Alice Is Dead
3 Capítulo 2: Little creepy world.
Notas iniciais
Acordei com a pouca luz da manhã entrando pelas frestas da janela. Limpei os olhos embaçados, chorara até dormir na noite anterior. Levou alguns segundos para que meus olhos enxergassem meu quarto pequeno e escuro, sacudi a cabeça e busquei a liberdade de meu corpo, afinal ele estava todo enrolado no edredom. Rastejei até chegar à ponta e procurei o chão. A luz que entrava não era suficiente para me fazer enxergar bem. Calcei as pantufas rosa de coelhinho e tateei a parede até encontrar o interruptor. A claridade incômoda me fez piscar rápido e fiquei tonta.
Caminhei até a janela e a abri, sentindo o ar gélido da típica manhã estoniana. Abri a gaveta de minha cômoda e fitei o bilhete que recebi ontem cuidadosamente. Quem fora o sádico que mandara aquilo? Não mostrei para meus pais, eles surtariam se vissem o texto, provavelmente eu seria mandada pra um manicômio ou cadeia.
Era muito cedo e a casa estava em completo silêncio, que logo foi quebrado por meus passos baixos nas escadas. Comi qualquer coisa que achei na cozinha e escrevi num papel: "Mãe, pai, saí para tomar ar fresco, volto de tarde. Beijos, Anya." E colei na geladeira. Voltei para meu quarto e vesti algo simples e bem fofo, guardei o bilhete sádico e fui enfrentar a fria manhã. Não estava um clima de congelar, mas era frio o suficiente para que eu batesse os dentes e tremer. Entrei na bela floresta e resmunguei ao ver que a terra continuava úmida; felizmente, não escorreguei.
Eu já estava muito próxima do lugar com o buraco quando vi um vulto branco à minha esquerda. O vi passar mais uma vez e, idiota como sou, corri atrás. O vulto corria ágil entre as árvores e eu ia tropeçando, demos talvez duas voltas no local e peguei trilhas que nunca vira na vida, então o borrão parou. Escondi-me atrás de um arbusto e ri baixinho ao ver que o vulto era um inocente coelho branco.
Ele parou ao lado do buraco estranho e foi quando reparei nos detalhes. A passagem era escondida entre as raízes de uma árvore muito alta e provavelmente muito velha, eu não reparara nisso ontem pela escuridão, era menor do que eu vira antes e parecia ser mais fundo do que eu imaginara. Então, reparei na peculiaridade do bichinho. Ele era pequenino e gordinho, o pelo era bem claro e parecia macio, como minhas pantufas. O coelho vestia (isso mesmo, ele estava vestido) um elegante paletó preto, uma grande cartola escondia suas orelhas e ele segurava nas patas um belo relógio dourado de bolso.
-Estou atrasado!! — resmungou e guardou o objeto.
Essa é... a coisa mais.... esquisita que eu já vi. Um coelho. Um coelho de paletó. Um coelho de paletó com um relógio de ouro. Um coelho de paletó com um relógio de ouro que fala. Eu estou drogada? O coelho olhou em volta e em seguida pulou no buraco. Silêncio. Contei até cinco e corri para a beira do abismo. Ajoelhei e me apoiei numas pedras à minha frente, para tentar enxergar melhor. Nada.
Tentei me mexer para pegar um ângulo melhor e a pedra quebrou, me desequilibrei e fui toda lançada para baixo. Logo me vi cercada de terra, não havia nada para me agarrar e a luz ficava para trás. Eu gritava, mas a velocidade com que o vento passava por mim fazia parecer que eu estava muda. Eu só caía e... caía... e caía naquela escuridão sem fim.
Em algum momento a passagem ficou estreita demais e eu comecei a me ralar nas paredes, mas voltou a ficar largo e eu não corria mais esse perigo. O ar ficou mais pesado com à medida que eu me distanciava da superfície. Eu estava deixando todo meu mundo para trás. Pouco eu sabia, mas eu estava começando a pior e melhor viagem da minha vida.
Então tudo ficou ainda mais peculiar. Pianos, guitarras, mesas, cadeiras, xícaras, sapatos e muito mais flutuavam tranquilamente enquanto eu caía por entre eles. O ar machucava meus ouvidos, fazendo-me ouvir uma espécie de zunido. Agora eu caía por comida estranhas e laços de cabelo coloridos. Tem como ficar mais estranho?
Algo se chocou contra minhas costas, ouvi um crec e pensei se quebrara algum osso, gemi baixo de dor e abri os olhos. Eu não percebi, mas chorara na queda, de forma que agora meu rosto estava úmido. Tudo girava ao meu redor e eu notei o quão longe estava do teto cor de caramelo.
Fiquei de pé com dificuldade tanto pela queda quanto pelo salto e sacudi a cabeça. Onde estou?
O chão era todo preto e branco, contei seis portas ao todo e uma pequenininha para ratos. No centro havia uma mesa com um vidrinho semi vazio e aberto escrito "me beba" na etiqueta, havia uma chave dourada e no chão um pacotinho aberto com um bolinho semi comido escrito "me coma".
Comecei a tentar abrir as portas, uma por uma, com a maior força que restara. Trancadas. Testei a chave em todas, nada. Tentei usá-la por último na pequena porta, que abriu. Maravilha. Eu não sou um rato!Não tem como eu passar ali!
-Como eu entro? — perguntei nervosa e incrédula. Examinei o lugar por onde caí e tentei ver se havia alguma chance de conseguir escalar de volta. Nem em um milhão de anos.
Peguei o frasquinho, curiosa, e bebi o que restava dele. Tinha gosto de fumaça com morango. Então, comecei a.... crescer. Essa é a palavra. Eu comecei a crescer descontroladamente. Que isso??? Minhas roupas se rasgaram em algumas partes e eu bati a cabeça no teto, doeu. Eu estava gigante. Enormemente enorme. Que. Merda. É. Essa?
Peguei com todo o cuidado do mundo o bolinho e o comi, tinha gosto de sal com pimenta e derreteu na minha boca. Eca. Me senti ardida enquanto o bolinho derretia e grudava nos meus dentes e gengiva.
Comecei a diminuir muito e descontroladamente, cada músculo queimava enquanto ficava menor e menor. Cheguei ao tamanho normal, mas continuei diminuindo. Minhas roupas deslizaram pelo meu tamanho e caíram em cima de mim, fazendo-me sufocar. Procurei a saída daquele monte de roupas e quando a encontrei, respirei profundamente.
Eu vestia uma verdadeira réplica das minhas vestimentas normais só que muito menores, digamos que adaptadas para mim. Passei com cuidado pela portinha e comecei a cair de novo. Dessa vez a queda não durou mais do que 2 segundos e logo minha boca encontrou a grama.
Fiquei de pé, tirei os pontinhos verdes de mim e procurei por algum sinal de vida naquele lugar. Nada. Olhei para cima e vi o buraco pelo qual caíra originalmente, como se nunca tivesse passado pela sala e aquelas coisas flutuantes.
-Quem és tu e o que estás fazendo aqui? — Ouvi alguém perguntar atrás de mim, virei e vi aquele coelho branco.
-Eu... caí. Por lá — apontei.
-Então... Seja bem-vinda.
Ele começou a andar floresta adentro e eu o gritei.
-Onde estou? — indaguei assim que ele me fitou.
-Ora! — Ele jogou os bracinhos no ar. — Tu estás no País das Maravilhas!
-País do que? — ergui uma sobrancelha.
-Das Maravilhas. Agora, se não se importa, estou atrasado. — Ele voltou a andar e eu o segui alguns metros.
-Espere!Estou perdida! — gritei, parando o coelho. Ele suspirou, virou-se nos calcanhares e me olhou.
-Me chamo John Overhill. Olá, mocinha. — Ele curvou os lábios no que deveria parecer um sorriso, mas ficou uma careta assustadora.
-Olá. Sou Anya Kõiv. — Estendi a mão mas ao invés de me cumprimentar, ele continuou me olhando espantado e fascinado ao mesmo tempo.
-Anya... Kõiv? — Ele repetiu cuidadosamente.
-Isso.
-Parente da senhorita Alice Kõiv?
-Irmã mais velha dela. Por quê? — Estranhei muito a pergunta. Ele a conhecia?John retirou os pequenos óculos de aros transparentes que eu não notara antes e os limpou emocionado, então pousou a pata no peito e suspirou orgulhosamente.
-Seja muito mais que bem-vinda ao País das Maravilhas, senhorita Kõiv. — Ele curvou-se com respeito.
-Me chame de Anya — pedi atordoada. Hein?
-Tão humilde quanto tua irmã!Não creio que temos outra Kõiv aqui! Recebeste nosso bilhete?
-Este aqui? — Peguei do bolso, agradecendo mentalmente por ele não estar gigante.
-Sim! Desculpe por assinar o nome de Alice, mas precisávamos de ti aqui.
-Cadê minha irmã? — Fui direto ao assunto.
-Bom.... quer vê-la?
-Óbvio que sim! Onde ela está? — O coelho fez uma careta, o que foi estranho, já que coelhos não fazem caretas. Mas também não falam e nem te levam ao lugar onde sua irmã desaparecida está, então...
-Você não quer saber.
-Eu não vejo Alice há mais de um ano! Eu quero saber!
-Então, siga-me Anya. E, por favor, não chore. — O coelho passava por duas árvores quando parou e apontou uma árvore muito alta, com uma portinha azul no tronco. Alguns pequenos arbustos cobriram algo estranho e eu olhava John confusa.
-Cadê Alice?
-Ali — ele apontou a coisa escondida e eu corri o mais rápido possível até lá, morrendo de medo do que veria. Tirei a folhagem do caminho e vi um corpo em decomposição.
Era uma garota. Seu vestido era azul escuro acinzentado — cor favorita de Alice — e comprido, estava completamente rasgado e sujo, a pele da menina que o vestia era pálida, morta e gélida quando a toquei na mão, um de seus pés estavam descalço e machucado, ela estava com os olhos azuis arregalados e sem vida, virados para a pedra ao seu lado. Com cuidado, medo e um pouco de enjôo pelo cheiro, virei-a para mim. Era ela. Minha Alice.
-ALICE! — Abracei seu corpo tão frágil e tão morto, comecei a chorar e um peso se abateu sobre mim.
Merda Alice! Tu não devias ter partido dessa maneira! Me machucou tá?Ainda machuca. Alice, não.... não morra.... volta para a vida, vamos voltar à Elva! Nossa cidadezinha perdida de Eesti! Vamos!
Alice?
Você não está mais aqui.
E meu choro ficou muito mais alto.
-Sinto muito, Anya. — Falou John. Sua voz não passava de um sussurro.
-O que... — solucei — houve aqui? — Perguntei enxugando as lágrimas.
-Venha comgio, pequena, te conto tudo.
-Não deixarei Alice aqui.
-Alice está morta. Venha logo.
Chorando muito, coloquei-a delicadamente no chão de terra. Fiquei de pé com algum esforço e fui até John.
-Alice chegou há mais de um ano perdida e com medo. Ela começou a se acostumar com este lugar, mas sentia saudades da família, principalmente da irmã. — Senti uma pontada no coração ao ouvir isso. — Este mundo é governado pela Rainha Vermelha, uma rainha cruel e injusta. Ela maltrata todos. Alice ficou nervosa e se colocou contra a Rainha, logoela começou a ganhar aliados. Tua irmã fez um acordo com algumas pessoas aqui: eu, típico morador; a Rainha Branca, irmã justa da Rainha Vermelha; a Rainha de Copas, antiga rainha justa daqui; Greg MacMiller, filho único da Rainha Branca; Katherine von Raasch, moradora daqui e o Chapeleiro Maluco. Nós a ajudaríamos a vencer a Rainha Vermelha e dar o reino à Rainha Brancas, entroca a levaríamos em segunrança para Eesti.
-Só que tudo deu errado. — Disse alguém recém chegado. Me virei e vi um homem lindo de terno preto. — A Rainha Vermelha contratou alguém para dar um fim em Alice, a pessoa conseguiu. Sou Gregory MacMiller, filho da Rainha Branca e você deve ser a querida irmã da nossa doce cadáver.
-Sim — engoli em seco pela evidente frieza dele.
-Então... Anya? Alice falou muito de você, Dizia que precisávamos te encontrar.
-Para que?
-Ela nunca contou. — Greg ajeitou a gola da camisa e sorriu para mim. — Alice era uma gracinha, mas você... — ele pegou minha mão e a beijou. — estou encantado, senhorita.
-Eu também. Pela sua cara de pau. — me soltei e me afastei. — Acabei de chegar e ver que minha irmã está morta, tenha alguma consideração.
Ele ruborizou levemente e pediu desculpas baixo. Revirei os olhos e o fitei. Gregory me olhava curioso, como se tentasse prever o que eu faria a seguir.
-Senhor Overhill....
-Chame-me de John, senhorita..... desculpe!Anya.
-Então John, como eu saio daqui?
-Não sai. — falou.
-Andestust?
-Não dá pra sair daqui. Só a Rainha Vermelha sabe. Por que você acha que nenhum morador daqui foi visto?
-Vou ficar aqui... para sempre?
-A não ser que obrigue a Rainha a te contar. Ela te conta se você a derrotar. Por isso Alice fez aquele acordo.
-Ah não — me senti tonta e caí no chão. — Estou presa?
-Completamente.
Notas finais
A palvra em itálico é "perdão?" em estoniano. (:
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