Alice
1 Prólogo
Notas iniciais
Eu quando criança,tinha os dias mais felizes que os de qualquer outra pessoa.Era invejada e amada pelos meus olhos verdes vibrantes,longos cabelos negros levemente cacheados e pele branca como porcelana.Os vizinhos costumavam dizer que Manfred e Lisbela eram o casal mais abençoado do mundo,eles tinham razão.
Morei a infância inteira numa casa grande,com três andares,um delicioso aroma de madeira silvestre,móveis escuros e cores claras em harmonia com a decoração.
Gostava de acordar meu pai nas férias e subir no terraço para ver o sol nascer,quando a gente chegava lá mamãe havia arrumado uma mesa de café da manhã,com direito a creme de avelã e amendoim,morangos,chá,tortas cremosas,bolos e pães,depois eles colocavam um disco numa vitrola e nos sentávamos no grande balanço em meio as flores.O sol nascia radiante e bonito.
Eles eram tão apaixonados e perfeitos juntos...eu ficava os admirando o tempo todo e sempre desejei um marido que nem meu pai,que me desse uma vida daquela e jóias tão lindas quanto as que enfeitavam o pescoço,os braços e as mãos de minha mãe.
Quanta inocência!Numa manhã agradável de Setembro,dia do meu aniversário de 12 anos,papai saiu à trabalho,rumo a Paris e prometeu que chegaria para a festa.O trem que ele estava saiu do trilho e se chocou com um outro,explodindo-se em chamas.No outro dia descobrimos tudo:ele foi uma das 46 mortes.
Mamãe achou que para nós seria bom ir à um psicólogo.Fomos.O problema é que ele conseguiu conquistá-la e foi morar lá em casa.Sempre o detestei,desde a primeira consulta.Ele gritava comigo,me batia,quebrava as coisas do meu pai e por vezes chegou a me assediar.É claro,minha mãe estava carente e apaixonada demais para acreditar em mim,depois ele não fez nenhum esforço para convencê-la de que eu era louca,a profissão ajudou muito,afinal.
E ela decidiu que aquilo era ciúmes da minha parte resolvendo se casar.O resultado?!:no dia da festa ele fugiu com todos os nossos bens e nunca mais deu notícia alguma.Tudo que a dona Lisbela fez,foi sustentar um golpista por anos e dar brecha para ele concluir seu plano com sucesso.
Demorei para perdoá-la e não voltei a chamá-la de mãe.Mas,depois eu nunca mais olhei para a vida e para as pessoas com os mesmos olhos encantadores e cheios de bondade de antes.Me excluí na escola e acabei de vez com a minha vida social.
Meu quarto era o único lugar que eu passava o dia.Lá tinha banheiro,meus livros,minhas máquinas de costura,tecidos,uma vitrola com meus discos favoritos,televisão,fitas de filmes e o essencial para viver.Só saía para dar uma volta,ir para escola e comer,mas sem trocar muitas palavras com Lisbela e com todos os outros.
E a cada dia que fazia mais um ano que o doutor maluco se foi e que fomos passadas para trás por ele,tomava mais raiva dos humanos e me envergonhava da minha própria espécie,desejando fugir para outro lugar diferente deste mundo.
Aí que a história de minha vida começa de verdade.
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