Alice

2 A Blusa, a diretora e o celular.


Notas iniciais
"Não há curioso que não seja mal intencionado." (Plauto)

Pois é, eram sete para as sete, ou seja, eu estava atrasada para a escola. Não que eu estivesse me importando, mas minha mãe estava, eu acho.

No caminho, encontrei Ecila, minha melhor amiga. Ela é exatamente o oposto de mim. Quando estou feliz, ela está triste, quando estou chata, ela está legal e vice-versa. É um pouco estranho ter uma amiga tão diferente. Ela estava de carro, então me convidou para ir junto com ela e eu aceitei, é claro.

Ecila estava com uma blusa preta, o que eu interpretei como um sinal de que algo REALMENTE, ABSOLUTAMENTE, SURPREENDENTEMENTE diferente iria acontecer, uma vez que eu estava de blusa preta, pela lógica e anos de convivência, Ecila JAMAIS iria usar a mesma cor de blusa que eu, a não ser que algo estivesse muito errado.

- Ecila, por que está de blusa preta?

- Eu vinha de blusa branca, mas por alguma razão fora de meu entendimento, todas as minhas blusas brancas estavam para lavar. -disse Ecila, com uma tranquilidade absurda.

Sim, eu sei o quanto é estranho uma pessoa ser exatamente o oposto de você todos os dias, mas é a realidade, não é?

- Ecila, diga logo o que está acontecendo.

- Por quê? Do que está falando?

- Ora, eu estou usando uma blusa preta por baixo do casaco!

Nesse momento, Ecila perdeu totalmente seus argumentos e, pelo retrovisor, eu pude ver o pai de Ecila fazendo um sinal negativo com a cabeça, provavelmente tentando conter o impulso da filha de contar a verdade. E funcionou, fomos em silêncio até o colégio.

Chegamos atrasadas na aula de Ciências do senhor Albrionne, mas chegamos a tempo suficiente para que nossos cadernos fossem revisados e eu, expulsa de sala por não cumprimento dos deveres.

Peguei meu celular e desci até o pátio do colégio, onde vi outra coisa estranha: Ecila estava na sala da diretora. Logo percebi que o assunto era sério, então me aproximei da pequena janela e, abaixada, pude ouvir uma parte da conversa.

- Ecila, por favor, não faça isso. — implorou a diretora. — É muito...

- Perigoso? — Ecila foi rápida — Não, não é perigoso. É necessário.

- Você é quem sabe. — disse a diretora, vencida.

- Não, você não sabe, Ecila, você não sabe. — uma terceira pessoa que eu não estava vendo falou. Eu tinha certeza de que conhecia essa voz. — Você tem só 13 anos, acha que é invencível?!

Ouvi então passos em direção á porta e rapidamente voltei para o banquinho do pátio. O problema é que meu celular caiu do meu bolso e era tarde demais para que eu o pegasse sem que fosse vista. Ou eu me arriscava, ou teria que torcer para que ainda não tivesse mostrado meu celular para Ecila.