Alice no País das Maravilhas
3 Capítulo 3 - Dodó
Notas iniciais
***
Cai para trás de volta no córrego quando dei de frente com aquele bicho, meu cabelo caiu sobre meu rosto tapando minha visão e logo me senti sendo levantada por mãozinhas frenéticas e apressadas.
- Limpa, limpa, limpa, limpa... – eles repetiam aquilo numa espécie de frenesi.
Quando finalmente pude vê-los, notei que eram pedrinhas com pés e mãos e cada uma possuía uma vassourinha com a qual tentavam me limpar.
- Não, não. Já estou limpa, quero ficar seca!
- Seca, seca, seca, seca... – eles começaram e me conduziram, contra minha vontade, de volta para o córrego, logo eu estava imersa nas águas novamente.
- Xô, xô, — a outra criatura, que observava tudo, dispersou as pedrinhas, enquanto eu saia da água – Como está menina?
Pelo menos ele sabia que era uma menina.
- Molhada, acho que eles não me entenderam bem...
- Nunca entendem. Belas asas estas tuas.
- Obrigada, mas acho que a direita está quebrada.
- Não há problema!
Ele assobiou alto e longo, e logo uma raposinha vermelha veio correndo e saltitando, ela começou a me cheirar.
- Conserte!
A raposa puxou minha asa enquanto empurrava o resto do meu corpo com a pata, senti uma dor horrível e não podia fazer mais que não fosse gritar.
Terminada a tortura ainda fiquei cambaleante de dor por uns instantes até recobrar todos os movimentos, inclusive os da asa direita, apesar de tudo aquele puxão foi bastante eficaz.
- Cuspa!
Eu não entendi aquela ordem até que a Raposa começou a tossir horrivelmente e vomitou uma boneca de louça pálida e de vestido e cabelos pretos. A bonequinha se jogou no córrego para se limpar da saliva de raposa, depois saiu das águas pegou um facão de açougue e dentro do bolso do vestido e matou a raposinha, mal esta deu seu ultimo suspiro a boneca cortou uma de suas patinhas, lavou-a e guardou no bolso junto ao facão.
Fiquei horrorizada.
- Se eu soubesse que isso ia acontecer teria fechado os olhos.
- De fato, mas nunca se sabe o que ela pode fazer – ele falou natural, como se estivesse indiferente ao fato da Raposa que o obedecera tão fielmente ter morrido diante dele.
A boneca se despediu numa reverencia e se jogou no córrego se deixando levar pela correnteza até sumir numa curva.
- E quem és tu?
- Eu sou O Dodô – ele se curvou numa reverencia tão grande que sua cabeça tocou seus pés (patas, no caso) – e qual a vossa graça?
Retribui a reverencia.
Eu já havia visto varias replicas de dodôs no Museu de História Natural em Londres, mas a placa dizia que eles estavam extintos.
- Alice! Eu achava que dodôs não eram negros.
- Sou um Dodô “Imperial”.
Dodô foi até a raposa morta e arrancou um dos dentes caninos dela que se despejava em sangue.
- Pena, ela era até bonita... – ele disse analisando o dente – Quer um? Dizem que dá sorte...
- Oh, não obrigada.
Ele veio andando até mim enquanto guardava o dente na boca, a principio achei que ele o tivesse engolido, mas podia-se vê-lo debaixo de sua língua quando falava.
- Pois bem, de onde vieres e para onde vais?
- Vim do meu jardim, mas não sei ao certo aonde vou.
- Ora, deve saber, senão para onde iria?
- Acho que para onde meus pés me guiassem...
- Ora, não é bom plano.
- E por que não?
- Certa vez deixei que meus pés me guiassem e cai de um precipício, por sorte lembrei-me que sabia voar antes de cair no chão.
“E dodôs sabem voar?” pensei comigo.
- Ora, certamente que sabem – ele falou como se lesse minha mente – senão eu não estaria aqui
.Começamos a andar em direção a um denso bosque, mas logo voltamos ao lugar inicial, pois as pedrinhas vinham com uma multidão de criaturinhas que nos carregou de volta a margem do córrego.
- Corre, corre, corre, corre – elas repetiam e a multidão toda alvoroçada parou para beber das águas enquanto outros se recostavam no macio pêlo da raposinha, enquanto uns carcarás picavam o rosto do pobre carnívoro morto.
- Por que correm Bill?
Um lagartinho franzino e amarelo respondeu, parando de vez em quando para tomar fôlego
- Um deles se soltou, Dodô!... E correu atrás de todos nós... Foi horrível Dodô... Horrível
- Ora, acalme-se Bill, não pode ser tão grave.
Eu já ia me aproximar de Dodô para pergunta a quem se referiam quando fui atropelada por um grupo de patinhos quem me jogou ao chão
.- Já chamaram o Pardal?
- Pardal morreu... Uma cobra d’água... O devorou.
- Pobre Pardal, é realmente uma pena... – Dodô ficou uns segundos de olhos fechados, de certo lembrando o Pardal, mas era certo que estava insensível quanto ao fato de sua morte.
\"Bem feito para o Pardal\" pensei, mas desta vez Dodô não havia lido minha mente
- E o Rato?
- Também.
- Ora é quase um genocídio! Quem sobra?
- Sobra o Gato... Mas ele não vai... prendê-lo.
- De fato, o Gato não iria prendê-lo, quem prende então?
- Não prende – disse Bill com certo pesar na voz e agarrou as penas do pescoço de Dodô com uma enorme aflição — Oh, Dodô vamos todos morrer! Morreremos todos Dodô!
- Acalme-se Bill! – Dodô se desvencilhou do lagarto. – Daremos um jeito!
- E quem é esta?
Eu finalmente tinha conseguido me aproximar para ouvir o que eles diziam.
- Esta é Alice! Alice este é Bill, o lagarto.
Pelo menos não era um lagarto que se chamava Lagarto.
- É ele! – uma pata gritou aflita
- Corre, corre, corre, corre — as pedrinhas começaram de novo.
- Quem é? – perguntei, mas todos já tinham começado a correr em todas as direções gritando numa cacofonia frenética. Comecei a correr também.
- Cão, cão, cão, cão! – as pedrinhas gritavam.
Corri até uma caverna, onde fiquei presa numa teia de aranha.
- Comida, finalmente.
A multidão passou correndo do lado de fora da caverna, pude ver Dodô correndo esbaforido e depois um cão bem marrom agitando o rabo e latindo no encalço deles.
A aranha apareceu e começou a subir na teia.
- Uma menina de asas, que assombroso, diga-me antes que eu a devore: és parente da Sophie de asas brancas?
- Se eu disser que sim a senhora me solta?
- Se disser que não também não soltaria.
- Desce Aranha! – uma voz masculina falou da entrada da caverna.
- Quem manda?!- disse a Aranha irritada – Surja covarde!
- Mas você não vês que já me posto aqui na sua frente?
- Oh, Gato, é o senhor.
Eu não via nada, apenas a Aranha fazer uma reverencia para o ar e ainda que um gato estivesse lá seria absurdo chamá-lo senhor.
De repente ela começou a ser devorada pelo nada, gritou muito até finalmente ser comida por completa.
A teia da Aranha foi cortada pelo ar, fosse o que fosse aquilo havia me libertado e estava invisível.
Até que foi surgindo aos pouco, primeiro como um leve borrão roxo mesclado de rosa, nem acabou de se formar borrão e perguntou, ainda que sem boca.
- Quem vos sois?
- Alice... E quem és tu?
- Ora, sou o Gato
Notas finais
Por que ele não aparece por completo e se mostra?
Será que é realmente um gato?
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