Aline por Aline
21 Capítulo 21 - Obcecada
Eu tinha que ter aquela conversa de “mãe para filha”. Com Meire o diálogo não seria tão fluente, tão aberto e consistente.
Alguém tinha que encarar a difícil missão de acordar a Tita. Sempre esse alguém sou eu.
Não tem nada pior que conversar com quem só entende o que bem quer e não parece ter um pingo de noção dos próprios atos. Tudo bem ficar apaixonada, escrever corações com o nome do gatinho, ter um namorico (uma amizade colorida assumida), outra coisa é ficar se amassando em qualquer canto, relaxar nos estudos e eu nem quero falar o resto...
— Tita, tem alguma coisa muito errada com você. A vida não pode girar em torno de um namoro.
― Você já namorou. ― Ela lembrou.
— Pois é, Tita, mas eu tenho os meus próprios princípios morais... uma coisa é namorar fora da escola e outra bem diferente é arriscar o pelo namorando dentro da escola e desprezando o motivo pelo qual estamos todos aqui que é estudar!
— Ah tá, eu sei!
― E tem outra coisa: eu não venho à escola para namorar. Eu namorei o Tadeu fora da escola, namorei o Guto fora da escola e tudo que eu vivo com garotos eu faço fora daqui para não confundir as coisas. Você está confundindo tudo e isso é que vai te prejudicar porque indo mal nas provas e deixando os deveres de casa para depois, você vai tirar notas baixas e a Meire vai descobrir tudo, a Clarinha nem vai precisar abrir a boca.
— Só se você abrir a sua boca e der com os burros na água, sua idiota.
― Não, eu não vou fazer isso, mas também não vou fingir que nada está acontecendo... eu estou vendo você aí deixando o resto do mundo de lado para viver nessa ilusão... você está deixando os estudos de lado. Você está nessa de deixar o Adolfo pegar nos seus peitos, querer brigar com a Clarinha por causa dele, amiga... qual é? O que importa realmente para você? O Adolfo ou o seu futuro?
— Sem ele, que futuro eu tenho?
― Nem uma viúva pensaria numa coisa dessas, Tita. A gente jamais deve entregar todas as nossas esperanças a um garoto. A minha mãe é viúva, perdeu o amor da vida dela e teve que continuar vivendo. — Meu tom de voz era ríspido, tal qual seria de uma mãe aconselhando a sua própria filha: ― Ele está estudando. Você, por acaso, está? E o juramento? Deixar de estudar não vai fazer a Clarinha ir embora da tua casa nem a Cássia parar de te amolar... Deixar de estudar é ficar aqui por mais um ano.
— Eu só posso ver o Adolfo na escola, então tenho que aproveitar.
― Aproveitar o quê?
— Ficar com ele...
― Pois é... Eu não estou aguentando mais ficar de vigia de vocês dois, isso está ficando chato para mim.
— Você está com ciúmes só porque o Yohann não gosta de você?
― Eu não tenho um pingo de ciúmes de você.
— Pois está parecendo.
― Eu acho que você está se dando muita importância, Tita.
— Também não precisa me humilhar, né?
― Você é que está se humilhando.
— Eu não tenho culpa se o Yohann não te corresponde ― reclamou ela, tocando bem de leve na minha ferida.
— E isso também não é da sua conta. Isso eu me resolvo.
― Duvido que você não fosse grudar no Yohann se ele estivesse sendo disputado também.
— Você está enchendo a bola do Adolfo, Tita. Não faz isso, não. Disputado por quem? Por acaso ele é um troféu que você está disputando com a Maria Clara ou as concorrentes imaginárias? Vem cá, amiga, será que você gosta realmente dele ou quer tê-lo por perto para mostrar à Maria Clara que você é superior a ela? Pensa nisso como a menina inteligente que eu sei que você é. Não está fazendo sentido. Você está encaixando essa peça na paisagem errada do quebra-cabeça. Meninos não são troféus. Quem prende o outro acaba por sufocar e o amor verdadeiro só sobrevive quando é livre. Se você ficar alimentando dentro do seu coraçãozinho esse medo doente de perder o Adolfo, vai acabar perdendo.
― Eu não posso perdê-lo. ― Choramingou Tita.
— Mas você está se perdendo, só você não percebe.
― Você não está se colocando no meu lugar.
— Eu não quero.
― Se eu perder o Adolfo nunca mais eu vou ter outro namorado.
— Diga-me por quê?
― Por que... eu sou gorda!
— Não vá começar com essa história de que está gorda porque eu não vou jogar confetes em você, Tita. Você tem espelho em casa, pode ir a uma balança na farmácia, calcular o seu IMC e saber que não está gorda. Além do mais, eu vou me afastar de você porque não tenho paciência nem vontade de aguentar birra de menina mimada.
― Eu? Mimada?
— Minha amiga, não é assim que você tem que enfrentar as coisas. Não é se escondendo atrás do Adolfo ou de quem for. Você tem que enfrentar a sua mãe, mas de outro jeito. Não é pensando em transar com o Adolfo, não é priorizando o namoro nem pensando em fugir de casa. É pensando no que realmente vai fazer diferença no teu futuro. Eu tinha tanto medo de perder o Tadeu que acabei perdendo.
― Belo consolo.
— Você não está me deixando falar, amiga. Ter um namorado não é tudo nessa vida, não é para isso que Deus coloca a gente aqui. Ele tem planos maiores para nós. Ele sabe que nós garotas que nascemos pobres temos que ralar muito na vida para termos perspectivas de futuro, que apesar de sonharmos com nossos príncipes, não podemos simplesmente ser passivas e esperar que tudo caia do céu, que o nosso “final feliz” dependa de um beijo, de um garoto, de uma paixão. Quer dizer que se a Maria Clara se insinuar, você vai “dar” para o Adolfo para prendê-lo?
— Talvez...
― Você tem noção do que está falando? — Eu sentia vontade de chorar de indignação com tamanha bestialidade.
― Ele já pegou nos meus peitos...
— E você tem noção do que é sexo de verdade? Tem noção? Tem noção de que você não está pronta para isso?
― Eu tenho um namorado. Eu o amo, ele me ama, por que não?
— Você e o Adolfo podem estar se curtindo bastante e é normal, mas nenhum de vocês está pronto para transar, Tita. Você não está pronta para ter essa responsabilidade tão grande. Você vai ter que se preocupar com a proteção, de saber quando está fértil, porque ele não vai fazer nada disso por você. Transando sem camisinha você pode muito bem engravidar. Você já menstrua e sabe dos riscos que incluem doenças terríveis, sabia? Não é essa oba-oba que falam nas revistas, que a Cássia diz aí... ela se arrisca muito saindo com um e com outro sem se cuidar... não a tenha como exemplo, por favor! Ser dona do próprio nariz é mais que deixar qualquer um penetrar na sua vagina, no seu ânus, colocar o órgão reprodutor na sua boca, é muito mais do que isso!
― Oral não engravida, o Adolfo disse.
— Você já fez?
― Não, claro que não! — Ela esclareceu. ― Mas se não engravida que mal tem? Mas bom mesmo deve ser tentar mesmo o vamos ver, aí sim o Adolfo não pensa na Clarinha.
— Você teria coragem de levar uma gravidez adiante? Você acha que o seu corpo em desenvolvimento teria capacidade de abrigar outra criança? Você enfrentaria a sua mãe e o Horácio? Você se casaria com o Adolfo e sairia da escola? Você teria maturidade para arcar com as responsabilidades de um lar, de acordar de madrugada para amamentar bebê, trocar fraldas, passar a noite inteira acordada quando a criança estiver com dor de barriga, febre e com medo de escuro? Você conseguiria conciliar escola, trabalho, casa, marido e filhos com treze anos? Duvido!
Ela me encarou como se eu é que estivesse proferindo absurdos:
― Pois é... Se você quiser ser mãe aos treze e foder com a sua vida, pode ir em frente!
― Você anda muito chata, Aline. Está mais chata do que a minha mãe.
— Você é que anda me decepcionando ― rebati de imediato. — Está virando idiota, nem parece quem foi...
― Pois essa é a nova Tita! Azar o seu se não gostar...
— Ah, então é assim? ― Estendi minha mão direita para selar o aperto de mão do fim da amizade.
— Você escolheu assim, então é assim que vai ser.
― Você não me faz falta. Não é amiga de verdade.
— E o que seria uma amiga de verdade para você?
― Alguém que me entendesse, coisa que você não faz.
— Se te entender é te deixar afundar, talvez eu faça isso mesmo... você está fazendo por merecer... E eu acho que é você quem não me faz falta... você está mudando de um jeito tão assustador que está difícil conversar com você, Tita... se um dia você conseguir pensar com mais calma, me procura. Senão, me esquece! Eu não quero ser culpada se você fizer uma merda muito grande. Passar bem.
Minha melhor amiga não está em seu juízo normal, não está raciocinando com clareza.
Dessa vez, infelizmente, a minha missão falhou.
Perdi a piada e também a amiga.
Não quero crer que Tita se vendeu tão barato, por tão pouco, por causa de um garoto.
Sim, eu fui o cupido desse casal, não tenho ciúmes do namorico, mas queria que dentro da escola eles mantivessem a discrição, pois agora que não participo mais do grupo de “estudo” entre os dois, saber-me Deus o que pode acontecer.
Não pode sobrar para mim.
Eu sou pelo amor, a favor de sentimentos confessados.
Não de distorção total de prioridades.
Não de fazer garotos de troféus.
Não sou má influência, sou aquela amiga rabugenta que fala as verdades que os demais não gostam de ouvir.
Tem quem não queira ou não esteja pronto para entender, aceitar os fatos.
Tenho muito medo dos próximos dias.
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