All Of The Ways
12 Banks & Rutherford
Notas iniciais
Era quinta-feira, e como combinado, iríamos enterrar seu pai. Tecnicamente, já tínhamos prolongado isso até demais... Mas pelo menos assim conseguimos avisar a todos os que se importavam.
O humor estável do m.d.c. obviamente não estava presente um pouco antes do funeral. Eu estava em um vestido preto, sentada na minha bancada, em casa, mexendo em uma pulseira que eu usava sempre, pensando. Tessa estava fazendo uns bolinhos e um cheiro maravilhoso cercava a cozinha.
— Tem certeza de que esta tudo bem?
Que cacete de pergunta era essa? Respirei fundo, e olhei para cima.
— Isso realmente está com um cheiro bom, Tessa.
Ela me olhou, séria.
— Não mude de assunto.
Sim, mãe, está tudo bem. O pai de um amigo meu morreu e agora parece que esse meu amigo morreu também, um cara quase fez coisas esdrúxulas comigo bem na frente da casa do pai desse meu amigo, mas está tudo ótimo! Não se preocupe!
Bufei, ela não tinha como saber sobre o que tinha acontecido comigo. Não era culpa dela. Aliás, ninguém sabia, além do m.d.c. Nem mesmo Mandy sabia. Então apenas me foquei em mexer na minha pulseira.
— Sim.
***
Uma batida soou suave na porta e Tessa foi abrir. Ouvi uns murmúrios, levantei a cabeça e minha mãe abraçava o m.d.c.
Engoli em seco e ele me viu. Depois de mais umas palavras de conforto de minha mãe — as quais eu não ouvi, já que ela falou em um tom para que somente ele ouvisse — ela subiu as escadas e ele veio até mim.
Seu rosto estava meio rosado/vermelho em volta de seus olhos. Como se tivesse chorado. Ele estava em um terno, e seu cabelo, todo bagunçado.
Engoli em seco de novo, mordi o lábio, nervosa, até ele estar parado em minha frente. Eu estava sentada, olhando para frente, tecnicamente agora para a barriga dele. Levantei meus olhos, semi marejados, e o abracei.
***
Eu estava de pé na grama, um padre falava certas coisas que eu não ouvia muito bem, e o m.d.c. estava ao meu lado. Olhei para ele, que parecia mais irritado do que triste.
Mandy, Trenton, e minha mãe estavam presentes. Além de vários — mais do que o esperado — conhecidos do Sr. Banks.
Segurei a mão do m.d.c. e a apertei de leve. Ele me olhou, e perguntei sem som “O que há?”. Ele me olhou e apertou minha mão um pouco mais forte. O abracei de lado, meio sem jeito. Eu esperava choro, ou algo do tipo, mas acho que ele deixava isso para o privado.
A terra logo cairia sobre o bonito caixão marrom de mogno escuro. Joguei uma rosa branca sobre ele, na minha vez, e murmurei baixinho; “Eu gostaria de ter te conhecido, Sr. Banks”.
Uma voz grossa me assustou no mesmo instante.
— Eu também.
Dei um pulinho e olhei para o m.d.c. Ele sorriu, triste, e pegou na minha mão. Nos dirigimos um pouco para o lado, dando espaço as outras pessoas que queriam se despedir.
***
Minha mãe já tinha ido embora, assim como Mandy e Trenton. Eu estava sentada na grama, ao lado do m.d.c., que sentado também, olhava fixamente para baixo.
— Banks? — chamei baixinho.
Ele riu fraco.
— Agora alguém sabe meu sobrenome, hein?
Ri baixinho e apoiei a cabeça em seu ombro.
— Fiquei surpresa de ninguém te chamar pelo seu nome hoje, achei que ia acabar descobrindo. — fingi decepção e ele sorriu.
— Eles me chamaram pelo meu nome, mas, incrivelmente, apenas quando você não estava por perto.
— Mas eu não sai do seu lado!
Ele pegou na minha mão e me olhou.
— Eu sei babygirl, foi só por telefone.
Ri fraco e ele me puxou mais para seu lado.
— Você quer que eu te leve para casa? Não está cansada?
— Estou.
Quando ele começou a seguir o caminho para minha casa dei um puxão no seu terno e falei um pouco alto, pelo vento:
— Onde você está indo?!
— Para sua casa?
— Não, Banks! Vá para a sua!
Ele desacelerou um pouco, e como a rua estava vazia e silenciosa, pôde se virar um pouco para mim. Sua face demonstrava confusão.
— O que?!
— Você ouviu!
Ele franziu as sobrancelhas, não respondeu mais, mas deu a volta na rua, e assim começamos a nos dirigir para sua casa.
Chegando lá me deparei com o carro de Trenton em frente ao apartamento do m.d.c. Mandy estava encostada nele, Trenton também. Ela tinha uma mochila minha de couro nas mãos.
Desci da moto e corri até ela.
— O que diabos é isso?
Franzi a testa. Ela sorriu.
— Nós sabíamos que você ia fazer isso, Ashy. — Trenton comentou.
Eu franzi a testa e sorri. Olhei para os dois. Como eles sabiam?
Peguei a mochila, e me virei para o m.d.c. que havia se aproximado.
— O que há?
Trent deu um abraço nele, e Mandy fez o mesmo. Eles fizeram o mesmo comigo, com a diferença de que Trent bagunçou meu cabelo, para variar, e então os dois saíram sem dizer nada. O m.d.c. franziu a testa e olhou para mim.
Coloquei minha mochila sobre um ombro meu e sorri para ele. Estendi a mão.
— E ai, a gente vai entrar ou não?
Caminhamos até a entrada juntos, de mãos dadas, subimos as escadas, ele abriu a porta e na hora Beau voou para cima dele. Dei uma risadinha e entrei atrás deles, fechando a porta atrás de mim.
Depois que o Beau havia se acalmado e o m.d.c. conseguia falar sem um borrão branco pulando em cima dele, ele se virou para mim, que estava sentada no sofá, e se sentou próximo.
— O que é essa mala?
— Eu vou ficar.
— Como assim? — ele começou a sorrir. Muito.
— É simples, Banks. Eu vou ficar até você estar tão normal que ria até do vento. Enquanto você estiver depressivo, eu não vou embora.
Ele riu e balançou a cabeça.
— Você não existe.
***
Olhei minha mala e tinha roupa para uns cinco dias. Dei risada, eu não ia ficar por tanto tempo assim.
O que eu falei era verdade: eu não ia embora, até ele não estar no estado eu-vou-me-matar. Mas eu tinha certeza que ele ia vestir a carapuça de durão, e realmente tentar superar aquilo rapidamente, por mais difícil que fosse.
Eu estava sentada na cama que eu já dormira uma vez, senti que havia alguém ali e levantei os olhos. Ele me olhava do batente, apenas com uma calça moletom, apesar do frio.
Ele deu um sorrisinho e deus três batidinhas no batente.
— Posso entrar?
Eu ri.
— Hum...Não.
Ele entrou e se sentou ao meu lado.
— Você prefere dormir nessa?
Ele tinha duas camas de casal. Fiz que não e levantei, pegando minha mochila.
— Não senhor, pode ficar.
Ele assentiu e murmurou um “ok”.
Eu estava saindo do quarto, mas parei ao ouvir a voz grossa dele.
— Mas você já vai dormir?!
Eu me inclinei para dentro, apoiada no batente, olhando para ele.
— Não.
Voltei a posição normal e me dirigi até o banheiro do outro quarto. Entrei e boom: sem chuveiro. Meus ombros caíram e revirei os olhos. Por que, Deus?!
Voltei caminhando até o quarto dele e ele arqueou uma sobrancelha.
— Você tem uma toalha? E sinto muito, mas já te informo, eu vou tomar banho primeiro.
— Eu nem vou tomar banho, você vai de novo?
Dei de ombros.
— Eu gosto de banhos.
Ele riu.
— Agora faz sentido você estar absolutamente sempre...Cheirosa. — ele murmurou.
Franzi a testa pra ele.
— Você vai me dar uma toalha ou não?
***
A água quente caia sobre meu corpo, comecei a cantar baixinho Hallelujah, do “Panic! At The Disco”, quando a música na minha cabeça acabou, parei estática.
Oh meu Deus, o que eu estava fazendo? Eu simplesmente ia ficar na casa dele? E se ele não melhorasse rápido?
Tentei me acalmar.
Isso é normal. Isso é normal. Isso é normal. Eu só...quero ajudar um amigo.
Depois de uns dez minutos de água quente caindo na minha cabeça e eu estática no meio do box, me acalmei, e voltei a cantar, dessa vez Doubt, do "twenty one pilots".
Saí do Box e dei uma olhada na mala. Ok, estava tudo ali. Eu realmente amava a Mandy.
Depois de trocada/perfumada/etc. penteei meus cabelos e saí, descalça, a procura dele. Ele estava na cozinha, sentado no balcão, e quando apareci, nem notou. Ele estava olhando para o nada em particular.
Parei na frente dele e virei um pouco a cabeça, o olhando.
— Você tem um secador?
Ele olhou para mim e coçou a cabeça.
— Uh...Não.
Me sentei do lado dele.
— Você não está com frio?
Cutuquei o abdômen desnudo dele.
— Não, pra falar a verdade, eu nem percebi que estava assim.
Oh, ele estava mal. Cruzei as pernas, nervosa, e depois descruzei, balançando elas no balcão. Mordi o lábio e olhei para ele.
Ele pegou na minha mão.
— Está tudo bem, babygirl.
Era engraçado, eu estava ali para consolar ele, mas ele que estava me acalmando. Tirei minha mão debaixo da dele e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo alto.
Pulei do balcão e comecei a fuçar na cozinha dele. Ele apenas assistiu.
Quando achei o que eu precisava, me virei para ele com leite condensado em uma mão.
— Você gosta de brigadeiro de panela?
***
Estávamos sentados, com dois potes de porcelana cheios de brigadeiro, os dois de pijama — ele resolveu colocar uma blusa, para o bem da minha sanidade mental — assistindo o filme Amizade Colorida.
No final do filme eu só fiquei sorrindo que nem boba enquanto os créditos passavam na tela.
Ele me viu assim e deu risada.
— O que foi?
— Nada, é que eu fodidamente amo esse filme.
Ele me olhou sorrindo e então meu telefone tocou.
— Onde você está?! — minha mãe perguntou antes mesmo de eu sequer dar oi.
— O que? A Amanda não te falou?!
Ela riu e fiquei perdida.
— Falou, eu estou brincando.
Dei risada. Que boba.
— Tudo bem por ai, rapariga?
Dei uma risadinha e falei que sim. Conversamos um pouco, o m.d.c. apenas relaxou no sofá e ficou ouvindo eu responder minha mãe.
Desliguei o telefone e olhei no relógio.
— Onze horas.
— Você gosta de xadrez?
Meu sorriso ficou enorme e dei de ombros, como quem diz “é...nada demais”.
***
Depois da terceira partida em que eu ganhava dele, ele soltou um muxoxo.
— Xeque mate. — eu cantarolei.
— Não acredito! — ele se levantou e pegou uma almofada, batendo de leve em mim.
Dei uma risadinha e fiz um “L” na minha testa. Falei sem som para ele “Loser”. Ele me olhou sério. Correu até mim que nem um touro e me derrubou no chão. Começou a fazer cócegas em mim e minha barriga doeu de tanto rir.
***
Já era depois da meia noite, disso eu tinha certeza. Terminei meu brigadeiro e voltei para a sala. Ele dormia deitado no chão e na TV estava passando um episódio da série Salem¹. Murmurei um "credo" para a TV e a desliguei. Eu ia me dirigir para meu quarto, mas quando fui passar do lado dele, ele segurou meu tornozelo. Quase infartei e chutei ele.
— Idiota!
Ele se levantou sorrindo e me abraçou.
— Boa noite para você também, Ashy.
***
Meu despertador bipou e uma música do Tokio Hotel começou a tocar.
Murmurei um “inferno, não”. Eu definitivamente não estava afim de ir para a aula. Era sexta-feira. Já fazia dois dias que o pai dele se fora. Ele definitivamente não ia, mesmo que o humor dele estivesse surpreendentemente estável.
Me arrastei para fora da cama, e quando abri a porta do meu quarto, Beau estava sentado abanando o rabo para mim. Dei uma risadinha e me sentei no chão, brincando com ele.
Depois da minha ótima recepção da manhã, me dirigi ao banheiro, seguida por Beau. A higiene matinal estava feita e ainda assim parecia que eu mal havia aberto os olhos. Me arrastei até a cozinha em busca de cereal. Encontrei, felizmente, e me sentei no balcão, comendo.
Eu teria que passar em casa para pegar meu material. Droga.
Eu não tinha pensando nisso.
Uma mensagem de Mandy chegou — eu sabia pelo toque especial — e fui até meu celular, que estava no sofá da sala.
Oi sunshine, só pra vc saber, se n for hoje eu pego a matéria e te passo, ok? Hoje temos exatamente as msmas aulas.
Eu estou indo. Mas obrigada, mi amour. — respondi e taquei o celular no sofá. Terminei de comer e me arrumar e bufei, indecisa, eu pedia a moto do m.d.c. emprestada ou ia a pé?
Chequei o quarto dele, e ele estava dormindo. Merda, eu não ia acordar ele.
Peguei um post-it colei na maçaneta da porta de entrada.
Fui pra facul.
Ashy
Dei um beijo em Beau e me preparei para caminhar até minha casa. Munida com um GPS nas mãos, já que eu não sabia de cor o caminho da casa do m.d.c. até a minha. Eram 5 quilômetros. Eu ia definitivamente alugar uma bicicleta dessas que bancos alugam, segundo o GPS, havia um desses lugares para alugar a apenas um quilômetro dali.
Sentei na bicicleta e pedalei até em casa. Encontrei Jack e mamãe no sofá, e sorri. Os dois dormiam. Nas pontas dos pés subi as escadas e peguei tudo. Ia ser meio difícil me equilibrar na bicicleta com aquele peso, então deixei a bicicleta em casa (eu tinha alugado por 24h) e fui a pé até a faculdade.
***
Sai da aula de biologia e soltei um muxoxo olhando para a calçada. Mandy e Trenton ainda estavam em aula, então, não, eu não ia conseguir uma carona.
Meu celular vibrou e olhei para a tela.
Babygirl, vc quer que eu te pegue?
Banks
Dei um sorriso aliviado e digitei rapidamente.
Não é problema?
Ele respondeu que não.
Estou esperando no portão principal.
Mais ou menos 15 minutos depois, o som familiar da moto chamou minha atenção e caminhei até ela
— Oi.
— Por que não me acordou para te trazer? Como você veio?
— Achei que você não ia querer levantar aquele horário só pra isso. E vim de bicicleta e depois a pé.
Ele me puxou pela minha blusa, segurou na minha cintura e me deu um beijo estalado na bochecha.
— Não seja boba, babygirl.
Montei atrás dele e apoiei meu queixo em seu ombro.
— Boba?
— Você pode me acordar a hora que quiser. Eu não ia morrer por uma carona.
— Tá, mas qual o propósito de faltar na aula e acordar cedo?
Ele riu e deu partida.
— Não sei, dar carona para alguém que eu gosto?
Não respondi e simplesmente revirei os olhos.
— Pare de revirar os olhos. — ele murmurou olhando para a frente.
— Como você...?
Ele riu e colocou a moto em movimento, sorrindo.
— Eu apenas sei.
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