All I Want (EM REENCONSTRUÇÃO) 04/2020
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Forte ou fraca?
Pi...Pi.Pi. Pi...Provavelmente usei uma onomatopeia para imitar o barulho dos batimentos cardíacos do aparelho. Era a terceira vez que eu visitava meu pai. Ás vezes, ele acordava e chamava minha mãe, mas logo depois desmaiava.
Quando recebi a notícia, procurei manter calma, mas eu já estava chorando. Eu não iria estragar o dia do Seth. Depois de várias tentativas de parar, eu consegui. Pedi Aaron que me levasse para hospital e ele pegou a bicicleta da irmã de Zac. Quando estava na rua, Seth apareceu.
–Ale? Você vai embora? –Minha mente estava bloqueada. Não conseguia pensar em nada. Eu só encarava o rosto de Seth. Sentia-me vazia.
–Ai garotão, vamos dar uma voltinha, conversar em um lugar mais reservado. –Acho que Aaron piscou para meu irmãozinho e ele acreditou. Naquele minuto, o selinho não tinha importância. Apenas meu pai, mesmo ele sendo ruim. Seth acenou e o Aaron pedalou.
O estado que o papai se encontrava estava instável. Mas eu estava preocupada. A noite estava estranha. Eu estava fora de mim. Sentada do lado dele, eu ouvia sussurros no corredor do hospital. Eu ouvia a respiração do meu pai. E ele não acordava. Os tubos que estavam conectados a ele me incomodavam de alguma forma. E ele não acordava. Ouvi a maçaneta ranger e uma pessoa tinha entrado. E ele ainda não acordou. Papai estava pálido.
–Você deve ser a Alexia, filha de Higor? –Senti minha cabeça se mover. –Sou Fred, o médico que está cuidando do caso do seu pai. –E de novo minha cabeça se moveu. –Quantos anos você tem?
–17.
–Sua mãe foi para casa, e deixou que eu te avisasse se estivesse uma notícia nova. Podemos conversar no corredor? –Ele abriu a porta e meus pés ganharam vida. Eu estava longe da Terra. –O estado do seu pai está instável, mas fizemos exames e descobrimos que ele tem um problema de coração.
E foi aí que meu mundo caiu, ele estava doente por causa de bebidas. Comecei a chorar alto e o médico tentou me acalmar, pena que falhou. Meu corpo enfraqueceu e o médico me ajudou a sentar em uma cadeira vazia. Por que a vida é difícil? Por que existem tantas dificuldades? Por que a dor sempre tem que ir até a mim?
–A cirurgia terá que ser paga.
[...]
Pai seja forte, porque tenho medo de te perder. Mesmo você sendo ruim, mesmo que você não saiba ser pai, eu continuarei te amando. Para sempre.
Tinha amanhecido e minhas costas doíam por ter passado a noite com ele. A cadeira não é lá muito confortável. Ele ainda não tinha acordado. Esfreguei meus olhos quando começaram a arder e sai do quarto indo para cantina.
Esse inverno não tem fim.
Há uma semana que o inverno tinha começado. Nevava e segundo as previsões, só terminaria no final do próximo mês. O Dr. Fred pegou o copo de café no balcão e se virou para mim.
–Como você pagará?
–Me dê três meses.
–Ele não vai viver isso tudo. –Assim que ele disse isso, a raiva subiu, eu o odiava por ele achar que meu pai não terá capacidade de lutar, de vencer.
–Me dê um mês. –Pedi. Ele olhou para mim desconfiado. –Quanto preciso?
–Quinze mil dólares.
***
Aaron
Já fazia uma semana que Alexia não comparecia na escola. As pessoas me perguntavam, mas eu dizia que não sabia. Dois dias depois de ter levado-la para hospital, ela me pediu que contasse para o Seth. Não foi fácil, mas diferente da Alexia, Seth não chorou. Eu acho que ele não curtia muito o seu pai, mas cara, ele é o pai. Eu não sabia nada sobre sua família, então não podia contestá-lo.
Não sei o Zac sabia, mas se ele sabia, ele estava fingindo muito bem. Queria visita-la, mas ela pediu que cuidasse do Seth e eu cuidei. Sua mãe estava acabada, eu tentava conversar, porém ela não queria papo. Ela agia como robô. Tomava banho, fazia comida, dormia e chorava. Não mudou uma vez sequer. Tornou rotina.
Vez ou outra, a Yasmin visitava o Seth e fazia companhia. Ela estava melhorando aos poucos, não me xingava ou fazia suas loucuras. E as suas roupas estavam coloridas agora, usava vestido toda vez que ia á casa do guri. Era apenas fase como meu pai disse.
Lauren estava no lugar de Alexia, no grupo de dança e faltavam apenas três meses. E eles não tinham uma dança definida.
[...]
A escola estava comentando sobre Alexia ter vindo finalmente na escola. Fiquei feliz com isso, fazia três semanas que eu não a via. Porém, ela estava cabulando as aulas. Ela cabulou as duas primeiras. No terceiro, fui procurá-la. Ela precisava de mim, eu sei que precisava, alguma coisa me diz que algo tinha piorado. Encontrei-a no Jardim da escola sentada no cantinho. Quem passasse por ali, não veria ela.
Ela estava com a cabeça abaixada em cima dos seus joelhos que estava sendo abraçados por ela mesma. Ela estava silenciosa. Ajoelhei a sua frente e coloquei minhas duas mãos nos seus braços. Ela levantou a cabeça lentamente. Estava pálida e seu olhar estava vazio, indiferente. Ela não desviou do meu olhar nenhuma vez.
Qualquer palavrinha dita pode fazê-la chorar. Preferi ficar em silencio. A palavra é prata, o silêncio é ouro. Meu avô me disse isso quando era pequeno. É a mais pura verdade.
Meus joelhos começaram a ficar dormente, então sentei ao seu lado. Depois de alguns minutos, ela virou o rosto a minha direção e parou de abraçar os joelhos. Seus braços agora estavam cruzados e seus joelhos alongados.
–Meus braços. –Ela sussurrou. –Veja.
Ela estava usando jaqueta. O que teriam nos seus braços? Tirei sua jaqueta devagar e observei seus braços. Não tinha nada de diferente. Eu a olhei, e ela encarava as plantas a sua frente.
Ela usava bastante pulseiras. Eram lindas e belas. O que tinha de extraordinário nos seus braços eram as pulseiras. Talvez eu devesse tirá-los. Eu a olhei novamente e ela não tinha movido um músculo sequer. Tirei quatro pulseiras e sua pele estava um pouco vermelha. E fui tirando tudo. Até seu braço estar completamente nu. Ela se automutilava. Seus pulsos estavam completamente cortadas. Estavam vermelhas e com sangue seco. Foi recente. Talvez ontem ou hoje mesmo.
Lembranças surgiram de repente.
–Eu odeio essas menininhas com frescurinhas. –Minha mãe chegou do trabalho irritada.
–O que aconteceu? –Eu tinha doze anos. Meus pais estavam juntos e brigavam pouco.
–A filha da Bruna, a que trabalha comigo, está internada. Sabe por quê? Porque foi fazer cortezinho no braço. Ah pelo Amor de Deus!
Ás vezes, minha mãe exagerava, apelava. Eu discordava a maioria de suas opiniões.
–Sabe quem são essas pessoas? São pessoas com mentes fracas. Isso é falta de surra. Ganha as coisas de mão beijada, e vai se cortar? Ninguém merece! Tem pessoas com problemas maiores. Tem gente que não tem braço, é mudo, mora na rua, passa fome. Igual no Haiti aconteceu terremoto e agora não têm casa e comida. Isso que é triste. Na África, os meninos passam fome, dá pra ver seus ossos. Isso que é triste. Uma surra bem dada e eles param com mimimi.
Eu queria ter discordado dela, mas eu tinha doze anos, provavelmente ela diria que não tenho maturidade pra falar de nada.
Eu alternava o olhar do braço para seu rosto, do rosto para o braço.
–Preciso de quinze mil dólares para pagar a cirurgia. O médico me deu um mês para arranjar o dinheiro. Meu pai foi diagnosticado com problema no coração.
Alexia aguentava tudo. Simplesmente tudo. Ela se cortava para tentar tirar a dor.
–Alexia. –Comecei. Eu tentaria. –Ninguém vale o seu sangue. Os seus problemas não vale o seu sangue. A vida tem obstáculos. A vida está te testando o quanto você aguenta. Eu me importo contigo. Sua família se importa contigo. Seus amigos se importam contigo. Você é importante para vida de todos. Você é amada. Você é forte. Cortes não curam a dor interior. O tempo cura. Larga isso que você está se cortando, lâmina, faca, vidro. Só larga. Ela só vai te fazer mal, Alexia. Procure um apoio. Eu posso ser seu apoio. Quando você quiser chorar, chore. Se quiser conversar, converse. Não guarde nada para ti, princesa. Enfrente os problemas. Você vai cair, mas também vai levantar e viver a vida. Você é melhor que isso.
Ela estava chorando. Eu devia ter ficado em silêncio. Devia ter ficado. Ela sorriu chorando e me abraçou forte.
–Obrigada. –Sussurrou. Fiquei alguns minutos a encarando. Peguei uma pulseira e a coloquei. Mas ela tirou. –Eles irão me conhecer verdadeiramente. –Senti um ‘mas’ ai.
–Mas?
–Eles terão pena de mim.
–Não. –Respondi sério. Peguei sua mão e beijei cada um dos seus dedos. –É agora que você vai descobrir quem são seus amigos. Você nasceu de novo morena. Está na hora de enfrentar seus problemas e ser feliz.
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