Alive
2 Capítulo Um
Notas iniciais
Emma
Com um suspiro teatral, sento-me na mesa e encaro a comida. Estou com fome, e não hesito em engolir a comida, mesmo sabendo que o arrependimento não demoraria a me consumir.
E, de fato, os xingamentos não foram poucos ao sentir a comida descer como ferro quente pela minha garganta. Seguro a vontade de tossir, pela experiência própria de ser um ato totalmente impensável. Engulo tudo o que consigo e logo subo as escadas para meu quarto, para tentar me distrair no computador.
Depois de não muito tempo, sinto as incansáveis vozes, sussurros e gritos que ecoam a todo o momento em minha mente aumentam. Cada vez mais alto, as vozes dão a sensação de desejarem ser entendidas, mas apenas ouço lamentos sussurrados, gemidos de dor e choro. Algumas imagens passam pela minha cabeça, mas são rápidas demais para que eu reconheça algo, e os gritos a cada segundo ficam mais ensurdecedores. Tento segurar, mas desisto, sabendo que deixei que se estendesse muito.
Meu estômago revira, e eu sei o que está por vir. Antes, eu não conseguia me controlar, e era tortura a todo o momento. Não o que sinto agora, como ardência e falta de respiração. Era a dor de facas atravessando-me sem piedade, não como expressão para dor sentimental – eu realmente sentia aquilo. Não sangrava e eu não me machucava, apenas sentia a dor.
Simplesmente não dava para viver assim, seria considerada mais louca do que já era, então, com o tempo, eu aprendi a “segurar”, guardar cada sofrimento para que, uma vez por dia, sentisse tudo de uma vez. Pode parecer pior, mas, se é que é possível isso, me sinto mais leve depois.
Sento na cama e me preparo mentalmente. “É só dessa vez. Só mais essa vez.” Mas eu sei que não é. Porém, por incrível que pareça, esse pensamento consegue me acalmar pelos poucos segundos antes que venha.
Como um banho de água fria, paro de segurar. No mesmo instante, sinto-me tão livre e infinita quanto os céus. Mas, só por esse instante mesmo.
Sinto como se toda a minha pele estivesse sendo rasgada por mãos humanas. Simplesmente dedos seguravam meus braços, pernas, costas, um de lado, e puxavam, até que eu sentisse rasgar. Um berro sai de minha boca e se esvai pelos cantos do quarto. Com dificuldade, olho para baixo e, sem surpresas, vejo que estou normal. Como se nada estivesse acontecendo. Enquanto as lágrimas caem pelo meus rosto, no exato momento em que a sensação passa, mais uma se inicia, e meu corpo inteiro está queimando. Acredite, eu queria que estivesse queimando de rubor, como queria. Sinto como se queimasse de dentro para fora, o fogo se espalhando cuidadosamente por cada parte de meu corpo. Ainda ouço os sussurros e gritos, agora também acompanhados de gargalhadas, que certamente não dão um ar mais alegre. Meus berros continuam, e mais lágrimas escorrem. O próprio ato de berrar, piora tudo – afinal, se um símples suspiro consegue me fazer sentir queimação, imagine um berro? – porém isso passa despercebido, afinal, uma símples queimação era algo para se comemorar em meio a tudo aquilo.
Sem muita demora, o fogo se apaga, e sinto cortes – provavelmente feitos por facões de cozinha – pelos piores locais possíveis. Tanto atravenssando quanto simplesmente cortando minha pele. Algo gélido atravessando o osso de minha cravícula, enquanto outras cortam meticulosamente cada área de meu rosto. Abro a boca para, mais uma vez, berrar, porém, assim que o faço, sinto um corte dentro de minha boca. Agora, minha dor era expressada enquanto contorço-me no chão, sem capacidade de usar as cordas vocais.
Depois que a última tortura para, nenhuma outra começa em seguida. Por um momento, uma risada, começa e os gritos e sussurros por piedade voltam no mais alto volume que uma voz consegue chegar, e mais uma vez, ecoa por toda a minha mente, e logo em seguida diminui, voltando ao normal.
Fico de joelhos no chão, com a respiração ainda pior, tentando me recuperar. Estremeço, entro no banheiro e lavo o rosto. Felizmente, a água está normal dessa vez. Seria bem mais difícil ficar sã se sentisse a água fervendo quando era para me recuperar daquelas torturas, e a intenção de tudo aquilo era essa: manter-me sã. Eu tenho que estar consciente de tudo o que acontece comigo. É por isso também que todas as torturas tem seu “quase”: É quase ensurdecedor. É quase insuportável. Por que, se for mais do que isso, eu não estarei bem o bastante para sofrer o resto. Pelo menos, essa é a minha teoria.
Suspiro, sem coragem de olhar-me no espelho e desço as escadas para a sala. Minha mãe, como sempre, está com um olhar triste e percebo que segura o choro. Mesmo que já acostumada, com certeza não é fácil ter uma filha assim. Tendo distraí-la, mas em vão.
– Então... Hector está bem? – Sinto saudades de meu irmão mais novo. Ele tem quatro anos, mas logo que nasceu, foi morar com meu pai em outra casa, afinal, ele teria medo de mim e poderia ter traumas. Foi uma solução inteligente, creio eu. Mas teria sido mais, se meus pais não fossem separados. Minha mãe, é claro, não gosta que o filho que ela lutou tanto para ter a guarda, ficasse com o ex marido, mas era para o bem dele. Imagino o que Hector pensaria disso se soubesse a verdade.
– Está bem, ele e seu pai disseram que queriam te ver logo. – Ela encerra o assunto rápido demais. Não quer conversar.
Mudo o peso de um pé para o outro, desconfortável.
– Hm, eu vou na livraria da rua de trás, tudo bem? – Pergunto, com certo medo de ela não concordar.
– Sim, sim. – Ela parece não prestar atenção em mim e, de certa forma, agradeço. Pego um pouco de dinheiro e a chave de casa e saio, sem me preocupar meus olhos, provavelmente ainda inchados.
Quando chego, observo o lugar e não consigo evitar: meus olhos brilham. Encaro o local, maravilhada. Tantas prateleiras, tantos livros, tantas páginas, tantas palavras, tantas vidas, ali, esperando para serem vividas novamente, por olhos que saibam ler.
Caminho pelos corredores, não muito grandes, procurando o gênero de ficção. Logo, encontro um livro com aspecto velho, afinal, lá eram vendidos tanto livros doados quanto novos. A capa era de um vermelho vivo, que me atraiu atenção. Vejo a sinopse e decido ler um pouco, para ver se a leitura não era enjoada ou algo do tipo.
De pé mesmo, abro-o e viro as páginas, passando pelo nome da editora, dedicações e datas, até chegar ao primeiro capítulo. Leio algumas páginas, até que a minha visão escurece, por uma questão de segundos, como se tivesse piscado e esquecido de abrir novamente os olhos.
Quando volto a encarar o livro, não há mais história, e todo o espaço é preenchido pela frase “O inferno não sairá de você”. Assustada, viro as páginas rápidamente, e também com aquela mesma frase. Deixo o livro cair no chão, e algumas pessoas me encaram, mas logo depois ignoram. Tremendo, pego o livro do chão e devolvo-o na prateleira, receosa. Sem coragem de conferir outros livros, saio do lugar quase correndo.
“Qualquer emergência, me ligue.” Eu sabia que aquelas palavras não eram verdades, mas mesmo assim, quando cheguei em casa, disquei seu número. Um toque. Dois, três, quatro, cinco... E caixa postal. Suspiro, e me jogo no sofá.
– O que está acontecendo comigo, meu D... – Engasgo. Uma das vozes fica mais que as outras, e posso ouvir uma risada. Confusa, ignoro e caio no sono.
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