Alicia Dort

1 Alicia Dort


Notas iniciais

Yo, minna-chan! Espero que gostem

Alicia Dort ~ Alicia Dorme

- Agora é a vez de... Alicia apresentar seu projeto – o professor comentou fazendo uma pequena pausa em meu nome para checar a lista dos alunos em cima de sua mesa.

Meu coração acelerou uma batida ao ouvir meu nome. Não que eu estivesse nervosa... Era só que... Eu não tinha feito o trabalho... Respirei fundo e me postei a caminhar para frente da sala, sentindo todos os olhares me encararem. Como falar que eu não havia sequer escrito uma frase?

- Alicia, sobre o que é seu trabalho? – o senhor de cabelos negros e alguns fios grisalhos perguntou ao me olhar à sua frente.

Na hora, eu ia contar: ‘Desculpe, professor, mas eu não fiz meu trabalho’. Mas então, de repente, a voz da minha avó surgiu em minha mente e eu me lembrei de uma ‘lenda’ fascinante sobre meu nome que ela me contava quando eu tinha cinco anos.

- Apresentarei um trabalho sobre meu nome – falei, sorrindo, e caminhei em direção ao quadro branco, postando-me à sua frente. Então comecei a contar a linda ‘lenda’:

Quand Alicia compose un bouquet de roses / Quando Alicia compõe um buquê de rosas

Le monde est suspend / O mundo fica suspenso


“Alicia, uma jovem que possuía lindos cachos louros que caíam sobre seus ombros, lindos olhos verdes-esmeralda e um rosto perfeitamente desenhado, era filha de donos de uma famosa floricultura na antiga França”.

“Apaixonada pelas flores desde quando tinha seus seis anos, começou a compor lindos buquês e, enquanto compunha, conversava e cantava para as rosas, os narcisos, as violetas e todas aquelas flores que suas habilidosas mãos seguravam”.

“Todos aqueles que visitavam a floricultura se apaixonavam pelos buquês feitos pela linda jovem Alicia e compravam mais e mais flores, dependendo sempre dela para comprar os buquês perfeitos”.

Á ses levrès est pour cause / Em seus lábios, porque

Elles sont d’um rose / Eles são de um rosa

Inattendu / Incompreensível


“E quanto mais Alicia produzia, mais ficava cheia de vida, contente em ver as plantas, seus pais e os clientes felizes. Seus lábios nunca tiravam o tom de rosa que dava vida ao seu rosto pálido”.

“Mas, um dia, Alicia quis pegar flores exóticas com sua mãe, em um bosque perto da cidade onde moravam. Afinal, era uma cidade pequena com poucos habitantes e sem poluição, o bosque ia continuar ali, enquanto a capital, Paris, roubava a vida de outras cidades”.

“Alicia e sua mãe adentraram o bosque. Adentraram, adentraram e adentraram, até chegar a uma parte mais densa, onde a jovem garota encontrou um lindo copo-de-leite e quis pegá-lo. Soltando a mão de sua mãe, Alicia foi até a flor e a observou bastante primeiro para depois retirá-la dali. Porém sua coragem faltou. Não queria tirar uma flor inocente de seu lugar de nascimento, poderia ser que ela fosse muito importante para aquele lugar. Então se levantou, sorrindo, procurando sua mãe”.

“Mas ela não estava mais ali”.

“Ela não havia percebido que Alicia havia soltado sua mão e foi buscar algumas outras flores. Além disso, era a primeira vez que Alicia vinha com ela. Não estava acostumada a segurar a mão de alguém pela floresta, então não sentiu falta daquela mão macia”.

“Alicia, então, começou a caminhar pelo bosque, adentrando-o cada vez mais e chamando por sua mãe”.

Quand Alicia s’endort / Quando Alicia adormece,

Une plant carnivore / Uma planta carnívora

Veille sur son sommeil / Vela seu sono


“Cansada de caminhar e não achar ninguém, Alicia dormiu com pequenas lágrimas formadas em seus olhos. Dormiu entre as raízes de uma árvore centenária”.

“Alicia dormiu em um sono profundo e, perto de sua cabeça, nasceu uma planta carnívora, fruto do desespero no qual Alicia se encontrava, perdida e dormindo. Tendo pesadelos horríveis...”.

“Mas, no meio desses pesadelos e desse desespero da linda Alicia, um pequeno sonho doce nasceu. Nele, Alicia foi protegida pelas plantas. A planta carnívora era carinhosa, as raízes da árvore eram aconchegantes e uma hera levantou-se ao seu redor, recobrindo-a com seus tentáculos verdes e macios, protegendo-a do mal do mundo”.

Mais dans les bras de lierre d’Alicia / Mas nos braços da hera de Alicia

On ne se réveille pas / Ninguém mais acorda

Alicia dort / Alicia dorme


“Alicia dormia, dormia em um sono profundo que nunca acabaria. Envolvida pela hera de Alicia, sonhava com seus pais... Mas em forma de planta. Não conseguia pensar em outra coisa que não fossem plantas e animais do bosque. Queria pensar em humanos, mas como? Eles só destruíam aqueles que a protegiam”.

“Dias e dias passaram-se, e Alicia continuava em seu sono profundo, presa àquele sonho eterno. Caçadores passavam pela região, mas nunca perceberam a jovem ali dormindo, por esta estar coberta pela hera”.

“Então, um dia, os pais de Alicia, que não eram nada pobres, resolveram dar uma recompensa – nada pequena – a quem achasse sua amada filha. No mesmo dia, todos, todos os habitantes da cidade, puseram-se a procurar Alicia. Mas, no pôr do sol daquele mesmo dia, todos voltaram de mãos abanando, exceto um. Seu nome? William Bloom, o melhor amigo da jovem. Não ligava para o dinheiro que poderia receber, queria apenas achar Alicia. Foi caminhando pela floresta à noite que encontrou as heras rodeando o perfeitamente esculpido corpo de Alicia. Sentiu seu coração retardar uma batida, então tocou com cautela naqueles tentáculos verdes, para, logo, ser surpreendido pelo ataque da planta carnívora, que adormecida estava perto do rosto da jovem encoberta de folhas e plantas. No mesmo instante, um grito de agonia e dor foi ouvido por todos os animais do bosque e todos os habitantes da cidade. E, depois, nada mais se viu do jovem William Bloom\".

“Após esse incidente, todos os que se aproximavam da linda, amada e, agora, prisioneira do mundo das plantas, Alicia, morria na hora ou morria alguns dias depois com o veneno das plantas”.

Alicia dort / Alicia dorme


“Dormia. Dormia. Dormia. Dormia e sonhava para sempre, aprisionada naquele mundo de onde jamais sairia. Alicia era uma princesa em apuros do mundo das criaturas que tanto amou e cuidou. Mas, nesse conto de fadas criado pela princesa Alicia, não havia um príncipe sobre o cavalo branco para salvá-la”.

Un bouquet de violettes / Um buquê de violetas

Des serpents à sonnettes / Serpentes com chocalhos

Dansent dans as tête / Dançam em sua cabeça


“Além das plantas que cresciam ao redor do corpo dormente de Alicia, animais vinham fazer-lhe companhia, mas todos eram mortos, exceto as cascáveis, que assustavam os visitantes com o chocalho de suas caudas, sendo de enorme ajuda para as plantas dali”.

“E, no sonho daquele dia, as cascáveis da realidade viraram dragões fictícios, que Alicia tinha medo, muito medo. As plantas eram o bosque para onde aqueles dragões a levavam. Alicia queria fugir, apesar de amar as plantas”.

Mon doux venin / Meu suave veneno

Une odeur de jasmine / Um perfume de jamim

Sur lês joues pales / Sobre as faces pálidas

D’une fille végétale / De uma menina vegetal


“Alicia não tinha mais ar, não tinha quase mais vida. Virou um vegetal, uma planta, não sairia mais dali, estava presa e nunca seria solta. Da sua masmorra, o carcereiro havia perdido a chave. Da sua vida, ela havia perdido o rumo. Não devia se apegar tanto às plantas. E, quase no fim, ouviu uma doce voz:”

“- Alicia, Alicia, cuidaste tão bem de nós, queremos você junto de nós para sempre... Para sempre... Para sempre... – a voz ecoava e ecoava um para sempre sem fim”.

“Alicia puxou pela última vez ar, percebendo que quem lhe chamava era a sua hera, sua própria hera, que cuidava tão bem dela”.

Quand Alicia compose un bouquet de roses / Quando Alicia compõe um buquê de rosas

Le monde est suspend / O mundo fica suspenso

Mais dans les bras de lierre d’Alicia / Mas nos braços da hera de Alicia

On ne se réveille pas / Ninguém mais acorda


“Prendendo a respiração da jovem Alicia, as heras criadas por seus sonhos cresceram ainda mais, impedindo-a de roubar um pouco do ar puro do bosque, deixando seus pequenos pulmões cheios, parecia que iam explodir. Alicia guardava o ar, queria soltá-lo, mas tudo lhe impedia. Tudo, todos. Até que, de repente, ela parou de lutar com as plantas e, tonta, desmaiou para sempre, morrendo ali naquele local. Alicia dort e, das heras de Alicia, ninguém mais acorda”.

O professor continuou a me observar, surpreso. Havia gostado da lenda?

- Alicia, quem lhe contou tudo isso? – perguntou, enfim.

- Minha avó. Agora, posso me sentar?

- Ah, claro. Nota dez – sorriu ao pronunciar o número.

Sorri de volta e voltei a minha carteira ao som de aplausos.

No fundo da sala, havia uma rosa e, sob ela, um cartão, no qual havia escrito:

“Alicia, cuidado com as plantas, cuide delas, mas não se apegue tanto. De Alicia, a menina vegetal”.

Ela havia me deixado isso, afinal, era a doce irmã da minha amada avó que havia virado Alicia, a menina vegetal. Não era uma lenda, era a história.

Era uma história, não uma estória. E no final, Alicia dorme.

Notas finais

Muito bem, espero que tenham gostado!

Reviews são bem vindos '

Quero saber o que vocês acharam '

beijos:*

Takoyaki ~ Bolinho de Polvo

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!