All I Want (EM REENCONSTRUÇÃO) 04/2020
31 Capítulo 30
Notas iniciais
Óbito
Alexia
Morte... O que entendemos de morte? Só sei que quando falamos de morte há um talvez.
Talvez a vida realmente começa quando morremos. Talvez quando morremos, somos enviados para protegermos alguém no mundo. Talvez quando morremos, continuamos na Terra vagando pelas ruas, pelo mundo sem rumo. Talvez você seja julgado pelas coisas que fez durante a sua vida toda, e é mandado para o céu ou para o inferno. Talvez você tenha uma nova chance para recomeçar e nasce de novo. São tantos ‘’Talvez’’ que o talvez é a pior das prisões.
A morte me lembra de um bocado de coisas. Depois da despedida, fica o eco de Adeus, mas nunca sabemos se o adeus é eterno. Mas o Adeus silencioso do papai foi eterno.
Lembrei-me de um poema que li para sala. Se não me engano, o autor é Mário Quintana.
‘’Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce — uma estrela,
Quando se morre — uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!”.
É um belo poema eu diria. A morte é só uma mudança. A morte faz parte da vida. Depois dessa fase, passamos por outras fases, creio eu.
O que eu quero dizer é que tudo que eu disse agora foi tudo que eu pensei quando recebi a notícia. A pior notícia. E eu sabia que nunca seria a primeira de única, mas sim primeira de muitas.
***
Aaron
Ver Alexia na cama do hospital tomando soro há quase 8 horas me preocupou. E de alguma forma, não sei por que, eu me lembrei da Úrsula. Minha Úrsula. Sentia mal agora. Eu precisava contar para Alexia. Apesar de que não era nada demais, eu precisava contar, senão será um peso que carregarei para o resto da vida. Mas não contarei agora.
Levantei da cadeira e sai do quarto caminhando até a cantina. Demorei um pouco, pois tinha fila.
–Uma água, por favor. –Eu não sei consolar as pessoas, eu não faço a mínima ideia de como animar uma pessoa nessa situação. Senti uma vibração no meu bolso e logo sabia que era o meu celular. Olhei para o retrovisor, e vi um nome de uma pessoa que não a via há muito tempo. Desde que mudei, na verdade.
Matt.
–Brô, caralho! Quanto tempo, velho! Cara, sei que prometi te ligar, mas porra! Fiquei de recuperação e tive que estudar pra cacete! –Matt sem falar palavrões e gírias, não é Matt. –Passei raspando, finalmente livre. Mas e aí Brô, como que você tá?
–Cara, quanto tempo. –Respondi. –Mas você ligou na pior hora. –Completei.
–Não me diga que estou atrapalhando algo? –Revirei os olhos quando ele completou com malícia.
–O pai da minha namorada morreu. –Soltei. –Eu te ligo quando as coisas acalmarem, beleza?
–Pô Brô! Foi mal. Beleza, mas tenho que te contar uma coisa. Até. –Desliguei e fiquei encarando o celular. Qual a novidade do ano?
Olhei para cima encarando a janela do quarto de Alexia. As coisas não precisavam chegar a esse ponto.
Quando entrei no quarto, paralisei. Alexia tinha acordado. Não sabia o que fazer. Dei alguns passos lentamente, parando na sua frente. Ela estava deitada, me encarando, sem expressão nenhuma. Antes, pálida, agora estava um pouco corada. Sentei devagar, e não deixei de olhar seus olhos uma vez sequer.
–Eu sabia que ele iria morrer. –Ela disse tão baixo que quase não a ouvi. –Só que você não espera isso. É uma coisa que você procura não pensar. Todos nós vamos morrer, eu sei, vamos deixar nossos filhos, nossos primos, nossos colegas. Isso eu sei, mas a vida não é justa. Sei isso há tempo. Só que... Precisava ser agora? Justamente quando eu sou campeã? Quando eu estou feliz? Não pode ser quando estou dormindo ou almoçando, ou no meio de uma aula tediosa? O Seth... Não gostava dele, mas se meu pai melhorasse, ou feito cirurgia, de uma coisa eu tenho certeza, ele iria se consertar. Ia está mais presente, ia parar de beber, não ia bater mais em mim ou na mãe. –A essa altura, ela já estava chorando. Tentei interromper, mas ela negou. –Não faça isso, há tempo que estou guardando isso. Meu pai foi um canalha? FOI! Mas ele é pai, ele deve ter tido uma infância ruim, ou sei lá. Ele merecia uma segunda chance. Apartir de hoje, quem vai me levar para o altar quando me casar? Meu pai nunca poderá conhecer seu neto. Nunca verá o Seth virar adulto, ter sua primeira namorada, ou ter seu primeiro emprego. Ver como isso dói? –Assenti, puxando seus braços e abraçando. Ficamos alguns minutos assim. –Fala alguma coisa.
–Não sou bom para dar conselhos. –Disse frustrado. Não consigo nem ajudar minha própria namorada.
–Compete comigo. –Olhei nos seus olhos. Fiquei confuso. –Fale sobre algo que aconteceu. Alguém morreu. Ou sobre a separação dos seus pais. –Ela sussurrava, logo me abraçou, deixando sua cabeça descansar no meu ombro.
–Você lembra aquele dia que fiquei sumido? Você ficou com raiva de mim... –Ela mexeu a cabeça e entendi com um ‘sim’. –Aquele dia foi o aniversário da Úrsula. Minha melhor amiga. Ela se suicidou. Acho que foi por minha causa. Nós sempre fomos amigos. Desde sempre, eu acho. Nossas mães eram amigas e um dia nos apresentou. Ela era uma garota suicida, depressiva. Se automutilava, e tomava comprimidos para morrer. Já a salvei duas vezes. Jogávamos videogame, futebol, trabalhos, fazíamos praticamente tudo juntos. Só que ela tinha um sentimento a mais por mim. Ela confessou que me amava, porém a rejeitei. Confesso que nunca a vi como menina. Ela se afastou de mim e começou a me ignorar. Tentei retomar a amizade, mas ela não queria. Foi quando depois de alguns dias, me contaram que tinha se suicidado. A escola sabia que ela gostava de mim e ficaram contra mim. Mudei de escola e fiz novos amigos.
Duas rochas foram retiradas das minhas costas por Hércules.
Alexia me abraçou mais forte e me olhou sorrindo fraco. Deu um beijo na minha bochecha. Porém ela começou a chorar.
[...]
***
Alexia
No mesmo dia, eu tive alta. Meus olhos estavam inchados, ardendo e pesados. Lembro que dormi no colo de Aaron no carro, e acordei na minha cama. Minha mãe e Seth me encaravam chorosos. Tentei resistir, mas não consegui. Comecei a chorar e eles me abraçaram.
–O velório vai ser amanhã. –Minha mãe disse um pouco rouca.
Lá do alto, eu ouvi
Os anjos cantarem essas palavras para mim (ooh, ooh)
Coincidentemente, o dia nasceu nublado. Banhei e usei meu vestido branco solto, e desci para cozinha, comendo apenas maçã. Levantei para acompanhar minha mãe, mas ela não quis. Disse que os parentes estavam lá fora, e que eu tinha que levar o Seth para casa do amigo dele. No mesmo instante, a campainha tocou revelando pessoas que não conhecia. Devem ser parentes do meu pai. Nunca os conheci.
Seth desceu as escadas e fomos para rua, mas antes despedimos das visitas. O caminho foi silencioso, exceto pelos carros que passavam, vez ou outra. Chegamos a um apartamento e o avô do amiguinho já estava nos esperando.
–Bom dia senhorita Alexia e Seth. Meus pêsames. –Apenas sorri e dei um beijo na bochecha de Seth. Voltei mais devagar, pensando um pouco na vida. Eu teria que ir ao cemitério de ônibus. Uns 15 minutos depois, o ônibus chegou.
Eu desabrocho e morro
Mande sua tempestade e seus raios para que me atinjam
Ver aquelas pessoas sentadas me encarando, fez que um nó surgisse na minha garganta. Paguei a passagem e sentei em uma das cadeiras vazias. Saber onde o ônibus me levaria fez que eu começasse a chorar. Coloquei minhas mãos na cabeça e tentei segurar o choro. Falhei miseravelmente. Senti um par de braços me abraçando e olhei para cima. Coxinha me abraçou e eu chorei nos seus braços durante todo o trajeto. Sabia que os passageiros nos encaravam, mas não ligava para isso.
Não tinha muitas pessoas no velório. A maioria eu não conhecia, e nesse momento também não queria conhecer. Coxinha olhou para mim e me deu beijo na testa, indo juntar com minha mãe. Eu sei o quanto ele gostava dela. Depois de alguns minutos ele voltou e me encaminhou até um banco afastado de todos.
Aaron e Lauren chegaram depois de algumas horas, eu os amo. Ficaram comigo o tempo todo.
No meio dos olhos
E chore
O enterro foi doloroso. Só eu e minha mãe choramos. Foi aí que percebi que meu pai não foi muito amado. Não é porque eles não choraram, mas vi nos seus rostos, a impaciência. Um deles até revirou os olhos. Acho que o Aaron percebeu, pois ele entrou na minha frente e bloqueou a minha vista. Ele faz carinho levemente pelos meus pulsos e percebi que estavam fechados com força. Enquanto via meu pai sendo enterrado, um poema veio a minha mente.
A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.
O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.
E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.
Fernando Pessoa
♫♫♫♫♫♫
UM MÊS DEPOIS...
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