All Of The Ways
5 Flash Mich
Notas iniciais
Suspirei enquanto Amanda gritava no telefone por eu ter esquecido que ia sair com ela e Trent.
–Me desculpa! Eu tava com um amigo acabei me distraindo e...
–Um amigo? Do tipo macho?
Dei risada.
–É, por que a surpresa?
–Não se faça de boba, quem é ele?
–Tyler.
–Ah, pensei que fosse o “menino do cangote”.
–Ei, esse apelido é meu! E ele não é meu amigo.
Mandy deu uma sonora gargalhada e só parou quando começou a engasgar.
–Como você é infantil, eu sei o nome dele, mas ele me disse que você não quer saber o nome dele, então eu não vou falar. De nada.
–Bem, obrigada então.- dei risada.-E desculpa de novo!
–Blá blá blá, tá bom Ashton, você vai esquecer de novo provavelmente, então nem adianta pedir desculpas, cabeça de vento.
–Ei!-eu falei com falsa indignação, o que a fez rir.
–Mas então, sunshine, quem é esse Tyler?
–Um cara que mora pelas redondezas.
–Ele é da nossa faculdade?
–Pra falar a verdade, eu não sei.
–Que bela amiga.
Revirei os olhos
–É que...Na verdade não somos “amigos”.
–O que? Você mal chegou na cidade e já pegou ele?
Dei risada.
–Valeu hein, eu não sou assim, estúpida. O que eu quero dizer é que nem conheço ele direito pra ser meu amigo.
–Mas é gatinho?
Franzi a testa.
–Que diabos de diferença isso faz?
–AAAA Ashton! Pare de bancar a santinha! Pelo amor de Deus!
Dei risada e me sentei na escada de casa, observando as folhas do outono caírem do lado de fora.
–É, bem bonito, mesmo.
–Mais do que o menino do cangote?
–Ahn... Eu sei lá.Não fiquei comparando os dois.
Eu apostava cinco dólares que naquele momento Amanda tinha revirado os olhos.
–Escute, freira, eu preciso desligar. Vou passar a noite com o Trent.
–Certo, manda um alô por mim.
¨¨¨
Eu estava deitada lendo quando Tessa enfiou a cabeça pela porta e veio me desejar boa noite. Nossa relação tinha melhorado muito depois do susto que tomei quando achei que talvez tivesse chance de perder ela, ou de que ela se machucasse (quando os dois caras entraram em casa). Antes ela era sempre um amor comigo, e eu totalmente o contrário com ela, já que guardava rancor. Bem, tudo isso pelo meu pai...Mas isso já é outra história. Agora eu aprendi a parar de reclamar dela, percebi que pelo menos eu tenho ela. Eu podia não ter. E já não ter o meu pai é definitivamente o suficiente.
Sempre que tocavam em qualquer assunto relacionado a pais eu ficava transtornada, perturbada, arrasada. Um ponto é fato: as pessoas não falam muito da figura masculina da família, ou seja, o pai. E apesar do sentimento de angustia que toma meu peito quando falam sobre pais, eu preferiria que falassem mais. Tudo é mãe, mãe e mãe. O pai também é muito importante. E eu daria tudo para ter o meu de volta.
O meu pai me ajudava com as tarefas, me ensinou a tocar piano, violão, andar de cavalo, jogar basquete, e o principal: me levou na minha primeira corrida. Meu pai ia nas reuniões escolares, meu pai me levava pra brincar nos parques. Minha mãe também era presente, claro. Mas a minha conexão com meu pai era tão forte quanto um tsunami, quanto um tornado.
Pensando no meu pai, as lágrimas quase vieram. Mas eu não ia chorar. Sempre que eu sentia vontade me lembrava de um trecho de um livro muito importante pra mim:
“Se havia algo que lhe destacava, era um certo distanciamento, um frio autocontrole. Ninguém lhe incutira isso; ele parecia ter nascido assim. Quando seu cachorrinho, Chopper, fora atropelado, ele insistira em ir com a mãe ao veterinário. E quando este dissera: "Preciso colocar seu cachorro para dormir, rapazinho. Você entende por quê?", Mark dissera: "Você não vai colocar ele para dormir. Você vai matá-lo com gás, não é?" O veterinário disse que sim. Mark lhe disse para continuar, mas antes beijou Chopper. Sentiu tristeza, mas não chorou. Sua mãe chorara, mas três dias depois já havia esquecido Chopper. Mark nunca o esqueceria. E esse era o valor de não chorar. Chorar era como deixar vazar os sentimentos no chão.”
Chorar era como deixar vazar os sentimentos no chão.
Suspirei, já tinha deixado o livro de lado assim que Tessa entrara, e agora minha vontade de ler se fora também, então me levantei, apaguei a luz e me joguei na cama, deitada de lado, fiquei apenas olhando o céu escuro pensando em Hans, meu querido pai.
¨¨¨
Acordei com o megafone do inferno, no caso, meu despertador. Eu estava me perguntando se daria tempo de correr, até que ouvi uma buzina do lado de fora. Franzi a testa e me levantei, fui descendo as escadas e xinguei, já que o chão estava congelante e eu descalça. Pulando nas pontas dos pés fui até a porta e a abri. E o que eu encontrei lá, melhor, quem eu encontrei lá eu definitivamente não esperava.
Engoli em seco vendo sobre os ombros dele uma moto preta parada em frente de casa. Era uma moto igualzinha a que meu pai me dera. Mas que diabos? Por que estou tão melancólica? Eu devia sorrir com coincidências como essa.
–Você está bem?- perguntou o menino do cangote erguendo uma sobrancelha.
Olhei pra ele fazendo cara feia e cruzando os braços.
–O que você quer? Veio aqui olhar meu pescoço de novo?
Ele deu risada e se apoiou no batente da porta.
–Bom dia pra você também, Ash.
Revirei os olhos e dei uma olhadela de novo na moto. O que eu pensei ter sido uma olhadela foram na verdade minutos seguidos. Um largo sorriso se espalhou pelo meu rosto, e era assim que tinha que ser, lembrar do meu pai, sorrir.
O menino do cangote viu o que eu estava olhando e um sorriso de canto surgiu na sua face.
–Bonita ela né?
Sai de casa e fechei a porta.
–Vem cá.
Peguei o pulso dele e o arrastei até as escadas da entrada de casa, mas quando meus pés (nota: que estavam descalços) tocaram o chão totalmente frio dei um gritinho abafado, provavelmente ridículo, fazendo com que o menino do cangote risse, voltei rapidamente para as escadas que não estavam tão geladas quanto o concreto.
Ele me olhou com uma expressão divertida então do nada se agachou rapidamente pegou meus joelhos e me jogou como se eu fosse um saco de batatas sobre o ombro dele, fiquei de ponta cabeça estupefata.
–Mas que merda...? Menino que não sei o nome!! Me solta!
Ele gargalhou.
–Onde a senhorita quer ir?
–ME SOLTA!
–Não.
–Qual é o seu problema?- falei numa voz cheia de raiva.
Ele riu.
–Vai logo Ashton, para de ser mimada.
–O que? Eu sou mimada agora? Valeu!
Ele começou a tremer de tanto rir. Qual era o problema dele? Meu deus!
–Você vai falar onde quer ir, ou vamos ficar aqui até a gente se atrasar pra aula?
Bufei e tentei falhamente dar socos nas costas dele. E pareceu que meus “socos” fizeram cosquinhas nele.
–A garagem. Só me leve pra merda da garagem!
Ele caminhou até lá comigo ainda nos ombros dele. E então me colocou no chão.
Fiquei saltitando de frio nos pés tirando risadas dele enquanto tentava achar o controle escondido do portão da garagem. Quando achei cliquei e pronto.
O portão se abriu e minha moto totalmente igual a dele estava ali. Ele me olhou surpreso.
–Você anda de moto?
–Ando.
Ele sorriu e caminhou até ela se agachando para dar uma olhada melhor nos detalhes.
–Como ela está tão novinha? Tem certeza que você anda com ela?- ele debochou.
Eu tinha corrido pra dentro da garagem assim que o portão abriu e fiquei parada em um tapete, tentando descongelar meus pés. Apoiei o peso do corpo na perna esquerda, e depois na direita, e revezei assim umas três vezes, incomodada com a pergunta.
Acho que não era a reação que ele esperava, já que se levantou e se aproximou olhando nos meus olhos.
–O que foi Ash?
Sorrir com memórias e tudo ligado ao papai. Sorrir com memórias e tudo ligado ao papai. Sorrir com memórias e tudo ligado ao papai.
Repeti isso como um mantra em minha cabeça, e quando me senti melhor suspirei e sorri, e foi um sorriso verdadeiro.
–Bem, essa foi a moto que meu pai me deu, então... -Comecei a explicar e não parei mais. Tenho certeza que meus olhos brilharam enquanto eu falava do meu pai. Contei do porque dele me dar a moto, dele tentando me ensinar, e falei que infelizmente meu pai havia falecido e esse tinha sido um dos presentes mais importantes, então minha querida Harley não podia ter nem um arranhão. Por isso eu não iria para a faculdade com ela, se eu estacionasse em um lugar errado, boom, ótimo jeito de um babaca de ressaca não se tocar e bater nela ou algo do tipo.
Ele ficou sorrindo.
–Bem, então você está fazendo um ótimo trabalho cuidando dela. E já que você não usa ela pra ir pra faculdade, eu posso te dar uma carona, que na verdade foi o motivo de eu ter vindo aqui, já que vi como você chegou correndo outro dia na faculdade.
Dei risada.
–Fala sério, eu devia estar charmosa correndo daquele jeito toda desengonçada e com pressa.
Ele riu.
–Já tomou café da manhã?
–Eu ia correr antes de tomar café, mas certas pessoas me interromperam.
–Você corre todo dia de manhã?-ele perguntou surpreso e assenti- É por isso que é rápida daquele jeito!
–É, mas enfim, eu vou tomar meu café, tire seu traseiro daqui.
Não esperei resposta dele e corri para as escadas da entrada gritando de frio por dentro. Entrei em casa e me sentei confortavelmente, mas antes disso voei escada acima em busca de meias, quando estava prestes a pegar o cereal a campainha tocou e minha mãe que estava descendo as escadas –mas por que diabos ela sempre levanta cedo quando não deve?- foi abrir a porta.
Bufei. Oh, droga, que ótimo.
–Bom dia Ashy, tem ideia de quem seja na porta?
–Infelizmente sim, mãe, você não precisa abrir! É sério!
Ela franziu a testa e abriu a porta. O menino do cangote sorriu pra ela e olhou para mim.
–Oi Ashton. Quanto tempo.
Revirei os olhos e comecei a preparar meu cereal, fingindo que ele não estava ali, o que o fez dar risada.
–Então, Sra.Rutherford, eu vim ver se a Ash não quer carona.
–Gentileza sua. E então Ash?
–Não, eu quero ir correndo.
No momento usei isso como desculpa, mas na verdade, não deixava de ser verdade, já que ele tinha eliminado a possibilidade de eu ter minha corrida matinal, e minha mochila estava no meu armário da faculdade (os alunos que não moravam no campus tinham direito a um armário) — ou seja, eu não teria problemas em ir correndo.
Minha mãe deu de ombros e olhou como se fosse um pedido de desculpas para o menino do cangote. Amém, ela estava colaborando, ou pelo menos era o que eu achava.
–Uh...Então tudo bem. Te vejo na faculd- Então, a minha querida mãe tinha de estragar o negócio todo.
–Não! Espera ai. Quer entrar e tomar café conosco?
O que?! MÃE, VOCÊ NÃO ESTÁ MAIS COLABORANDO!
–O que? Mãe!
–Claro, Sra. Rutherford. Obrigado.
Revirei os olhos. Quem diabos ele pensa que engana com esse jeito de bom moço fajuto?
Minha mãe sorriu e saiu da frente da porta para que ele passasse.
–Viu como ele é educado, Ashy? Siga o exemplo.
Bem, pelo visto, enganava minha mãe.
Não respondi, apenas fechei a cara. Deus, isso podia ficar pior?
–Ah, Ashton, troquei o turno de tarde pelo da manhã, então estou indo. Tchau crianças.
Sim, podia ficar pior, Ashton. Sem minha mãe aqui as gracinhas seriam infinitas, que ótimo jeito de começar o dia.
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