Alice no País dos Pesadelos
3 II. "A...li...ce..."
Notas iniciais
Por favor, comentem o que acharam! Isso me empolga a escrever e assim fico sabendo se estou fazendo bem :}
Alice estava tensa.
Por um momento teve medo que sua tia surtasse mais uma vez e a atacasse com a faca. Suas outras também estavam ali? Enterradas no quintal? Quantos corpos aquele lugar continha? Cheshire estava olhando pra ela em alerta. E isso a arrepiou mais ainda. Tentou manter a calma mas a postos para correr. – Assas...sinadas? – Estava de noite... Eu não lembro muito bem. Elas estavam numa poça de sangue, degolad-– Pensando bem, deixa pra lá.– Mas se quiser, te mostro a família como era antes! Os álbuns de fotografia estão na biblioteca. – Não. Eu só quero ir embora daqui. – Alice andou para trás devagar e em silencio. – Ah mas você tem que ficar! Você nem provou meus biscoitos ainda! Sua tia virou-se pra ela com aquele sorriso rugoso e olhos vazios. – Eu... não quero biscoitos, tia... – MAS PRECISA PROVAR Sua tia tacou a faca em direção a sua cabeça. Alice desviou bem a tempo. A faca fincou na parede e ela rapidamente foi tentar arranca-la de lá. Sua tia estava adquirindo uma forma retangular e fina. E bem mais alta. Seu rosto estava se deformando cada vez mais. Seu maxilar estava pendendo, provavelmente deslocado. Seus olhos haviam afundado e sangravam. Quando ela começou a estrebuchar e arquear, Alice conseguiu arrancar a faca da parede mas não conseguiu olhar e muito menos atacar. Ela não estava aguentando ver. Não estava. Ela agachou quando aquele monstro derrubou a mesa onde ela estava. Apoiada contra o balcão, ela olhou para Cheshire. Ele não era mais um gato de pelo longo. Seu pelo estava curto, ele estava muito mais magro, quase esquelético e sorria com seus olhos amarelos brilhantes e maldosos. Literalmente sorria. Seus dentes eram sujos e ensanguentados. Ele também estava assustador. Mas ela não tinha tempo para ele agora. Sua tia estava chegando perto. – A...li...ce...Por favor, não... eu estou sonhando. Isso é um sonho. Isso é um sonho. Sua tia a ouviu. E Alice abriu os olhos. A última coisa que ela viu foi o monstro de baralho se aproximando lentamente com suas órbitas vazias e um sorriso se formando de seu maxilar quebrado. Alice acordou gritando. Cheshire pulou da cama, com o susto. Ele não estava magrelo e estranho. Ele ainda era um gato peludo e fofo. Ela suspirou. Foi só um sonho...Colocou a mão na testa. Sem febre. Passou a mão pelas bochechas. Estavam molhadas de lágrimas. Cheshire pulou para seu colo e lambeu seu rosto. Alice afagou suas orelhas e ele ronronou. – Que horas são, gatinho? Ele olhou para a janela. Estava de noite do lado de fora. Alice não queria acordar no meio da noite. Ainda mais depois da história de sua tia. Faziam três dias que ela estava hospedada ali. Depois que ela disse que suas irmãs foram assassinadas, Alice manteve silencio e o dia continuou normal. Adormeceu no sofá no dia anterior e pelo visto sua tia havia a levado para a cama. A lua estava cheia e brilhante. Ela quase teve vontade de ir para o telhado observar pelo telescópio. Mas ah tá que eu vou fazer isso. Ela morria de medo de fantasmas e essas coisas. Ir ao telhado naquela casa de noite era pedir pra isso acontecer. Alice colocou os pés para fora da cama e se sentou. Sua camisola azul emprestada ia até seu calcanhar e a deixava com aparência de balão. Cheshire pulou de volta ao seu lado. Ali havia um embolado de cobertores. Sua cama era grande para um quarto médio. – O que foi? Ele estava cavando algo debaixo do embolado e puxando os panos com o dente. Alice, ao levantar uma sobrancelha, puxou o embolado. Os edredons eram leves o suficiente para ela conseguir levantar todos com um puxão. Ali, jazia um cabo de madeira pequeno para uma lamina tão grande. A faca de sua tia. Alice reprimiu um grito. Cheshire empurrou a faca para ela com a pata pelo cabo. Ela a pegou com as mãos tremulas e engoliu em seco. O que a faca estava fazendo ali? Foi você que trouxe? Ela perguntava em silencio para o gato, que continuava a encara-la com seus grandes olhos amarelos. Ele pulou para o chão e arranhou a porta de madeira. Ela sabia o que ele queria. De algum modo, sabia. Mas estava com muito medo para prosseguir. O álbum de fotografia... A curiosidade de Alice havia a colocado em apuros muitas vezes em sua infância. Estava com medo de que dessa vez não tivesse volta. A casa tinha um sistema que, com uma luz dos corredores acesas, as outras automaticamente acendiam. Um sistema prático para medrosos mas, no caso, a ultima coisa que ela queria era ver sua tia acordada no meio da madrugada depois do pesadelo que teve. Olhou para a faca. Ela era bonita quando não estava sendo empunhada por uma mulher de meia idade com problemas psicológicos. Seu cabo era simples, mas polido. Sua lamina brilhava lindamente com a luz vinda da lua. Alice estava tão fascinada que não percebeu quando a pegou. Cheshire estava a olhando com talvez um sorriso fechado e escondido. Alice pôs uma mecha de seu cabelo castanho atrás da orelha e segurou a faca com mais força e a ergueu. Não ficava tão assustadora assim em sua mão. Na verdade parecia mais uma relíquia. Ela olhou de soslaio para o gato e torceu o nariz. Ele definitivamente estava com um sorriso fechado felino. Então foi você que trouxe mesmo?
– Ta bem, ta bem. – ela rendeu-se. Abriu a gaveta da cômoda, do lado de sua cama. Sua tia havia mostrado velas e fósforos ali. Ela pegou um pratinho de cerâmica e acendeu sua vela. Olhou para a faca mais uma vez e a pegou.– Só de precaução, ok?- respondeu ao gato, que estava visivelmente mais animado com sua decisão de ultima hora. Abriu a porta devagar. E a primeira coisa que saiu do quarto foi sua mão com o pratinho de vela. Ela espiou logo depois. Não havia ninguém ali. Claro que não. A vela só era forte o suficiente para iluminar o que estava bem perto. Alice realmente devia ter levado lanternas. A cena era quase ridícula de tão clichê. Ela pisava leve, com medo de o chão estalar ou de sua tia ouvir. De noite, por causa da friagem, os móveis estalam. Isso é normal, todo o mundo sabe que isso acontece. Mas ali, a cada estalo era um pulinho que Alice dava de susto. Cheshire estava na frente, a guiando. Ela quase conseguia ouvir a musica de fundo se aquilo fosse um filme de terror. E isso não a deixava nem um pouco menos tensa. De repente, sentiu vergonha de si mesma. Não queria ser fraca. Um pesadelo, ok. Foi um só e ela já tivera vários. Não ia acontecer nada. Vamos, Alice. Para de frescura. Ela começou a andar normal e numa velocidade normal. Porém ainda pisava leve. Cheshire estava andando em pulinhos para continuar a frente dela. Desceu a escadaria rapidamente, sem olhar para frente. Só para baixo. Do outro lado da escadaria, havia outro corredor que estava escuro. Alice estava lutando para não parecer assustada, mesmo que para seu gato. Então nada de espiar para os lados ou para além do necessário. – Certo. – Sussurrava para seu gato. – Biblioteca fica... pra que lado? Cheshire trotou até o lado esquerdo de onde Alice estava. A sua frente, estava o portão de entrada. Alice seguiu o gato mais uma vez. Um barulho diferente de um móvel estalando veio de uma das sombras. Ela arrepiou até a nuca. O gato ia se aproximar, mas ela o pegou no colo. A meta era a biblioteca. E ela não queria perder tempo com ratos. – Não é hora de comer, Cheshire. – ele fez uma expressão de curiosidade para a sombra. Alice parou na frente de uma porta de madeira mais rústica. Sua maçaneta era dourada e seus contornos eram de ouro também. E algumas coisas esculpidas que Alice não estava com humor e paciência de levantar a vela para conseguir enxergar. A verdade é que ela estava apavorada. Colocou o gato no chão e girou a maçaneta. Biblioteca.Outro clichê.Esperou Cheshire entrar e fechou a porta. Havia um disjuntor logo do lado e ela quase deu graças a Deus por isso. Sua vela já havia derretido 1/4. Ela ligou as luzes da biblioteca. Que não duraram dois segundos antes de piscar e todas queimarem ao mesmo tempo. Alice deu um grito breve e caiu no chão. Ela estava agachada, com a cabeça apoiada nas mãos e rígida. Seu gato ronronou e se esfregou nela. – Tudo bem... eu acho... foi só um susto... não é? – Miau! Ele deu as costas e foi andando por um dos corredores. Ele, seus pais, seus avós e o resto de sua família acompanhou a família de Alice desde seu começo. Então provavelmente Cheshire saberia aonde encontrar o que procuravam, já que supostamente já estivera ali. Alice levantou, pegou a vela e o seguiu mais uma vez. De novo, aquele barulho estranho. O gato parou e olhou em volta brevemente, mas depois continuou sua trajetória com passos mais programados. Alice não falou nada, mas até ela estava começando a achar estranho. Ok que estavam no meio do nada e devia sim ter muitos animais mas... ...ali? Cheshire parou em uma prateleira com livros grossos e costurados a mão. Alice levantou a vela. O metal onde devia estar a categoria da prateleira era velho e estava impossível de conseguir ler ou decifrar alguma coisa naquela luz fraca. Seu nariz estava coçando. Com certeza aquela prateleira era a mais antiga da casa e ela era alérgica a poeira. Prendeu a respiração e pegou o que dizia ser de 1950 até 1960. Quando o abriu, saiu uma nuvem de poeira que felizmente só a fez tossir. As fotos estavam velhas e desbotadas, mas dava para ver. Sammy era a cara da mãe. Alice sorriu na luz fraca. Suas irmãs eram fofas e usavam lacinhos na cabeça. Ela virou uma página. Ali estava uma pintura de sua bisavó. Era uma mulher mais linda que Sammy. Talvez porque na pintura ela devia ter 30 anos. Seu cabelo ondulava nas pontas e faziam cachos. Alice passou a mão brevemente em seus cabelos castanhos e lisos. Não havia herdado tanta elegância natural. Folheava o álbum a cada 30 segundos. CRAC Alice deixou o livro fechar no susto do barulho. Cheshire estava todo arrepiado e grunhia para o escuro. Ela pegou a vela rapidamente. O som havia saído da sua direita, no final da estante. Seu gato estava grunhindo cada vez mais alto. Ele se arrepiava e se arqueava para tentar assustar o que for. Alice, tremula, se aproximou de onde o barulho havia saído. Um vaso estava caído no chão, seus cacos estavam cobrindo alguma coisa. Cheshire nunca esteve mais alterado. Com a luz da vela, ele parecia ter olhos vermelhos. Seus olhos estavam em fendas tão finas que eram quase difíceis de ver. Alice aproximou seu pé do vaso. E com um simples chutinho com a ponta do pé... Um coelho branco. De repente, o animal correra para a escuridão numa rapidez quase impossível. Cheshire abriu a boca por uma fração de segundo e rangeu os dentes, correndo atrás dele. – CHESHIRE, VOLTE AQUI! CHESHIRE, NÃO! Tapou a boca assim que terminou de gritar. Lembrou-se subitamente de sua situação. Com um barulho de vidro quebrando, Alice conseguiu ver pela janela que ambos haviam saído por ela. Não podia perder seu gato. Não ali. Ela ouviu a porta da biblioteca se abrir. – A...li...ce... Era uma voz estranha, rouca e que com certeza era de Sammy. Depois do pesadelo, ela não queria esperar para ver em que forma estava. A janela estava emperrada. Alice acotovelou o resto do vidro quebrado e se tacou para fora. Não era a nem um metro do chão. Ela conseguiu ver Cheshire e o coelho correndo para a floresta. Cheshire, pelo amor de Deus! É só um coelho!No segundo seguinte viu que ele estava trajando um colete esfarrapado e um relógio em um dos bolsos. Ah, não. Eu não caio nessa. – A...li...ce... Deve ser só uma brincadeira estúpida de alguma criança – A...Mas não tem nenhuma criança aqui...– ...Li...A não ser que... Ah, não...– ...Ce? Alice nunca correra tão rápido em toda a sua vida. Sendo brincadeira ou não, tinha que pegar Cheshire. Ouviu algo urrando atrás. Não olhou. Não ia fazer outro clichê de cinema. Não se olha para trás quando se está fugindo. As pedrinhas estavam machucando seus pés descalços. As farpas dos galhos também. Talvez estivesse sangrando, mas ela não podia parar de correr. Estava arfando alto. Lembrou-se da faca em seu bolso e a pegou. Quando entrou na floresta, viu Cheshire indo para a direita. E cortou caminho para alcançá-lo. Funcionou. Agora estava correndo atrás de seu gato maluco que estava correndo atrás de um coelho fantasiado. Apesar do ridículo, Alice rezou pra que fosse uma pegadinha pois o barulho de Sammy também não havia diminuído. O coelho quebrou caminho para a esquerda e entrou num arbusto alto. Sem pensar duas vezes, Alice cortou o arbusto com a faca e foi atrás. Cheshire havia parado nessa hora e a seguiu logo depois. Ele havia parado de correr. Então Alice aproveitou para respirar. Ele estava parado do lado de um buraco no chão. Devia ter um metro de diâmetro. Cheshire o encarava com os dentes a mostra, como se estivesse com receio de pular. Alice não o culpou, parecia ser muito fundo. Os barulhos de Sammy estavam mais próximos. E agora Alice conseguia ver pelo arbusto. O ser de seu pesadelo. Ela queria chorar, mas prendeu a respiração. Se não houvesse barulho, o monstro não a acharia. Cheshire mordeu sua mão e apontou com a cabeça para o buraco. Alice balançou sua cabeça negativamente, espantada. Cheshire espreitou os olhos e voltou a apontar para o buraco. Alice estava prendendo as lagrimas e balançou a cabeça mais uma vez. Ele mostrou os dentes e miou o mais alto que pôde. O monstro urrou e começou a correr na direção do arbusto. – POR QUE VOCÊ FEZ ISSO? – MIAU Alice o olhou. Não conseguia pensar. Não tinha o que pensar. Com a outra mão, segurava a faca. Olhou para trás. O monstro estava se aproximando. Cheshire assentiu com a cabeça.
Ela fechou os olhos... E pulou.
Notas finais
Eu escrevi quase tudo hoje (20/07/14) porque estou um pouco enrolada com a volta as aulas, mas ainda sim mantenho a meta do Um Capitulo a Cada Domingo(ou antes) c:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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