Notas iniciais
Eu mudei o nome da mulher de José para Margarida, tá?

— Você tá bem? — a voz de José me trouxe de volta a sala da igreja.

Algo se contorceu em meu estômago e tive uma vontade enorme de vomitar. Comecei a sentir o suor frio escorrendo por minha testa. Medo. Eu olhei para José, tão impotente que ele segurou meu braço.

— Daniel, relaxa cara, não vai passar mal no dia do teu casamento. — disse desesperado.

Casamento. Eu estava prestes a me casar com Linda e ela...

— Eu não posso me casar! — gemi.

— Qualé! Não vai andar pra trás agora, né? — José falou irritado.

Ele me conhecia a tempo suficiente e desaprovava irrevogavelmente o fato de eu usar as mulheres. Sempre que eu terminava com uma garota depois de dois dias de namoro, José me enxia de sermões sobre cavalheirismo e o devido respeito no qual as mulheres merecem. Ele amava a esposa e era um pai exemplar, mas eu só fui capaz de seguir seus conselhos após conhecer Linda.

Provavelmente naquele momento ele achava que eu tinha voltado aos tempos de festeiro, mesmo que ele tivesse me escutado falar horas a fio o quanto minha noiva era maravilhosa e sobre coisas que só mariquinhas e homens românticos diziam. José estava errado.

— Ela nunca disse que me ama! — soltei.

José arregalou os olhos, espantado.

— Está me dizendo que é por isso que não pode se casar?! — perguntou cauteloso.

— E se ela não me amar?

— Ela aceitou se casar com você. — José apontou irônico.

— Talvez não tenha tido escolha, talvez tenha ficado com pena de mim, talvez...

— Por Deus, homem! Ela te ama!

— Mas nunca me disse isso!

Assim, soltei-me de José e corri da sala, logo eu estava fora da igreja. Desci apressado os degraus e avistei o meu carro cinza do outro lado da rua. Abri a porta e me enfiei dentro do conversível. Depois eu já estava dirigindo em direção à única pessoa que podia me acalmar naquele momento.

Guiado pela mesma força invisível, cheguei à casa de José, onde Linda estava se arrumando junto com Margarida, a mulher de meu amigo e algumas outras mulheres da vizinhança.

Estacionei e desci do carro. Fui em direção à casa de cor rosa claro e bati na porta. Quem atendeu foi Marcela, vizinha de José.

— Daniel?! O que faz aqui?! — ela disse espantada com meu estado esbaforido, talvez pensando que eu tinha ido correndo até a casa.

— Eu preciso falar com Linda. — soltei depois de respirar fundo.

— Quem é? — Margarida apareceu na porta, e ao ver-me disse — O que o noivo está fazendo aqui?

— Ele quer ver Linda. — Marcela respondeu.

A boca de Margarida formou um “O” completo, totalmente surpresa e ultrajada pelo meu atrevimento.

— Você não pode ver a noiva antes do casamento, dá azar!

— Que se danem suas superstições! — gritei impaciente — Eu preciso falar com Linda!

— Meu Deus! — Judite, uma fofoqueira da rua surgiu também — Que rude!

Margarida estava tão surpreendida com minha resposta que não conseguiu dizer nada.

— Qual é o problema? — Marcela perguntou preocupada, pensando que tinha ocorrido alguma tragédia.

— Onde está José? — a voz de Margarida desesperada, seguindo o mesmo raciocínio da vizinha.

— Ele foi atropelado? — Judite se intrometeu, fingindo preocupação, mas sua sede por fofocas visível nos olhos perscrutadores.

— Ele está bem?! — gritou Margarida.

— Não aconteceu nenhum atropelamento! — rugi furioso para Judite — José está igreja! Não acha que se acontecesse algo com ele eu viria falar com você não com Linda?

— E por que veio aqui assim? — Marcela indagou.

Cansado demais para repetir eu tentei passar pelas mulheres, mas Margarida, com todo o seu tamanho, impediu-me tapando a passagem.

— Você não pode entrar! — a mulher falou pela segunda vez — O noivo não pode ver a noiva antes do casamento.

Um líquido quente parecia descer e subir por minha espinha. A fúria atingindo o limite.

— Se não me deixarem entrar não haverá mais casamento algum!

Judite sorriu eufórica pela fofoca do dia: o noivo covarde fugindo da obrigação do casamento, ela devia estar pensando na manchete. Marcela e Margarida me fitavam com os olhos arregalados e depois de alguns segundos, abriram passagem, sem dizerem nenhuma palavra.

Andei pelo conhecido corredor, passando pelas duas filhas novinhas do casal da casa, elas usavam vestidos idênticos, seriam as damas de honra. Dei boa tarde às garotas e me dirigi até o quarto onde provavelmente minha noiva estava.

— Linda. — chamei depois de bater na porta.

— Vá embora! — ela gritou.

Meu coração se apertou. Ela tinha ouvido a confusão. O meu grito. Imaginei minha vida sem Linda e tive um mini ataque cardíaco. O desespero me tomando no lugar da irritação de antes. Bati novamente na porta, tentando me controlar para não causar um escândalo maior.

Marcela e Judite apareceram no corredor, curiosas. Lancei-as um olhar que dizia para darem o fora. Marcela deu meia volta, mas Judite permaneceu, o desejo de presenciar a cena forte demais para ser quebrado.

Margarida surgiu, puxando a fofoqueira pelo braço, forçando-a a sair de perto de mim.

— Linda, — chamei baixinho, temendo que outras pessoas escutassem — me deixe entrar, quero falar com você.

— Acho que eu já sei o que quer me dizer. — uma voz chorosa respondeu do outro lado da porta.

Minha garganta praticamente se fechou, eu estava quase chorando por minha estupidez, porém, por algum motivo eu sentia uma necessidade enorme de ouvi-la me dizer que me amava, como um tolo inseguro.

— Eu te amo. — disse num sussurro.

Alguns instantes depois, e o clique da porta sendo destrancada invadiu meus ouvidos. Entrei devagar. Perdi o fôlego com a imagem de Linda no vestido branco de noiva. Fechei a porta. Ela estava sentada na cama de casal, o rímel criando lágrimas negras que escorriam por suas bochechas. O véu largado no chão, ao pé da cama e os cabelos ruivos arrumados num coque impecável.

— Linda. — aproximei-me, levando minhas mãos ao seu rosto molhado.

Ela virou a cabeça, desviando-se de mim.

— Esqueça o que ouviu lá fora. — falei apressado.

Ela ficou calada, os olhos azuis mirando o véu. Meu coração se despedaçou. Como eu fui idiota, ela me amava, se não me amasse não estaria chorando. Por que agi tão impulsivamente? Era a droga daquela força misteriosa.

— Você descobriu? — sua voz saiu em um sussurro.

— O que? — perguntei perplexo — Descobri o que?

Minha insegurança saltou em minha mente de novo.

— Você está escondendo alguma coisa de mim?

Ela me encarou. Recuei dois passos, assustado. O que ela estava escondendo de mim?

— Eu queria ter te contado antes, mas...

Eu já estava encostado na porta. Os olhos azuis completamente negros, os cabelos ruivos desfazendo-se do coque e transformando-se em tentáculos vermelhos.

— Eu não sou humana. — murmurou — Eu vim de Plutão.

— Você... Você... — gaguejei.

— Por favor, desculpe-me por não ter contado antes, eu tive medo de que você me deixasse.

Ela me olhava tão assustada quanto eu. Queria desmenti-la, entretanto, Linda estava ali, bem na minha frente, com cabelos de tentáculos e olhos negros brilhantes.

— Eu... — suas lágrimas ainda escapando — Eu te amo.

Então eu compreendi a força estranha que sempre estava me atraindo para Linda.