Alice Mistyrain - Prólogo
1 Prólogo
Notas iniciais
Oh, a suavidade de sua luz
Ressoa em minha alma.
Ilumine os trechos sombrios de meu caminho
Não deixe que a sombra se propague
Oh, o luar só é belo por lhe espelhar
Não tememos, pois sabemos
Que ao amanhecer teremos sua bênção novamente
Alice abriu os olhos dourados, ainda com os dedos entrelaçados uns aos outros frente ao peito, ao som de palmas. Ela ficou imediatamente vermelha e desajeitada. Por que batiam palmas? Aquilo não era um espetáculo. Era um evento aberto na igreja do convento para cultuar o senhor Pelor. Alice cantava apenas para o senhor Pelor. Seriam as palmas para o senhor Pelor?
Alice fez uma reverência tímida com seu longo vestido branco e saiu pela porta lateral, deixando a nave central, onde usara sua belíssima voz para homenagear sua divindade, o deus do sol: Pelor, frente a adoradores e visitantes do convento onde vivia.
Andava apressada pelo corredor rumo a seus aposentos quando foi parada por uma moça igualmente de vestido branco.
- Meus parabéns, irmã Alice! Você foi maravilhosa. Sua voz parece até a de um anjo!
- Que é isso, Irmã Madeleine. Não foi nada de mais, guarde seus elogios para o senhor Pelor. – e continuou seu caminho, cabisbaixa de vergonha. Foi a primeira vez que cantara em público, na verdade substituira outra irmã que cantava nesses eventos abertos.
-A irmã Loren que me perdoe, mas você foi perfeita, irmã Alice! Se ela não pôde comparecer, foi simplesmente porque Pelor quis que você cantasse nessa manhã. Graça a Pelor. – exclamou outra irmã por quem Alice passou em seu trajeto.
Alice fez uma reverência ainda cabisbaixa. Seus cabelos castanhos ondulados um pouco volumosos caídos para frente pouco abaixo dos ombros e sua franja acima dos olhos ajudavam a fazer seu tipo tímido – Sim, graça a Pelor. – disse sorrindo, e continuou andando.
Quando surgiu outra irmã ameaçando abrir a boca Alice adentrou no primeiro aposento que vira. Fechou a porta e encostou-se nela, um pouco aliviada, mas com o rosto parcialmente escondido pelos cabelos ainda rosado. Surpreendeu-se por ter entrado nos aposentos justo da...
-...Madre Heyde. – disse Alice, como que cumprimentando a senhora de estatura um pouco baixa de vestido branco virada para a janela. Era quem Alice mais admirava naquele convento e por quem nutria mais carinho. Afinal, foi quem a criou desde bebê quando “Pelor a deixou sob nossa porta, como um presente”, como dizia a Madre.
A Madre se virou para ela. Seu olhar era admiravelmente sereno e bondoso. O conjunto do rosto enrugado com as orelhas pontudas declarava que ela já tinha passado dos 100 anos de idade. Seus olhos eram de um azul tão claro que pareciam emitir luz própria. Ela se aproximou de Alice, sorrindo.
- Alice, quantas vezes já lhe disse para deixar de lado essas formalidades comigo? – disse afastando os cabelos de Alice para trás, revelando o belo rosto da jovem clériga. – Mas me diga, o que a traz aqui tão apressada?
-Eu...queria conversar com a senhora. Sobre o dia! O dia. Está realmente lindo, não é? – Alice desconversou virando-se, quase derrubando um vaso perto da porta. A madre riu.
- Você tem uma voz realmente muito bela, Alice. As pessoas a aplaudiram porque te admiraram. Não é desrespeito nenhum a Pelor.
A madre era mesmo incrível. Às vezes parecia ler a sua mente.
- Já que está aqui, Alice...sente-se. Temos de conversar.
Alice sentou-se na cadeira mais próxima, obediente. A madre permaneceu em pé, com os braços nas costas, andando para lá e para cá.
- Já faz...16 anos desde o dia em que Pelor a trouxe para nós. Você não tinha um mês de vida...
- Só fará 16 anos depois de amanhã, Madre Heyde – Alice corrigiu-a, cautelosa. A senhora parecia tão perdida em pensamentos que nem deu atenção.
- Confesso que só venho me orgulhado de você ultimamente, aliás, como sempre. Sempre ajudando e distribuindo carinho a todos desse velho convento, fazendo tarefas que são de certa forma até difíceis para você, como cantar para os visitantes. Você tem um coração de ouro, Alice. Por isso...por isso quero que você saia daqui.
-O qu...?
-Isso mesmo, Alice. Arrume suas malas e parta já daqui.
-E para onde irei??
-Para onde quiser! – a madre apontou para a janela. – Há muita maldade lá fora. É um desperdício alguém tão pura e iluminada permanecer presa enquanto há tanto mal a ser detido. Agora você tem de ir, parta amanhã cedo. Vá e use tudo o que aprendeu aqui para espalhar a bondade nas pessoas.
Alice estava fascinada. De certa forma aquele sempre fora o seu sonho, mas em respeito à madre e a todas ali jamais cogitara essa idéia até agora.
- P-posso mesmo??
- Sim. É seu dever.
O rosto de Alice se abriu num sorriso encantador.
- Agora vá e prepare uma mochila!
-Sim!!
Alice saiu correndo desajeitadamente novamente rumo a seus aposentos. Esbarrou em várias irmãs e desculpou-se enquanto corria mais. Agarrou uma mochila e colocou tudo o que imaginou que podia lhe ser útil: comida, água, vasilhas, tochas, uma corda, roupas, ervas medicinais, ataduras, remédios e mais algumas coisas que devem ter somado uns 13 quilos ou mais.
Ela finalmente iria conhecer o mundo. Para onde não importava, qualquer lugar onde alguém precisasse de sua ajuda.
Voltou para os aposentos da madre com a mochila pesada, arfando de tanto correr. As irmãs no corredor olhavam torto, estranhando.
-Agora venha até aqui,quero lhe dar algo. – A madre abriu um armário de madeira.
Alice ficou atrás dela e pode ver uma linda armadura metálica cheia de detalhes que parecia ser exatamente do seu tamanho.
- Mandei fazer especialmente para você. Essa é minha maneira de protegê-la, mesmo não estando por perto...- foi interrompida por um abraço repentino.
-Obrigada, Heyde...Muito obrigada mesmo, por tudo o que você fez por mim até hoje – a garota disse com lágrimas nos olhos. Lágrimas também surgiram nos olhos da Madre, mas elas se soltaram e enxugaram os olhos quando as irmãs começaram a colocar a cabeça para dentro do quarto.
~
Alice tomou um último banho, fez seus últimos deveres e fez questão de se despedir de todos naquele dia. Muitas freiras lamentaram muito a sua partida. Algumas lhe deram presentes e amuletos para carregar. Pensou que não iria conseguir dormir jamais, mas o cansaço a venceu e ela desmaiou logo.
Na manhã seguinte estava preparada. Usava um Vestido de um lilás delicado por cima da armadura. No peito, um broche com o sol símbolo de Pelor. A mochila nas costas cheias de suprimentos, remédios e amuletos. Presa na mochila havia uma maça que fora obrigada a levar.
Estava quase indo, quando a Madre Heyde lhe chamou a atenção
-Espere...há mais uma coisa que preciso lhe dizer
Alice olhou atenta para ela.
- Se um dia, se apaixonar...
-Madre, eu na...
-Deixe-me terminar. – e a madre encerrou a sessão de interrupções. – Se um dia se apaixonar por alguém e quiser se casar...faça isso. Todos nós almejamos acima de tudo a sua felicidade, Alice. – segurou suas mãos com firmeza
Alice retribui o gesto. – Certo, Madre Heyde. – rolou os olhos para lá e para cá e disse – Mas não pretendo me apaixonar por ninguém. Vivo apenas para servir Pelor e espalhar seus ensinamentos.
A Madre riu.
- Ah! Vá!! Antes que eu mude de idéia.
-S-sim!
Ela virou-se de costas e correu para o portão principal. O convento inteiro gritava e acenava para ela agora.
Alice se virou e fez um só aceno. Seja lá o que fosse acontecer, ela estaria preparada.
Na cabeça dela era: curar feridos, ajudar os doentes e pobres, nunca se apaixonar, voltar para o convento um dia.
A realidade estava além de tudo aquilo.
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