Alice
4 “O senhor acha que estou enlouquecendo?”
Notas iniciais
– Alice. Que bom tê-la de volta! – O mesmo gato aparece em meu quarto.
– Não é muito bom estar aqui. – digo ao me levantar. Minhas roupas somem junto com a cama, igual da outra vez. – Chega de papo furado. Diga-me gato, qual o caminho para sair daqui?
– Você já fez esta pergunta. – respondeu o gato, flutuando ao meu redor. – Depende muito de onde você quer ir.
– Não me importo muito para onde vou ir. – digo, seguindo caminho pelo corredor.
– Então não importa o caminho que você escolha. – ele disse, provavelmente gozando da minha cara.
Estava perdendo a paciência com aquele maldito gato. Ele era incrivelmente belo. Seus gigantes olhos azuis despertavam um sentimento de inveja, e seu pelo macio parecia tão confortável como um travesseiro.
Lembrei-me de quando era criança e estava em casa. Sentada no macio tapete da sala, apoiada a algumas almofadas. Sentia o cheiro de chá que minha mãe sempre preparava enquanto meu pai lia o jornal. Eu deitava no tapete e fingia fazer anjos de neve. Por um segundo, me sentia distante. Não estava mais na sala, mas sim num lugar em que eu julgava ser especial.
Continuamos seguindo caminho, enquanto o gato falava de seus gostos. Chegamos a porta à qual nem mesmo um anão passaria. Junto dela havia algumas cortinas, talvez houvesse janelas ali, mas não. No centro havia uma mesa, com algumas poções. Não iria tomar aquilo, independente do que seja.
– Gato, a saída é por ali? – digo apontando para a portinha no canto. Ele confirmou com sua cabeça. Fiquei tentando imaginar como poderia passar pelo minúsculo buraco. A porta era de madeira, com uma pequena fechadura alongada. – Como irei passar por ali?
– Na mesa, há alguns frascos de bebida. Procure o certo e você passará. – ele disse. Se ele achava que eu beberia um frasco daquele, estava doido.
Andei até a mesa, havia vários frascos. Estavam todos em latim. Creditur potionatus, potum oblivio, duis aute in potione… Eu não conseguia nem mesmo ler o que estava escrito nelas. Peguei uma por vez, e abri os frascos. Levei-as até o nariz e cheirei. O cheiro não era bom, mas era hipnotizante. Eu não sabia onde estava e provavelmente aquilo poderia ser morfina ou até mesmo algum tipo de droga. Não conhecia nem mesmo o gato, e todos ali estavam falando que eu era a Alice errada. Se nem mesmo eu sabia quem era a Alice certa, não podia confiar em nem mesmo em minha consciência.
Comecei a ver tudo embaçado e percebi que estava na enfermaria. Estava deitada em uma cama, com soro sendo injetado na minha veia. Não entendi aquilo. As meninas não estavam por perto, e provavelmente nem meus pais vieram me ver. A Sra. Collins estava conversando com um doutor, e ao ver que eu acordei veio me ver.
– Querida, que bom que acordou! – ela disse me abraçando. – Fiquei preocupada se você acordaria ou não. Afinal está dormindo por dois dias.
Dois dias! Esse foi o tempo que durou minha alucinação com o gato. Achei que teria sido apenas algumas horas. O doutor que entrou após dela, estava verificando o meu soro.
– Você está bem. As suas alucinações foram causadas por transtornos. Provavelmente você passou por dificuldades ao vir para cá e também o tempo de adaptação deve ser meio difícil. – disse o médico, receitando alguns remédios para mim. – Tome esse remédio e você irá melhorar.
Olhei o nome, duis aute in potione. Já havia lido este nome em algum lugar. Porque tudo estava em latim? Não deveria ter faltado tanto as aulas de latim, e nem mesmo dormido tanto agora no hospital.
Em alguns dias, minhas alucinações passaram e já pude assistir às aulas normalmente. Todos me conheciam por ser a menina problemática, mas minha consciência estava sóbria, portanto os pensamentos alheios não me interessam.
Algumas matérias ficaram atrasadas, junto com trabalhos. Mas as garotas me ajudaram. Estamos bem amigas agora. Elas são legais. O remédio tem feito seu trabalho e estou podendo dormir tranqüila. Mas ainda penso na Alice certa. Quem será ela? Tenho alguma ligação com ela? Não, Alice. Esqueça isto. Isso foi um fruto da sua imaginação, não deve se preocupar com coisas de sua cabeça.
– Alice! – disse a professora, me acordando para a realidade. – Sabe qual a resposta?
Observei o quadro. Aula de latim. Não entendia nada do que estava escrito. Não sei nem ao certo o porquê desta aula. E para ajudar, a professora não sabe explicar muito bem.
– Desculpe, não sei. – respondo.
– Alice, eu sei que é normal alguém ter dificuldade, mas preste mais atenção! – ela me repreendeu. Após aquilo, tentei prestar atenção mas não consegui.
Fiquei pensando sobre a Alice certa. Gostaria de ser a Alice certa, pelo menos teria alguma certeza nisso tudo. Os olhos do gato, me dizendo sobre o caminho que deveria pegar; a lagarta dizendo que havia chegado à hora; a pequena janela, o que deveria haver atrás delas; e as horríveis, porém viciantes poções, como seria poder bebê-las. Assim que a aula terminou, pensei em ir direto para o quarto descansar. Mas a professora me chamou em sua mesa.
– Alice, você esta tendo muita dificuldade na minha matéria. Suas notas não estão boas. Por isso, pensei em chamar alguém para te ajudar. – ela disse e atrás dela vi que um garoto se aproximava. Ele tinha cabelos ruivos e tinha sardas, perto de seus olhos castanhos. Seu nome era Caleb, éramos da mesma sala de matemática. Nunca havia falado com ele, mas ele parecia ser legal.
A professora entregou alguns livros para ele explicando o que eu deveria saber. Ele pegou os livros e pude ver em seu pulso uma tatuagem: um pássaro. Mas já tinha visto esta tatuagem em algum lugar. Pense Alice! Pense! Onde você viu esta tatuagem?
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