All About You.
2 Welcome To a New Kind Of Tension
Notas iniciais
Green Day - American Idiot
http://www.youtube.com/watch?v=Ee_uujKuJMI
Durante os primeiros tempos, Nicholas encheu minha pobre paciência falando quase eternamente. Estava tão indiada que percebi os segundos se arrastando com preguiça, também. Ele falou durante a aula de Geografia Geral, até entrar a professora de Filosofia. Ela era uma senhora mirrada, dos cabelos ruivos desgrenhados e presos em um coque mal feito. Sua voz estridente me fazia franzir o cenho nos agudos "né?!" que ela gritava no final de cada frase. Durante a aula de Filosofia, Nicholas parou de falar e copiou o que a professora escrevia no quadro de lousa. Volta e meia, o pegava lançando olhares em minha direção. O que há?! Eu tenho antenas verdes na testa?! Quando cruzávamos olhares sem querer, ele sorria, e eu virava os olhos a fim de demonstrar todo meu tédio. Nem sempre eu fui assim. Geralmente, eu até preferia que as pessoas puxassem assunto. Mas, não sei por qual motivo, me irrito só de olhar pra esse menino. Ele é aquele tipinho jogador de futebol, sabe?! Alto, moreno, cabelos lisos e algumas mechas jogadas nos seus olhos verdes. Ele é aquele tipo de cara que faz as garotas terem taquicardia. Isso não me inclui, diga-se de passagem. Prefiro os caras mais tímidos, que curtem literatura, cultura oriental, músicas clássicas e rock'n roll. O Nicholas parece ser o oposto. Extravagante, sarcástico, imbecil. Só garotas-camarão curtem o tipo do Nicholas, "corta a cabeça e come o resto".
— Ei, fala alguma coisa, garota. Só eu falo o tempo inteiro. — Nicholas interrompeu meus pensamentos.
— Eu não quero conversar com você, carioca. Quantas vezes preciso frisar isso? — Respondi, ríspida.
— Eu já sei que não quer. E sei até o motivo... — Fez suspense por um minuto. — É porque você está sentindo seu coração bater mais forte, suas pernas bambearem, suas mãos suarem frio e várias borboletas voarem no seu estômago. Daí você está com medo de falar alguma besteira e eu não querer mais olhar na sua cara, de tão idiota que vou te achar. — Fitou meus olhos, sério. Pareceu até que acreditou em suas próprias palavras. Um minuto depois, riu, quebrando o silencio que provocara. — Poxa, estou tentando quebrar o gelo. Dá pra você sorrir ao menos uma vez?
— Não. E dá pra você parar de encher a minha paciência? — Explodi, acho que alto demais. Tão alto que a turma inteira parou seus afazeres para olhar em nossa direção.
— Olá, mocinha! Gritando no primeiro dia de aula? Isso não é bom pra sua imagem, né?! Qual seu nome? — Perguntou a professora, com aquela voz irritante.
— Minu, fessora. O nome dela é Minu. — Precipitou-se Nicholas, antes que eu pudesse processar a pergunta.
— Não, Mirela Nunes. — Corrigi, lançando um olhar fulminante em sua direção.
— Ok, Minu. Boas vindas. Vamos voltar para a Mitologia Romana, né?!
— É Mirela. — Corrigi tarde demais. Ela já tinha virado as costas para passar mais matéria no quadro.
Na hora do intervalo, sentei-me no pátio, perto do pé de amora. Por sorte, me livrei um pouco de Nicholas, que foi conversar com uns amigos mais velhos. Mas ele não tirava os olhos de mim.Enquanto eu lanchava e lia Harry Potter e o Cálice de Fogo pela terceira vez, senti alguém se aproximar.
— Olá, Minu. Seja bem vinda. — Disse uma voz meiga. Olhei para ver quem era.
— É Mirela. — Sorri amarelo. — Obrigada. — Era uma menina baixinha, dos cabelos encaracolados. Ela era sorridente demais.
— Desculpe, Mirela. Mas você não gosta de Minu? Achei tão fofo. — Articulou-se como uma criança de cinco anos.
— Não, não gosto. — Respondi, séria.
— Ah ta. Até logo então. — E saiu saltitando, como eu fazia quando tinha menos de nove anos.
Durante a semana, percebi que todos que falavam comigo me chamavam de Minu. Inclusive a menina sorridente que se desculpou comigo por isso. Ai que ódio do Nicholas! Ah, e por falar nele, descobri que ele é surfista e joga futebol no time da escola. Sabia que praticava esportes de cariocas babacas, aff.
A segunda semana foi mais tediosa ainda. Na aula de História do Brasil, Nicholas aprontava mais. A professora era bonita, e ele parecia fazer graça para ela, como todos os meninos da turma. Enquato ela falava de censura, Nicholas veio com mais uma de suas piadinhas infames para mim.
— Professora, nós não podíamos falar nada né? — Começou.
— Sim, não podíamos falar nada contra os militares neste período.
— Ih, então eu seria exilado. Ou Sargenta Minu iria me torturar até a morte. Não é Minu... Ano? — E riu de sua piada, junto com a turma inteira. Até a professora riu discretamente.
A partir desse dia, além de metade da escola me chamar de "Minu", o pessoal da minha turma me chamava de "Minuano". Tri legal, que tal?!
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