Alive
4 Everything Can Always Get Worse
Notas iniciais
O tamborilar constante dos dedos de Lilly sobre a mesa de madeira era o único som que preenchia a sala. Sentada ao seu lado estava sua mãe, cuja única prova de sua presença era o aperto firme na mão da garota. Nem uma respiração era ouvida, nem um suspiro, e muito menos uma palavra. A ansiedade e insegurança preenchiam o local. E o desconforto das duas era praticamente palpável.
Desviando os olhos de seus dedos, Lilly passou os olhos pela sala notando pela primeira vez suas características – não que houvesse muito a ser notado, de fato. Tudo no cômodo demonstrava profissionalismo. As paredes tinham uma cor neutra, assim como todos os poucos moveis ali. Atrás da grande mesa de madeira escura, estava a única janela do cômodo coberta por uma cortina de grades. E a única coisa que indica o dono daquele local era uma placa sobre a mesa com um nome marcado: Delegado Carter.
Resolvendo quebrar o silencio Lilly soltou um suspiro exasperado, mas nem mesmo isso foi capaz de chamar a atenção de sua mãe para si. A mulher ao seu lado parecia estar em qualquer lugar menos ali. E Lilly não podia culpá-la por isso já que esse também era seu desejo.
Seu devaneio, no entanto, foi interrompido pela abertura da porta, e Lilly instintivamente virou seu rosto na direção do barulho. O Delegado Carter, o qual Lilly conhecia apenas o nome, era um homem alto e forte. Ele tinha o rosto um pouco rechonchudo, os cabelos levemente grisalhos estavam penteados para trás e Lilly notou uma pequena barba por fazer. E ela não pode deixar de pensar que, para um homem da sua idade, o Delegado parecia bastante atraente.
— Bom dia – cumprimentou Carter com uma voz grossa – Desculpe tê-las feito esperar. Eu sou o delegado Jason Carter.
Jason seguiu para a mesa e se sentou em frente às duas mulheres. Ele estendeu a mão em comprimento para sua mãe que, para a surpresa de Lilly, prontamente correspondeu.
— Delegado, me desculpe perguntar, mas eu confesso que fiquei surpresa com a sua ligação, então, eu gostaria de saber por qual motivo você nos chamou aqui. – Sarah havia sido polida e educada, e Lilly, ainda assim, pode perceber o quão afetada ela estava pelo simples movimento de suas mãos em seu colo.
— Não se preocupe Sra. Panlow, sou eu quem deveria pedir desculpas pelo modo que as chamei aqui. Eu sei que deveria ter lhe dado mais detalhes, mas é que eu realmente considero esse um assunto que deva ser tratado pessoalmente.
Toda aquela educação de Jason estava deixando Lilly ainda mais ansiosa, chegando quase a beira da histeria. Por que, diabos, ele não poderia ir direto ao ponto? Na cabeça de Lilly as coisas eram muito simples e as hipóteses se resumiam a duas: Ou ela ou sua mãe havia feito algo errado e ilegal – o que era praticamente impossível já que o maior delito que já viu sua mãe cometer foi receber uma multa de trânsito –, ou aquilo tinha algo a ver com sua irmã. A segunda hipótese, apesar de mais provável, deixava Lilly ainda mais confusa e receosa.
O homem remexeu em alguns papeis sobre sua mesa, e Lilly abriu a boca para falar, no entanto, foi interrompida por um aperto de sua mãe em seu braço recriminando-a. Impaciente, ela desistiu e recostou-se na cadeira que, ao menos, era confortável.
Depois de segundo intermináveis, Jason, parecendo finalmente achar o que procurava, voltou-se para as duas.
— Primeiramente, eu sinto muito pela perda de vocês – Jason deu uma longa pausa, e Lilly teve que se segurar para não revirar os olhos de tão teatral que aquilo havia soado – Bem, não tem como dizer isso de um modo mais fácil, então, eu vou direto ao ponto. A polícia andou investigando o caso da morte de Laurie Panlow, e chegamos a conclusão de que pode não ter se tratado de um acidente.
— Como assim? – depois de alguns segundos Lilly, finalmente, conseguiu gaguejar as palavras.
Houve um longo suspiro por parte do Delegado antes dele responder.
— Há algumas evidencias que nos levam a crer que possa ter se tratado de um assassinato.
Os próximos minutos não passaram de um borrão aos olhos de Lilly. Ela pode ouvir o choro de sua mãe e algumas palavras de Jason, mas nada daquilo fazia sentido em sua cabeça. Seus pensamentos já estavam longe, mais especificamente na noite da festa. Em sua mente ela repassava todos os detalhes, todas as poucas lembranças que tinha tentando achar um significado para aquelas palavras, tentando achar um significado para tudo aquilo.
Mas não havia.
Então, ela fez o que lhe parecia mais consciente, focar-se nos fatos lógicos.
— Que tipo de evidências?
Dois pares de olhos focaram se em Lilly assim que ela pronunciou as palavras. E pelo olhar pasmo de sua mãe, Lilly percebeu que sua presença havia sido completamente esquecida.
— Nós fizemos uma autópsia do corpo de sua irmã. Havia alguns sinais de luta como hematomas e arranhados. – ele continuou – Além disso, a pancada na cabeça dela tem um formato uniforme, como se ela tivesse sido atingida com algo. – mais uma pausa – Olha, não tem como saber com certeza se foi realmente um assassinato, e se foi, também não há como saber se foi intencional, mas eu garanto a vocês que eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para descobrir.
— Então, nós já podemos ir? – perguntou Sarah. E Lilly sabia que, assim como ela, sua mãe gostaria de sair dali o mais rápido possível. Novamente, aquelas paredes estavam fazendo com que a garota se sentisse claustrofóbica.
— A senhora está liberada, mas eu ainda gostaria de tomar o depoimento da sua filha.
Lilly sentiu o olhar inquisitivo de sua mãe sobre si, a garota sabia que bastava uma pequena negação de sua parte que ela a tirasse dali mesmo que fosse a força, mas, por mais que Lilly estivesse tentada, tudo o que ela fez foi dar-lhe um pequeno sorriso triste.
— Está tudo bem, mãe.
Na cabeça de Lilly tudo se resumia há um único ponto: quanto mais cedo ela fizesse isso, mais cedo ficaria livre. Infelizmente, sua teoria não levava em conta um ponto; ela não imaginava que relembrar aquela noite seria tão ruim. Pensar era uma coisa, mas colocar aquilo em palavras foi uma das tarefas mais difíceis que ela já teve que enfrentar em sua vida. E quando a última palavra foi dita, os olhos de Lilly não conseguiam mais guardar as lágrimas.
Quando foi finalmente liberada ela se sentiu aliviada e não demorou mais de um segundo para sair daquela sala. Já no corredor ela tomou uma respiração tão profunda que parecia que ela havia sido privada de ar por um tempo muito longo. No final do corredor havia um relógio marcando seis horas da tarde. E Lilly se viu surpresa ao notar que já fazia quase duas horas que ela estava ali. Andando pelo caminho que ela julgava que a levaria para a recepção ela teve uma segunda surpresa.
— Eu pensei que você já tinha ido embora. – ela disse andando em direção a mãe que a aguardava pacientemente sentada em uma das cadeiras da recepção.
— Eu não ia deixar você sozinha aqui. – a mulher levantou-se.
Seguindo ao impulso súbito que a atingiu Lilly partir para os braços de sua mãe. Carinhosamente ela sentiu os braços de Sarah a embalando. E nesse momento Lilly queria voltar a ser uma criança somente para se dar ao luxo de permanecer naquele aperto eternamente. Ela queria se sentir protegida como a muito não acontecia. Mas, infelizmente, certos desejos não podem se realizar.
— Vem, vamos para casa. – ainda com o braço em torno dos ombros da garota Sarah a puxou em direção a saída. E Lilly, sem hesitar, a seguiu.
O caminho de carro para casa foi rápido e silencioso – silencio o qual Lilly já estava começando a se acostumar. Estacionando em frente ao gramado da casa Sarah voltou-se para a filha.
— Eu vou ter que ir para o hospital. Como eu pedi a manhã e a tarde de folga vou ter que fazer plantão hoje a noite. – disse a mulher – Você vai ficar bem?
Novamente aquela pergunta. “Você vai ficar bem?”. Lilly não sabia por que eles não paravam se sabiam que tudo o que iam receber era uma mentira mal contada. Não, ela não ia ficar bem. Tudo o que ela queria no momento era ficar com sua mãe. A única pessoa que ela tinha próxima de si e que era capaz de entendê-la. A única pessoa a qual ela podia pedir colo. A única pessoa que podia fazê-la sentir-se segura e amada. Ela queria a mulher ao seu lado que, talvez, pudesse começar a digerir a noticia que havia recebido. Mas, aparentemente, havia planos mais importantes que os seus. E, mesmo com tudo a raiva, mesmo com a vontade de mancar a menina mimada e gritar e chorar, tudo que ela fez foi balançar a cabeça.
— Certo – ela abriu a porta do carro impedindo que sua mãe visse seu rosto – Não se preocupe comigo. – e quando já estava a alguns passos do carro ela sussurrou mais para convencer a si mesma do que qualquer outro – Tudo vai ficar bem.
Ela acenou para a mãe da porta e quando o carro saiu de sua vista ela entrou em casa. Trancando a porta ela escorou-se na a madeira. Fechando os olhos ela pode dizer quanto tempo ficou naquela posição. E somente o toque alto do seu celular no seu bolso foi capaz de despertá-la. No visor do aparelho o nome “Violet” aparecia em letras gritantes.
— Alô – ela atendeu.
Passando a mão sobre o nariz, Lilly tentou limpar qualquer resquício que pudesse lembrar um chora, mas não havia nada. Aparentemente, ela já havia gastado todo o estoque de liquido do seu corpo nos últimos dias.
— Lilly – a voz animada da amiga soou do outro lado – Como você está?
Lilly não pode evitar a risada zombeteira que escapou de sua garganta devido à pergunta.
— Qual é a graça? – perguntou Violet confusa.
— Nenhuma, Vi – ela respondeu – É coisa minha.
— Então – Violet começou e pelo tom Lilly sabia que ela queria alguma coisa – Eu queria saber se você vai hoje ao Vitrola’s Club.
— O que? – Lilly estava completamente perdida.
— Lembra que o Mike nos convidou? Vai ter uma reunião do terceiro ano lá. – e em seguida a voz de Violet assumiu o tom mais doce que Lilly já havia ouvido – Eu queria saber se você vai, porque eu não queria ir sozinha.
Rapidamente as engrenagens começaram a rodar na cabeça de Lilly. Ela estava sozinha, sem planos, e sem expectativas. E, naquele momento, a proposta de Mike que antes soava ridícula ao seus ouvidos, começou a lhe parecer diferente. Uma oportunidade.
— Vamos, por favor – implorou Violet fazendo com que Lilly lembra-se da ligação.
Bem, uma noite com os amigos não lhe faria mal. E, mesmo se tudo desse errado, ela ainda poderia encher a cara.
— Vi, ligue para a Chloe, nós vamos sair hoje.
— Eu te adoro! – Lilly ouviu a comemoração da amiga do outro lado da linha – Eu passo para te pegar as oito. Beijos.
Não deu nem mesmo tempo de Lilly se despedir antes de Violet desligar o telefone.
Olhando para a tela do celular Lilly viu que já eram seis e meia o que significava que ela precisava começar a se arrumar agora se quisesse ficar pronta no horário. Apressadamente, ela subiu as escadas e seguiu direto para o banheiro. Ela despiu-se, jogou suas roupas no cesto e ligou o chuveiro. Sentindo a água quente em sua pele ela se permitiu fechar os olhos e relaxar o máximo que podia – mesmo que isso não fosse muito.
Se sua mãe não queria ficar com ela, ao menos havia quem queria. E as amigas, ao contrario da mulher, não a fariam ficar se lembrando a cada maldito segundo no que havia acontecido nesse dia ou em qualquer um dos anteriores. E, pela primeira vez, ela ponderou se não havia sido melhor dessa maneira. Sua mãe se distraia com o trabalho e ela mantinha sua mente ocupada também. Um trato perfeito.
Saindo do banho ela se enrolou na toalha. Lilly seguiu até seu quarto e chegando lá abriu seu guarda-roupa. Ela colocou um conjunto de sutiã preto básico – que passava longe de ser uma lingerie. Lilly não gostava muito de coisas sexy, ela tinha muito corpo nem muitas curvas para que usasse peças desse tipo. E, por isso, na hora de escolher uma roupa ela se viu completamente indecisa. Ela já havia ido ao Vitrola’s antes com sua irmã e sabia que o local era descontraído, para dizer o mínimo. Na época ela havia usado uma roupa de sua irmã, mas isso agora estava completamente fora de questão, então Lilly decidiu que tinha improvisar. Ela pegou uma saia preta levemente rodada e uma blusa de seda lilás, e vestiu-os.
Calçando uma sapatilha preta, ela olhou-se no espelho. E foi com decepção que ela constatou que parecia uma mocinha. Mas ela não queria ser uma mocinha hoje. Então, na hora de maquiar-se ela foi um pouco além do que estava acostumada. E, mesmo que a sombra e o blush ainda fossem leves, ela sabia que o batom vinho que havia passado quebraria um pouco dessa impressão de inocência. E, olhando-se novamente no espelho, seus cabelos soltos e seus lábios rubros, ela finalmente sentiu-se satisfeita.
Foi só o tempo de Lilly pegar uma pequena bolsa preta e guardar seus poucos pertences – chaves, celular e carteira – dentro para que ela ouvisse o som da buzina de Violet do lado de fora da casa. Trancando a casa ela saiu sem preocupação alguma, já que ela sabia que sua mãe só chegaria na manhã seguinte.
— Uau – disse Violet assim que ela entrou no carro. Lilly sentou-se no banco de trás, uma vez que Chloe já ocupava o da frente. – Você está linda.
Lilly não pode evitar corar levemente.
— Obrigada. – ela continuou – Então vamos?
E o sorriso de Violet pelo retrovisor foi a ultima visão de Lilly antes de o carro começar a andar.
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