Alice na toca do coelho

6 Alice e o Chapeleiro


O chapeleiro e seus amigos eram os seres mais estranhos que Alice já havia visto, eram estranhos até quando comparados aos irmãos gêmeos. O chapeleiro tinha bochechas magras e ossos da face salientes,pequenos lábios e grandes olhos curiosos, seus cabelos eram brancos apesar dele não parecer velho. Tinha a aparência de alguém que havia levado um susto tão grande que toda a cor dos cabelos fugiu.

O que mais chamava atenção no chapeleiro era o enorme chapéu feito de gigantescas cartas de baralho que usava em sua cabeça, o chapéu era tão comprido e colorido que desviava a atenção de suas roupas também chamativas.

Os companheiros do chapeleiro eram igualmente chamativos, uma lebre que falava aos gritos e arremessava qualquer coisa que estava em suas frentes, o roedor chamado Arganaz estava adormecido em um copo de chá gigantesco.

O chapeleiro colocou Alice sentada por cima da mesa e a inspecionou com olhos grandes e curiosos.

— Por que você é tão pequena? -perguntou — Ou será que somos nós que nos tornamos gigantes?

Imediatamente o homem começou a rir e bater palmas animadamente, a lebre arremessou um grande bule de chá contra uma arvore e juntou-se as risadas. O pequeno roedor permaneceu adormecido em seu copo de chá.

— Tomei uma bebida e diminui e cá estou!

— Não são bons tempos para uma menina tão pequena se perder aqui, a rainha ficaria furiosa se achasse que Chess Kingdon está mandando invasores miúdos como formigas para seu reino

A menina pareceu não entender e repentinamente toda a alegria insana desapareceu do rosto do chapeleiro, seus olhos se tornaram pesarosos e tristes.

— São tempos difíceis, Alice... Desde que nossa rainha teve idade para governar que os tempos são difíceis.

Aquilo também não fazia qualquer sentido aos ouvidos dela, a unica coisa que pareceu poder perguntar foi : — Como sabes o meu nome ?

Os olhos do chapeleiro ficaram vidrados por algum tempo mas logo o brilho doentio retornou, abriu um sorriso amarelo e soltou uma risada.

— Que outro nome poderia ter? Tem olhos de Alice, cabelo de Alice e fala como uma Alice, logo é uma Alice!

A lebre se contorceu em gargalhadas e concordâncias. Toda aquela loucura estava deixando Alice zonza.

— Não pode me fazer ficar maior ?

— Posso te tornar tão alta que poderia tocar as estrelas mas assim ficaria mais fácil que a rainha a encontrasse, não quer encontrar a rainha!

— Não me importo com sua estupida rainha! -Gritou — É meu sonho e estou cansada de ser tão nanica

O chapeleiro se levantou de sua cadeira subitamente, agarrou Alice em suas mãos com uma boneca de pano e lhe cobriu os lábios com as mãos.

— Jamais! Jamais repita isso novamente, menina! Lhe cortam a cabeça se fala algo assim, são tempos terríveis... tempos terríveis, se ao menos a Branca houvesse se tornado rainha, branca... — Soltou um longo suspiro e em seguida a loucura voltou aos seus olhos — Se é grande que quer ser, é grande que lhe tornarei

Arrancou um bolinho idêntico ao que Alice havia comido na sala das portas e lhe entregou.

—Vá devagar.

Uma mordida foi o suficiente e em poucos segundos a menina tinha o seu tamanho normal novamente.

— Eu preciso ir! -Ela disse assim que se viu em seu tamanho normal completamente nua e escondida por trás da mesa.

— Que infortúnio! — Disse o chapeleiro — Por sorte, tenho sempre um vestido para emergências

E arrancou toda a toalha da mesa e a lançou na menina, esta se cobriu cuidadosamente com a toalha vermelha. O chapeleiro deu um salto e se pôs a cortar o tecido enrolado ao corpo da menina, por fim amarrou todo o tecido com uma tira e no final, Alice parecia quase apresentável vestindo uma toalha de mesa.

— A rainha gostará da cor

E quando saiu do chá pode ouvir os gritos do chapeleiro e as risadas da lebre atrás de si.

Caminhou até encontrar uma trilha e seguiu por ela, não demorou muito até encontrar uma arvore com um gato no topo dela.

Gorducho e roxo, o felino dormia em um dos galhos mais altos da arvore, a trilha se abria para dois caminhos e ela não sabia por qual seguir.

— Nunca tive um sonho tão real — Disse para si mesma em voz alta

O gato levantou a cabeça com preguiça e a encarou com olhos curiosos.

— Olá Alice

— Como todos aqui sabem o meu nome ? -Disse raivosa

— E como poderíamos não saber ?

Não estava disposta a discutir, estava cansada e queria saber qual o melhor caminho a seguir. Ergueu a cabeça para o gato e apoiou as mãos nos quadris.

— Como acho o coelho branco?

— E por que está procurando tal criatura ?

— Caí em um buraco procurando por ele e cá estou em busca dele, seria justo que eu o encontrasse.

A bem verdade é que Alice já não sabia o que fazer e achava que quando encontrasse o coelho branco, talvez pudesse acordar daquele sonho.

— Conheço uma adorável lagarta, talvez se interessasse em conhece-la

A menina bateu com os pés contra o chão, estava exausta e faminta e não tinha interesse qualquer em conhecer uma lagarta, não tinha interesse algum em lagartas.

— Não quero falar com uma lagarta! — Disse furiosa — Quero encontrar o coelho e acordar desse sonho e voltar para minha mãe

Começou a chorar baixinho. Odiava aquele sonho e todas ali, eram tão complexos e estranhos e não paravam de falar daquela rainha. Queria acordar e pular nos braços da mãe, trepar em arvores e ouvir histórias.

— Se não quer ouvir a verdade da lagarta, então talvez não esteja preparada.

O gato sumiu por um instante e onde estava o grosso tronco da arvore, abriu-se uma porta e o gato voltou a reaparecer, desta vez só os olhos e o sorriso.

— Vá, seu coelho a espera