All Out War

47 All Out War – Part One: Miles Behind Us


Notas iniciais
Hei! Demorei, mas voltei! Domingo tenso, hein? Bom, tive alguns problemas pessoais que não cabem aqui... Enfim, o importante é que reafirmo mais uma vez, que apesar de todos os tropeços, de todos os atrasos e de todas as dificuldades, All Out War segue e seguirá firme e forte até o seu final! E por falar em final... A fic chega hoje ao seu último arco, denominado “All Out War”, que será dividido em algumas partes. Não irei revelar em quantas partes esse final será dividido, para não criar nenhuma expectativa... “Miles Behind Us” marca o início da guerra, com a primeira grande batalha! Preparem-se então para muita ação, mas também haverá momentos de reflexão e desenvolvimento de personagens... Bom, acho que vocês irão gostar! Quero agradecer a três leitoras que comumente surgem por aqui com comentários super atenciosos e críticos. Menta, Maritafan e Sami, muito obrigado! Kiitos! Sei que sempre repito isso, mas reintero que o apoio de vocês é essencial para que esse trabalho siga em frente! Acredito que durante o processo eu evoluí como escritor, e se isso de fato ocorreu, ressalto que devo totalmente a vocês! Teremos POVs do Rick, da Michonne, do... Ah, sem mais spoilers! Boa leitura!

— Já não havíamos nos falado? Aconteceu alguma coisa? – Dissera o policial, olhando diretamente para o diplomata do Hill Top, estacionado em frente a sua casa.

Rick estava arisco. Sua cara amarrada, ainda marcada pelas pancadas que recebera durante o embate com os Salvadores fazia com que seu cenho se fechasse ainda mais. A mão esquerda havia acabado de ser enfaixada por Rosita, que lhe dissera que fora por pouco que o xerife não perdera sua única mão boa.

Andrea estava em casa. Tomara alguns remédios para dor e acabara apagando, ainda sem forças, iniciando o que provavelmente seria uma longa recuperação. Grimes não chegara a lhe contar sobre a morte de Isaiah, achando melhor preservá-la, pelo menos por enquanto.

O corpo do finlandês já havia sido levado até a igreja de Gabriel, onde um funeral seria realizado ainda naquela noite.

Jesus, que permanecera em Alexandria, assim como o grupo de Ezekiel, abordara Grimes tão logo ele deixara sua casa, enquanto se dirigia até os portões.

— Sei que o dia de hoje foi bastante atribulado, mas... Você precisa se cuidar mais, ok?

O xerife o olhara com o canto de olho. Não estava disposto a receber nenhum tipo de sermão ou aconselhamento. A culpa pelo desastre que ocorrera há poucos instantes, já era castigo o suficiente. O peso nas costas o envergava para o chão, levando-o cada vez mais próximos aos seus próprios limites.

— Teria dado certo. – Respondera de forma vazia. Seu corpo se encontrava ali, mas sua mente parecia residir em outro lugar. Sentia um fogo lhe queimando a cabeça, uma sensação tão angustiante que chegava a sufocá-lo – Pelo menos agora sabemos o poder de fogo que eles possuem... Mas, sim... Entendi o que quis dizer.

Seus cabelos loiros areia lhe caiam sobre as orelhas, volumosos e embaraçados. A barba rala começava a lhe preencher as bochechas. O rosto sujo de terra e sangue seco. Grimes parecia anos mais velho, um ancião cansado de toda a ação. Um homem que já havia se habituado ao sofrimento diário.

— Nada mais de improvisos. – Prosseguira o xerife, os olhos ainda vazios – Planejaremos todos os nossos passos daqui para frente.

O homem de barba e cabelos longos semicerrara os olhos, enfatizando ainda mais a seriedade daquela conversa.

— Acho que você ainda não entendeu o que está em jogo aqui, Rick... Sem você, tudo o que temos cairá por terra. – Ele apontara para Grimes – Tudo isso não estaria ocorrendo sem você. Foi você que os inspirou, que os incentivou e os fizeram acreditar que a Aliança poderia nos libertar dos Salvadores... Atualmente você é o único que possui esse poder de mobilização.

Rick nada dissera. Não havia o que dizer. Apenas seguira escutando as palavras de Paul Monroe.

— Gregory só quer ficar escondido. – Prosseguira – Ele só enxerga o próprio nariz, aceitou de cara os termos do Negan, colocando todo o Hill Top em risco, desde então. Ezekiel tem boas intenções, mas... – O diplomata abaixara levemente a cabeça – Ninguém sabe ao certo o que pensar dele. Ele é uma incógnita, todos sabem que ele odeia o Negan, mas só passou a agir realmente depois que você chegou. Ele segue a sua liderança, Rick.

— O maldito do Negan... Ele utiliza o medo para comandar o que ele chama de rede. – O barbudo pronunciara com repulsa a última frase – Ele manipula os seus homens para fazê-los acreditar que ele é quem os mantém vivos. De certo modo eles o idolatram. E para ele tudo parece ser uma questão de ego...

— Mas você... – Ele tocara o ombro de Grimes – Você está criando algo aqui, cultivando um futuro... Quando tudo isso terminar, o mundo terá mudado, e acredito que mudará para melhor. Renovação... Eu quero fazer parte disso, e quero ajudar no que puder para transformar esse futuro em realidade.

O policial piscara algumas vezes. Não sabia como reagir ao discurso de seu amigo.

— Você Rick... Você é um líder que podemos seguir!

*****

[UMA SEMANA DEPOIS]

Os olhos de Grimes fitavam o teto, as pálpebras arregaladas, fixas em um único ponto. Ele mal dormira nas últimas sete, oito noites. Durante a maior parte do tempo, planejara o grande ataque a ser realizado, um golpe certeiro na raiz da erva daninha chamada Salvadores.

Não haveria mais espaço para improvisos dessa vez. Todo o planejamento precisava ser seguido em seus mínimos detalhes. Aquilo era grande. Maior do que tudo o que já haviam feito.

Virara o rosto de lado, admirando a silhueta de Andrea, ainda dormindo. Abrira então um sorriso, iluminando o rosto ao encarar a beleza plena de sua companheira, da mulher que estivera ao seu lado em todos os momentos de dificuldade, desde que a praga dos mortos passara a assolar a terra.

O rosto sardento tomado por curativos, só fazia crescer ainda mais o sentimento de revanchismo contra os homens que quase lhe tiraram um dos seus bens mais preciosos. A recuperação da sniper era lenta, quebrara algumas costelas, além do nariz e das inúmeras pancadas na cabeça, que ainda deixavam-na tonta quando fazia algum esforço ao extremo.

Mas ela havia sobrevivido, e apesar de mais e mais baixas terem ocorrido, Rick também estava lá, firme. A frase repetida tantas vezes por Andrea praticamente virara um mantra para Grimes. Nós não morremos. Se assim fosse, as esperanças de vencer cresciam ainda mais.

Beijando a testa da jovem loira, o policial erguera-se da cama. Trajando apenas um calção velho, exibindo o peitoral cheio de marcas e cicatrizes, resultado de sua ferrenha luta pela sobrevivência, Grimes caminhara até o banheiro, sorrateiramente para não despertar Andrea.

Olhara-se então no espelho.

O rosto marcado, cortado e esfolado, fazia com o que o ex-xerife do interior mal reconhecesse o homem que um dia fora. Os claros cabelos, agora curtos, e a barba feita, exibindo todo o formato de seu queixo fino, deixara Grimes com uma aparência mais sóbria, todavia, o esgotamento físico e mental seguia marcado em cada músculo de seu corpo.

Abrira a torneira da pia e juntara um bocado de água em sua mão esquerda, ainda enfaixada após o tiro de raspão que recebera. Jogara o líquido frio no rosto, tentando despertar totalmente. Ao voltar a olhar para o espelho, vira a imagem de Andrea, de pé as suas costas.

A mulher loira espreguiçara-se, levantando os braços enquanto bocejava de olhos fechados. Dera dois passos em direção a Grimes, abraçando-o por trás e beijando o seu pescoço. Rick sorrira mais uma vez, admirado pela beleza daquela mulher, ainda mais enfatizada por seus trajes ínfimos, que se resumiam a sutiã e calcinha, utilizados sempre para dormir.

— Então... Hoje é o dia?

Ela também parecia receosa.

— Sim... – O xerife encara a própria imagem no espelho.

— E como se sente? – Suas mãos passeavam pelas costas brutas do policial.

Grimes virara a cabeça, olhando diretamente para os orbes da sardenta.

— Como um animal acuado. – Respondera – Nunca enfrentamos algo assim... Estamos em guerra, Andrea. E não há como em entrar em uma guerra sem ter baixas...

A mulher tocara o seu rosto. Suas feições tentavam lhe passar segurança.

— Então significa que estamos em guerra desde o início disso tudo.

Grimes a encarara por alguns segundos, sem nada dizer. Aproximando-se subitamente, abraçara-lhe com força, como um náufrago agarraria um bote salva-vidas. Era justamente isso que buscava em sua companheira. Rick queria encontrar forças para salvar a si mesmo, pois sabia que assim conseguiria salvar toda a sua comunidade.

Todos aqueles que amava.

— Preciso confessar a você... – Ele seguira, ainda nos braços de Andrea – Eu tenho receios... Às vezes eu sinto que as pessoas acham que eu possuo todas as respostas, todas as soluções... Que estou sempre certo e pronto para qualquer coisa. Mas Andrea... Eu quase morri da última vez. Isaiah morreu... Você quase morreu... Eu jamais me perdoaria se algo ocorresse com você.

A mulher o enlaçara ainda mais calorosamente em seus braços. Grimes apenas cerrara os olhos, prosseguindo o desabafo.

— Jesus me disse que eu sou alguém que ele pode seguir. Que sou o cara certo para fazer o que deve ser feito, para reconstruir esse mundo. Eu acho que é muita coisa para uma única pessoa... Eu só estou tentando manter as pessoas que amo vivas... E nem isso eu tenho conseguido fazer.

Andrea tocara o rosto de Rick, os olhos claros fitando-o profundamente.

— Ninguém é bom em mais nada nessa droga de mundo. Você está fazendo melhor que a maioria... E você continua tentando, esse é o seu diferencial. Rick... Você acha que nossa vida será melhor depois que vencermos essa guerra?

O policial respirara profundamente.

— Não podemos viver dessa forma. Não podemos mais viver sob os caprichos de Negan... Isso não é vida. Aquele doente vai acabar matando todos nós.

A loira então sorrira, beijando os lábios de Rick Grimes.

— Então... O que vier disso tudo... – A sardenta encostara sua testa na do xerife, sussurrando – Custe o que custar. Terá valido a pena!

*****

Após uma breve oração, Leah erguera-se, recebendo ajuda de Tom Price.

O gramado do cemitério de Alexandria estava úmido e gélido. As baixas temperaturas que começavam a tomar conta da região, já deixavam suas primeiras marcas sobre a vegetação, tingindo a mata gradualmente.

Na lápide de madeira apenas podia-se ver talhado as letras I.M., iniciais do nome do biólogo finlandês, que jamais tivera sua voz ouvida por ninguém daquela comunidade. E a saudade que deixara, parecia apenas evidenciada em Fisher, sua única amiga em terras alexandrinas. Talvez a única que não sentira medo do homem que tivera a própria língua arrancada à força pelo exército miliciano liderado por Mayumi Hashimoto.

Uma história que não tivera tempo de ser compartilhada com mais ninguém. Morrendo em definitivo junto com Matti.

Ao lado de seu túmulo, outra lápide, apenas como forma de homenagem, representava a perda de Vincent Hall. Seu corpo fora cremado e suas cinzas jogadas em um pequeno riacho, alguns quilômetros mata adentro do bosque utilizado como morada pelos residentes do Garden.

Era estranho pensar em Hall, lembrar-se de seu rosto. Com o passar dos dias, com o impacto da notícia de sua morte se acomodando cada vez mais em seu peito, as memórias em relação ao médico começavam pouco a pouco a desaparecer, como fumaça de cigarro se dissipando com o vento.

Leah não sabia se aquilo era bom, mas de toda forma, ajudava a diminuir a dor. Na situação em que se encontrava, qualquer paliativo seria de grande serventia.

Deixara então duas rosas recostadas as lápides, e após balbuciar palavras de despedida, começara a caminhar de volta a sua moradia. Tom seguira ao seu lado, a mão no bolso e a cara amarrada, esforçando-se para se mostrar alheio aos eventos recentes, mas a jovem sabia que ele se machucara internamente tanto quanto ela.

Mentir para si mesmo era burrice, mas Price parecia turrão demais para dar o braço a torcer. Talvez ele se sentisse responsável, ou talvez não estivesse sabendo como reagir ao fato de não ter tido poder para fazer nada, quando Negan apontara o seu taco para Leah, não a executando por puro capricho.

O sorriso cruel do sádico líder dos Salvadores, inclusive, não lhe saía mais da cabeça. Assim como o som ritmado de suas pancadas, ao esmagar o crânio de Isaiah, lhe tirando a vida da forma mais monstruosa possível.

Aquele reinado de horror precisava cessar. Não haveria futuro para ela e sua criança se os Salvadores seguissem comandando o destino de todos.

— Quando tudo isso acabar... – Tom falara suavemente, algo raro de sua parte – Nós nos mudaremos para o Reino. Eu falei com o James e ele disse que poderá nos receber sem problemas. Não há muito espaço dentro daquela escola, mas a princípio dividiremos um dos quartinhos até construirmos o nosso barraco no pátio.

— Eu conheci a médica do lugar. É uma brasileira... – Price parecia esforçar-se para se recordar do nome – Alves, eu acho. Enfim... Ela é obstetra, poderá cuidar de você até que chegue a hora desse moleque nascer. E aí então nós...

Leah interrompera os passos. Tocando o peito de Tom com a ponta dos dedos, a garota interpusera-se a sua linha de raciocínio.

— Eu vou para o Reino sim, mas... Não há nós, Tom. Eu preciso fazer minhas escolhas sozinha, e essa é uma delas... Quero parar de brincar de casinha com você. Não quero que seja uma segunda versão do Vincent. – Ela tocara o próprio ventre – Eu vou ter essa criança, e se tudo der certo... Cuidarei dela sozinha. É assim que deve ser... Desculpe.

A garota prosseguira caminhando, deixando o ex-soldador para trás. Olhando-a fixamente, Price resolvera manifestar-se, logo após Fisher dar o seu quinto passo sobre a grama.

Hey, loirinha! – A menina olhara para trás, os olhos fugindo do contato direto com o corpulento homem – Eu vou com o Rick. Eu vou participar da batalha em frente aos portões do Santuário.

Leah sentira um nó tomar conta de sua garganta.

— Detesto despedidas, Tom. Você sabe disso! – A adolescente tentara passar segurança em sua fala, virando de costas e afastando-se logo depois da exclamação.

Price não dissera mais nada, apenas meneando a cabeça positivamente e tomando o caminho contrário ao de Leah. A garota, por conseguinte, concentrara-se ao máximo para não esboçar nenhuma reação, para não fraquejar ante a tensão e o medo que lhe corroia até os ossos. Após afastar-se, saindo do campo de visão do metalúrgico, repetira em voz baixa, apenas para si.

Por favor, não morra...

*****

— Obrigado por ter me deixado passar a noite aqui. – Dissera Ezekiel, vestindo sua camisa estampada com estrelas, enquanto erguia-se da cama de Michonne.

Com o corpo nu recoberto pelos lençóis, a espadachim espreguiçara-se lentamente, lançando um sorriso malicioso ao mandatário do Reinado.

— Você sabe que isso não quer dizer nada.

Abotoando sua camisa, o homem de dreads brancos também sorrira, com o canto de boca.

— Não, eu não sei.

Michonne sentara-se na cama, mantendo sua expressão serena. A samurai parecia leve, suave, totalmente diferente de sua faceta sisuda e desconfiada, praticamente um animal selvagem.

— Não me leve a mal, sua majestade. Isso tem o potencial para se tornar algo futuramente... Mas no momento, ainda não é nada.

O rei meneara a cabeça.

— Acho que posso lidar com potencial. Potencial tem o seu valor. Potencial já é um bom começo.

— Ótimo. – A mulher também começara a se vestir – Agora vá lá embaixo e veja se o seu tigre idiota não destruiu o meu banheiro.

Ezekiel saíra, deixando Michonne sozinha enquanto a mesma terminava de se trocar. A samurai tentava não se deixar levar pelo sentimento bom que a noite ao lado do rei lhe trouxera. Não queria acreditar que poderia finalmente se sentir segura, pois sabia que segurança era algo inalcançável no novo mundo.

Após a batalha contra os Salvadores que quase terminara em tragédia, Ezekiel decidira tornar Alexandria o quartel general provisório da Aliança, trazendo os seus homens pouco a pouco para a cidadela comandada por Rick. Passaram os últimos dias planejando o ataque, o golpe preciso e perfeito contra o império de Negan.

Jesus também ficara por ali, auxiliando na coordenação da missão e realizando os últimos preparativos para o início da guerra. Os soldados do Hill Top marchavam lentamente, migrando para a zona segura de forma cuidadosa, sem deixar pistas para o Santuário sobre suas intenções.

Precisando de um lugar para passar as noites, O Rei acabara sendo acolhido por Michonne. E o que parecia que seria um longo jogo de xadrez, acabara tendo o seu xeque-mate mais cedo do que esperado. A samurai rendera-se aos encantos do homem calmo e eloquente. Praticamente o oposto do que ela própria se tornara.

Não seja estúpida. Repetia para si mesma, enquanto os olhos voltavam-se para a katana, resguardada acima de sua cama. Se pestanejasse, nem que fosse por alguns segundos, poderia acabar colocando tudo a perder.

Ela gostava de estar ao lado de Ezekiel, isso era um fato, afinal de contas, fora ele quem a fizera sorrir outra vez, algo que já não acontecia há bastante tempo. Mas a espadachim também cercava-se de receios, não queria se iludir, acreditando que dali poderia surgir algo perene.

Confiança era um bem bastante valioso para ela, e não a daria assim tão facilmente. O melhor então era seguir observando, resguardando-se ao máximo, para não sofrer com arrependimentos futuros.

— Bom... – Ezekiel surgira outra vez. Recostado à porta, ele parecia bastante à vontade. As feições sempre calmas seguiam a mesma toada que comumente apresentava. O rei ainda era uma incógnita para a espadachim – Tenho boas notícias. O meu tigre idiota, que na verdade é uma tigresa siberiana, se comportou bem. Mas ela acabou fazendo cocô na sua banheira.

Michonne franzira o cenho.

— Sério? – Não conseguira esconder o risinho que brotara espontaneamente – Já aviso logo, não há a menor chance de eu limpar essa sujeira!

— Não se preocupe... – Ezekiel aproximara-se – Eu já cuidei de tudo. E sendo sincero, foi até bastante fácil. Só contei a você para enfatizar que não precisa haver segredos entre nós. Acho que isso pode reforçar um pouco mais o nosso potencial.

A samurai o olhara, não sabendo o que pensar. Travava uma batalha interna entre o que acreditava realmente e o que sua mente gostaria de acreditar. Razão versus sentimentalismo. Precisava tomar logo um lado, ou acabaria se perdendo.

— Acho que algumas coisas precisam sempre permanecer secretas. – Dissera, desviando o olhar.

Os dois desceram as escadas, permanecendo em silêncio durante o breve percurso. Michonne sentia-se incomodada, sufocada. Queria ter uma resposta, queria ter total certeza de suas decisões, mas aquela maldita noite parecia ter remexido-a por inteira. Não queria experimentar a angústia que vivenciara com Tyresse e Morgan. Não podia passar por aquilo uma terceira vez.

Na sala de estar, um homem vestido de negro, cabelo raspado ao nível do couro cabeludo e feições tipicamente samoanas, aguardava pelos dois, de pé, prostrado como um militar à frente de um pelotão.

— Meu bom Alex! – Exclamara Ezekiel.

O homem o cumprimentara respeitosamente.

— Majestade... Os ônibus já foram estacionados em frente aos portões. Estamos prontos.

— Excelente notícia! – O rei esfregara as mãos – Avise Rick e os outros. Está na hora!

*****

As engrenagens giravam exatamente como o esperado.

Eugene e seu pequeno grupo de trabalho – reforçado agora por quinze homens e mulheres cedidos pelos líderes da Aliança – haviam conseguido concluir em uma única noite, o que exigira extremo esforço de todos, a fabricação de duas caixas extras de munições para a missão vindoura.

Andrea juntamente a Gabriel já tinham concluído a separação de mantimentos que seriam levados pelas tropas, e a própria sniper também selecionara aqueles que ficariam em Alexandria, com a missão de proteger a comunidade caso algo de errado viesse a ocorrer.

Os últimos detalhes acabaram sendo acertados em uma reunião de emergência, na capela da zona segura. O Alto do Morro, Hill Top e Alexandria já estavam prontos para a batalha, enquanto que a única dúvida que pairava sobre todos era em relação ao Garden.

Grimes passara um recado a Elizabeth, solicitando a ajuda da Imperatriz, mas da forma que as coisas caminhavam, o xerife já começava a se preparar para caso recebesse uma negativa de Eloise e o seu povo, ainda extremamente castigados com a doença que quase os extinguira.

Abastecidos e prontos para a viagem, o grupo armado reunira-se em frente aos portões, onde os ônibus, SUVs e demais veículos já se encontravam a espera dos soldados. Antes que pudessem finalmente partir, Rick Grimes reunira sua tropa e os demais moradores, que assistiam a toda movimentação. Subindo no capô de um dos carros, estufara o peito antes de iniciar mais um de seus discursos.

— Eu nunca pedi muito de vocês. Sempre tentei deixar claro que todos são livres para levarem a vida da forma que bem entenderem, sem precisar dar nada em troca. Mas agora a nossa forma de vida está sendo ameaçada... Nossas vidas estão sendo ameaçadas. Isso precisa chegar ao fim!

— Algo precisa ser feito em relação a isso, o que significa que precisarei da ajuda de todos. Uma parte de vocês marchará ao meu lado hoje. E que fique claro aos que se voluntariaram, será extremamente perigoso, e há sim chances de que não retornemos com vida. Mas aos que vierem, garanto que terão minha gratidão eterna. Não por mim! – Ele tocara o peito com a mão esquerda – Mas pela revolução que estaremos iniciando!

— Quantos aos outros... Preciso que estejam preparados. Estamos trilhando um novo caminho, e com toda a sinceridade, ainda não sei aonde essa estrada nos levará. Mas sei que seja onde for, estaremos em um bom lugar! Preciso que estejam prontos para defender esse local com suas próprias vidas! Preciso que estejam prontos para proteger as suas casas, as suas famílias, as pessoas que amam!

— Porque independentemente das baixas ou das perdas que inevitavelmente vierem a ocorrer... No final terá valido a pena! – Algumas vivas se iniciaram. O povo parecia inflamado – Eu sei que não somos soldados! Mas até tudo isso acabar, estaremos em guerra! Estaremos em guerra contra Negan, mas principalmente, estaremos em guerra contra um mundo falido. Um mundo movido pelo medo e pela barbárie! Nós! – O xerife enfatizara – Nós podemos construir uma sociedade perene. Uma sociedade movida pelo suor de nosso trabalho e não por acordos com déspotas psicóticos!

— Nós estamos em guerra, porque nós iremos vencer!

Uma salva de palmas se iniciara. Gritos de “Rick Grimes”, “Aliança” e “Morte a Negan” começaram a reverberar. O policial havia conseguido dar o último empurrão motivacional que o seu exército precisava.

Andrea assistira ao discurso de seu companheiro com um amplo sorriso no rosto sardento. Apesar de já estar habituada, a loira comumente se via espantada com a monstruosa habilidade que Rick possuía com as palavras. Talvez ele assim o fizesse por realmente acreditar em sua retórica, por encontrar forças na chama de esperança que ele mesmo acendia dentro de si.

Ela também queria acreditar que tudo pudesse dar certo. Que tudo terminasse logo e que Negan encontrasse o seu fim sem que sangue da Aliança fosse derramado. Mas sabia que era impossível que isso ocorresse. Seria um massacre, para um dos lados ou até mesmo para os dois. Como Rick havia dito naquela manhã, não há como entrar em uma guerra sem ter baixas.

Ao lado da atiradora, Carl Grimes, sem os curativos, e agora utilizando os volumosos e compridos cabelos para cobrir o ferimento em seu olho, também assistira ao discurso de seu pai com certa empolgação.

O menino olhara os soldados, já tomando suas posições nos carros, e em seguida olhara para Andrea, ainda parada, apenas fitando tudo o que ocorria. Desconfiado, ele indagara.

— Você não vai?

A loira olhara para ele, sorrindo o máximo que seu rosto, ainda afetado pelos ferimentos de seu último embate, respondera.

— Ainda não estou boa o suficiente. Sinto como se tivesse sido atropelada por um caminhão! – Confessara – É melhor ficar aqui e te ajudar a proteger as coisas.

Carl parecera ainda mais confuso.

— Me ajudar?

— Claro! – Exclamara – Acha mesmo que ele me deixou no comando? Nada disso. Enquanto eu estava sendo espancada na torre do campanário, você estava aqui, organizando os atiradores e protegendo a comunidade! Você é o grande astro, moleque!

Sem jeito, o jovem Grimes abrira um acanhado sorriso.

— Até parece...

Andrea meneara a cabeça.

— Não acredita em mim? Então por que não pergunta para o seu pai?

Nesse mesmo instante o xerife aproximara-se da dupla, pronto para despedir-se antes de partir. Achegando-se a Carl, Rick lhe dera um forte abraço.

— Voltarei o mais rápido possível. – Ele ampliara ainda mais o afago – Mantenha tudo em ordem, ok? Eu confio em você. Sei que manterá todos em segurança.

— Vou sim, pai. – A voz do menino saíra levemente trêmula.

Rick então abraçara Andrea, beijando seus lábios.

— Ele vai ficar bem... – Sussurrara nos ouvidos no policial.

Grimes sorrira, meneando a cabeça de forma positiva.

— Eu sei. – Dissera, aproximando os lábios aos ouvidos da sardenta – Eu te amo, Andrea.

A declaração sincera e inesperada acendera o coração da sardenta. Após mais um beijo, dado com ainda mais fervor, os dois despediram-se e Rick finalmente seguira para o furgão, partindo junto ao pelotão que marcharia rumo à guerra.

Restava agora apenas torcer para que tudo saísse exatamente como planejado. Andrea não queria que aquele tivesse sido um adeus definitivo. Precisava acreditar que ele retornaria com vida.

Segurando fortemente uma das mãos de Carl, a sniper balbuciara entre os lábios, de olhos fechados, enquanto escutava o som do ronco dos motores se afastando dos portões de Alexandria.

Nós não morremos...

Nós não morremos...

Nós não morremos...

*****

O vento gelado soprara na nuca de Rick. Seus cabelos movimentaram-se ao bel prazer da ventania. Algumas nuvens cinzentas começavam a se formar.

Observando as ruínas da estrada que haviam tomado, Rick respirara o ar gelado da região, sentindo o seu coração bombear ainda mais sangue para sua corrente sanguínea. A adrenalina corria por suas veias como um dos carros da Nascar. Sentia-se pronto para tudo, com uma estranha sensação lhe rondando.

Uma confiança de que no final, quando tudo realmente acabasse, todos os sacrifícios teriam valido a pena.

Olhara então para o seu coto direito, lembrando-se da mão que lhe fora arrancada pela machadinha do Governador. Lembrara-se da morte da esposa e de sua filha Judith. Recordara-se de Carol, Tyresse, Hershel, Abraham... Maggie.

Grimes não tinha o direito de desistir. Precisava vencer a guerra, ou então todas aquelas mortes teriam sido em vão. Precisava fazer tudo valer a pena.

Por aqueles que haviam partido. Por aqueles que estavam vivos. E por aqueles que ainda se sacrificariam.

— Só mais um quilômetro estrada a baixo. – Comentara Jesus, aproximando-se do líder da Aliança. O comboio parara por alguns instantes, dividindo os armamentos e munição, preparando-se definitivamente para o combate – Estamos perto.

O policial seguira fitando o inóspito horizonte. A desolação gritava em meio aquela terra sem leis. Um lugar abandonado por Deus e pelos homens. Fechara os olhos por breves instantes, o cenho firme, decidido.

— Ótimo. – Sua voz não demonstrara emoção – E como você está?

O barbudo colocara as mãos nos bolsos. Sem o gorro que comumente utilizava, seus lisos e compridos cabelos praticamente lhe cobria o rosto, ajudado pelo forte vento que ali soprava.

— Nervoso. – Respondera com sinceridade, também movendo os olhos em direção ao cenário destruído.

Ezekiel também achegara-se. Pela primeira vez sem cumprimentos expansivos e o largo sorriso que lhe era comum. Ele estava preocupado, o rosto sisudo, receoso com o resultado da investida.

— Os seus homens sabem vigiar, certo? – Indagara Grimes ao Rei – Andrea me disse que vocês possuem bons atiradores. Alerte a eles para nos avisarem caso vejam algo. Ficaremos vulneráveis ao snipers do Negan na primeira parte disso.

O mandatário do Reinado gesticulara de forma positiva com a cabeça.

— Meus homens já estão cientes... Estamos preparados.

Rick retirara sua arma da cintura, destravando-a habilmente.

— Está na hora. Vamos nos posicionar.

[...]

BLAM! BLAM!

Rick atirara duas vezes para o alto.

Ao lado do xerife, Ezekiel, Jesus, Michonne, Kal, Tom, Rosita, Holly, Alex, Lewis, Goodwin, Aaron e Eric formavam a linha de frente do Exército da Aliança. Em frente aos portões do Santuário, o xerife bradara pelo nome de Negan, solicitando que o déspota viesse até ele.

O estacionamento da fábrica, que servia de lar para os Salvadores, era protegido por uma alta cerca gradeada, que rondava todo o perímetro. Nesse muro, lanças de ferro com cabeças de errantes empaladas – e com alguns presos pelo tronco e cintura – eram utilizadas para afastar os frankies das redondezas. Além disso, carcaças de automóveis, hermeticamente posicionadas, formando uma espécie de labirinto, dificultava ainda mais qualquer aproximação que fosse impetrada.

Mas Grimes sabia o que fazer. Não haveria erros.

Daria certo.

— Negan! Apareça! – Bradara uma terceira vez.

Na sacada do segundo andar do prédio principal, o queixo erguido e seu bastão de baseball em mãos, Negan surgira, balbuciando algo que a distância o xerife não conseguira compreender.

— Que putaria do caralho é essa, Rick? – Indagara Negan, a plenos pulmões – Você está mesmo querendo saber quem tem o maior pau nessa porra toda? Não brinque comigo, você sabe que vai perder!

O policial abaixara sua arma, dando um passo a frente.

— Não é o que parece! – Bradara, fazendo-se ouvir – Isso não é uma ameaça, é uma oferta de paz! – Grimes olhara para os seus homens, a postos, as armas prontas para o embate – Somos três comunidades unidas para dizer a você e ao seu povo que estamos cansados de todos os desmandos! Não vamos mais dar suprimentos a vocês! Não vamos mais satisfazer as suas vontades! Esses dias acabaram!

— Mas não precisa ser um processo violento! Não precisamos mais derramar sangue! Estamos dando a vocês a chance de se renderem! – Rick notara que Negan rangera os dentes após a última frase – Sabemos que há crianças aí dentro. Pessoas que não fazem parte disso... Que não são Salvadores, que não atacaram e nem mataram ninguém! A vida deles será poupada. Eles poderão continuar vivendo como sempre viveram!

Negan girara o seu bastão no ar. Parecia absorto com a visão do batalhão da Aliança em frente a seus portões.

— É mesmo? – Ele tentara ironizar, mas a gravidade da situação não lhe permitira. O mandatário do Santuário, observando a tudo do alto de sua sacada, tentava manter uma postura impassível, mas sua surpresa com a mobilização dos Sobreviventes era visível – E quanto aos outros... Eu e o resto? Os Salvadores que mantiveram suas peles a salvo?

Rick renovara o ar em seus pulmões. O nervosismo havia desaparecido por completo. Naquele instante, sabia que nada poderia pará-los.

— Há muito tempo atrás eu criei uma regra. – O rosto do xerife ia escurecendo-se na medida em que o entardecer despedia-se, dando espaço para a negritude da noite – Agora eu acho que é a hora de finalmente aderir a ela... Se você mata, você morre!

O líder psicótico forçara uma gargalhada. Com a mão direita espalmada, Negan pedira que Rick aguardasse, enquanto ele caminhava de um lado a outro, como se estivesse refletindo a respeito da proposta que lhe fora entregue.

— Deixa eu ver se eu entendi essa porra... Eu e meus homens iremos nos render e vocês irão nos matar. – Ele tocara o próprio peito – Mas o restante das famílias que aqui moram poderão viver felizes para sempre, como na porra de um conto de fadas! Você acha mesmo que vamos fazer isso?

— Até que você é engraçado, Rickyzito. Porque é claro que isso só pode ser uma piada! Uma piada bem fodida! – Seu rosto trancara-se – E o que acontece se eu recusar sua proposta?

O xerife erguera sua pistola.

— O meu exército irá invadir o Santuário. Eu não sei o que ocorrerá, mas posso garantir que não será nem um pouco legal!

O Salvador coçara o queixo.

— Rick, Rick... Não seja tão estúpido! Acha mesmo que esse seu grupinho formado por contadores, advogados e fazendeiros irá mesmo conseguir atravessar os meus muros e matar todo mundo aqui dentro? Eu estou até inclinado a deixar você seguir com esse seu plano de merda, só para provar o quanto vocês são estúpidos para caralho! – Apontando para o xerife, Negan ampliara o seu tom de voz – Você sabe que eu não irei me render, mas também sabe que ficar aqui atirando um nos outros não será vantajoso para ninguém!

Rick Grimes voltara-se para Jesus, piscando duas vezes. Com um breve aceno, o diplomata transpassara que havia entendido o recado.

— Mas na verdade... – Negan retomara – Há sempre uma terceira opção. – O Salvador olhara para trás – Venha até aqui, agora!

Gregory, o líder fajuto do Alto do Morro, surgira na sacada da fábrica. Sendo puxado pelo Salvador, o sujeito bonachão parecia extremamente assustado, aterrorizado até. Seus olhos arregalaram-se ao avistar a quantidade de soldados que a Aliança conseguira reunir.

Rick sentira uma fisgada em seu peito. Por alguns instantes, poucos segundos, imaginara que todo o plano, que toda a esperança e toda a confiança que juntara em seu interior, seriam simplesmente jogadas fora.

Fechara então os olhos e respirara profundamente. Não poderia fazer nada. Restava apenas aguardar.

— Vamos, velhote, fale para eles! – Exigira Negan, puxando Gregory com maior violência.

— O Hill Top ficará ao lado de Negan e os Salvadores! – Exclamara, sem confiança alguma em suas próprias palavras – Se ficarem contra nós, não serão mais bem vindos! Suas famílias serão expulsas e terão que se virar por conta própria! – O homem gaguejara, olhando a todo o momento para o líder do Santuário, que sinalizava para que ele prosseguisse – Voltem para casa agora! Ou então não terão mais uma casa para retornar!

Negan largara o braço de Gregory.

— Ouviram o homem! – Vociferara, erguendo sua Lucille – Retornem enquanto vocês ainda tem a merda de uma casa para morar!

Kal, o lanceiro do Hill Top, fora o primeiro a afastar-se do grupo, cabisbaixo, sem olhar para o restante da linha de frente. Fora seguido por mais sete soldados, todos também residentes do Alto do Morro. Os demais permaneceram em formação, de armas em punho.

Nesse mesmo instante, Rick voltara-se para Jesus, aguardando que ele se manifestasse de alguma forma. Ao perceber que o barbudo permanecera firme ao seu lado, abrira um sorriso, estufando o peito e direcionando o olhar para Negan, que parecia visivelmente surpreso. Apesar da pequena baixa de combatentes, Grimes voltara a se sentir confiante.

Mesmo distante, conseguira ouvir o psicótico déspota esbravejar contra Gregory.

— Como assim, porra? Só oito caras? – O portador da Lucille segurava o homem pelo colarinho – Você me disse que eles eram pelo menos metade desse grupo! Você nem sequer sabia quantas pessoas do seu grupo estavam aqui! – Negan praticamente cuspia as palavras – Você é patético!

O Salvador dera alguns socos no sujeito, antes de jogá-lo ao chão. O chefe do Alto do Morro arrastara-se, adentrando o interior da fábrica. Negan não lhe dera muita atenção, voltando-se outra vez para Rick e sua tropa.

— Bom... – Ele tossira algumas vezes, calibrando o tom de voz – Devo dizer que isso foi no mínimo embaraçoso.

Rick erguera o coto, dando mais um passo a frente.

— A proposta ainda está valendo, Negan! Renda-se e não haverá sangue derramado!

O assassino bufava em ódio. Apontando para o policial com seu taco de baseball ornado, o Salvador vociferara, ainda mais alto que anteriormente.

— Eu analisei a sua proposta, Rickyzito! Estou pensando em uma resposta entre nem por um caralho e vá se foder fodasticamente!

Rick então mirara Jesus, sussurrando para ele que o “plano A” seria executado a partir daquele momento.

O primeiro disparo viera dos homens de Negan, provavelmente atiradores escondidos nas janelas dos andares mais altos. O disparo de fuzil acabara atingindo a testa de Eric, que fora ao chão, morto instantaneamente. Aos gritos de “abriguem-se”, Grimes começara a reposicionar os seus soldados, recolhendo-se atrás dos ônibus e automóveis da Aliança, que encontravam-se estacionados há alguns metros do campo de batalha.

Os snipers do Reino, treinados por Andrea e Tom, passaram então a caçar os atiradores contrários, exterminando-os um a um, enquanto o restante deles acabara sendo obrigado a se esconder.

Rick recolhera-se ao lado de Ezekiel e Tom, protegidos pela porta do ônibus escolar. Agachados, os três atiravam gradualmente, buscando atingir as vulnerabilidades do Santuário. Enquanto carregava sua pistola, Grimes traçara um panorama do combate, viajando com os olhos por toda a extensão do lugar.

Haviam quatro corpos de membros do seu exército, dois deles integrantes do Hill Top, que recusaram-se a deixar a batalha mesmo após as exigências impostas por Gregory. Morreram por provavelmente terem sido lentos demais no momento em que o tiroteio se iniciara.

Era possível enxergar também alguns corpos de Salvadores, principalmente dos atiradores de elite. Tendo conseguido minar o principal fator de contrataque do inimigo, Rick poderia finalmente pôr em prática a parte mais importante e ousada de seu plano. Mas para isso, precisava aguardar a chegada de um reforço de última hora.

— Tom... – Rick gritara, chamando a atenção do soldador – Siga como combinamos! Mire nas janelas! – O homem obedecera, descarregando o seu pente em direção as janelas dos andares mais altos da fábrica – ABRIR FOGO!

Assim como haviam combinado, todos os soldados sobreviventes passaram a atirar não nos homens de Negan, mas sim – de forma aleatória – nas janelas, nos muros, nas paredes de concreto do grande prédio sede do Santuário, e até mesmo nas próprias carcaças dos carros. Tudo o que pudesse fazer a maior quantidade de barulho possível.

— Os famintões estão ficando malucos! – Bradara Tom, apontando para os errantes empalados na murada do Santuário. Todos de braços esticados, ouriçados por conta da enorme confusão causada pela tropa dos Sobreviventes.

— Essa é a intenção! – Dissera Rick, carregando outra vez sua arma – Ezekiel! – O rei olhara para Grimes, aguardando as instruções – Busque as caixas restantes de munição no ônibus! Vou precisar de cobertura!

O homem arregalara os olhos. Os disparos continuavam ecoando, intermitentes.

— Tem certeza que dará certo? – Indagara.

Já acostumado a manusear sua pistola com apenas uma das mãos, Rick colocara um novo pente rapidamente em sua rurger. Ouvira ao fundo um som motorizado, a princípio apenas um ruído, mas que fora tomando forma a partir do momento em que se aproximara. Uma carreta, com a frente e os pneus protegidos contra os tiros por placas de metal, e um grande compartimento de carga na traseira.

Ela atendera ao chamado, não abandonara a Aliança.

O xerife deixara um sincero sorriso brotar em seu rosto. Tudo estava dando certo, tudo estava saindo como esperado. Conseguira pegar o canalha do Negan desprotegido, atingindo-o em cheio. Bastava agora dar o golpe final.

— Dará certo sim! – Exclamara. Voltara-se para todos os atiradores, ordenando – TODOS JUNTOS! PROTEJAM O CAMINHÃO! DESCAREGUEM SUAS ARMAS! COBERTURA!

Os disparos se ampliaram ainda mais. Não havia mais resposta dos Salvadores, que provavelmente ainda estavam tentando entender a estratégia adotada por Grimes e seus homens, que não haviam parado de atirar um só instante. Ele correra em direção à carreta, que agora manobrava, posicionando-se da melhor forma.

Protegendo-se ao máximo, o xerife conseguira chegar até o caminhão, já estacionado, com o compartimento de carga direcionado para os portões do Santuário. A porta do monstruoso veículo se abrira, e dela, Eloise McIntyre, portando uma shotgun apoiada por sua prótese engenhada no braço esquerdo, saíra, acompanhada por Hanso, Bill, Olga e Elizabeth Penn.

— Cheguei a pensar que você iria desistir. – Comentara Rick.

A mulher respondera com a mesma seriedade que lhe era natural.

— Jamais deixaria os louros apenas para você, senhor Grimes! – Os dois se encararam por um breve momento – Está pronto? – O xerife meneara a cabeça positivamente – Hanso, faça as honras!

Assim que a Imperatriz do Garden solicitara, o corpulento austríaco dirigira-se até a porta do compartimento de carga, e com o seu machado de lenhador, arrebentara as correntes que o trancava.

— Afastem-se! – Vociferara o homem.

Assim que a porta se abrira, pelo menos uma centena de mortos caminhantes, que se encontravam aglomerados no interior da carreta, começaram a caminhar em direção as cercas do Santuário, atraídos pelos disparos direcionados pela Aliança. Outros errantes, vindos da redondeza, também passaram a se dirigir aos portões, fazendo com que uma horda começasse a bloquear todas as entradas e saídas do território de Negan e os Salvadores.

Exatamente como Rick Grimes planejara.

Ok, já basta! – Exclamara o policial, sem conseguir tirar os olhos da colossal quantidade de monstros que começava a caminhar em direção ao covil inimigo – Cessar fogo! Entrem nos ônibus, agora!

Com o sotaque caipira carregado, Bill Flod, com um rifle de assalto em mãos, questionara, também impressionado com a funcionalidade do plano traçado.

— Tem certeza que já é o suficiente, oficial?

— Se continuarmos, não vamos conseguir sair daqui! Acredite, com a quantidade de barulho que fizemos, os errantes que estão em um raio de quilômetros serão atraídos para cá! – Ele então prosseguira gesticulando, como um general comandando um exército – Entrem nos ônibus, agora! Precisamos ser rápidos! Temos de nos abrigar antes que eles consigam responder!

A tropa começara a se deslocar para os veículos. Os feridos, poucos até, eram carregados a um dos ônibus do Reino, onde Rosita, com equipamentos médicos emergenciais, começava a realizar os procedimentos de primeiros socorros. Os mortos também eram recolhidos, levados para que pudessem ter um enterro digno. Grimes vira quando Aaron, aparentemente em choque, carregara o cadáver de Eric em seus braços.

James Goodwin, que abrigara-se em um ponto estratégico, apenas para observar e conter qualquer tentativa de saída dos homens de Negan, organizava agora a saída do comboio, exigindo pressa, antes que uma ação de revide pudesse ser impetrada pelos Salvadores.

Rick vira Michonne e Ezekiel adentrarem uma das SUVs, juntos e vivos. Ficara mais tranquilo ao atestar que as baixas haviam sido ínfimas se comparadas com a grandiosidade do que haviam acabado de realizar.

Saindo por último, o caminhão do Garden posicionara-se de forma estratégica, já que suas placas blindadas serviriam de proteção ao comboio caso houvesse um ataque pelas costas.

Mas ainda restava um último ponto. A última cartada a ser dada.

Tomando o caminho contrário de todo o grupo, Rick Grimes correra até um dos veículos, exterminando alguns caminhantes que haviam cruzado o seu caminho, tentando devorá-lo. Abrira a porta de uma velha camionete Ford, e após respirar profundamente, tomara o banco do motorista, pronto para executar a última etapa do complexo plano.

Hey! O que você está fazendo?

O xerife fora surpreendido por Holly, que partira em sua direção, impedindo-o de dar a partida.

— Se abrigue em um dos ônibus! – Exclamara Grimes – O comboio já está partindo! Logo os Salvadores começarão a atirar outra vez! Isso só vai funcionar se os portões forem arrombados, Holly!

Mas a mulher parecia reticente.

— E por que é você que tem que fazer isso? – Puxando um facão da cintura, a ex-namorada de Abraham eliminara dois famintões que tentaram atacá-la – Você não pode se sacrificar desse jeito!

Grimes então respondera.

— Eu sou o único que pode fazer isso! Eu sou o único que Negan não mataria!

Ele entrara novamente no veículo, girando a chave e ligando a camionete. Mas um puxão em sua camisa não permitira que o ato fosse concluído. Holly conseguira retirá-lo do interior do automóvel, jogando-o ao solo e o atingindo com uma joelhada no meio das pernas.

— Desculpe, Rick, não posso permitir que faça isso! Aquele maldito matou Abraham! – Seus orbes encontravam-se tomados pelo ódio – Se alguém deve se sacrificar para que o império dessa canalha caia, esse alguém sou eu!

A mulher acelerara a velha Ford, atingindo em cheio os portões, retorcendo o metal e arrebentando todas as trancas, fazendo com que a entrada do Santuário ficasse totalmente exposta. Ela ainda perdera o controle batendo com violência contra uma das colunas do estacionamento no interior do território Salvador. Estava agora entregue a própria sorte, cercada por todos os lados.

O ato impensado atraíra ainda mais a atenção dos errantes, que agora se espremiam para conseguir entrar no Santuário. A horda só aumentava de tamanho, e os grunhidos ensurdecedores, que reverberavam com uma ópera saída do inferno, deixavam o cenário cada vez mais perigoso e aterrador.

Rick erguera-se lentamente, atirando em quatro mortos-vivos que, com os braços esticados, quase haviam conseguido tomá-lo como presa. Abrindo espaço com sua pistola e em seguida a machadinha que sempre carregara consigo, Grimes fora lentamente avançando, tentando deixar o lugar condenado. A essa altura o comboio da Aliança já havia partido, e o xerife encontrava-se totalmente abandonado.

Abandonado em território hostil e extremamente perigoso.

Mas ao olhar para trás e atestar o verdadeiro caos que conseguira produzir contra Negan e seus homens, sentira-se totalmente satisfeito, independentemente do que iria ocorrer a partir daquele momento.

Sentira que a primeira batalha havia sido vitoriosa, e que aquela guerra podia sim ser vencida. Sentira que o desenho de um novo mundo, um mundo sem os Salvadores, começa a se tornar palpável, deixando o campo dos sonhos. Sentira que um mundo melhor estava pouco a pouco se aproximando.

Mas principalmente, sentira que havia feito valer a pena.

Notas finais
E então, o que acharam? RIP Eric... E RIP para mais outros três figurantes hehe... Finalmente tivemos a primeira batalha! Quero saber o que acharam de toda essa ação no final! No próximo capítulo teremos o desenrolar final dessa batalha e, é claro, as movimentações para o contrataque de Negan! Ah, e para quem gosta do Glenn... Acho que já estou falando demais hehe... Nos vemos nos comentários! Moi moi.