Aline por Aline
19 Capítulo 19 - Sem ar
Nice não podia estar certa, mas estava!
Eu dei um passo maior do que a minha perna poderia aguentar.
Eu não vi mais nada além do meu desejo.
Eu vi uma realidade que não existia e não é surpresa alguma que meu coração esteja partido...
Yohann tem namorada!
Yohann gosta de alguém e esse alguém não sou eu!
Droga, por quê?
Por que eu tinha que gostar justamente dele?
Justamente dele que não me dá um pingo de valor?
Yohann é um mentiroso patológico. Todo metido a conquistador deve sê-lo. Falam pelos cotovelos o que nem sequer sentem. E eu, a maior das tolas, acreditei!
Caí feito patinho naquele papo de ser “diferente das outras”.
Eu não queria ser diferente para ser melhor do que ninguém. Queria ser a única para alguém. Ser a música que toca no coraçãozinho do Yohann. Queria que aquele beijo tivesse significado algo para ele também. Se lhe é comum ficar e depois fingir que nada aconteceu, para mim não é.
Se eu soubesse que aquele beijo não teria valor para ele, teria desferido um belo cascudo para que aquele metidinho soubesse que não poderia tirar onda comigo. Mas é tarde demais até para me odiar.
Se eu sou tão legal assim, por que ele ficou com outra?
Por que ele não foi verdadeiro comigo desde o começo?
Ele simplesmente permitiu que eu me iludisse para depois partir o meu coração e sair de cena como se nada houvesse.
Ou talvez a culpa não fosse dele, se levar em consideração que no coração ninguém manda. Eu também posso ter confundido sua gentileza com o algo a mais que no fundo eu sinto falta.
Eu odeio mentiras.
Logo eu... Logo eu que sou precavida e cresci ouvindo que não se deve acreditar em garotos...
Justo eu caí nessa armadilha e me espanto por não ter armado um escândalo.
Como ele foi capaz de fingir que estava gamado para depois apresentar aquela puta peituda da Sheila?
Aquela garota não tem seios normais como os meus, tem buas bolas de basquete dentro do sutiã!
Eu não gosto nem um pouquinho dela!
Mas o Yohann gosta...
Como é que ele é tão idiota?
Sheila é muito chata!
Ele sempre se mostrou um garoto tão legal, divertido, bom de papo, como é que consegue namorar uma garota egocêntrica e mimada como a Sheila?
Fico pensando o que ele viu nessa sardenta ridícula e metida a besta que fica dançando aquelas músicas insuportáveis de axé como se fosse a própria loira do Tchan. Ela é uma versão piorada da Cássia. A irmã dela é a Bárbara, lá do CM, de quem a Rayanna não suporta nem ouvir falar, pois a tal Babi ficou com um menino que a Ray gostava. Agora entendo que o gene intragável é de família. Se a irmã mais nova é a versão mirim da chatice, quanto mais a representante fiel de tanto azedume.
Por eu ser apenas a filhinha da diarista, ela me olha de cima a baixo como se estivesse encarando um inseto. Felizmente ela não me encara como uma ameaça real, pois não passo de uma “pirralha”.
Será que ele já apalpou aquelas duas bolas de basquete?
Será que eles já passaram do beijo na boca?
Sem contar que tudo na Sheila é insuportavelmente irritante, a começar por aquela voz nasalada enjoada que ela insiste em afinar quando se aproxima dele... O jeito que ela rebola e sempre acha um jeito de mostrar a marca do biquíni cavado naquela bunda cheia de celulites que treme igual a uma cumbuca cheia de gelatina de abacaxi.
― Não foi por falta de aviso, minha filha. Eu bem que te disse para abrir os olhos. — Nice pode ser tudo, menos alguém que guarda rancor. O colo dela era sem dúvida tudo de que eu mais precisava.
― Como é que pode um menino tão legal que nem ele iludir uma garota e ficar com outra?
— Bem-vinda ao clube, Aline ― Nice me saudou com um abraço. — Bem-vinda ao Clube dos Corações Partidos.
― Yohann parecia tão diferente dos outros... Ele me beijou... eu pensei que ele realmente gostava de mim...
— Se ele gostasse não te esconderia.
— Ele deve ter ficado com medo de falar com você.
― Medo de quê? ― Questionou Nice. — E eu acho bom mesmo que ele tenha medo de falar comigo, especialmente depois do que fez.
— Promete que não fala nada com ele, mãe? Acho que o que está acontecendo já é constrangedor o bastante!
― Que te sirva de lição, minha filha. Menos é sempre mais!
Eu não cheguei a me declarar para ele. Não por falta de vontade. Eu só não senti o clima, nem a coragem de antes.
A D. Zuleica sempre agita para que eu acompanhe os jovens nos passeios à noite. Quando éramos Yohann, os outros vizinhos jovens e eu, tudo certo, mas agora com a Sheila mandando e desmandando com a sua irmã caçula mais insuportável ainda, eu tiro o meu time de campo e volto para a casa dos meus padrinhos, pois quando o amor fere o coração, ainda nos restam os amigos.
É bom voltar para Curitiba mesmo que isso signifique formalmente o fim das férias. Vai ser bom rever Tita, Adolfo, os meus padrinhos, a Naná. Mal vejo a hora de contar à Tita que já sou mocinha também. Desde o dia 03 de janeiro.
— Vai mesmo voltar para casa, Aline?
― Vou, mãezinha. Tenho que voltar para ver o uniforme, o material escolar, essas coisas...
Minha mochila já estava arrumada, eu só esperava mesmo que mamãe me emprestasse o dinheiro da passagem o qual eu iria reembolsá-la mais tarde.
— Mas o Carnaval é só em março, minha flor. Fica pelo menos para comemorar o seu aniversário.
— Eu gosto de ficar com você, mãe, mas...
— Mas o quê, meu dengo? ― Nice me abraçava bem apertado e quando falava daquele jeito engraçado raramente eu ficava séria: — O que é que está pegando? É a bruxa peituda que está te enchendo? Não diz que não porque eu sei que é sim...
― Eu prefiro ir embora antes que aconteça alguma coisa.
— E vai me deixar sozinha? ― Nice me servia um café com leite na cozinha e molhava um pedaço de cão na xícara. Ela adora fazer isso.
— Eu não queria te deixar sozinha, mãe, mas realmente acho que é melhor ir. Eu não quero dar o gostinho de brigar com a Sheila e a Babi. Elas estão me tirando do sério e antes que eu parta a cara da tal Babi, prefiro ir.
— De vez em quando é bom mandar algumas pessoas... você sabe ― ela deu uma piscadela com o olho direito.
― Ah, sim — assenti desanimada.
— E dessa vez a Zuleica e eu aprovamos a surra. ― Ela sussurrou como se estivéssemos sendo ouvidas por mais alguém: — A Zuleica está por conta com essa Sheila. Está na cara que a mãe da menina está praticamente enfiando as filhas aqui só porque a cobertura da Zuleica fica de frente para o mar.
Nice deve ter comentado com Zuleica que eu iria embora, pois quando eu desci para comprar pão no outro dia, Yohann me barrou na portaria. Eu fui gentil, pedi-lhe licença e disse que estava com pressa, mas ele não deu ouvidos e quis saber por que eu partiria.
— Anda Aline, diz...
― Eu não te devo satisfação... — Continuei caminhando na frente dele sem me importar com as desculpas furadas que ele iria querer me dar como se eu fosse idiota.
— Você vai mesmo embora hoje?
― Isso faz diferença para você, Yohann? Algum dia fez?
— Para você faz?
— Yohann, eu tô com pressa.
― Só me responde isso.
― Eu vou embora, Yohann. Pronto! Respondi a sua pergunta?
Ele assentiu com a cabeça que não, que queria mais do que uma resposta áspera. Eu não tinha mais nada a tratar com aquele indivíduo que mente para garotas inocentes...
― Escuta aqui, Aline. Qual é a sua?
― Eu é que te pergunto Yohann.
Ele não me deixou atravessar a rua.
— Yohann, me deixa passar, por favor. Não está vendo que a sua madrinha me pediu para comprar pão? Anda, me deixa ir.
— Você está chateada comigo? ― Ele parou a minha frente parecendo arrasado (desde eu que descobri a verdade), como se realmente sentisse a minha falta. Eu poderia me trair e me deixar manipular por aqueles olhos castanhos que ficavam bem pequenininhos quando os lábios se contraíam em um sorriso. Não, eu não podia deixá-lo tirar onda comigo. Eu não tenho vergonha de não ser rica, de ser filha de uma diarista. Eu me sentiria envergonhada se não valorizasse os sacrifícios que Nice faz, se fosse pobre de espírito, se fosse como a Babi que vive caçoando de todo mundo e se acha a dona do pedaço por ter um par de olhos claros e alguns otários que bajulam, pois ela se parece com a Cecília Prado. Magrela e insuportável igualmente.
— Eu? Eu não estou chateada com você. ― Dei de ombros tentando fazê-lo acreditar que meu choro de todas as noites não era por causa dele.
― Não está, mas parece — Yohann cismou inconformado. ― Se eu fiz alguma coisa que te magoou, peço desculpas.
— Não precisa se desculpar.
― É claro que eu preciso. Você é uma menina rara, legal, simpática, linda, risonha. Sinto muito a sua falta, Aline.
— Você tem a Sheila, a Babi, os seus amigos. Vocês vão se divertir mais sem mim.
― Eu posso até estar com a Sheila, mas não gosto dela.
— Essa desculpa não cola comigo, Yohann.
― Não pode acreditar?
— Não.
― Você acha que eu seria capaz de mentir para você?
— As pessoas são capazes de muitas coisas. As pessoas que nós amamos são as que normalmente nos matam por dentro com gestos e palavras indesejáveis, Yohann. Você sabe muito bem disso. Você é grande e sabe o que faz, só não queira que eu acredite mesmo que você está namorando a Sheila Suzana sem sentir nada por ela porque se está tentando me convencer disso, por gentileza, me esquece.
— Não posso!
― Yohann, o melhor que nós dois fazemos é fingirmos que nada entre nós aconteceu, certo?
— Não me peça isso!
― Eu não quero causar problemas para a minha mãe e muito menos com essa garota.
— Esquece a Sheila e pensa em nós.
― Nada me garante que você não diga a mesma coisa para ela. — Olhei para ele por cima do ombro. ― Pode me chamar de orgulhosa se quiser, eu não me importo.
Eu comprei os pães e ele me acompanhou fazendo de tudo para chamar a minha atenção.
— Eu quero que você acredite em mim, Aline. ― Yohann fez menção de me tocar, mas deixou a mão no ar, perdido, se enrolando com as palavras: ― Eu não gosto da Sheila, nem sei por que...
— Você gosta da Sheila e não me deve satisfações do que faz, está bem? Eu gosto muito dos seus padrinhos, sou grata por tudo, mas chegou a minha hora de ir embora e eu vou, pois minha vida tá lá em Curitiba, minha vida não é aqui. Aliás, espero no mínimo que você faça a Sheila feliz.
― E você vai ficar como? — Ele tentou se aproximar para quem sabe fazer um clima de beijo rolar. E se frustrou, pois dei dois passos para trás.
― Como eu sempre estive... Eu vou ficar bem, Yohann. Obrigada por tudo, mas esse lugar não é para mim.
E realmente não é.
Eu não sei qual é o meu lugar, de verdade.
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