Alice's Key
11 Stephen
O aparente desespero
Por mais que seja efêmero
Traz sempre, uma nova aliada
Quem, por sua ajuda, é recompensada
Já faz meia hora que estou aqui, e ainda não consigo distinguir as duas crianças.
— Nós nunca contradizemos uma a outra. — gêmea da direita.
— Jamais. — esquerda.
— O desafio do portão é um caso a parte.
— Como eu posso distinguir vocês? — perguntei.
Eu estava brincando com elas, esperando Zak voltar. Ele disse que seria rápido, só levaria o Kit para o quarto.
Acho que ele me abandonou, agora eu tenho que cuidar de três crianças — por mais que uma seja mais velha que eu mesma.
— Nossos olhos! — falaram simultaneamente, fazendo Jojo rir.
— As duas tem olhos violeta! — exclamei.
— Não. A Jenny tem o olho mais claro que o meu.
— A Jamie está completamente certa.
— Vão brincar com o Jojo, a tia Ally está cansada. — apoiei a cabeça nas mãos, suspirando.
Esqueci como crianças eram hiperativas.
O Jojo fala mais que um papagaio, mas é calmo.
— Querem brincar de pega-pega? — questionou a pequena lagarta correndo de encontro as amigas.
— Vão e se divirtam. — saí sem que me notassem, e entrei no castelo.
Paredes brancas, diamantes e ouro. Parece que tudo varia nesse tom — inclusive o rei — não deixa de ser bonito. O teto de vidro que deixa a luz entrar no saguão principal, fazendo o mármore brilhar.
— É de tirar o fôlego, certo?
— Por que você não foi lá fora me resgatar daquelas criaturas? — minha mão se fechou ao ver aquele maldito chapeleiro.
— Kit não quis me deixar sair, e... Já fiquei tempo o suficiente com as gêmeas.
— Na verdade, acho que você não quis sair de lá porque o Chess fica inacreditavelmente bonito sonhando.
A cor fugiu do seu rosto, deixando-o ainda mais pálido.
Pelo visto acertei sei calcanhar de Aquiles.
— Do que você está falando?
— Pode enganar a todos, menos a mim. Você olha o Cheshire com o coração, nunca com os olhos! Eu me afogo em amor quando estou perto de você. Sem falar que você quis matar sua irmã quando ela o beijou. — ele está ficando vermelho, isso é mais um sinal de que estou certa.
— Isso é exagero. — afirmou desviando os olhos.
Meninos nunca admitem a paixão para pessoas estranhas.
— O reizinho disse que teria uma reunião hoje. — pensei alto, enquanto olhava para os lados procurando algum lugar que pudesse explorar.
— E você vai participar também.
— Eu vou?
— Sim. A irmã dele quer te conhecer, e nós temos que preparar algumas coisas para o Festival. Por exemplo... Os trajes. Que ficarão por minha conta. — sorriu.
— Maravilhoso. Já pensou em algo para mim?
— Eu não penso nos trajes. Apenas reproduzo o que vejo.
— Não faz o menor sentido o que você está falando! — lancei as mãos para o alto, irritada. — Você não pode ver o que ainda não foi criado! A menos que veja o futuro, e isso é improvável.
— Já lhe disse que posso ver o futuro.
— Como?
— Ontem, antes de nós dançarmos, eu falei que vejo o futuro.
— Duvido. — cruzei os braços, desafiando-o com o olhar.
— Não me importa se você acredita ou não. As opiniões são irrelevantes.
— Você sempre foi formal assim? — minha pergunta fez ele revirar os olhos.
— Prefiro a formalidade, um meio de extravazar a loucura em excesso.
Será que ele pode ver quando e onde as meninas vão me procurar? Porque eu não quero ver elas hoje.
— Você não vai vê-las.
— Pensei alto de novo? — choraminguei, eu tenho que controlar isso, senão vão descobrir os meus segredos.
— Zakshees, Allya, a reunião começará em uma hora. Vão acordar o Khristian então sigam para a sala de reuniões. Crist estará esperando vocês lá.
— Porque sempre nos dá as tarefas mais complicadas? — Zak se levantou e encaminhou na direção dos quartos. — Venha logo, Lya. O dever nos chama.
— Acordar o Chess é tão difícil assim?
— Pior.
Chegamos no quarto. O nosso querido loiro estava embolado nas cobertas, se mexendo, sonhando.
— Apaixonado. Você está completamente e totalmente apaixonado.
— Cai fora. — murmurou me fuzilando com o olhar.
— Nós vamos acordar ele juntos.
— Planeja fazer algo?
— Que tal fazer cócegas? — ele balançou a cabeça. — Gritar? — negativo — Puxar as cobertas? Pular em cima dele? Dançar vodu?
— Mais simples que isso.
— Então porque você disse que era a pior tarefa?
Ignorada. Eu fui ignorada. O Hatter simplesmente foi andando e parou, com um sorriso sinistro nos lábios.
— Khristian Joseph Cheshire! Levante agora dessa maldita cama!
Kit levantou de um pulo. E nos encarou raivoso.
— Por que vocês me acordaram?
— O seu querido primo de sei lá qual grau pediu.
— Eu vou matar a Diana! — sabe quando gato está com raiva, rosnando, com as orelhas baixas e pelo arrepiado? Esse é o Chester neste momento.
Ele saiu marchando, e despejando xingamentos até para os pássaros que cantavam. Imagino se eu tivesse acordado ele, provavelmente estaria morta.
— Diamond Gold! Você pode ser da família, mas não escapará da minha fúria! — bradou o meu querido amigo mal-humorado.
— Você exagera muito. — o rei balançou a cabeça. — Deveria ser mais realista. O tempo deve ser aproveitado, e não gasto.
— Eu não me importo. O que eu quero basta, e minha vontade predomina. Gostaria de ter ficado na cama e não ter um primo chato para me irritar.
Ficamos em silêncio, enquanto Kit se acalmava. O melhor a fazer, na minha opinião.
— Martin, está quase na hora! Eu preciso chegar antes! Você não podia ter se atrasado tanto.
— As crianças vão participar? — perguntei para o albino do meu lado.
— Apenas os maiores de dez que são da família. — Zak o fitou com as sobrancelhas arqueadas. — E o chapeleiro.
— Obrigado.
Willow entrou na sala arrastando Martin. E tinha mais um menino seguindo eles, esfregando os olhos.
— Que maravilha! Cheguei antes da criatura. — suspirou se jogando em uma das cadeiras.
Martin revirou os olhos e se sentou ao lado da amiga, o outro acompanhante simplesmente dormiu.
E caiu no chão.
— Eu já cuidei do Alan ontem, não é minha vez. — murmurou o loirinho fitando o Hatter.
— Tanto faz. — o chapeleiro pegou o menino no colo, arrumando-o cuidadosamente para não acordá-lo.
— Arganaz?
— Sim, ele tem catorze anos, se for isso o que você for perguntar.
Ok... Ele lê mentes.
E brinca que vê o futuro.
Ninguém vê futuro.
Sabe, uma vez eu falei para minha mãe que tinha visto o futuro dentro do Bambu. Um vestido vermelho e branco com detalhes pretos, e eu estava usando ele. Em um lugar com malabaristas e fantasias.
O que ela fez?
No dia seguinte — quando contei a ela a outra "visão" que o Bambu tinha me mostrado — ela decidiu que eu estava louca e precisava de um psicólogo. Só porque ela não queria me mandar para o hospital psiquiátrico, também conhecido como hospício.
Receber tratamentos de pessoas malucas e insanas não é divertido, eu sou louca e tenho o sangue de Alice Liddel. A imaginação faz parte da minha linhagem — minha mãe é exceção.
— Vamos começar a reunião. — Dean bateu palmas. — Nós temos de decidir como lidar com as desavenças entre Paus e Copas, e....
Um passarinho passa a voar, dois pássaros planam a cantar, três passarinhos para longe viajaram, quatro pássaros de botas caminharam...
O gato de botas... Se ele existisse, seria amigo do Kit? Talvez não, o meu Chess não se importa se está devidamente vestido ou só de pijama, porque ele gosta de ficar confortável.
O Zak é diferente, sempre está formal, com a calça azul e camisa social, e de vez em quando com o chapéu, é estranho o chapeleiro não estar usando aquilo o tempo todo, mas eu prefiro.
A Willow está sempre com o colete cor de rosa, e fica tão fofinha! E o Martin sempre com o casaco marrom, se protege bem do frio.
Falando na Willow... Eu acho que ela não é de Paus, pensando bem. Ela deveria estar lá só para passear, já que ela mora junto do irmão. Eu quero conhecer ele, será que é gentil igual ela?
— Allya, acorda. Nós estamos falando com você. — pisquei com força, tentando entender o que estava acontecendo.
Gritei, pulando para trás. Zak estava a centímetros de mim, quem é que não levaria um susto?
— Quer me matar?! — exclamei com a mão no coração. — Maldito!
— Por que nós precisamos conversar com essa coisa? Ela nem é tão importante.
Virei a cabeça procurando o idiota que me chamou de inútil.
— Quem você pensa que é? — perguntei para o ser.
— Prazer, Allyada. Não sabia o quanto era gentil. — cumprimentou.
— Você não tem o direito de me chamar pelo nome!
— Ah! Não será nossa aliada na guerra, Allyada? — sorriu, estreitando os olhos negros.
Idiota, babaca, maldito! Ele acha que é um rei por acaso? Que vontade de matar aquela coisa.
— Você não pode me matar, baixinha.
— É o que você pensa, oleoso. — rosnei.
— Podem fazer uma apresentação decente? — Zak pediu.
— Calado, chapeleiro. — a criatura me encarou. — Stephen Spades, valete de espadas.
— E meu irmão! — gritou Willow.
Não...
Ninguém merece....
Ele é pior que a Madge!
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