Alice
2 Capítulo 1 - Olhos tão profundos quanto o universo.
Notas iniciais
É um dia quente de verão, e a sensação térmica está terrível. Mais um típico dia de escola. Levanto-me da cama, com gotículas de suor na testa. Sabe aquele ânimo que você tem ao levantar e pensa “hoje será um ótimo dia”? Pois é... Eu não sei.
Eu tinha que ir mais uma vez em um lugar estranho, com pessoas medíocres e ouvir coisas extremamente irrelevantes para minha vida. Não que eu diga que conhecimentos são desnecessários... Muito pelo contrário!
Mas... A maioria das coisas realmente consideráveis eu já havia aprendido sozinha. Por meio meus pensamentos, livros, ou até mesmo sonhos. Sou considerada pelas pessoas uma pessoa “inteligente”, há alguns também que dizem eu ser um “gênio”. De fato, estou no terceiro ano do ensino médio com quatorze anos, algo meio incomum.
Porém eu vejo a mim mesma como outra “espécie”, ou até mesmo defeituosa. Tanto pelo fato de ser teoricamente mais evoluída intelectualmente e também por parecer indiferente com tudo e todos. As pessoas me respeitam, mas também me temem.
Até meus próprios pais pedem permissão para falarem comigo. Teoricamente eu deveria ficar chateada, ou inconformada com isso. Mas o que mudaria? Eu não consigo expressar o que eu sinto, nem com palavras ou símbolos. As únicas coisas que me fazem sentir “humana” são livros e música. Mesmo que eu não consiga criar nada, existem pessoas que se sentem exatamente do mesmo modo que eu. Sinto uma espécie de comunicação com as pessoas que escrevem determinados textos e tocam certas músicas... Acho que é esse tipo de relação que as pessoas denominam de “amizades”.
Não, eu nunca falei ou ao menos vi algum deles. Mas só pelo fato deles saberem arranjar cada letra, em cada sentença para descrever algo tão complexo quanto sentimentos me faz sentir que esta pessoa está ali por mim, me apoiando, me ensinando. Talvez seja daí que eu tire tanto conhecimento.
Chacoalho a cabeça, e dou tapinhas em minhas bochechas.
“Droga. Perdi-me em devaneios novamente”.
Corro pra vestir o uniforme e escovar os dentes.
Chegando ao banheiro eu encaro o espelho por um tempo, observando o meu reflexo. Meu rosto não era nem um pouco parecido com os daquelas garotas famosas que aparecem em revistas. Diria que eu tenho um rosto peculiar. Igual meu cabelo branco, existem pessoas naturalmente loiras, porém a falta de melanina em meu cabelo era algo bem característico. Eu mantenho o mesmo corte desde os sete anos. O motivo por sua vez é algo que me dá uma ótima nostalgia. Decidi cortar o cabelo deste modo, pois havia visto uma menina com esse penteado na escola, e ela tinha vários amigos. É claro que mudando meu cabelo eu não deixaria de ser temida pelas pessoas, eu fui muito ingênua. Porém passou essa mulher, que aparentava ter uns vinte e cinco anos. Percebi pela barriga saliente que ela estava grávida.
Ela abaixou-se pra olhar em meus olhos, e deu um sorriso gentil. Como se não tivesse feito o bastante, ela sussurrou doces palavras com uma voz graciosa elogiando-me.
Lembro-me dessas palavras como se tivesse acontecido ontem:
“Você é uma gracinha! E com esse cabelo está parecendo uma bonequinha, seus olhos são tão profundos quanto o universo. Tomara que meu bebê seja tão lindo quanto você”.
A moça que havia me tratado como uma criança normal. A única pessoa que demonstrou afeto e gentileza pra mim.
Eu queria abraçá-la, agradecê-la com palavras gentis, ou ao menos sorrir de volta.
Mas não consegui fazer nada. Quando reparei, a moça já estava quase atravessando a rua. Usei todas as minhas forças para correr, para poder dizer como sentia, para agradecer.
Chegando ao fim da calçada a mulher já estava atravessando eu gritei:
“Moça, tenho certeza que seu bebê será tão lindo quanto eu”.
Ela olhou pra trás e deu uma risada, ela estava prestes a mover os lábios para responder-me quando um ônibus passa correndo na rua e a atropela.
Abro os lábios, eu quero gritar, gritar até a garganta doer.
Novamente eu não consigo fazer nada. A pessoa que mais marcou minha vida havia morrido. Em frente de meus olhos. Carregando uma criança. Por minha culpa.
Sento sobre os meus joelhos de modo que tampasse meus olhos, e cubro os ouvidos com as mãos. Não quero ver ou ouvir mais nada. É como se o mundo conspirasse contra mim. E todos que tentam se aproximar, todos que olham nos meus olhos acabam se ferindo.
É como diz a música Demons do Imagine Dragons.
“Olhe nos meus olhos
É onde meus demônios se escondem
É onde meus demônios se escondem
Não se aproxime muito
É escuro aqui dentro.”
Todos ao meu redor estavam gritando, chorando. E eu, a causa do acidente estava inerte. E fiquei lá por um tempo, até perceber que estava sendo ridícula.
Eu só consegui correr. Sem nem ousar olhar para trás.
Eu percorri uma grande distância até chegar em casa, já estava até anoitecendo.
Ao aproximar-me da porta eu ouvi meus pais conversando e gargalhando. Entrei em casa. Após verem que estava ali eles desfizeram a feição de alegria automaticamente. Ninguém me disse “boa noite”, “como foi a escola?” nem mesmo “aonde estava até tarde”. Como pais normais... Muito menos repararam em meu cabelo.
Eu só corri para o meu quarto e me encolhi no canto da parede.
Essa foi a primeira vez que chorei.
Perdi-me nessa memória novamente...
Ao lembrar tudo isso, encosto minhas costas na parede.
“E agora eu apenas sento-me em silêncio”.
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