Alice e o Mundo De Escuridão
4 Uma magia inexistente
Notas iniciais
Alicia abriu seus olhos. O vento cortava seu rosto, e ela percebeu que todo o seu corpo doía. Ela olhou ao redor, esperando encontrar-se deitada numa maca, naquele lugar horrível que era a clínica psiquiatrica. Mas não.
A grama fresca e verde roçava seus pés. O céu azul resplandecia, e o vento parecia soprar uma cantiga ao passar por seus ouvidos. Havia uma clareira mais ao lado. Um córrego de água cristalina corria ali, e vários cogumelos, daqueles minúsculos, se espalhavam ao redor do local.
Alicia não pode deixar de ficar maravilhada. Como aquilo tudo era lindo!
—Posso saber quem é a senhorita? – Soou uma voz, assustando Alicia. A garota se virou, e encontrou um robusto garoto, que não devia ter mais de quinze anos. Ele tinha cabelos encaracolados e castanhos-claros, e seus olhos eram negros como a mais fria das noites. Havia algo nele... Algo que fez o coração de Alicia bater mais forte.
E isso Alicia achou estranho.
E aquela garota mal sabia que as coisas estranhas apenas tinham começado a acontecer.
—____
Robert de Francis tinha entrado pela toca do coelho.
O Novo País das Maravilhas era algo realmente maravilhoso. Exceto pelas pessoas tristes e depressivas. Exceto pelas pessoas que choravam dia após dia pelos entes queridos mortos por eles: os sinistros e macabros seres malignos que desceram dos céus no Dia da Grande Batalha e transformaram Wonderland em Trevas.
Na mais pura Trevas.
As pessoas, desesperadas, viram o azul se transformar em preto. As águas claras se transformarem em um líquido negro e viscoso. As doces árvores se transformarem em troncos sinistros e sem folhas. Um mundo belo e amistoso se transformar numa escuridão profunda e eterna.
Robert não sabia exatamente o que havia acontecido. Fazia tanto tempo que a maldição fora lançada que apenas seus avós tinham vivenciado tudo aquilo. Seu avô dizia que fora uma Rainha, a Rainha de Copas, quem tinha lançado tal maldição maligna. Sua avó costumava dizer que, assim que o Mal Encarnado começou a descer do céu, Alice se sacrificou em prol da vida daqueles que ela amava, abrindo um portal para uma Nova Wonderland, uma versão idêntica ao País das Maravilhas, só que com uma falha: magia não existia.
Era uma terra sem graça e infértil, sem a mesma magia que anteriormente o País das Maravilhas tivera. A lenda contava que uma guerreira, líder do exército da Rainha Branca (ninguém entendia esse detalhe da história, afinal: quem ou o quê era a Rainha Branca?) chamada Alice tinha morrido ao emprestar toda sua energia vital para criar aquela Nova Terra. Mas a lenda mencionava também que Alice tinha herdeiros. E que algum dia, um desses herdeiros teria a mesma habilidade dela: a de atravessar mundos. E que lá ele chegaria e conseguiria restaurar a magia, e enfim expulsar as Trevas do Verdadeiro País das Maravilhas, iniciando uma guerra violenta e feroz.
Pelo menos, era isso que as lendas falavam. Mas Robert não acreditava em lendas. Ele acreditava no real, no palpável. E no momento, isso significava que nem ao menos ele achava ter algum dia existido um País das Maravilhas. Afinal, muitos ainda eram descrentes quanto a existência de tal lugar e de tal pessoa que chegaria para ajudá-los. Pareciam ser apenas lendas, apenas história de pessoas sem o que fazer...
Até aquela garota ter caído do céu. Até ele olhar pela primeira vez nos olhos castanhos dela. E algo começar a bater mais forte nele.
—Posso saber quem é a senhorita? – Perguntou Robert, olhando-a de cima a baixo. Cabelos loiros sujos desciam pelas suas costas e pelo seu rosto, e a garota parecia maravilhada. Ou assustada. Robert não sabia exatamente.
—N-não te interessa. – Disse ela rapidamente, gaguejando. Robert ergueu as sobrancelhas.
“Que falta de educação!”, pensou ele, novamente olhando de cima a baixo a garota. Alicia corou, um pouco envergonhada.
—Desculpe! Não era minha intenção ser grossa ou mal educada. – Disse ela. Robert deu de ombros e estendeu a mão para ela se levantar.
Fez-se um longo silêncio quando a menina levantou. Ela parecia estar bem encantada, olhando para os lados e para a fisionomia exótica do local... Robert sorriu. Era bem difícil não ficar encantado com a beleza da Nova Wonderland.
—Eu me chamo Alicia. – Disse a garota, sorrindo para Robert. Sim, sim, ela estava encantada com todo aquele lugar. O vento acariciava as árvores, e fazia as folhas e a grama sussurrarem palavras que ninguém entendia. Palavras que acalmavam.
—Eu me chamo Robert. – Disse ele, sem olhar para Alicia. Aquele olhar o incomodava, parecia que ela conseguia ver por debaixo dele.
Passado um tempo em silêncio, Robert não aguentou.
—Quem é você? De onde veio?
Alicia parecia indecisa quanto a responder. Assim que ela abriu a boca, uma coisa saiu das sombras e partiu para cima dos dois.
A coisa acertou Alicia, que começou a rolar pelo chão. Robert não sabia o que era aquilo. Era parecido com um leão, só que tinha a pelugem negra como carvão e olhos roxos de um brilho doentio. Tinha asas de couro nas costas, e garras amareladas e venenosas saltando das patas.
O monstro rugiu para Alicia, fazendo menção de engolir a cabeça dela. Robert tirou o canivete que sempre carregava consigo, e avançou, cortando o leão e tirando sua atenção da garota assustada que estava estendida no chão.
“Ok, agora eu só preciso correr e atrair essa coisa para algum lugar. Um buraco, quem sabe”, pensou Robert, olhando nos olhos do monstro. Aquilo não fazia sentido. Monstros não existiam, eram apenas lendas. O monstro parecia preparado para atacar, e Robert sentiu que iria morrer.
Então aconteceu algo que simplesmente parou o coração de Robert. O monstro recuou, rugindo. Uma névoa verde e brilhante começou a cercá-lo, e essa mesma parecia vir das mãos da garota.
Parecia vir de Alicia.
O leão rugiu mais uma vez, antes de ser transformado em pó. Alicia pareceu sair de um transe, e a névoa sumiu. E Robert ficou parado, com um canivete na mão, boquiaberto. Pois aquilo que ele viu não era fácil de ser explicado. Era algo que ele só ouvira falar nas lendas, nos contos, nas histórias contadas por seu avô.
Aquilo que ele viu saltar das mãos da garota era magia.
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