Alisson e Alice
1 Espelho, espelho meu
Notas iniciais
Eu conheço a Alice desde que ela ainda era Alisson, ou seja, desde que nós tínhamos treze anos.
Alisson foi uma fase triste da Alice. Eu via na escola aquele garoto da minha sala, afastado de todos os outros. As pessoas riam dele. Eu era nova na escola, não via motivo pra rirem dele.
Eu quis fazer amizade com o Alisson. Eu simplesmente quis, sem sequer me importar com o porquê.
Eu perguntava do Alisson pros outros. Queria saber como começar um assunto antes de falar com ele.
Acabou que tudo que eu descobri era que, segundo meus colegas, Alisson era uma “mulherzinha”.
Acabou que achei Alisson mais legal ainda.
Na sexta-feira da primeira semana de aulas, eu fui falar com ele no recreio. Simplesmente amarrei o cabelo, tirei a poeira da calça e fui.
Eu lembro do sentimento de tristeza que eu tive ao ver aquele garoto magrelo comendo um sanduíche de presunto com os braços e olho cheios de hematomas.
Em um momento, estava encarando-o com cara de choro, no outro, tinha o forçado à vestir meu casaco roxo e cobrir o rosto com o capuz.
“É, eu sei, roxo não é bem sua cor.”
Um casaco, um trocadilho, e uma cor.
Essas foram as três coisas que nos levaram de completos estranhos à melhores amigos.
Eu comecei a falar com Alisson todos os dias. Nós conversávamos sobre assuntos inimagináveis, como o gosto estranho de Alisson por filmes de terror, e às vezes eu lhe mostrava algumas fotos de bolsas da Louis Vuitton ou até alguns modelos da Armani.
Eu comecei a desenvolver sentimentos por Alisson, sentimentos além da amizade. Mas infelizmente, Alisson nunca poderia retribuir estes sentimentos.
Eu só descobri isso depois da noite de Natal dois anos depois.
Meus pais haviam viajado à negócios, e eu pedi pra ficar na casa do Alisson durante o Natal e ano novo, pra não ter que ficar sozinha.
Os pais do Alisson concordaram e até permitiram que eu dormisse no mesmo quarto que ele. Eu não reclamei, gostava de ficar perto do meu melhor amigo.
Depois da meia-noite, trocamos os presentes, e nos abraçamos, bebemos um pouco de champanhe, e fomos dormir.
Alisson me perguntou se eu queria dormir na cama com ele ou preferia que ele pegasse um colchão para si.
Eu respondi que preferia pegar um colchão para mim, pois não queria abusar da hospitalidade.
Com a ajuda dos pais de Alisson, pegamos o colchão e levamos até o quarto. Sentamos no chão, com o rádio ligado, e ao som de “I’m not in love” do 10cc, trocamos os presentes.
Alisson havia me dado um vestido preto, lindo, de alcinhas, que ia até os joelhos e tinha um cinto branco largo.
Eu havia dado pra ele uma camiseta azul com a palavra “Brave” estampada na cor verde no peito.
Ao olhar para a camiseta, e, talvez, mais precisamente, para a palavra, Alisson pareceu ter um clique em sua mente.
Ele enterrou o rosto no tecido, e o molhou com suas lágrimas.
Então, desesperada, eu retirei a camiseta de eu rosto, e o beijei.
Porém, Alisson me surpreendeu ao me empurrar. E mais ainda ao soluçar arrependidamente e me abraçar, sussurrando a palavra “desculpa” várias vezes.
Depois de chorar mais um pouco no meu ombro, Alisson se acalmou, respirou fundo, e, aos prantos novamente, me contou sua história.
E naquele instante, eu descobri Alice.
A garota de quinze anos que viera ao mundo no corpo errado, na forma de Alisson, meu melhor amigo.
Eu nunca fui tão aceitativa em toda a minha vida. Eu não tinha uma opinião formada sobre transgêneros, mas começava a ter, graças à Alice.
Então, a primeira decisão que tomei, foi a de que com certeza Alice ficaria bem melhor naquele vestido do que eu. E assim, eu fiquei com a camisa, e Alice com o vestido.
Assim eu passei a madrugada de Natal pintando as unhas com minha nova melhor amiga secreta, testando as roupas masculinas do armário dela, enquanto ela testava as minhas.
Assim, eu e Alice dividimos a cama naquela noite, ele usando meu vestido, e eu usando dua camisa.
E, por algum motivo, roupas masculinas começaram a parecer melhores naquele dia.
Eu também fiquei lá no Ano Novo, quando Alisson começou a se sentir cada vez mais deprimido graças à seu gênero popular, e quando eu propus a maneira mais louca o possível de ajudá-lo a se assumir para sua família, que vinha passar o Ano Novo na casa dos pais de Alisson.
Eu o ajudei a se maquiar, a se vestir, e até mostrei como depilar as pernas.
E Alisson me ajudou a cortar o cabelo, me emprestou um de seus ternos e penteou meu cabelo pra trás, aplicando uma camada de gel.
E assim, quando os tios e tias, sobrinhos e sobrinhas de Alisson chegaram, Alisson morreu naquele quarto, e Alice nasceu na escadaria que nós dois descemos juntos.
Os pais de Alice pediram uma explicação, ainda confusos, e eu ajudei Alice a se explicar. Juntos contamos que Alice e Alisson eram a mesma pessoa, porém Alisson gostava mais de si mesmo quando era Alice.
E, surpreendentemente, os pais de Alice aceitaram bem, e até disseram que depois do feriado emprestariam dinheiro à Alice para que comprasse roupas e maquiagens que ela quisesse.
Os tios e tias talvez não tivessem aceitado tão bem, os primos e primas riram um pouco de nós, porém, não estávamos nem aí. As duas pessoas mais importantes da vida de Alice haviam aceitado, e era isso que contava.
Depois do jantar, furtivamente pegamos uma garrafa de Jack Daniel’s que o pai de Alice tinha e escapamos para as ruas.
Entramos na primeira boate LGBT que achamos usando as identidades falsas que já havíamos usado em outras festas.
Só que como eu era o homem, e ela a mulher, trocamos as identidades.
E naquela noite, coisas inesperadas aconteceram.
Alice ficou com um garoto.
E eu com uma garota.
Foi estranho, legal, mas estranho.
Eu já havia ficado e gostado de garotos antes, mas em nenhum momento meu coração disparou como quando aquela garota veio até mim e me beijou.
Então, começamos a dançar. Eu tava me divertindo tanto que nem pensei muito quando ela fez a seguinte pergunta:
“Qual o seu nome, gato?”
Eu apenas respondi que era Alisson.
Eu não sei o porque, nem como aconteceu.
Só sei que depois de me agarrar mais um pouco com a garota, eu e Alice saímos da boate em direção à praia, deitamos na areia, finalmente abrimos a garrafa, e dividimos, bebendo até a última gota.
Muitos acontecimentos importantes marcaram aquela noite.
Mas o mais importante pra mim, foi ouvir Alice dizer que era a mulher mais feliz do mundo graças à mim.
Eu fiquei feliz quando Alice começou a namorar Miguel, um pansexual simpático que estava no ensino médio.
Eu chorei de alegria quando Alice se formou e recebeu seu diploma como Alice Teressa Harrison.
Eu aplaudi de pé quando Alice saiu da sala de cirurgia depois da redesignação de gênero .
Eu chorei de emoção quando Alice me abraçou em seu último dia em Quebéc, indo para Vancouver fazer faculdade de direito.
Eu ria ao telefone quando Alice me ligava para contar sobre a faculdade.
Eu chorava e gritava de ódio quando os pais de Alice me contavam que ela havia sido agredida mais uma vez ao voltar de uma festa com as amigas.
E, principalmente, eu paralisei quando vi a foto de Alice no jornal, dizendo na reportagem que mais um transgênero havia sido assassinado no Canadá.
Eu chorei por um ano.
No enterro de Alice, todos concordaram em colocar seu nome público na lápide.
Eu vesti um terno no velório, e ela estava no caixão, ainda mais linda do que eu nunca seria com aquele vestido.
E de novo, eu chorei, ao olhar no espelho, e perceber finalmente como Alice se sentia.
Pois eu me olhei no espelho, e entendi que aquela nas roupas femininas não era eu, nunca foi, e nunca seria.
Eu entendi como era ser visto de uma forma desejando ser visto de outra.
Eu entendi como Alisson se tornou Alice.
E Alice se tornou Alisson.
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