Notas iniciais
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Aquela era a minha última chance de escapar. Eu não tinha muito dinheiro, então não podia ir muito longe, não tinha um lugar para me esconder e nem um amigo para me ajudar.

Mas isso realmente pouco importava. Nada me faria desistir de fugir. Nada.

Coloquei meu jeans e vesti meu suéter favorito. Fazia um pouco de frio nessa época do ano, prendi meus longos cabelos negros num rabo de cavalo desajeitado, deixando minha franja solta e calcei meu par de tênis.

Antes de sair, encarei meu quarto, eu sentiria a falta dele. Minha mala de mão estava pronta, escondida com cuidado embaixo de minha cama. Peguei-a e conferi se tudo estava certo. Eu tinha colocado poucas coisas nela... Algumas peças de roupa, um livro, meu celular e algum dinheiro, caso eu precisasse pegar um trem ou qualquer outro tipo de transporte.

Girei devagar a maçaneta e na ponta dos pés, comecei a descer á escada. A sala de estar estava escura e gélida, como eu esperava. Respirei fundo e coloquei ás mãos na maçaneta.

- Vai á algum lugar, Marianne? – a voz de minha mãe soou severa aos meus ouvidos. Apertei meus olhos e me virei lentamente. Ela estava sentada em sua poltrona, com a luz do abajur acesa.

- Oi mãe.

- Você não respondeu minha pergunta. Vai á algum lugar?

- E-eu estava indo... correr.

- Correr? – ela sorriu, fria e irônica – Ás 4h37m da madrugada?

- É que...

- E esta mala? – ela se levantou, puxando a mala de meus ombros, abrindo-a.

Respirei fundo e pressionei as palmas das mãos contra o rosto. Minha boca estava seca e meu coração batia tão forte que parecia sacudir minhas costelas.

- Você ia fugir!

- Desculpe mãe.

- Eu desconfiava, mas não acreditava que você seria capaz.

- Não quero deixar a Califórnia.

- Eu sei que não, mas o que diabos você estava pensando? Sair por ai com essa pouca quantia em dinheiro e estas peças de roupa, pensava que era mais esperta Marianne.

- Eu só queria poder fazer minhas próprias escolhas! – aumentei o tom de voz.

- Nossa mudança é necessária.

- Necessária? É isto que eu não entendo. Porque mãe, porque é tão importante voltarmos para La Push?

- Volte para o seu quarto, e não tente nem por um segundo fugir, estarei de olho em você.

Marchei de volta para meu quarto. Joguei á mala no chão, soltei o rabo de cavalo e tirei os tênis com meus pés.

Deitei em minha cama, afundando a cabeça em meu travesseiro. Eu estava com tanta raiva! Eu queria poder arrancar a cabeça de alguém, soltei um grito abafado e coloquei meus fones de ouvido. Adormeci minutos depois.

Acordei ás 7h00m da manhã, com meu despertador tocando. Geralmente eu acordava àquela hora para ir ao colégio, mas eu tinha sido transferida para á escola da reserva de La Push. Pelo menos nessa parte eu estava completamente neutra, odiava com todas as forças minha antiga escola. Na verdade, eu nunca tive amigos, nunca fui a popular da escola.

O que me deixava realmente chateada era deixar á Califórnia, eu amava o clima, o lugar, ás praias ensolaradas, tudo. Sai de meus devaneios e desliguei o maldito despertador.

Fiz minha higiene matinal e desci as escadas, indo para a cozinha, onde estavam minha mãe, meu pai e minha irmã mais nova.

- Bom dia – mamãe sorriu se virando e me dando um beijo estalado na testa.

- Bom só se for para vocês.

- Marianne, eu sei que não está nada satisfeita com a mudança, mas é realmente importante.

- Ok, eu sei.

- Mareesha, você já desceu suas malas? – minha mãe perguntou á minha irmã.

- Eu tentei mamãe, mas eu só tenho dez anos, não sou tão forte ainda.

- Hector, desça ás malas das meninas, está bem?

- Certo, querida.

Assim que terminei de comer, subi para meu quarto e desci eu mesma minhas malas, odiava esperar pelos outros.

- Você desceu as malas sozinha?

- Sim, Mareesha.

- Como você conseguiu?

- Tenho dezessete anos, acho que sou forte o bastante para isso.

- Mesmo assim, você não deveria conseguir descer essas escadas enormes com quatro malas, você é menina e meninas são mais fracas.

- Essa é a sua opinião, eu digo que meninas são mais fortes.

- Mais fracas, papai é menino e é mais forte que a mamãe, que é menina.

- Parem de discutir vocês duas – papai falou descendo as escadas com as malas de Mareesha.

- Papai, vamos andar de avião agora?

- Daqui a pouco querida. Ellie, vamos logo!

- Eu já estou indo Hector, para de me apressar mas que coisa.

*

Eu odiava andar de avião e passava mal na maioria das vezes que o fazia. Corri para o banheiro assim que aterrissamos no pequeno – lê-se minúsculo – aeroporto de Port Angeles. Sai do banheiro depois de quase colocar meu café da manhã para fora. Estávamos esperando a pessoa que ia nos buscar, afinal, nosso carro já estava em nossa nova casa.

- Querida, tudo bem? – escutei minha mãe me chamar. – Tá, estou bem. Quem vem nos buscar?

- Sam Uley, um velho amigo de seu pai, talvez se lembre dele.

- Eu tinha a idade de Mareesha na última vez que viemos aqui mãe, não me lembro de muita coisa – falei rude, respirando e tentando reprimir a raiva que senti naquele momento, ultimamente eu tinha raiva de tudo e de todos.

- Marianne, não fale nesse tom com sua mãe. Vamos, am está logo ali.

Peguei minha mala, meu carrinho e o de Mareesha e levantei. Papai pegou o carrinho com suas malas e o de minha mãe – que carregava Mareesha adormecida nos braços.

O tal Sam Uley era alto e forte, tinha os cabelos negros e usava roupas leves demais para o clima. Ele cumprimentou meu pai com um abraço, sorriu para minha mãe e passou ás mãos no cabelo de Mareesha.

Quando chegou minha vez, ele me lançou um olhar, como se soubesse algo sobre mim que nem eu mesma sabia. E isso me incomodou. Muito.

- Lembra-se de Marianne? – papai falou enquanto me abraçava pelos ombros e me empurrava discretamente até Sam.

- Lembro, claro. Você cresceu.

- Pois é – murmurei, forçando um sorriso.

A viagem até La Push foi silenciosa, pelo menos para mim, papai e Sam tagarelaram o caminho todo. Fechei meus olhos e respirei fundo três vezes. Eu já sentia falta da Califórnia.

Nossa nova casa era pequena. Tinha uma sala, uma cozinha, uma lavanderia, três quartos e um, repito, um banheiro.

Meu quarto era um pouco menor que o da Califórnia, tinha uma cama de casal, um guarda-roupas, uma escrivaninha e algumas prateleiras. Fiquei no meu quarto pelo resto do dia, arrumei minhas roupas no guarda-roupas, coloquei meus livros nas prateleiras, meu notebook na escrivaninha e ajeitei algumas outras coisas.

Quando terminei, deitei em minha cama e comecei a ler meu exemplar de Razão e Sentimento, da Jane Austen.

- Filha, sua mãe está chamando para o jantar – papai falou colocando a cabeça dentro do meu quarto.

- Não estou com fome.

- Tudo bem, mas será que pode descer? Seus primos e sua tia estão ai.

- Ahn... está bem, vou tomar um banho e já desço.

Eu queria muito recusar e ficar quieta em meu quarto, mas lembrei-me de quando tio Harry morreu, não pude vir para dar apoio, então teria de ser razoável. Tomei banho e coloquei uma roupa apresentável porém simples e então, desci. Meio receosa fui até a cozinha onde estavam todos.

- Querida, ai está você! – mamãe sorriu animada. Encarei tia Sue, Leah e Seth e sorri. Leah era mais velha que eu, então eu lembrava vagamente dela, já Seth e eu costumávamos brincar juntos quando eu vinha para cá.

O jantar se seguiu com Sue conversando com mamãe e papai, Seth devorando toda a comida e eu e Leah em completo silêncio. Terminei de comer e subi para meu quarto.

*

Acordei sentindo falta dos raios de sol entrando pela janela e o calor natural que emanava na Califórnia. Passei as mãos pelo rosto e levantei indo preguiçosamente até a janela, abri a cortina e me deparei com árvores e mais árvores.

Bem-vinda á sua nova realidade Marianne.

Soltei um muxoxo e segui até o único banheiro da casa, tomei um banho demorado e coloquei meu jeans skinny acinzentado, uma blusa xadrez, e uma jaqueta de couro bege por cima, nos pés, minha bota cano médio sem salto. Prendi meus longos cabelos negros num coque e deixei a franja solta. Desci e fui para a cozinha, onde todos tomavam o café da manhã.

- Bom dia, meu amor! – mamãe falou sorrindo.

- Bom dia, mãe.

- Bom dia,minha princesa.

- Bom dia, papai.

- Querida, seu pai vai tratar de negócios em Port Angeles e eu vou com sua irmã até Forks fazer a matrícula dela, vai conosco ou quer ficar?

- Quero ficar, claro. Mas espera, Mareesha vai estudar em Forks?

- A escola primaria da reserva está sem vagas.

- Ótimo, grande mesmo, Mareesha estudando na “civilização” enquanto eu serei obrigada á estudar na escola da reserva.

- Já conversamos sobre esse assunto.

- Sim, já conversamos.

- Aonde vai?

- Vou para o meu quarto, perdi a fome – falei, saindo da cozinha.

- Filha, nós já estamos indo.

- Ok.

- Seth está lá embaixo.

- Diga a ele que já desço.

- Se forem sair, deixe um bilhete.

- Como se tivesse algo para fazer nesse fim de mundo, me poupe. Tchau mãe – revirei meus olhos azuis e abri a porta do quarto. Minha mãe deu risada e saiu.

Esperei o carro dos meus pais virar a esquina e só então desci. Seth me esperava sentado no sofá com cara de tédio, usava uma camiseta de mangas curtas e uma bermuda. Meu Deus, esse garoto não sente frio? Estou congelando! Pensei.

- Oi, Seth.

- Oi – ele sorriu e se levantou, me envolvendo num abraço de urso. Como ele podia ser tão forte com apenas quinze anos? Talvez Mareesha tivesse razão, meninos são realmente mais fortes.

- Então, o que te traz á minha humilde residência?

- Vim te chamar pra dar uma volta, não tem muita coisa por aqui, mas é melhor do que ficar em casa sozinha e sem nada pra fazer.

- Ahn, muito obrigada Seth. Foi muito legal da sua parte pensar assim, mas eu não to muito afim de sair.

- Vamos vai, pelo menos uma volta na praia.

- Hmm... uma volta na praia? Ok, vamos.

*

- Faz bastante tempo que não vem aqui, não é? – Seth disse. Estávamos sentados em umas pedras, perto do mar.

- Eu tinha dez anos na última vez.

- Sente muita falta da Califórnia?

- Bom, digamos que as praias são mais ensolaradas – demos risada – Sim, eu sinto. Mas não é como se eu tivesse tido uma vida extraordinária lá, eu sinto falta do calor, da minha casa, e principalmente do meu antigo quarto, mas é só isso.

- Acho que entendo, mas aqui é legal, sério. Acho que você pode gostar daqui.

- Não tenho tanta certeza.

Ficamos algum tempo caminhando pela praia e quando decidimos ir embora encontramos uns amigos de Seth. Eram todos muito iguais, o mesmo cabelo preto e curto, todos fortes e altos e usavam as mesmas roupas leves de Seth. Ok, qual é o problema com esse pessoal de La Push? Pensei.

- Marianne, esses são meus amigos: Jared, Quil, Paul, Jacob e Embry. Galera, essa é Marianne, minha prima que chegou da Califórnia.

- Eu já tinha ouvido que as garotas da Califórnia são bonitas, mas não imaginava que fosse tanto assim – o garoto que eu achava se chamar Embry falou, me fazendo baixar os olhos de constrangimento.

- Oh, mais respeito com a minha prima, seu assanhado.

Enquanto Embry e Seth discutiam, eu parei para observar melhor os garotos. Todos eram muito bonitos, mas um deles me chamou mais atenção. Ele encarava o mar com um ar pensativo e triste, como se alguma lembrança o machucasse. Ele era lindo, os cabelos negros arrepiados, numa bagunça muito... sexy, os olhos eram pequenos e negros como a noite, era bem mais alto que eu e tinha um físico magro porém era forte e musculoso. Eu só queria que ele se virasse e me olhasse. E como se pudesse ler meus pensamentos ele se virou para mim e uma coisa estranha aconteceu, o garoto me olhou, totalmente paralisado. Uma sensação me invadiu, uma estranha e boa sensação, o ar faltou em meus pulmões e eu sorri automaticamente para ele. Então ele sorriu de volta e foi como se eu o conhecesse á minha vida toda, quando percebi que aquela situação estava totalmente estranha, balancei a cabeça em negativo e falei em baixo tom para Seth que precisava ir embora.

- Nós precisamos ir agora, amanhã a levo na Emily para vocês se conhecerem melhor.

- Foi um prazer conhecer vocês.

- Vê se aparece – Embry sorriu para mim, sorri fraco de volta.

- Eu apareço sim.

Caminhei de volta para casa com Seth ao meu lado.

- Seth, qual o nome daquele garoto, que estava quieto?

- Ah! É o Jake, Jacob Black, ele é assim mesmo. Porque a pergunta?

- Somente curiosidade – sorri.

Voltei para casa cheia de pensamentos, todos eles envolviam Jacob Black.

Notas finais
Espero quem tenham gostado, deixem um comentário. Beijos.