All About Us
1 Fique comigo até eu adormecer.
Notas iniciais
Duas horas haviam se passado desde que eu me deitara no chão empoeirado daquele trailer para tentar, em vão, pegar no sono. Duas horas, e eu só conseguia me concentrar nos soluços que vinham da outra extremidade do veículo. De onde eu estava, conseguia ter uma boa visão da mulher que se debulhava em lágrimas intermináveis.
Não era como se eu quisesse que ela calasse a boca, ou precisasse desesperadamente de um par de fones de ouvido para bloquear o som. Eu queria simplesmente achar a garota e acabar com o sofrimento e angústia de Carol Peletier.
Não havia como explicar porque logo Carol me afetava tanto. Eu estranhamente me sentia atraído em ajudá-la sempre que possível.
Ficávamos em acampamento ao lado da casa de Hershel, e o trailer servia de conforto para alguns, enquanto revezávamos os dias em que cada um aproveitaria dele.
Aquela noite não estava sendo nada fácil. O desespero da mulher que eu fazia de tudo para proteger estava muitíssimo evidente.
As saudades e a preocupação para com sua filha Sophia a consumiam todo o momento.
...
Dado algum tempo de esforço inútil para descansar, levantei-me com um suspiro irritado e apanhei minha crossbow e uma velha lanterna, dando uma última olhadela em Carol antes de sair para o ar frio da madrugada. Para mim não importava o perigo que eu me punha ao sair a essa hora procurar por alguém. Era Sophia, filha de Carol.
...
Caminhei por muitos quilômetros em direção ao leste, adentrando bastante na floresta sinistra. Alguns poucos walkers burros cruzaram meu caminho durante o trajeto, e eu os abati facilmente.
A exaustão me dominava, porém o desejo de voltar para junto de Carol novamente com sua garotinha viva em meus braços, era muitíssimo mais poderoso.
Tentei distrair minha mente de algo que não fosse a fome ou o sono que ameaçavam vencer.
Se eu não voltasse mais para o grupo, ela sentiria minha falta?
Eu não avisara ninguém que estava saindo, ou para onde ia.
Mas desde quando um Dixon devia satisfações a alguém?
“ — Você virou um verdadeiro maricas, dependendo tanto desse grupo, irmãozinho.”
Eu podia ouvir claramente Merle zombando de minhas atitudes recentes, sua voz ecoando em meus pensamentos.
Mas o que importava a opinião dele, afinal? Em nenhum momento da vida patética que levei, ele esteve ao meu lado.
Que se foda.
A única razão para eu me levantar pelas manhãs, era ter a esperança de receber um sorriso ou palavras boas de Carol. Eu me sentia confortável e diferente; como nunca tinha me sentido antes.
Sei que sempre me tranquei em meu mundo particular, me isolando de tudo e todos ao meu redor, vestindo sempre uma máscara de segurança... mas Carol proporcionava uma brecha que me fazia sentir mais leve, mais descontraído.
Aqui estava eu, um idiota no meio da noite pensando nela.
Por mais que me esforçasse, eu jamais conseguia ser um perfeito cavalheiro como Rick ou Dale faziam.
Haviam momentos que minha estupidez era tamanha que eu sentia que Carol ficava profundamente magoada com minhas palavras rudes. Quando eu a via virar-me as costas e partir, me comparava às ervas daninhas mortas que cresciam entre as cercas da fazenda.
E aqui eu estava... olhando para o infinito, procurando uma garota que eu nem sequer sabia se estava viva.
...
Para minha imensa surpresa, encontrei um pequeno riacho no coração da floresta; me servi abundantemente da água que ali havia, e me coloquei a observar o lugar: algumas rochas aqui e ali, desviando o caminho da água para outros arredores, e a lama nas margens.
Eu não sabia por quanto tempo havia caminhado, mas logo não precisaria mais da lanterna. O sol já estava raiando.
Enquanto me permitia descansar por uns minutos, mas com os olhos e ouvidos sempre alertas, explorei as árvores e esconderijos de animais que por ali haviam.
Em uma fração de segundo meus olhos detectaram um objeto estranho, à cinco metros. Com certa urgência me aproximei do objeto e o tomei em minhas mãos:
A boneca de pano de Sophia.
Fiquei atônito por alguns segundos, tentando absolver o que havia encontrado.
Seria um bom ou mau sinal?
Contrariando todas as possibilidades que meu corpo oferecia — que não eram muitas, já que cada músculo se contraía de cansaço a cada passo dado — dei meia volta e refiz todo meu caminho de volta à fazenda de Hershel.
...
Quase literalmente desmaiando, cheguei à fronteira das terras em que o trailer se encontrava. Eu mal conseguia manter meus olhos abertos. A escuridão ameaçava tomar conta de minha visão a cada piscadela.
Quando por fim entrei no campo de visão de Dale — que passava a maior parte do tempo em cima de seu ônibus-casa observando os arredores com seu binóculo — vi que todos corriam à meu encontro.
Rick parecia alarmado e aliviado ao me ver, e os outros pareciam satisfeitos.
— Preciso contar... preciso mostrar a... Carol... — consegui dizer antes de perder a consciência totalmente.
Antes de desmaiar, vi que a boneca caía de minhas mãos, se perdendo entre as folhas.
...
Abri os olhos e pisquei algumas vezes para me acostumar com a luz que vinha do lampião que cegava meus olhos.
Eu estava dentro de uma das barracas de acampamento de Glenn.
O frio estava insuportável, e eu sentia tremores por todo o corpo, mesmo notando uma camada de cobertores sob meu peito nu.
— Daryl? — Uma voz chamou.
Andrea observava pela fresta da entrada da barraca, verificando se eu estava suficientemente lúcido para responder.
— Hmm? — Murmurei.
— Tudo bem? — Ela perguntou, preocupada.
— Hm, sim. — Suspirei. — Onde estão todos? — Eu disse, querendo perguntar realmente: Onde está Carol?
— Fomos recebidos por Hershel e a família dele para jantarmos lá, só vim ver como você estava. — Ela parou e me encarou antes de continuar.— Carol já está trazendo seu jantar.
Assenti com a cabeça e afundei ainda mais a cabeça nos travesseiros.
Rezei para que a mulher não houvesse visto meu rubor à luz do lampião.
Idiota.— Pensei.
...
Após alguns minutos, Carol adentrou timidamente na barraca, com uma grande bandeja nas mãos.
Como o espaço era bem apertado, nossos corpos roçaram levemente com a aproximação da mulher.
— Olá. — Ela disse, séria.
— Oi. — Eu disse, não conseguindo pronunciar mais que isso.
Carol estava com profundas olheiras ao redor de seus olhos, e os mesmos estavam inchados e vermelhos.
— Está tudo ok? — Perguntei a ela.
Ela me olhou surpresa por alguns intermináveis segundos.
— Eu? Eu estou bem? — Sua voz sai estridente. — Eu quase morri de preocupação por sua causa e você pergunta se eu estou ok? Daryl, você poderia não ter mais voltado.
Pisquei, na minha vez de ficar surpreso; Eu definitivamente não esperava essa reação naquele momento.
— Desculpe... eu não... não era... — Eu comecei, gaguejando.
— Tudo bem, Daryl. Me perdoe... mas é que... — Ela me encara com seus profundos olhos azuis. — Eu fiquei com muito medo de perder você também.
Senti uma explosão de sensações se apoderarem de meu ser.
— Bobagem... — Hesitei, incerto de prosseguir com o assunto. — Não consegui encontrá-la, Carol.
Sua expressão se tornou mais triste de repente, ao lembrar de sua garota perdida.
— Eu vi a boneca... não sei o que pensar sobre essa nova... — Sua voz sai fraca. — Pista.
— Eu não deixarei nada de ruim acontecer com você. — Eu disse repentina e corajosamente.
Os olhos de Carol foram para o chão, para o teto da barraca, para o lampião, para a bandeja cheia de comida, menos para meus olhos, seu rosto vermelho.
É essa a consequência quando você fala demais, imbecil.
— Obrigada. — Ela diz simplesmente, sem mais palavras.
Ficamos em um silêncio desconfortável pro alguns minutos, até que Carol se levanta lentamente, indo em direção à entrada da barraca, quando minhas mãos reagem sem pensar e seguram as suas.
— Fica. — Sussurrei.
Ela encarou intensamente minhas mãos sob as dela, e depois finalmente olhou em meus olhos.
— Como quiser. — Ela murmurou, sem jeito.
Após voltar a seu lugar, Carol pergunta:
— Você não vai comer? — Carol pergunta, tímida.
— Não estou com fome. — Respondo, simplesmente.
— Bobagem, você deve estar faminto. — Carol diz, agora sorrindo, enquanto retirava os talheres cuidadosamente enrolados em um guardanapo, por ela, separando uma pequena porção da comida.
Vendo que não manifestei qualquer interesse pela comida, ela fingiu estar ofendida e disse, sorrindo agora abertamente:
— Não me faça lhe dar a comida na boca, Daryl Dixon.
Esperei, vendo se realmente ela era capaz de tal façanha.
Vi que Carol ia mesmo me servir a comida quando a mesma direcionou o garfo em minha direção, lentamente.
Ri e fiz sinal com as mãos, para que a mesma parasse com aquilo.
— Você é inacreditável. — Eu disse, agora comendo por conta própria.
— Você é impossível, Dixon. Pensei que realmente ia ter que alimentar você. — Ela ri.
...
Após terminada minha refeição, Carol permaneceu ao meu lado, e conversamos normalmente, como sempre fazíamos.
Nossa interrupção chegou após horas, quando Andrea retornou.
— É o seguinte... hoje é a noite de eu e Dale pernoitarmos no trailer. Daryl, você terá de dormir aqui. — Andrea diz, sonolenta. — Você também, Carol. — Ela diz, agora olhando para a mais velha.
Olhamos com espanto em uníssono para a loira, que nos respondeu igualmente surpresa.
— Tudo bem, né? Pensei que já estava tudo resolvido. Não posso me dar ao luxo de acordar os outros à esta hora. A barraca é grande o suficiente para vocês dois dormirem aí. — Ela diz, sua voz morrendo enquanto ela se afastava.
Carol encara novamente o lampião e eu o teto da barraca.
— Bem, então acho que não temos escolha. — Ela diz, sorrindo timidamente.
— É.
— Dividiremos as cobertas, então? — Carol pergunta.
Eu a encaro, surpreso.
— O quê?
— Dê um de seus cobertores para mim. Ficarei aqui. — Ela diz, enquanto se acomoda o mais distante que pode de meu corpo.
— Seria mais fácil se você viesse pra cá. — Digo, quase inaudivelmente.
— É mesmo? — Carol ri.
— O quê? — Respondo, apavorado por considerar a ideia da mesma ter escutado algo.
Ela revira os olhos e sussurra:
— Você quer mesmo que dividamos as mesma cobertas?
Sua voz sai tão baixa quanto a minha, diante da possibilidade.
Demoro para responder por não encontrar palavras decentes para dizer.
— Eu estou com sono, seria bom se você decidisse logo, sabe. — Carol diz, bocejando.
— Claro. — Pronuncio.
— Claro o quê?
— Venha. — Me expresso com as mãos do melhor jeito que posso, chamando-a para meu lado.
Carol irrompe em uma sonora gargalhada.
— Se essa é a sua vontade... — Ela diz, dando de ombros, se aproximando de mim, finalmente deitando-se ao meu lado, nossos corpos muito próximos.
— Boa noite... — Enuncio.
— Boa noite, Daryl... — Ela boceja mais uma vez. — Obrigada.
— Não há porque me agradecer. — Lhe digo, simplesmente, sorrindo para ela.
Era tão fácil sorrir para ela! — Penso, revirando os olhos sem que ela veja.
...
O adormecer de Carol veio bem depressa. Logo ela estava em seu mais profundo mundo dos sonhos, sorrindo levemente, o rosto virado em minha direção.
O sono não se fazia presente em mim neste momento; Tudo que eu desejava era poder olhar para aquele rosto até que alguém me tirasse dali.
Sua face tão tranquila, tão angelical, me tirava o fôlego.
Minhas mãos eram estranhamente atraídas para suas bochechas, nariz a lábios.
O ímpeto de sentir a maciez daquela pele era mais forte do que eu poderia imaginar.
Naquele instante, toda a morte, perda, sofrimento e abandono foram expulsos de minha mente.
Ela podia acordar a qualquer momento e flagrar-me naquele momento íntimo e maravilhoso, mas eu não me importava.
Eu queria apenas olhar para seu rosto, sentir a textura de sua pele, e me permitir sonhar com Carol Peletier sendo minha.
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