Alice, Minha Flor...
1 Alice...
Notas iniciais
Era mais um dia comum e tedioso no Club Lemonelle, nada de nuvens, gente às pencas, principalmente na piscina, pleno e glorioso verão... para qualquer pessoa que não estivesse sentada numa cadeira, a uma boa altura do chão, olhando fixamente para a água, de uniforme vermelho e óculos escuros, apoiada somente nos joelhos, por horas e horas ao longo do dia. A primeira a chegar, a última a sair, a salva-vidas, Alice. Era um emprego temporário no clube, somente para os meses de dezembro e janeiro, porque o salva-vidas oficial tinha se machucado depois de fazer uma demonstração de salto na piscina. Quebrara a perna e, veja só, lá estava Alice, de prontidão, estudante de Educação Física, pronta para perder suas férias a fim de fazer absolutamente nada durante sessenta e dois dias inteirinhos.
Bom, não é que não pudesse fazer qualquer coisa entre sete da noite e sete da manhã. Mas ainda assim era frustrante. Ninguém nem se machucava de maneira alguma, nem ao menos as criancinhas para ela poder ser útil de algum jeito. Ganhar dinheiro sem fazer nada, ela devia estar mais do que contente, mas o tédio era algo com o qual não podia lidar. E já tinha aturado trinta e seis dias desse nada existencial, de ser quase uma gárgula ignorada no topo de uma cadeira equilibrada numa escada. Já estava ficando depressiva.
Mas estava decidida, realmente, ia mudar esse marasmo todo no seu verão, custasse o que custasse. Tinha planos para a semana seguinte. Contatara um velho amigo da escola, que agora estava trabalhando num zoológico ali pertinho; ele não era exatamente o tipo de pessoa que se preocupa com o certo e o errado, e sim daquele que simplesmente faz as coisas que lhe dá na telha e pronto. Quase como ela. Pediu-lhe algo para deixar aquela água da piscina agitada e, quem sabe assim, fazer com que sua existência fosse necessária de verdade ali. Esse amigo se chamava Pedro e teve uma pequena ideia, boa até, praticável. Ela pegaria os animais no domingo com uma outra funcionária, nos fundos do zoológico. Eram enguias elétricas, seis espécimes. Não que elas dessem muito choque nas pessoas, mas seriam o suficiente pelo menos para assustar algumas velhinhas... ou qualquer pessoa exagerada que requeresse a atenção dela na mesma hora. Atenção da Gárgula.
E domingo foi lá, chegou perto do lixo do zoológico, a coisa mais fedida que já vira na vida. Mandou uma mensagem, em pouco tempo, a porta dos fundos se abriu e veio andando uma mulher de cabelo ruivo e expressão extremamente séria, Juliana. Bem como descrevera Pedro. Ela chegou e mal falou, apenas esticou os braços e entregou o tanque. Os bichos ficariam com Alice por apenas três dias e, por isso, foram entregues em um pequeno tanque, quase espremidas demais, coitadas das enguias. Mas tinha algo na cara daquela pessoa que deixava claro que havia uma certa dúvida e relutância em deixar os animais aos cuidados de Alice.
— O que é? — perguntou Alice em um tom meio defensivo.
— Ah, nada. — respondeu a moça, ainda com algo visivelmente a incomodando na cabeça. — Eu só queria perguntar mesmo o que vai fazer com as enguias. Não está planejando dar choque em alguém ou fazer qualquer experiência com os bichos, está?
— Claro que não, eu só quero fazer uma surpresa para um amigo. Ele tem medo de enguias e quero fingir que é um presente do amigo secreto, que é amanhã — desconversou rapidamente.
— Está bem... — Sua cara era de pouco conformada. — Só não se esqueça de recolher as enguias da piscina antes de serem pisoteadas, certo? Não quero ver nenhum machucadinho nem mínimo nelas quando voltarem.
— Piscina?
— É, claro. É o que realmente pretende fazer com elas, não?
— O Pedro te contou o plano, não é? Tá, tudo bem, eu menti... Achei mesmo que ele teria te contado, mas se desse pra evitar, era melhor que não soubesse mesmo — justificou-se.
— Não, minha querida — Juliana deu uma pequena levantada no queixo, quase fixando o olhar no cenário atrás de Alice. — Quem me contou foi você mesma. É claro, não em voz alta, mas em pensamento.
— Pensa...
— Leio pensamentos, isso — lhe cortou a fala. — Chega a ser irritante certas horas, tenho que ficar ouvindo tudo duplicado, é uma droga. Apesar de toda a vantagem que me dá.
— Assim, simples desse jeito? Bem “foda-se, eu li seu pensamento”?
— Não, não é assim, não exatamente. É algo simplesmente fora do meu controle, quase um carma. Leio pensamentos e pronto, é como se a pessoa estivesse falando normalmente para mim, não importa o tempo, a fase da vida, não importa nada. Mas também isso não vem ao caso, sabe?
— É... é meio estranho, mas também não tenho nada a ver com isso, claro. Assim como você não tem a ver com meu pequeno plano da festa na piscina. Não conte pra ninguém e tudo vai acabar bem, eu garanto.
Juliana fez a cara mais debochada possível.
— Mas é claro que tudo vai acabar bem, não importa o que eu faça e mesmo se não fizer nada. Com esse plano que saiu de um desenho animado você quer o quê, que dê certo? No muito vão ver as enguias e tirar todo mundo da piscina e você do seu emprego. Desculpa a sinceridade, mas é basicamente ridículo. Credo, ainda bem que não estarei lá pra ver essa vergonha alheia.
— Nossa, quanta simpatia… Mas, tá, ótimo, você não tem mesmo nada a ver com isso. Então esse papo de maluco está muito bom, mas já é hora de ir indo. Até a volta. — Virou-se e foi embora. Juliana ficou com uma cara um pouco estranha, porém logo voltou ao trabalho.
Segunda-feira, de manhã. Não era dia de muita gente lá, possivelmente uma maioria de crianças. Mesmo assim — poucas e de pouca idade — logo estariam esperando para entrar na água. Havia algumas meninas que iam basicamente todos os dias nadar lá, pelo o que parece, uma delas estava aprendendo a nadar e até que se saía bem. Alice já tinha trocado o tanque pelo balde, nem mesmo trocou a água, apenas as jogaria lá e alguém que as recolhesse. Como estava sozinha todas as manhã até as oito horas, seria improvável que a vissem fazendo isso. E usara o mesmo balde que usava para o cloro da piscina, não daria muito pra perceber nada, a não ser que a pessoa olhasse dentro do recipiente.
Pegou o balde perto do armário onde guardava seu uniforme e colocou as enguias na água, bem onde as pequenas amigas ficavam todos os dias. Os animais se espalharam um pouco, esgueirando-se pelas paredes da piscina, e, logo que já estavam mais ou menos distantes uns dos outros, pararam de se mover e ficaram. Alice deu um sorrisinho emocionado. Foi logo abrir o portão para que todo o mundo entrasse e começasse finalmente o seu plano. Até porque, ninguém nunca olha nada antes de entrar na água. Mas é claro que ela não teria contado com alguma coisa incomum no dia de executar o plano.
Não tinha ninguém, ninguém mesmo, esperando do lado de fora para entrar na piscina. Aliás, o clube no geral estava vazio, tinha apenas umas duas ou três pessoas circulando, mas nem sequer olhavam para Alice. Não era nem um pouco usual ver aquele cenário, principalmente em sua cidade, que não era lá muito grande, o clube era justamente o lugar mais agitado, depois do shopping. O que justificaria um cenário assim seria algum evento grande ou qualquer coisa assim que fosse acontecer naquele dia, mas com certeza teria ouvido alguma coisa, pelo menos no dia anterior. E mesmo assim, a cidade não era pequena a esse ponto... estranho.
E ainda estava achando que chegaria pelo menos uma pessoa naquele dia, estava quase rezando de joelhos para que isso acontecesse, porém desistiu quando deu seu horário de almoço e ainda nem mosquito tinha passado por lá. Deu um longo suspiro quando voltou de sua pausa e o lugar continuava tão morto quanto antes. Se esticou em uma das cadeiras e tirou um longo cochilo.
Acordou quando ouviu por acaso uns passos no chão de madeira. Passos de salto-alto, ah, aquilo com certeza não era comum. Quando se levantou e viu quem era, ficou até um pouco rígida, pois uma das Administradoras mais rígidas do Club Lemonelle acabara de chegar por ali, não seria nada bonito ser pega dormindo. Em seguida se lembrou das enguias e por pouco não teve um ataque de pânico. Apenas manteve a calma e foi andando a passos largos até o outro lado da piscina para encontrar com a mulher, Maria.
Felizmente, Maria não tinha nenhum motivo especial para estar ali, apenas queria ver como andavam as coisas, estivera ocupada no último mês e por isso mal conseguira ir ao clube. Claro que se decepcionara com o pouco movimento, mas Alice garantiu a ela que era um dia atípico ali, geralmente era um lugar infinitamente mais agitado. Conversa mais chata, pensou Alice, um dia tão no marasmo e a única pessoa que tenho contato é essa mulher enfadonha aqui, ah, que droga. Logo cortou a conversa e pediu para Maria conversar com o barman porque aparentemente houvera algum problema semana passada com um cliente e só faltava ela saber o que tinha acontecido.
Alice voltou à sua cadeira e dormiu mais um tanto. Que dia! Acordou sozinha dessa vez e já foi pegando as coisas para tirar as enguias da água. Frustrada como nunca, se encaminhava para casa em dois tempos. Pensando melhor, ligou para o Pedro no meio do caminho perguntando se poderia já devolver as enguias hoje, já que não seriam mais úteis. Para fechar o pacote frustração, ele disse que não seria possível. Ela xingou um pouco e deixou por isso mesmo.
Passou a noite pensando no que poderia fazer para dar uma agitada na piscina, de modo que não ficasse dependendo dos outros. No final, teve que dar razão a Juliana, aquele plano de enguias tinha acabado bem idiota. Mas ainda tinha outra coisa bem simples que ela podia tentar. Quer dizer, não tão simples, claro, mas era uma coisa que não precisava ficar esperando ansiosamente pelas pessoas, era só deixar a coisa ali e pronto. Ácido. E ainda bem que ela era uma mulher com bastante contatos, bem socializada. A velha Augusta podia ajudá-la nisso.
Pulou da cama e ligou imediatamente. Uma voz rouca e baixa atendeu ao telefone, quase como se nem conseguisse falar mais. Mas fazer maldades ainda conseguia, isso Alice sabia. Segundo as histórias que ouvira da própria avó, seu melhor utensílio era o ácido, servia para tudo o que precisasse de uma pequena tortura. Nos tempos de moça, Augusta era conhecida por todo canto da cidade, era basicamente uma assassina de aluguel, a primeira mulher daquela época a se aventurar nisso. Se deu muito bem, por sinal. Se alguém dissesse que estava na lista da Augusta, era certo que a pessoa não ia ter muito mais tempo de vida, era bom aproveitar tudo o que podia.
Conseguiu dois galões de dez litros com a avó, a própria Augusta. Foi buscar de madrugada mesmo, a velha só dormia no sofá, depois do almoço, vendo o jornal da tarde. Os galões eram um pouco pesados por causa do material reforçado de que eram feitos, mas estava ótimo assim, o ácido não tinha cor alguma, tampouco cheiro. Era basicamente água para quem visse de longe. Claro que a quantidade que ela poria na piscina era quase ridícula comparada ao tanto de água que tinha, mas a velha garantiu que pelo menos umas irritações de pele isso renderia. Se não podia desafogar ninguém, pelo menos recomendaria umas pomadas, já estava ótimo, foi o que Alice pensou.
E no dia seguinte, bem cedo, foi lá de novo. Despejou os galões, misturou bem, estava tudo lindo maravilhoso. Foi abrir a entrada ao povo para poderem ir à piscina, a primeira pessoa da fila era a criatura estranha e irritante, Juliana. Não bastasse a impressão que já tivera dela, a desgraça estava com a maior cara debochada, como se soubesse do novo plano de Alice e tivesse certeza de que daria errado. Ao passar por ela, Juliana disse uma coisa, baixa o suficiente para apenas Alice escutar: você tem que parar de assistir filmes baratos… caramba! Infelizmente, ela foi tão rápida para a piscina que não deu tempo sequer de reagir.
No entanto, Alice ficou olhando ela entrar na água, mergulhar de uma vez só, sem demora. E não pestanejou, nem nada, mesmo tendo mergulhado de cara, nem deu sinal dos olhos ardendo. Nem a pessoa seguinte. Nem a próxima ou a próxima ou qualquer uma das pessoas que estavam ali. Bom, talvez a quantidade de ácido não tenha sido o suficiente para ter um efeito tão rápido assim. Logo chegariam aquelas meninas que ficam o dia todo, todo dia por ali e descobriria se havia algum efeito.
Porém o dia foi passando, as meninas não vieram e Juliana também não saiu da água, assim como mais uns dois ou três grupos de pessoas. Alice estava se irritando, tudo continuava tão natural, uma tarde tão boa quanto qualquer outra, como se nada, nadinha tivesse acontecido, nem no dia anterior, nem nesse. O vazio de ontem foi ignorado, o ácido de hoje nem existia para essa gente. Juliana ria e agitava as pessoas na piscina com brincadeiras, uns saltos bonitos, animava as crianças menores a nadar, ajudou até um garoto que ainda não sabia boiar direito. Não fazia sentido.
Se Juliana podia mesmo ler mentes, então sabia que havia ácido na piscina, o que tornava cada atitude animada dela totalmente contraditória, o normal seria que tivesse avisado alguém acima de Alice para a piscina ser esvaziada e tudo o mais...! Assim que ela foi comer alguma coisa pela segunda vez, Alice não se aguentou e foi ter uma conversa com ela. Foi bem rápida para a área interna do clube e logo a localizou numa das mesinhas perto da cantina.
— O que é que você veio fazer aqui? — atirou a frase rispidamente por trás da zoologista.
Juliana se virou e encarou-a com a expressão mais feliz do mundo. Convidou-a com a cabeça a se sentar à sua frente. Alice apenas deu a volta na mesa, mas continuou em pé.
— Estou aqui me divertindo, oras, sou sócia do clube também, caso não saiba.
— Você sabe do que eu estou falando. Não tô nem aí pra sua diversão, você veio é implicar comigo.
— Implicar com você? Oh, não, eu impliquei com você ontem, eu que recomendei a todo mundo que não viessem ao clube ontem por que estavam fazendo limpeza na piscina.
— Você? Há, nem...
— Sim, eu sim. Estou ouvindo aqui o seu “ai, nem vem, isso é impossível”. Alice, minha flor, você ainda tem muito o que aprender nessa vida. Só foi preciso colocar dizer pra umas duas ou três fofoqueiras na internet sobre a limpeza e todos já estavam sabendo antes que amanhecesse. Pare de ser ingênua, por favor. Você vive só no seu mundinho de ovo, isso é ridículo hoje em dia, sabe?
— Meu mundinho de... — Alice nem conseguiu terminar a frase. — Escuta aqui, se você fizer qualquer coisa hoje, qualquer...!
Juliana abafou um pequeno riso, interrompendo a fala da outra.
— Não se preocupe, hoje o fracasso foi seu totalmente, não precisei nem ajudar. É isso o que dá confiar num velha de oitenta anos de idade, elas não sabem mais fazer as coisas tão bem quanto na juventude. A quantidade de ácido que você pôs na água não fez a mínima diferença, não causa nem ardência nos olhos. Se tivesse trocado a água doce por salgada fazia até mais diferença que aqueles litrinhos que colocou hoje de manhã.
Alice apenas arregalou os olhos e mordeu o lábio superior, soltando-o rapidamente. Colocou as mãos nos quadris e encarou por um tempo a mulher ruiva à sua frente. Ela falou justamente o que estava temendo e o pior é que tinha razão. Sacudiu de leve a cabeça e saiu andando sem olhar de volta.
Essa mulher... Essa maldita. A maldita dos cabelos ruivos que fica se achando. ELA. Vai se dar mal. Me recuso a deixar esse deboche todo barato, foi que Alice pensou enquanto voltava para seu posto de estátua. Aproveitou, antes de subir, pegou o pano no pé da escada, por alguém sempre conseguia molhar o banco dela quando não estava lá. E achava que era de propósito, mas sempre deixava por isso mesmo... só porque não via quem era.
Mas no fim das contas ela queria mesmo era se vingar de Juliana, ao inferno a pessoa que molhava seu banco. E ela já tinha a ferramenta pronta pra isso. Tinha pensado em deixar um pouco do ácido separado numa seringa para fazer um ou dois teste nos músculos em alguma outra hora, quando conseguisse alguma cobaia doida da cabeça. Nada mais simples que pegar uma cobaia à força e Juliana bem que estava merecendo uma dorzinha excepcional.
Bem, era questão só de esperar então. Estava torcendo para que a “dona da razão” não fosse embora tão cedo, para dar tempo de fazer uma pequena perseguição, uma espionagem básica, pelo menos pra saber onde ela morava. E parece que ao menos nisso estava com sorte hoje. A maldita Juliana ficou ali, na piscina, o tempo todo, hora totalmente dentro d’água, hora só sentada na beira, até escurecer, até dar sete horas e Alice mandar todo o mundo embora.
É claro que ela já tinha deixado sua mochila toda pronta uns minutos antes e tinha posto sua roupa normal, pra ficar fácil ir apressada, sem perder sua recém-feita inimiga. Foi seguindo como todo mundo pela saída, sem desgrudar os olhos dela, mesmo no meio de umas vinte, trinta pessoas juntas. Ela atravessou a rua quando viu que Juliana continuara pela calçada e foi bem rápida dando a volta naquele quarteirão para fingir que ia para um outro lado qualquer. Ainda bem que era um quarteirão pequeno.
Deu sorte mais uma vez, a ruiva continuava na mesma reta por um bom tempo. Mas é claro, estava bem distante dela ainda, só a enxergava por causa do cabelo chamativo mesmo. Andaram por bastante tempo, quase como se Juliana quisesse deixar a cidade à pé por aquela avenida mesmo.
Já estava ficando bastante estranho, na verdade. Quase coisa de filme mesmo — e depois Alice é que devia parar de ver filmes, oh, sim, claro, resmungou mentalmente. Começou a achar que ela tinha percebido sua presença em algum lugar no meio do caminho. Até porque, a mínima olhada que desse para trás ela a veria, só tinha as duas na avenida, estava deserta não fosse por elas.
Porém.
Óbvio que alguma coisa estava para acontecer. Tinha que acontecer algo, estava demasiado estranho para ser mais uma caminhada normal para casa.
Em uma ou outra curva que o caminho fazia, Alice a perdia de vista por uns instantes e tinha um certo frio na barriga que não voltasse a vê-la, por ter entrado em alguma travessa. E foi basicamente o que aconteceu: numa curva à direita, as duas entraram, só uma saiu.
Alice parou na esquina imediata, olhou pela travessa e tentou enxergar o mais longe possível na avenida. Nada. Vazio, vazio. Só ela ali, parada.
Estava olhando para frente e se virou para desistir da perseguição e voltar para casa, frustrada. Parece que a sorte dela estava num nível bem baixo aquele começo de semana. Virou-se e bateu em alguém que não tinha visto quem era. Quase caiu sentada, mas conseguiu se manter quando reconheceu a pessoa. Juliana, estava na cara. Bem coisa dela isso.
— Escuta aqui, minha querida, você acha que eu sou trouxa e ignorante como você? — Alice ouviu e deixou a frase morrer no ar, abafada um pouco por uns dois carros que passaram naquela hora.
Continuou encarando, a raiva era tanta que não sabia o que dizer. Mas ia usar a raiva para montar as frases, ah, ia!
— Trouxa você, a senhorita “leio pensamentos”? Há, claro que não ia te subestimar. Só achei que te seguindo ia conseguir isso aqui — balançou a mão entre ela e sua inimiga — proximidade. Quero você é perto mesmo. — Encarou-a mais um pouco, com um sorriso quase irônico. — O que foi, não tinha lido meu pensamento desde o começo?
— Na verdade, sim.
— E tá fazendo essa cara de surpresa por quê?
— Pela confusão que está sua cabeça. Aliás, que sempre é, mas agora está absurdo demais ter que ficar ouvindo tamanhas pafúrdias. Eu não achei que fosse capaz de falar passando tudo isso pela sua mente.
Maldita, maldita, maldita.
— Tá, ouvi essa também, minha flor de pessoa, será que você pode me contar o que quer fazer exatamente sem que eu tenha que ficar invadindo essa sua confusão?
Então agora vou falar só em pensamento contigo, já que se acha tanto. Sua besta, eu quero mesmo é cuspir na sua cara. E cuspiu. Simples assim, como se estivesse apenas falando alguma baboseira.
Juliana limpou o rosto, com a mesma expressão de calma e deboche, olhando por cima da cara de ódio de Alice. Sorriu.
— Alice, Alice. Eu não vou nem comentar que já entendi qual é a sua. Não vou dar brechas pra você continuar com suas baboseiras infantis. Fica tranquila que logo, logo eu acabo com você. E você não vai nem notar.
Se achando muito, como sempre. Mas até agora tudo o que fez foi mandar umas mensagens na internet e falar. Ah, falar, como adora falar, você! Alice se forçou a sorrir. Era hora de tirar a prova daquele achismo todo da maldita.
— Ah, é? É hora mesmo de tirar a prova então. Apenas espere que vou mostrar o consigo fazer além de digitar e, sim, criatura mágica, sim, ler pensamentos. Isso não é só o que sei fazer. Mas não sou como você! — Pegou uma mecha do cabelo e esticou, deslizando os dedos até a ponta, quase totalmente concentrada nele. — Eu vou embora agora. Não vou fazer nada tirado às pressas de algum desenho infantil como anda fazendo.
Virou-se e deu um passo. No segundo passo, Alice tirou a seringa do bolso e enfiou com vontade no pescoço de Juliana. Sua vista desfocou e a satisfação encheu seu peito. Sentia sangue escorrer de sua boca por causa da forte mordida que dera no lábio fazendo seu movimento vingativo. Ria, ria muito. Quase como louca. Nem via nada ao redor mais, estava envolta dentro de sua própria cabeça, seus pensamentos e sua incredulidade de ter sido capaz disso a faziam girar e girar dentro de si.
Ouviu um estalar de dedos. Bem atrás do seu ouvido direito. A luz do poste em frente a si encheu seus olhos. Segurava alguma coisa na mão perto do pescoço, também do lado direito.
— É, minha querida. — A voz doce de Juliana por trás da orelha quase queimava seu tímpano — Você acaba de fazer o que não devia. Olhe direito para si mesma.
Só então percebeu que a seringa espetada com força tinha sido no pescoço errado. Como? Comocomocomocomocomocomocomocomo? Se perguntava sem parar, entrando em desespero. Mas o seu corpo começou a relaxar e sentiu que ia desmaiar. Foi caindo, foi caindo. Um braço a segurou. Amigo? Inimigo? Inimigo.
Juliana a pegou no colo no momento exato. Pôs ela encostada ao poste, tirou seringa e a mão do pescoço de Alice e se ergueu para vê-la bem de cima. A vista de Alice começou a desfocar de novo, mas, antes de desmaiar, ela viu Juliana sumindo no ar, sem explicação nenhuma, sem qualquer sentido lógico. Sumiu como fumaça no vento.
Alice desmaiou.
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