alma perdida que falhara em se encontrar, suplicava agora por um atalho. Uma forma definitiva de escapar de tudo aquilo que tanto lhe fizera mal. Seria rápido, como um mergulho em lago muito gelado, onde o pior de tudo é sempre a expectativa. Uma vez em contato com a água, todo o medo impresso anterior desaparece, roubado pela sensação única do profundo mergulho no desconhecido.
Trincando os dentes e mordendo com força o cano da arma, o visitante perdido, trêmulo pela perigosa mistura de medo, adrenalina e desespero, pressionara o gatilho com o indicador, disparando contra si mesmo, dando o derradeiro mergulho. O que deveria ter sido rápido parecera passar diante dos seus olhos por horas e horas a fio. Literalmente toda a sua vida, suas conquistas, os seus fracassos, os seus medos... Tudo viera à tona como lava jorrada da boca de um vulcão.
Clack.
Os olhos se abriram após a epifania. Ele ainda estava lá.
Não havia acabado.
O choro preso, que fora guardado pela alma perdida no interior da grossa casca que ele mesmo criara para se proteger, fora posto para fora em forma de lágrimas viscosas, escorrendo por seu rosto sujo e cansado. Os olhos contraídos, destacando ainda mais as rugas que se formaram após quase três anos de desolação, não eram capazes de conter as verdadeiras corredeiras que agora caiam de seus lacrimais.
Como uma criança pequena que não consegue o que quer, o visitante, sozinho na abandonada lanchonete armênia, passara a chorar em meio a soluços descompassados, tentando colocar para fora todas as suas frustrações, todos os seus medos e desilusões. Tudo que o fizera desistir da própria vida.
Abraçando o joelho e suplicando para si mesmo, a alma perdida levara a .38 em direção a testa, pressionando o gatilho mais uma, duas, três vezes. Novamente sem sucesso. Deitado agora com as costas no gelado solo engordurado do estabelecimento, o viajante encarara o teto, manchado em inúmeras infiltrações vindas do andar superior, colônias de fungos já formadas e estabelecidas, espalhadas por toda a extensão de gesso.
Encarando fixamente o cenário, como o Retrato Oval de Edgar Allan Poe, o visitante passara a gargalhar desajustadamente, não conseguindo conter a ironia da comparação com o conto que lhe viera à mente. Assim como o curioso viajante da referida obra, o visitante da lanchonete também invadira um local desconhecido em busca de abrigo. Apenas faltava saber se, assim como escrevera Poe, a alma perdida também teria uma revelação bombástica após admirar-se com a sua obra de arte.
Nem um pouco suntuoso, o teto enegrecido e apodrecido, que provavelmente desabaria em poucos dias, representava em traços modernos um fiel resumo do que o mundo se tornara após o marco zero da infestação de carniceiros. Morte, destruição, desolação. Talvez conseguisse ser ainda mais surpreendente do que o Retrato Oval, da virginal moça que encontrara um horrendo destino após apaixonar-se por um louco artista.
Restava agora o plot twist.
O estranho e imprevisível som de cascos sobre o asfalto retirara imediatamente o viajante do torpor em que estava imerso. Vindos de alguns metros próximo a lanchonete onde se encontrava, o barulho, que denotava a bizarra presença de pelo menos três animais galopantes fizera com que a alma perdida arregalasse os olhos imediatamente.
A fome e a sede, somado ao desespero deveriam estar causando alucinações em seu cérebro. Era mais provável que a falta de nutrientes em seu organismo estivesse gerando alguma pane em seu córtex. Ou talvez a bala que disparara contra a cabeça tivesse encontrado o seu destino e tudo aquilo não passasse do pós-morte.
Mal conseguindo distinguir a realidade da fantasia, a alma perdida erguera-se caminhando com dificuldade até a porta de saída do estabelecimento, que era escorada parcamente por uma viga danificada. Seus olhos entraram em contato com a fraca luz do sol daquela tarde, e mesmo já tendo alcançado o seu ponto mais alto, os raios solares quase o cegaram, tamanho fora o contraste entre os dois cenários.
O som dos cascos em marcha prosseguiu. O viajante, mais perdido do que nunca, cobrira os olhos com as palmas das mãos enquanto permitira que o corpo, totalmente enfraquecido, caísse de joelhos à beira do asfalto de uma grande e antiga avenida.
Acabou... Não há mais nada. Não há mais...
Não havia como não pensar em toda a sua trajetória. Não havia como não mensurar o que poderia ter sido feito de diferente, as pequenas curvas na estrada que, se tomadas, teriam modificado todo o destino do sujeito. Talvez aquele nem fosse o seu fim, vai saber. Ou talvez o final já tivesse sido alcançado e ele nem havia percebido.
Só acaba uma vez.
Três homens montados em cavalos pararam em frente ao viajante. Bradando lanças de ferro e trajando armaduras estapafúrdias, os pretensos soldados exclamaram frases que o viajante não coseguira captar. Era como se o mundo inteiro estivesse rodando em câmera lenta, em uma frequência tão baixa que mais se assemelhavam a fotografias.
Por mais que tentasse entender, o corpo da alma perdida não lhe permitia mais manter a concentração em um único ponto. Ele olhava para os cavalos, para os homens que meneavam os lábios efusivamente, e novamente para os cavalos, e ainda assim, nada parecia fazer sentido.
Sua mente então fora escurecendo aos poucos, o silêncio lhe tomando conta, a penumbra... Até tudo finalmente desaparecer em um oceano calmo, límpido e enegrecido.
...
A grande mesa estava posta apenas para um. Os demais homens, os mesmo cavaleiros que haviam capturado o viajante em frente a velha lanchonete armênia, já haviam sido dispensados por seu chefe, o excêntrico homem que agora encarava o forasteiro com aparente serenidade no olhar.
Os pratos limpos, muito bem servidos por duas grandes porções de purê de batata, acompanhados de um belo pedaço de costela de porco assado e um pint preenchido com algum vinho barato, estavam bastante convidativos. Se não fosse a comunal desconfiança que carregava consigo, provavelmente o forasteiro já teria avançado sobre o banquete, vide a fome que parecia fazer um nó em seus intestinos.
O lugar lembrava um refeitório, com diversas mesas longas paralelas, distribuídas em uma extensão de pelo menos vinte metros. O grande salão, que agora se encontrava deserto por desejo do líder, estava limpo e bem organizado. Era provável que mais de cinquenta pessoas residissem por ali.
Mas no momento apenas o viajante e seu anfitrião ocupavam o solitário salão. Ambos trocando olhares, esperando que hora ou outra alguém se manifestasse.
Com enormes dreads grisalhos amarrados para trás, o líder da desconhecida comunidade abrira um amplo sorriso, movimentando praticamente todos os músculos de sua face, enquanto que os seus olhos pequenos e levemente repuxados praticamente desapareciam em meio a seu rosto redondo de bochechas protuberantes, escondidas sob sua vasta barba branca.
Os colares de dente de crocodilo só não chamavam mais atenção do que a camisa azul estampada com estrelas douradas, que o homem utilizava por baixo de um longo casaco cinza, de algum tecido aparentemente delicado. Uma calça social escura, botas e um par de luvas de motoqueiro vinham como uma dose de normalidade no portentoso visual.
Na mão esquerda carregava um bastão comprido, ornado com a representação da cabeça de uma águia, assemelhando-se a um cajado, ou dada às circunstâncias, um cetro. Na mão direita segurava uma grossa corrente, que circundava sua mão, estendendo-se em parte ao punho e antebraço.
Preso a corrente estava a figura mais extraordinária com a qual o forasteiro já havia se deparado. Algo tão destoante para aquele mundo que só reforçava a ideia em sua cabeça de que nada daquilo era real. Não havia como ser real.
De coloração amarelo-tostado e com barras negras sobre todo o corpo, um tigre siberiano repousava ao lado do líder como se fosse um mero animal de estimação. Com a mandíbula sobre as patas cruzadas, os olhos grandes e semicerrados, o animal parecia atento a todo o perímetro, estando pronto para atacar ao menor sinal de perigo.
Até mesmo os simples movimentos respiratórios da criatura assustavam o visitante, que se sentira ainda mais intimidado após notar a presença do ‘cão de guarda’. Quando bocejava, exibindo os enormes dentes, que mais pareciam facas de caça afiadíssimas, o animal parecia dar ainda mais mostras de seu poder de destruição.
O silêncio perdurara por pouco mais de trinta segundos. Mantendo o mesmo sorriso que exibira ao encarar sua visita, o líder que carregava um tigre a seu lado manifestara-se assim que percebera uma brecha entre o temor e admiração denotada pelo forasteiro.
— Não tenha medo... – Sua voz grave acompanhava a serenidade de seu rosto – Shiva comeu bastante essa manhã, provavelmente cairá no sono logo, logo. Ela costuma dormir bastante, sabia? Mais do que o comum para um tigre da espécie dela.
O líder estendera a mão, fazendo um breve carinho no topo da cabeça no animal, que fechara os olhos, agradado pela carícia.
— Ela não gosta de violência, é um doce de animal.
O visitante fechara os olhos, iniciando lentamente uma falsa gargalhada. A garganta seca, arranhada pela falta de água, não lhe permitira emitir a risada em alta sonoridade, saindo quase como um agudo coaxar.
— Não é dela que eu tenho medo... – Os olhos fitando o prato de comida intocado não expressavam nenhuma emoção – A coisa mais perigosa nessa sala é você!
O líder arqueara uma sobrancelha, ainda mantendo o ar de boas vindas.
— Ora, mas por que eu seria uma ameaça?
A alma perdida meneara a cabeça em negativa.
— Você tá carregando a porra de um tigre preso a uma corrente... Você me encontrou no meio do nada e me serviu um prato de comida – O viajante tomara fôlego – E você ainda tá me olhando com o mesmo olhar de quando me trouxeram pra cá! Eu não sei quem é você, mas provavelmente devo estar falando com o maior psicopata do mundo! – O homem aprumara a coluna – E levando em consideração que há uma hora eu dei um tiro na cabeça... Eu não me surpreenderia nem um pouco se você fosse o próprio diabo!
O quase sexagenário mandatário soltara uma prolongada risada, identificando humor de alguma forma no que fora dito pelo visitante.
— Você acha que está morto? – O mandatário indagara com certa surpresa — Até que faz sentido. Todos nós morremos junto com o mundo... De forma figurada, é claro.
Fitando-o agora de forma mais séria, o excêntrico homem prosseguira.
— E não, eu não sou o diabo – Sua tranquilidade parecia inabalável – Eu sou só um homem com sua gatinha de estimação. E já que tocou nesse ponto, preciso lhe dizer uma coisa... Os meus homens te revistaram quando o trouxeram para cá, e diferente do que você deve imaginar, sua arma estava sim carregada.
Ele retirara de um bolso no casaco a .38 que o viajante levara consigo. Puxando o tambor, exibira uma única munição, ainda contida no interior do revólver.
— Se é mesmo verdade que você atirou contra a própria cabeça... Bom, me parece então que o destino quer te passar algum recado.
O coração do viajante disparara. Ele dera pelo menos quatro tiros, todos acusando que a arma não estava descarregada. Seria possível que aquela única munição tivesse passado em branco em sua roleta russa descontrolada?
Ainda não fazia sentido.
— Por que não come a refeição que pedi que preparassem enquanto conversamos de maneira civilizada?
O visitante seguira estático, sem saber como reagir a tudo o que ocorria diante dos seus olhos. Acostumado a ter em suas mãos o controle das situações, o homem mal sabia o que pensar. Olhara uma primeira vez para os talheres, mas seguira sem mover um músculo sequer.
— Não tenha medo – Voltara a dizer o líder – A comida está boa. Imagino que esteja com fome, pela sua cara, deve ter ficado um bom tempo lá fora – Ele espalmara uma das mãos, indicando a apetitosa refeição a sua frente – Coma o porco e prove o vinho, não vai se arrepender.
Preso por mais alguns segundos em um profundo transe, o viajante levara as mãos lentamente até os talheres, ainda perdido em meio a inúmeras teorias que circundavam sua mente, todas tentando encontrar respostas para perguntas ainda desconhecidas. Visivelmente desnorteado, ele levara um pouco de purê até a boca, ainda sem conseguir compreender os próprios movimentos.
Ainda não parecia ser real.
— Viu? – O sorriso do sujeito de dreads conseguira se ampliar ainda mais – Somos conhecidos por nossa comida de qualidade. Aposto que faz um bom tempo que não experimenta algo bom assim, não é?
A alma perdida não respondera. Agarrando com as mãos o suculento pedaço de porco, abocanhara a carne como se não houvesse amanhã, dando em seguida um profundo gole no vinho, que escorrera pelo canto de sua boca, acomodando-se na barba espessa. O sabor era indescritível, não havia como mensurar o alívio sentido pelo viajante perdido. Ele mal conseguia raciocinar, concentrando-se inteiramente em seu prato de comida.
— Agora que já conseguimos nos entender – O comandante do desconhecido grupo aprumara-se em seu assento – Creio que devemos preencher mais um quesito da boa educação. Por que não nos apresentamos?
O cajado sinalizara para o visitante que ele deveria iniciar a corte. Erguendo a cabeça e enxugando a boca com o dorso da mão, o perdido sujeito interrompera a comilança, votando sua inteira atenção para o seu questionador.
— Eu... – Os seus olhos piscaram algumas vezes. O sabor inebriante da comida parecia tê-lo despertado um pouco. Ainda assim, a tensão do momento se mostrava impressa em cada fio de cabelo – Me chamo Goodwin. James Goodwin.
O sorriso do líder mantivera-se impresso. Os olhos pequenos estavam agora totalmente focados em Goodwin.
— Prazer James – Um respeitoso movimento de cabeça fora executado – Eu sou Ezekiel. Seja bem-vindo ao meu Reino!
[...]
Ouch.
O terceiro soco no estômago parecera ainda mais potente que os anteriores. Com o corpo curvado, ainda tentando recuperar o fôlego perdido, Vincent não pudera esquivar-se do chute que lhe acertara a cabeça em cheio, ampliando o corte que já fazia sangue escorrer entre os seus cabelos.
— Eles não vão te dar uma folga!
Caído no chão, o médico tentara erguer-se, sendo impedido por um cruzado em cheio em seu temporal direito, fazendo com que ele retornasse ao solo arenoso.
— Vamos, levanta!
Juntando o sangue que se misturava a saliva no interior de sua boca, Hall cuspira para o lado, soltando uma bolota viscosa e avermelhada, fruto dos cortes internos em sua gengiva. Respirando fundo, o cirurgião apoiara a palma da mão direita na areia, arrastando o corpo para trás e fincando a perna de pau no solo, tentando encontrar uma melhor posição para elevar-se.
— Eles não estão nem aí se você é aleijado, velho, mulher ou criança!
Um chute lateral lhe tirara completamente a base, fazendo com que despencasse com violência, batendo com o rosto na areia. Dois chutes na costela se seguiram, ambos fazendo com que o médico urrasse em dor, perdendo ainda mais o oxigênio que juntara com dificuldade em seus pulmões.
Virando o corpo e retirando um montante de areia dos olhos, Hall passara a respirar ininterruptamente, tentando enxergar alguma coisa a sua frente. O olho esquerdo inchado pelos socos e recoberto pelo sangue que escorria de um ferimento em seu supercílio encontrava-se praticamente cerrado. O direito ainda conseguia detectar alguns borrões, mas nada com muita definição.
Servira pelo menos para enxergar a mão de Hanso sendo estendida em sua direção, ajudando-o em seguida a erguer-se e se manter de pé. Totalmente zonzo, Vincent tentara posicionar os punhos em guarda, partindo para cima do lenhador com toda a força que conseguira impetrar.
Facilmente subjugado, Hall recebera um direto de encontro no nariz, seguido de mais um golpe no abdome, o que novamente fizera com que dobrasse o corpo. O combo fora finalizado com uma cotovelada no topo da cabeça, o que acabara gerando um corte inédito, e assim como os outros, manchando os seus cabelos com o sangue proveniente.
— Com o tempo você aprende garoto.
Fraco. Você é fraco! Ainda não aprendeu?
Vincent fechara os olhos, forçando-os contra as pálpebras. Assim era mais fácil fazer com que as vozes desaparecessem. Perturbado por um passado que ainda não conseguia esquecer, Hall comumente se via perseguido por vozes em sua cabeça, todas bastante familiares, geralmente lembrando-o de suas fraquezas, dos medos e temores.
— Acho que por hoje chega! – Exclamara Hanso, fatigado, mas sem nenhum arranhão – Vou te dar um dia e meio pra se recuperar, depois prosseguimos.
Você não vai conseguir! Nunca cumpre com o que promete!
Forçando ainda mais o globo ocular, imerso na escuridão que ele próprio criara. Hall abrira os olhos como um mergulhador emergindo em desespero.
— Eu to legal... – Sua perna bambeava enquanto ele levantava mais uma vez. Os músculos estavam puídos, trêmulos e enfraquecidos – Ainda temos vinte minutos... Eu aguento!
A imagem do médico com a face inchada, recoberto pelo próprio sangue era no mínimo de dar pena. Hall mal conseguia manter os braços em riste e os punhos fechados. O corpo não parecia corresponder com a decisão demonstrada em suas palavras.
Desiste Vincent! Desiste!
O cirurgião balançara a cabeça, evitando prestar atenção no que as vozes lhe diziam.
— Você tem certeza? – Hanso parecia surpreso.
Ele te deu a brecha... Desiste!
— Sim, eu tenho.
O lenhador então ‘lavara as mãos’ sinalizando que Hall poderia atacá-lo. O médico lançou-se em sua direção, armando um cruzado para que lhe atingisse o temporal. Obviamente o golpe saíra totalmente telegrafado, o que tornara ainda mais fácil a esquiva de Hanso. Após desviar do golpe, o corpulento austríaco desferira um soco na garganta de Vincent, seguido por mais um em sua boca, que lhe trincara um dos caninos.
O gosto de sangue se espalhara por sua boca. Até mesmo respirar se mostrava extremamente doloroso naquele momento. Por mais que quisesse provar para si mesmo, ou para as vozes que ainda insistiam em se manifestar, Vincent sabia que ainda não estava pronto.
— Ok, garoto. Já estou cansado de te espancar! Já que está tão animado, nos veremos de novo amanhã a noite. – O lenhador começara a caminhar, afastando-se do médico – Vê se consegue sobreviver até lá. Eu prometi a Eloise que você estaria pronto em uma semana, e nem que eu tenha que quebrar a sua cara vinte e quatro horas pelos próximos sete dias, eu irei cumprir!
Hanso olhara uma última vez para trás, antes de prosseguir em definitivo.
— Descansa um pouco Desmond. Limpa o sangue da cara e pede para a Patricia dar uns pontos no seu olho. Quero que esteja pelo menos com metade da visão para o treinamento de amanhã – O homem o olhara de cima a baixo, parecia admirado com sua persistência, afinal, não era nada fácil aguentar todas aquelas pancadas subsequentes – É... Acho que podemos dar um jeito em você.
Permanecendo de pé, o cirurgião assuara uma das narinas, eliminando uma boa quantidade de sangue que impedia que o ar circulasse com liberdade por suas vias aéreas. Apesar de aparentemente ter sobrevivido sem nenhuma fratura ao tortuoso treinamento, o que lhe causaria danos muitíssimos maiores, Vincent sentia sua cabeça toda arder. Uma dor aguda parecia lhe comprimir o crânio, isso somado ao latejante ardume em seus lábios, que a essa altura já deveriam estar com o dobro do tamanho normal, e em seu nariz, tomado por microcortes internos.
A única coisa em que você é realmente bom é em abandonar quem te ama! Covarde!
Retirando a camiseta empapada de suor e sangue, o médico utilizara a vestimenta para enxugar o rosto, se valendo do máximo de delicadeza que suas mãos trêmulas lhe permitiam. Com todo o cuidado para não ampliar ainda mais os ferimentos, Hall enxugara a face, deixando-a um pouco mais apresentável ao final da limpeza.
Pega uma das armas do Flood e acaba com isso de uma vez!
— CALA A BOCA, PORRA!
Vincent gritara o mais alto que pudera, olhando para os céus como se realmente pudesse ser ouvido. As vozes que se mostravam cada dia mais presentes, voltaram com tudo após um breve período de bonança, logo após sua chegada ao Garden.
Ora Julia, ora Annette, ora Leah. As três mulheres da sua vida, as mesmas que abandonara em diferentes períodos de seu trajeto, atormentavam-no, lembrando-o a todo instante de seus erros, e tentando convencê-lo de que ele ainda era o mesmo homem fraco e covarde de outrora. E que assim sempre seria, até o fim de sua vida.
O médico sabia que provavelmente estava louco, possivelmente desenvolvendo algum transtorno de personalidade ou até mesmo um nível primário de esquizofrenia. De fato isso se encaixaria perfeitamente com os sintomas descritos, mas independente do que a medicina pudesse aferir a respeito, Hall só queria que aquilo fosse embora de uma vez por todas.
Nunca fora tão difícil lidar consigo mesmo.
Tentando acalmar-se, Hall olhara para cima, ainda enxergando embaçado, mas agora com um pouco mais de definição, já que o sangue que lhe cobria os olhos já havia sido limpo. O céu carmesim daquele fim de tarde, começando a ser iluminado pelas primeiras estrelas que brotavam como diamantes longínquos, acalmaram um pouco sua alma atribulada, como se um enorme peso tivesse sido amenizado de seus ombros.
Ele olhara para o lado direito, e em seguida para o esquerdo, como se buscasse por alguma coisa. Dera um espaço de dez segundos contados em silêncio, para só depois começar a caminhar.
A prótese de madeira acabara dando sustentação para a perna boa que, de tão fraca, ainda bambeava quando movimentada para frente e para trás. Mantendo os olhos atentos a todos os lados, Hall parecia tenso, incomodado com o silêncio em sua cabeça ao mesmo tempo em que sentia-se aliviado por não mais ouvir nada.
Suas companheiras. Sua maldição.
Você nasceu para fracassar, Vincent. Por que você ainda insiste nisso? Lembra que prometeu cuidar de mim? Lembra que iríamos nos casar?
O médico levou uma das mãos ao ouvido, ainda tentando ignorar. Ele acelerara o passo, manqueteando ainda mais.
Você me abandonou por não suportar a pressão. Você me deixou definhando por não saber o que fazer. No fim das contas, esse é você!
Hall cerrara os dentes, forçando a mandíbula. Qualquer dor física era melhor de que aquilo.
— Você não é real... Você não é real...
A voz de Annette ainda ecoava em sua cabeça. Cada frase dita era reverberada milhões de vezes em seu subconsciente. Não importava o quanto ele repetisse o mantra “não é real”, sua loucura não costumava deixá-lo tão facilmente.
Já parou pra pensar o quanto tudo poderia ter sido diferente? Bastava só você ter deixado sua covardia de lado. Mas pelo que vejo, isso era mesmo impossível!
Julia era a mais real de todas, e a que mais costumava vir a tona. Talvez fosse pelo amor que sentira por ela e que ainda residia em seu peito. Ou talvez fosse simplesmente pela loucura em sua cabeça, que de alguma forma encontrava mais facilidade em representar suas alucinações na figura da médica brasileira.
— O que você quer de mim? Hein? O que você quer? – Vincent tapava os dois ouvidos enquanto esbravejada com os olhos fechados – Já não basta tudo o que aconteceu? Não foi castigo o bastante tudo o que eu passei?
Eu ainda estou aqui, Vincent... O sussurro de Leah Fisher em seu ouvido o arrepiara por completo. Você acha que já deixou para trás todos os seus medos, mas sabe que isso é impossível!
Eu te dei tudo... Tudo o que era mais precioso pra mim foi oferecido a você. E ainda assim, você jogou fora! Me descartou, fugindo mais uma vez! Você deveria encarar o seu destino! Você não nasceu para esse mundo! Desiste, Vincent. Desiste!
Seus passos se aceleraram ainda mais. Hall nem mais sabia para onde estava seguindo, só queria andar e andar, em uma desesperada e irracional tentativa de sanar os seus tormentos. As palmas das mãos pressionavam com força os ouvidos, e ainda assim, o volume das vozes parecia aumentar cada vez mais. O problema estava dentro da sua cabeça.
— Eu não vou desistir... – A frase fora repetida em voz baixa, em tom de lamentação – Eu não sou mais aquele homem... Eu sei que eu não sou...
Você nunca soube quem é, Vincent.
Julia insistia em se fazer presente nas alucinações internas do médico.
— Você está errada... Você está errada!
O grito final o trouxera de volta a realidade. Vincent abrira os olhos e se deparara com a figura de Lizzy, a garota bêbada que costumava vagar de casa em casa trocando sexo por favores ou mantimentos. Sentada a sombra de uma árvore, e como de costume com uma garrafa de um álcool qualquer nas mãos, fitara Hall com os olhos perdidos. Tão perdidos quanto os do médico.
Vincent tentara se recompor, mas de fato, nas atuais circunstâncias, era muito difícil conseguir esconder suas aflições. Retirando as mãos dos ouvidos e retesando o corpo, esforçara-se para parecer o mais normal possível. O mais normal dentre as inúmeras anormalidades já detectadas dentro da comunidade que o acolhera.
— Uma hora elas vão desaparecer – Exclamara Lizzy Penn, virando o rosto para o lado oposto e voltando a admirar o vazio da paisagem sépia do Jardim – Não é fácil... Mas elas vão se cansar.
O cirurgião arregalara os olhos. Estaria a garota falando de Annette, Julia e Leah? Como ela poderia conhecer os seus tormentos, sendo que até então ele guardara tudo aquilo apenas para si?
Dando um passo curto em direção a garota, Hall hesitara um pouco, engolindo uma bola de saliva que naquele momento parecia pesar duas toneladas. Olhando para ela, questionara gaguejando brevemente.
— Como você... Você as ouviu?
A garota abrira um sorriso, aparentemente em deboche, levando a garrafa até os lábios e dando um gole que a fizera consumir quase metade do líquido de uma só vez. Engolindo como se fosse uma irlandesa, respirara profundamente antes de responder a indagação.
— Não precisei. Mas sei muito bem o que está acontecendo com você. – Ela seguia insistindo em não encará-lo – No começo são apenas sonhos disformes, não parecem fazer muito sentido... Depois começam os sussurros que te acordam de madrugada... E você sempre tentando de alguma forma racionalizar!
Apesar de sorridente, o olhar de Penn não demonstrava nada mais do que desilusão e solidão.
— Aí vêm as vozes... As malditas vozes! – Mais um gole se seguira, dessa vez um curto – Elas chegam quando a gente menos espera, sempre lembrando a gente de coisas que queremos esquecer... Nos falando de coisas que não queremos ouvir!
Apesar do corpo extremamente dolorido, Hall sentara-se ao lado de Lizzy, hipnotizado pelas sinceras palavras da jovem que em tanto parecia assemelhar-se com ele.
— Nós... – Vincent não esperava um dia conseguir conversar sobre esse assunto, principalmente no fim de um dia tão atribulado – Nós estamos malucos?
Penn meneara a cabeça, discordando da última afirmação.
— Não... Essas vozes não são vozes... – A garota fitara os céus, e em seguida encara Hall pela primeira vez – Isso é você! É só o seu lado fraco, aquele mesmo que você tentou empurrar para baixo do tapete, tentando tomar o controle de novo... Te lembrando do quanto você é um lixo! E do quanto você é fraco para fazer as coisas que acha que consegue.
Vincent despenteara-se com a mão direita, ainda digerindo as palavras assertivas da jovem Penn. O graduado cirurgião, ferrenho fã do método científico para encontrar todas as respostas do universo, curvara-se agora ante a aparente sabedoria daquela garota que mal conseguia pronunciar uma frase inteira sem tropeçar na própria língua.
Pela primeira alguma coisa fazia sentido.
— E como eu acabo com isso?
Lizzy erguera a garrafa.
— E funcionou pra você?
A garota voltara a beber, encarando Hall olho no olho.
— O que acha? – Respondera.
Hall preferira não se manifestar, não saberia como responder. Lançando um sorriso de volta a Penn, esticara a mão direita, pedindo a ela um pouco da bebida. A garrafa lhe fora entregue e o cheiro forte de uísque barato adentraram as suas narinas, fazendo com que os cortes internos ardessem ainda mais.
Ele bebera uma quantidade razoável, sentindo uma labareda descer por sua garganta. Os olhos se acenderam e todo o seu corpo parecia estar em brasa. Penn parecera perceber sua inabilidade etílica, já que soltara um risinho, encobrindo-o com a ponta dos dedos.
— Eu não sei se já estou bêbada o bastante, mas acho que você se meteu em uma briga... – Ela tocara de leve o corte maior, o ferimento ainda aberto em seu supercílio – E acho que perdeu!
O rosto do médico piorava a cada minuto. Na medida em que o inchaço ia se ampliando, sua face tornava-se cada vez mais irreconhecível.
— Não é nada – O médico tentara fazer pouco do nítido estrago que Hanso lhe causara – É só uma coisa que tenho que fazer...
Hall notara que Lizzy detinha sua total atenção. Estranhamente a bizarra dupla parecera se compreender em poucas palavras, e o melhor de tudo, enquanto estava ali com ela, as vozes não mais o atormentavam.
Fitando-a por alguns instantes, Vincent notara que alguns pensamentos começaram a surgir em sua cabeça. Ele parecera enxergar mais do que a fama de vadia louca e bêbada criada para ela, indo além do que a casca lhe demonstrava parecer.
— Seria legal poder conversar mais com você... – O médico solicitara a garrafa outra vez, recebendo-a em mãos – Eu saí da casa do J.J. depois que a Marsha voltou e, enfim, depois de tudo... A Imperatriz me deixou ficar na cabana nos fundos da choupana, então... O que acha de irmos até lá e...
Lizzy que até então sorria de forma amistosa, fechara o rosto, aparentemente decepcionada com o rumo que os dizeres do médico passaram a tomar. De repente Hall se parecera e muito com os diversos homens que apenas a viam como um reles objeto. Percebendo o tropeço, Vincent notara que necessitava se corrigir.
— Não... Não me leve a mal. Eu quero apenas conversar... Posso preparar alguma coisa pra comermos, e – Olhara para o rótulo da bebida – te apresento a um uísque de verdade.
Ela voltara a sorrir, tomando de volta sua bebia vagabunda. Arrumando uma mecha de cabelo para detrás da orelha, aprumara as costas no tronco da árvore, elevando o queixo antes de responder.
— Bom, Doutor Desmond. Eu tinha marcado uma visita com o meu contador, para ver como andam os meus milhões nas Ilhas Cayman, mas acho que posso abrir um espaço na minha agenda.
Sua piada arrancara mais um sorriso do médico. Por mais que estivesse bêbada, sua aura demonstrava-se adorável.
— Vou dar uma chance a você... – Retomara – Parece ser um cara legal.
Os dois beberam em silêncio por mais alguns instantes, até esvaziarem a garrafa de Lizzy Penn. Após mais algumas gargalhadas e frases lançadas ao vento, seguiram com o planejado, ajudando um ao outro a caminhar, vide as tenuidades causadas pelo álcool e pelas sucessivas pancadas, até enfim alcançarem a moradia do Doutor Vincent Hall.
[...]
As tonturas eram sem dúvidas a pior parte. Os enjoos também atrapalhavam bastante, mas nada parecia se comparar as tonturas.
A gravidez ainda não revelada de Leah Fisher já começava aos poucos a atrapalhar os seus afazeres corriqueiros. O treino de tiro interrompido, a substituição no turno em que deveria cuidar dos portões. Aos poucos os mais próximos já começavam a desconfiar que algo estava ocorrendo com a adolescente.
Convencida por Tom Price, o homem que se comportava em parte como tutor e em parte como amante, resolvera, mesmo que a contragosto, buscar ajuda com Rosita Espinoza, a enfermeira da comunidade, que talvez pudesse ajudá-la a amenizar os sintomas daqueles duros primeiros meses.
Faltando mais uma vez as inúteis aulas de garagem de Alexandria, a garota escolhera o período do dia ideal para sua primeira consulta de pré-natal. A grande maioria dos moradores, pelo menos os mais velhos e os hipocondríacos, mais um dos transtornos que parecera se agravar bastante após o fim do mundo, preferiam o turno matutino para suas visitas de rotina a latina enfermeira.
Tentando ser mais discreta, fugindo dos desnecessários comentários que muito provavelmente se seguiriam, Fisher preferira ir à enfermaria no começo da tarde, logo após o almoço.
Tomada por uma coragem que ela própria não sabia possuir, ao mesmo tempo em que tinha as mãos suadas em um gigantesco pico de ansiedade, Leah caminhara sem demonstrar nenhuma de suas reações internas, transpassando os jardins e achegando-se a frente da casa que já fora de Hall, e antes dele de Cloyd e Heath.
Ela lembrara-se do casal, da médica sempre solícita e simpática, e do jovem esperto e colaborador, um exímio coletor que sempre se mostrava disposto a contribuir, mesmo que isso lhe arriscasse a própria vida.
Recordara-se também do dia em que os muros tombaram, que Tom fora mordido e tivera o braço amputado por Michonne, e que Amanda falecera de forma totalmente inesperada, ainda levando consigo o olho de Carl, em um disparo involuntário e acidental. A bala provavelmente teria como endereço a testa de Leah, e se não fosse pelo filho de Grimes, certamente ela já estaria morta. Um leve remorso tomara conta de si ao atentar-se para o fato de que ainda não havia agradecido ao garoto por isso.
Lembrara-se também, obviamente, do posterior inquilino do distinto imóvel, um incompreensível médico ruivo que ainda parecia tão presente dentro dela. Vincent deixara cicatrizes em Fisher que talvez nem mesmo o tempo pudesse curar. Por mais que tentasse esquecê-lo, e por mais que tentasse odiá-lo com todo o coração e alma, a pequena criança germinada em seu ventre, crescendo um pouquinho a cada dia, a fazia lembrar-se do quanto tudo aquilo fora grandioso.
Grandioso demais para suportar sozinha.
A menina não estava pronta para uma responsabilidade tão grande com tão pouca idade. Apesar de sua maturação precoce, que a fazia ver o mundo com um pouco mais de resolução do que as demais com sua mesma faixa etária, aquele era um fardo que ela não poderia carregar sozinha.
Será que seria demais pedir que Tom a ajudasse? Será que seria demais pedir a ele que assumisse o bebê de Hall? Logo de Hall, o último desafeto do corpulento turrão, que apesar das aparências, possuia um bom e grandioso coração... Era realmente pesado demais para a jovem Fisher levar nas costas.
Após bater na porta três vezes, Leah notara a aproximação da nova dona da residência, em passos calmos em meio a um “já vai” exclamado a distância. Destrancando e girando a maçaneta, Rosita liberara a entrada, aparentemente surpresa ao descobrir a identidade de sua visitante. Sorrindo para a menina enquanto enxugava os cabelos com uma toalha, sinalizara que ela poderia entrar.
— Boa tarde, Leah! – Exclamara a latina, tentando recompor-se, já que claramente havia acabado de sair do banho – Estava esperando por você. Tom me falou que viria até aqui.
Fisher gelara internamente, intrigada com o teor da possível conversa entre Price e Espinoza.
— Não queria te incomodar – A menina tentava agir naturalmente – Sei que as coisas ficaram malucas por aqui nos últimos dias, mas... Eu não estava me sentindo muito bem.
Talvez ainda não fosse o momento certo. Era melhor manter em segredo por mais um tempo.
— Tudo bem! – Espinoza aparentava estar totalmente à vontade – Isaiah era o meu paciente mais crítico, mas liberei ele hoje de manhã. O cara não para mesmo, não tinha como prendê-lo muito tempo por aqui! – Ela dera uma breve risada – Só espero que ela não faça nenhuma besteira. Vai ser uma merda se todos aqueles pontos abrirem!
Fisher tentava agir com simpatia, apesar de claramente não estar à vontade naquele local, e muito menos dialogando com Rosita.
— Os outros são pontuais... – A enfermeira prosseguira – Vem e vão. Os Salvadores até fizeram um estrago, mas somo fortes, aguentamos o tranco! – Seu olhar direcionara-se a figura pálida da adolescente – Bom, acho que você não veio aqui pra conversar, não é? Fica a vontade, senta – Ela indicara o sofá – Me conta o que você tem.
Agradecendo o convite com um gesto de cabeça, Fisher acomodara-se no sofá. Flashs de recordações viajaram por sua retina, levando-a a uma época que ela já havia decidido esquecer.
Após sair do breve transe em que mergulhara, Leah olhara para Rosita, que parecia aguardar que ela se manifestasse enfim. A latina parecia bastante diferente da figura triste em que se transformara ao descobrir sobre a morte de Abraham. O luto que a menina imaginava que perduraria por muito mais tempo, parecia já ter sido superado pela enfermeira que tratava-a com tamanha simpatia.
Seria possível superar uma dor tão grande em tão pouco tempo? Como Rosita poderia ser assim tão forte? Como ela poderia estar sorrindo e desferindo frases positivistas após o mundo lhe tirar o homem que tanto amou?
Ela não conseguiria deixar isso passar em branco.
— O que você tá fazendo, Rosita? Por que tá agindo dessa forma, me recebendo desse jeito, falando sobre os pontos do Iaiah e sobre o quanto somos fortes? Por que está fazendo isso?
Agora quem parecia intrigada era Espinoza.
— O Abraham morreu – Fisher demonstrava indignação em seu tom de voz – O Abraham morreu, você já percebeu isso? – Dessa vez a voz da menina subira um tom – Você enterrou o homem que esteve do seu lado durante tanto tempo, que você amou e cuidou, que... O que você tá fazendo? Por que tá agindo desse jeito?
Rosita apenas a observara falar, deixando que ela botasse para fora tudo o que estava entalado em sua garganta.
— Quando o Vincent desapareceu, você agiu da mesma maneira... E ele gostava de você, ele estava com você! – Leah sentia-se como se estivesse próxima a entrar em ebulição – Ele desapareceu e no outro dia você já estava assumindo o consultório, como se nada tivesse acontecido... Como se você não soubesse que ele estava morto! Então me diz agora... Por que diabos você faz isso?
A enfermeira respirou profundamente, dando um tempo para que a menina desabafasse por completo. Após breves segundos de silêncio, falara pela primeira vez a respeito do que afligia Fisher.
— Eu faço isso porque eu preciso viver. E não importa o quanto isso me machuque por dentro, eu sei que no dia seguinte, mesmo que eu esteja extremamente destruída, eu vou ter que dar um passo para frente e seguir caminhando. – Os olhares estavam fixos uma na outra – Eu sofro sim, Leah, tanto quanto qualquer um aqui... Mas eu sou uma sobrevivente, e eu aprendi que para sobreviver é preciso passar por cima de certas coisas... Aprender a dominar sua dor, e não deixar que ela domine você.
— Quando eu sinto que a dor, a culpa ou o medo vão tomar conta de mim, eu simplesmente deixo que esses sentimentos venham com tudo! Deixo que eles façam o que tem de fazer, que me consumam por completo... Mas apenas por alguns segundos! Depois de sentir, de experimentar todas essas coisas, eu simplesmente as guardo em um lugar bem escondido no meu peito, trancando para que eles nunca mais saiam... Pra que não me impeçam de caminhar para frente!
— Porque se você der um passo pra trás, Leah... Você morre!
A adolescente não conseguira se conter ao ouvir a confissão de Rosita. As palavras lhe caíram como um enorme pedregulho sobre a cabeça, algo tão avassalador que fizera com que um emaranhado de sentimentos partisse de seu peito em direção aos lacrimais quase na velocidade da luz.
O copioso choro parecera liberar algo que a muito a menina mantivera apenas dentro de si, sem nunca ter tido a oportunidade de compartilhar ou confiar a alguém. Rosita era a primeira a vê-la tão crua assim, tão entregue ao sofrimento que ela acreditava já ter superado.
Depois de tantas mortes, depois de ter perdido a inocência, depois de ver o seu mundo desabar sobre sua cabeça, Leah finalmente pudera chorar cada gota por cada um desses acontecimentos. Finalmente pudera deixar que o medo, a solidão e a dor lhe tomassem conta por completo.
Rosita aproximara-se da menina, puxando-a para si e acomodando o rosto de Leah em seu colo. Apoiando o queixo no topo da cabeça de Fisher, Espinoza acarinhara os seus cabelos, permitindo que a menina chorasse todas as lágrimas que julgava suficiente. Que botasse finalmente para fora tudo o que a impedia de caminhar para frente.
— Tom me contou tudo Leah... Ele me falou sobre você e Vince, e também sobre a gravidez... – Leah seguia chorando, sem nada dizer – Não posso dizer que tenha sido algo fácil de ouvir, mas acredite, eu não vou julgar nenhuma das suas escolhas – Uma nova expiração profunda – Deixa eu te ajudar a passar por isso... Deixa eu te ajudar a carregar esse peso. Você também pode aprender a ser uma sobrevivente, a superar os seus medos e a sua dor e caminhar finalmente para frente... Sempre pra frente! Mas vai precisar deixar que eu te ajude. Ninguém consegue nada sozinho. É sempre nos piores momentos que mais precisamos de apoio, de um cajado que ajude a gente a caminhar até que possamos fazer isso por nós mesmos...
Fisher não pudera responder com palavras. Um aceno de cabeça em meio ao afago de Espinoza já fora o bastante para demonstrar o quanto ela estava disposta a mudar o seu quadro, a aprender a lidar consigo mesma e finalmente evoluir dentro do desolado mundo que a arrebatara.
A latina sorrira, abraçando-a ainda mais fortemente.
Passado algum tempo, Fisher conseguira se recompor, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. O rosto avermelhado, ainda marcado por todo o líquido que escorrera por seus lacrimais, mirava agora diretamente para a face serena de Espinoza.
— Viu? Só por alguns segundos.
Leah sorrira brevemente com os dizeres de Rosita. Após a franca conversa, as revelações, e a verdadeira aula que recebera da enfermeira de Alexandria, a jovem Fisher sentia-se muito bem. Era como se realmente todo aquele peso que já envergava sua coluna, tivesse sido substituído repentinamente por uma porção muito mais leve. Uma que agora ela tinha certeza possuir a capacidade de carregar.
Não seria fácil, mas ela passaria por tudo aquilo. Ela ultrapassaria todos os obstáculos presentes e futuros. Até mesmo os mais intransponíveis que surgissem diante dela. Tudo por agora saber como enfrentá-los.
A jovem deixara o lugar sentindo-se muito melhor. Carregando consigo algumas vitaminas, entregues pela enfermeira que prometera manter segredo sobre a gravidez, pelo tempo que Leah julgasse necessário, Fisher parecia muito mais segura em sua caminhada, e nas decisões que tomaria a partir daquele momento.
Passando novamente pelo verde e límpido gramado bem cuidado, encaminhando-se para os jardins, a menina não mais ocupava sua mente com lembranças de um passado de sofrimento. Imaginava agora o seu futuro, e apesar de todo o receio que ainda carregava ao tentar mensurar tais pensamentos, imaginava também o seu filho, correndo pelo gramado, brincando entre as árvores e as folhas da utópica comunidade.
Leah não sabia ao certo se aos quinze anos teria a capacidade de ser uma boa mãe. Ainda não conseguia se imaginar como o tal, e pensar que havia mesmo uma vida crescendo dentro de si era muito intangível. Ela apenas tinha a certeza que faria o que precisasse fazer, pois pela primeira em muito tempo não sentia-se mais tão solitária.
Ao chegar próxima aos portões, porém, notara uma instantânea mudança no clima daquela amena tarde em Alexandria. Em um movimento involuntário, gerado quase que por uma intuição, a jovem girara a cabeça, direcionando-se para o portal de entrada da comunidade.
Ela ouvira os passos calmos, o som da bota sobre as pedras, daquele que acabara de aportar em sua casa. Com um taco de baseball rodeado de arame farpado e um assustador sorriso montado em sua face, o sujeito transpassara o seu bastão nas grades, gerando um repetitivo e estridente barulho metálico. Olhando para o interior de Alexandria, e ainda mantendo o mesmo sorriso e olhar, o estranho visitante passara a cantarolar e assobiar, enquanto aguardava ser recepcionado por alguém.
— Ovelhinhas... Onde vocês estão, ovelhinhas? Ovelhinhas... Eu quero entrar, apareçam.
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