All I Need Is You
1 Oneshot
Notas iniciais
Ali sentado, olhando para as várias telas holográficas a sua frente, um vazio assolava o soberano dos Nasods. Sua vingança já havia sido deixada de lado, mesmo que fora isso que lhe levara a conseguir concluir seus objetivos, se alimentando do próprio ego em querer mais poder para concluir tal objetivo. Finalmente já possuía a força pela qual tanto procurou e almejou. Porém, isso não parecia ser o suficiente para lhe satisfazer. Não mais. Sentia que faltava algo, algo em sua vida que não encontraria naqueles dados. Algo que lhe intrigava por não conseguir descobrir o que era.
Frustração.
Não era permitido a um nobre se sentir de tal forma pequeno a ponto de ser atingido por um sentimento de tão baixo nível. Já tinha o supremo conhecimento sobre os Nasods, sua arma finalmente estava completa, poderia enfrentar qualquer inimigo que ousasse atravessar seu caminho. Até mesmo caçar Eve, algo do qual não havia aberto mão, mas que também não lhe excitava mais. Então por que se sentir de tal forma?
Talvez uma nova ocupação lhe arrancasse aquela vontade de socar as telas, algo que não faria, nem mesmo se fosse possível… Mesmo não pertencendo a uma classe realmente nobre, se sentia como tal. E também agia da mesma forma. Acabou suspirando enquanto ajeitava o rabo-de-cavalo, e voltou a se concentrar. Ou pelo menos tentar isso. Apesar de sua inteligência memorável, também havia se tornado preguiçoso.
Enquanto seus dedos se prendiam naquelas letras que digitava, formando códigos muito conhecidos, resolveu desenvolver uma nova teoria. Estava cansado de sempre pesquisar sobre as mesmas coisas e a Nasod, Eve, era algo que deixaria cair em desuso, por enquanto. Algo pairava em sua mente, um universo que havia descoberto enquanto mexiam em códigos muito antigos que nada tinham a ver com a raça que estudara até então.
Logo sua sede de informação se fazia presente novamente. Se focaria nisso. Seu passado tinha inúmeras lacunas que talvez pudessem ser preenchidas. Ainda queria voltar lá, mesmo que o futuro lhe parecesse muito mais tentador. Se trancou ali, ignorando chamados e missões. Para quem vivera tanto tempo de tal forma, poderia muito bem passar mais uns quantos anos sem contato com o mundo. Embora isso nem viesse a ser necessário.
*** -- ***
Pouco mais de três meses haviam se passado. Continuava ali, ignorando qualquer tentativa de contato com o mundo externo. Aquela biblioteca havia sido seu refúgio por inúmeros anos, e continuava desempenhando bem tal papel. Porém, também retinha suas angústias, e seus mais bem guardados segredos. Se sentia só.
Mesmo com toda sua frieza, era capaz de se sentir o mais solitário dos homens, mesmo que evitasse contato por vontade própria. Não admitiria tal coisa, mas era algo do qual não conseguiu se livrar até então. Nessa manhã estava realmente cansado e acabou dormindo sem dar por isso. E aquele mesmo sonho veio lhe perturbar a mente barulhenta.
“Você não está sozinho.”
Acabou despertando quando ouviu tal sussurro, olhando em volta. Tudo parecia o mesmo, a excepção de alguém a mais ali. Se colocou de prontidão para enfrentar a criatura de costas para si, que olhava para suas telas holográficas com um sorriso quase insano.
– Quem ousa? – Se levantou de prontidão, com seus dínamos prontos para atacar aquele que retinha a mesma cor de cabelos, em um corte mais rebelde e desgrenhado. Não entendia como fora parar ali, e muito menos lhe reconhecia. Não conhecia ninguém com tal aparência, muito menos tão parecido a si. Apenas em seus sonhos.
– Lindos… Mais completos que os meus… É realmente inteligente. Por que largou seu objetivo, Mastermind? – Sua voz soava como perigosamente calma, enquanto este se virava na direção do menor.
Ficou pasmo ao lhe ver o rosto. Parecia estar olhando para si, mas com uma personalidade totalmente distorcida. Como? Realmente tinha conseguido abrir aquele portal? Não acreditava ser possível até antes de dormir.
De fato havia descoberto que existiam mundos paralelos. As mesmas pessoas, os mesmos lugares, uma realidade totalmente diferente. Nasods eram seres curiosos, realmente. Haviam muitos mais segredos por detrás de tal conhecimento, do que podia imaginar. No entanto tal pergunta lhe apertou o peito por lhe lembrar do passado.
Seu povo havia sido exterminado, e a si, vendido como um escravo. Conseguiu escapar, se fechando no mesmo local em que agora se encontrava encarando um outro ele, que vinha de um outro universo. Abaixou a arma, apenas o fitando. Aquela voz, a ouvia muito em seus sonhos. Sempre lhe sussurrando de que não estava sozinho. O que fez com que descobrisse aquele código que remetia para muito antes de seu povo. Não entendia bem, parecia arcaico demais. Aonde teria sido escrita? Se lembrou de que descobrira-os em sonhos de uma civilização não mais existente, porém, não os Nasods… Outra civilização perdida no tempo, assim como seu conhecimento.
– Quem é você? – Perguntou em tom calmo. Sua expressão endurecida, nenhum traço de sorriso foi visto pairar em seus lábios que torciam em descontentamento.
– Seu eu mais forte. Seu eu que nunca esqueceu de se vingar daqueles que destruíram seu povo e lhe arrancaram o passado. Seu eu que almeja mais do que apenas malditos códigos. Seu eu que vive em um universo de guerras e que é mais capaz do que você. – Cuspiu tais palavras, que quase roubaram a sanidade do nobre que se manteve igualmente frio ao que estava antes.
– Como pode meu outro eu ser tão baixo? – Falou em tom calmo, sentindo duas mãos lhe agarrem o pescoço repentinamente. Rápido… Era dotado de uma velocidade incrível e experiência de combate maiores que os seus. O encarou ainda mais frustrado e pousou ambas as mãos sobre as dele. Não parecia ter intenção de lhe matar, ou usaria mais força.
– Baixo? – Riu. – Ou realista? Destruíram tudo o que possuíamos, por que devemos compadecer? Eu destruirei tudo o que se atravessar em meu caminho. Tudo. – Com tais palavras, lhe apertou um pouco mais o pescoço, fazendo-o com que a pele pálida se tornasse carmesim.
Vendo-se em tal situação, apertou as mãos em seus braços, com mais força. Não lhe deixaria fazer o que quisesse consigo, mas não lhe seguraria se quisesse destruir tudo os que os rodeava. Não se importava realmente. Ou talvez… quem sabe.
– Tão bonitinho, está todo vermelho e nem mesmo reage decentemente. – Falou em tom de deboche, mas afrouxou as mãos. Não intenção de matá-lo. Era a única criatura que não mataria. Tinha seus motivos, mas não diria a ele quais eram.
– O que quer comigo? – Perguntou tentando manter o mesmo tom calmo e aquela pose de nobre. Foi solto nesse instante e tossiu. Em seu pescoço duas mãos bem desenhadas e aquele tom avermelhado forte. Demoraria um pouco para que recuperasse seu tom de pele original.
– Seu conhecimento que completa o meu. Poder. – Foi claro e objetivo em suas palavras. Voltou a se aproximar daquele monte de códigos naquelas projeções arroxeadas, o mesmo sorriso insano lhe beijava os lábios. Não se importou com a tosse do outro, sabia bem que ele era muito forte. Porém, dependente demais dos códigos.
Como sabia? Era um segredo. Mas o observava há mais tempo do que ele poderia contar. Era mais mole que a si, e nem mesmo havia descoberto o por quê de tal frustração. Isso lhe deixava até um tanto quanto… Preferiu deixar a palavra se perder em sua mente.
– Tem tanta sede de vingança? – Suspirou. Era ele afinal, não estranhava. Era um pouco estranho estar conversando com alguém tão parecido consigo, ao mesmo tempo que era tão diferente. Se era o conhecimento que queria, lhe daria. A única pessoa com quem dividiria aquilo era consigo mesmo. E ele, de alguma forma, o era.
Não seria exagero dizer que estava confuso. E nem mesmo sabia como chamá-lo. Add? Não… Se tratar por isso era estranho demais. Mas era isso. Por que estava tão relutante? Suspirou baixo. O único que tinha a capacidade de lhe mexer com a mente era ele mesmo, realmente. Acabou rindo baixo, de seus próprios pensamentos, distraído.
– Não importa, quero vingança. Fazer todos pagar… Matar é tão prazeroso. – Falou seriamente degustando do prazer das imagens que se passavam em sua mente. Matar, torturar, exterminar… Isso lhe excitava, lhe dava prazer. Porém… Sabia bem que também sentia algo faltando. E era o que estava procurando ali.
O Mastermind notou logo a grande diferença entre ambos. A sede de poder, a sede de vingança. Enquanto o conhecimento lhe excitava, o poder fazia o mesmo trabalho no outro ele. Juntos se completavam como um todo… Como um. E ainda assim… Insuficiente.
– Eu vou te ajudar… — Ditou com calma, se aproximando do outro. – Add… — Murmurou ainda incerto.
– Lunatic. – Falou-lhe de volta. Há muito que ninguém lhe chamava ou conhecia pelo nome. Soara até um tanto estranho.
– Lunatic… Por quê? — Se sentou junto a ele. Não aguardou a resposta e logo começou a lhe mostrar algumas coisas de que tinha descoberto recentemente, inclusive a projeção de sua arma aperfeiçoada e agora completa.
– Lunatic Psyker. Ganhei tal título por aquele bando de maricas. Tão fracotes, lutar com eles é tão chato. – Deu de ombros, falando com desprezo.
O menor acabou franzindo o cenho, mas não resistiu em deixar escapar uma risadinha, o que deixou o outro um pouco irritado. Ria de si? Era bom que não.
– O que foi?
– Nada. Lunatic Psyker… Realmente seguimos caminhos diferentes. – Concluiu pensativo. Não era de ficar enrolando e logo passou a lhe ensinar o que havia descoberto, se baseado no que o outro lhe dissera saber e o que nem chegou perto. Tinham teorias divergentes, mas ambos haviam completado suas armas, sendo que este se dedicou a aprimorar seu Dínamo Nasod enquanto que o maior havia feito o mesmo, mas com a Armadura Nasod.
*** -- ***
Se alguém soube de que ele se encontrava ali, nada disseram. Continuavam estudando juntos, aprimorando ainda mais seus conhecimentos. Enquanto o tempo passava, Mastermind descobrira que realmente algo lhe faltava para que se sentisse pleno. Não mais conhecimento do que já tinha, mas uma companhia de alguém capaz de lhe igualar em capacidades e ter a mesma sede de conhecimento Nasod que a si. Ou algo um pouco diferente que estava para descobrir… Nele.
E desde então, cinco meses haviam se passado sem que dessem por isso. Descobrira muito sobre ele, sobre seu mundo caótico. Sempre metido em lutas, exterminando todos, algo que lhe dava prazer, além de alimentar cada vez mais a sede de vingança. Do mesmo jeito que a si, fora ajudado por Edel, algo em comum, que pareceu não ter mudado nesses dois mundos. Juntos desenvolveram uma arma ainda mais poderosa, assim como ajustaram a armadura. Porém, não era apenas disso que se resumia seu tempo juntos.
Não sabia quanto ao outro, mas dentro de si, algo crescia lentamente. Aquela necessidade de tê-lo por perto para se sentir completo e… Feliz?? A necessidade de ter alguém em que confiava cegamente para partilhar seus conhecimentos e, aos poucos… Partilhar algo mais.
Nessa tarde não pesquisavam nada. Ambos jogados no chão, olhavam para o teto enquanto comiam. Só saia dali para fazer compras, era sua casa, sua moradia, seu lar… O local em que se sentia confortável. Por isso mesmo havia reformado ali, ou certamente estaria em baixo de escombros. Dessa vez partilhavam umas rosquinhas quentinhas que fizera a pouco tempo. Além de ser bom em pesquisas, acabara estudando outras coisas. Para se virar sozinho precisava ser bom em tudo.
– Você é realmente uma ótima dona de casa. – Zombou o maior, fazendo com que um bico emburrado se formasse em seus lábios. Era sempre o mesmo. Parecia encontrar prazer em lhe provocar.
– O jantar vai ficar por sua conta. – Falou calmo… Na medida do possível.
– Nem fudendo. Vai ficar sem comer. – Deixou claro que não faria tal coisa. Sua sobrancelha arqueada e a expressão mostravam claramente que não faria isso de jeito nenhum. Nem obrigado. Isso fez com que o menor se virasse de lado, lhe dando as costas. Sempre o mesmo chato, que serzinho… Se não fosse ser muito trabalhoso, lhe chutaria a bunda.
Não lhe disse nada, apenas se virando para encará-lo quando cortou a fita com que prendia seus cabelos, sentindo-os se “espalharem” ali no chão.
– Por que sempre faz isso? Estou ficando sem fitas. – Ralhou, se sentando, enquanto encarava o Lunatic. Seus cabelos caíram em seus ombros em cascata, algo que lhe incomodava. O outro não conteve aquele riso satisfeito. Achava realmente prazeroso encher o saco de Mastermind.
– Porque gosto de ver seus soltos. – Ditou com naturalidade. Algo inesperado ocorreu nesse momento ao que os olhos do menor se tornaram mais ternos do que o normal.
– N-não fala coisas… coisas desse tipo… — Ralhou claramente sem graça. Era a primeira vez que ouvia algo assim dele, o que o levou a corar. Levou ambas as mãos ao rosto quente, tocando ainda surpreso por ter tido tal reação. Se levantou dali e se apressou até suas telas holográficas pisando com força no piso.
Isso fez com que Lunatic risse. Não se levantou logo, fazendo-o apenas quando aquele riso cessou. Seguiu até junto do menor, que permanecia de pé, e tentava prender os cabelos com a primeira fita que encontrou sobre uma mesinha que ficava no canto daquela sala. Estava de pé, distraído, ainda tentando organizar as ideias quando sentiu um braço lhe enlaçar a cintura. Nesse mesmo momento um corpo quente parou atrás de si, e uma mão alcançou as suas, fazendo-o soltar a fita e seus cabelos voltaram a cair em cascatas sobre seus ombros.
– Deixa-os assim. Não vai querer que eu te sufoque de novo, vai? – Um sussurro junto a orelha lhe fez estremecer. O que ele queria? Por que estava agindo de tal forma? Uma serie de perguntas invadiram sua mente. Porém, seu peito estava quente, e seu coração batia mais forte do que o normal. Quando as coisas haviam mudado e não percebeu? E o quanto devia-se essa mudança? Mais perguntas que permaneceram silenciadas.
– Me solta, Add… — Mordeu o lábio, mas logo foi solto. Porém, não se livrou dele como imaginava. Pelo contrário, foi rodado nos calcanhares e forçado a encarar o maior.
– De novo. Diga meu nome. – Falou sério, encarando-o com aquele par de iris violetas penetrantes. Isso fez com que o menor ficasse ainda mais sem jeito, mas ao mínimo movimento de querer escapar, teve a cintura por uma mão forte, e o queixo agarrado pela outra mão alheia.
– Diga. – Voltou a pedir, dessa vez em tom de ordem. A ultima vez que tinha escutado seu nome ser dito fora logo que chegara ali. Essa possessão fez o nobre franzir o cenho e desviar o olhar, mas foi forçado a olhar para o Lunatic Psyker, novamente.
– Add… Me solta.
– Não me dê ordens. Add… — Desta vez tudo soou mais estranho que o normal. O mesmo nome, dito por ambos. A atmosfera foi impregnada por uma sensação reconfortante e nostálgica. Porém, bizarra.
– Prefiro que me chame por Mastermind. – Murmurou.
– Mastermind… — Murmurou de volta. Riu baixo. Realmente o menor era adorável. Já sabia de sua existência há muito tempo atrás. Sempre o observando pelo portal dimensional que havia aberto. Sempre aparecendo ali, indo e vindo, quando ele dormia. O deixaria desapontado se lhe dissesse que tal portal já estava aberto antes de suas pesquisas?
– Lunatic… Psyker. – Dessa vez disse todo o nome, porém, em tom bem baixo. O que era aquilo que estava sentindo? Aquilo que o preenchia. Aquilo por que tanto havia procurado e que lhe faltava. Aquilo que lhe fazia sentir-se um ser completo.
Não teve tempo de rodar em tal pergunta e sentiu seus lábios serem pressionados. A sensação que lhe invadiu a princípio foi a de estar beijando a si mesmo. Mas, aos poucos, enquanto aqueles lábios se encaixavam nos seus, se convenceu que não. Poderiam ter o mesmo nome, mas eram duas pessoas muito diferentes. E de mundos diferentes. Realidades diferentes. Mas que se completavam.
Passou os braços pelo pescoço do maior, entreabrindo a boca e deixando que o músculo lhe invadisse a boca. Partilhavam de sensações únicas, estranhas… E muito bem-vindas. Ambos embalados pelo momento, perdidos naquele amor não declarado em palavras, mas de coração unidos.
Não demorou para que as línguas bailassem em uma intensa e prazerosa melodia que se alimentava do ar dos pulmões que ambos que se esvaziavam lentamente. Aquele momento durou até que ambos ficassem sem ar. As bocas, lentamente, se afastaram, ainda sendo possível ver aquele fio de saliva que os unia, se romper suavemente.
– Eureka… — O dono daqueles cabelos longos sussurrou, fitando o maior que franziu o cenho.
– Hm? – Questionou, confuso.
– Minha pesquisa está completa. – Isso lhe deixou ainda mais confuso.
– Pesquisa? – Voltou a questionar.
– Isso. A essência da vida que faltava na minha. – Nisso o maior sorriu e juntou sua testa na dele. A mão antes em seu queixo, percorreu-lhe o corpo e parou em sua cintura, apertando ali.
– Eu achei há muito tempo… Meu Mastermind… — Ambos sorriram, apreciando o momento deles. Seu momento de plenitude. O momento em que, finalmente, descobriram que, não precisavam de poder, vingança, nem de Nasods… Mas sim, um do outro.
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