Alice

5 Capítulo 5


O voo foi rápido, na verdade eu não sei, estava muito ocupada dormindo. Papai estava mesmo me esperando, quando cheguei lá ele me deu um beijo e um abraço e perguntou onde estava mamãe, expliquei para ele o que mamãe tinha me dito para dizer.

Ele tinha apenas cinco minutos para falar comigo, ele pediu para dar uma saidinha no meio do time dele.

Enquanto isso, a “equipe” que mamãe mandou de volta para o Brasil tomou a direção oposta da minha, pelo que eu sei, eles foram para um hotel no centro da cidade ou qualquer coisa do tipo.

Fui para casa com o motorista de papai. Quando vi meu quarto uma sensação de alívio me atingiu. Meu quarto. Era tão bom estar ali. Arrumei algumas coisas, Théo estava na escola,mas eu estava com muita vontade de dar um abraço e um beijo enorme naquele garotinho que ama panqueca. Anie estava ali, a cumprimentei e nós conversamos sobre o que aconteceu enquanto eu estava fora. Nada de mais.

Anie estava com os cabelos mais cumpridos e com olheiras, acho que esse nada de mais estava saindo meio caro pra ela.

Conversamos tanto que perdemos a hora e Théo acabou chegando. Ele largou a mochila na porta de casa quando me viu e veio correndo em minha direção com os braços abertos, gritando:

– Você voltou, você voltou.

Eu o abracei pela cintura e levantei-o do chão e enchi aquele rostinho magrinho de beijos.

Depois eu subi de volta para o meu quarto terminei de arrumar as coisas e peguei uma roupa para trocar e fui tomar um banho. Como estava quente, mas quente mesmo, coloquei um shortinho preto, uma blusa de manga curta azul marinho e uma sandália.

O jantar já estava servido e como foi bom ver papai e Théo na mesa. Não apenas Luca.

Por onde ele tem andado? O que aconteceu com ele? Eu não sei, mas pelo menos nada de ruim vai acontecer com ele. Espero.

Théo ficou contando o que ele tinha aprendido na escola e como estava indo bem em matemática, nessa parte papai e eu começamos a rir, mais um que tem matemática no sangue.

–Pai, Caio melhorou ou algo assim? –perguntei.

– Continua na mesma querida – ele respondeu.

Comemos um delicioso camarão, acompanhado de outras coisas especiais inomináveis que Anie fez.

Decidi dar uma volta na praia. Como sempre estava lotada.

Mas eu penso ter visto um homem me seguindo, coisa que ignorei graças a lembrança da “equipe” de mamãe. Não devia ter ignorado.

Sentei em um banco no canto menos movimentado e mais sombrio, puxei meu celular e mandei uma mensagem para Lívia:

Como estão as coisas?

Enquanto esperava a resposta fiquei observando o mar muito distraída, deve ser por isso que não vi quando sentaram do meu lado.

– Quer um biscoito?

Luca perguntou distraidamente como se fosse a coisa mais normal do mundo a situação em que nos encontrávamos.

– Não. Agora caia fora daqui.

– Nossa tá brabinha hein? O que aconteceu?- um sorriso cruzou o rosto dele, mas com minha resposta acabou sumindo.

– Eu cansei de ser insultada por você, como pude ser tão idiota de não perceber o que você queria desde o começo, me separar da minha mãe e colocar a culpa nela por todas as coisas ruins que aconteceram com você. Como pude ser tão cega?

– Do que é que você está falando? – ele me olhou confuso como se alguém tivesse diminuído o cérebro dele ao tamanho de um prego.

– Estou falando de me levar até o Alasca, me mostrar propagandas que estou morta só para se vingar de minha mãe e de ela ter dado um pé na bunda do seu pai. Você é um idiota que queria me persuadir, mas não vai conseguir – gritei exasperada.

– O que houve com você? Escorregou na neve e bateu a cabeça? Não se lembra de nada do que aconteceu com a gente? Alice por favor tente se lembrar dessas coisas que aconteceram.

Eu vi o “Esquadrão — Alice” (as pessoas que mamãe tinha mandado para ficar de olho em mim) se aproximando e tentei arriscar um sinal que Luca visse o porque de eu agir tão estranha.

Inclinei um pouco a cabeça e fiz sinal para o “Esquadrão — Alice”.

– E além de tudo agora vai ficar tirando uma com a minha cara, eu mereço, mas tudo bem eu nem sei porque vim aqui, deve ser porque eu estava procurando minha amiga mas ela não existe mais – agora quem gritou foi Luca.

Eu retornei minha cabeça para o lugar onde ela deveria estar e suspirei.

Fuzilei todo o “Esquadrão — Alice” por uns dois minutos com um olhar furioso.

Continuei caminhando pela praia isolada da bagunça diária de sempre e meu celular vibrou.

Muito bem, ignore-o e será cada vez mais forte e decidida, com o tempo vai perceber que tudo que fiz é para seu bem.

–Mamãe

Continuei andando como se o bilhete fizesse parte de um passado distante de minha vida e quase esquecido.

Quando vi já estava na hora ir para casa porque amanhã eu tenho aula, felizmente eu tenho aula, ou não. Sempre gostei de ir para a faculdade porque diferente da escola, eu podia fazer algo que eu gostava.

Depois deste pensamento alegre e de uma fuga de paparazzi que não sei como quase me encontraram fui para casa feliz por pensar em tanta compreensão.

Acordei duas horas mais cedo do que o planejado e foi bom porque consegui falar com papai que estava me achando um tanto aérea ontem, expliquei para ele que era coisa do fuso-horário e a mudança de clima. Ele pareceu se convencer com isso, então foi a vez de Théo acordar em seu pijama de ursinhos dormindo em nuvens.

– Que bicho que te mordeu garoto? Acordado essa hora? – brinquei com ele.

– Queria ver se você ainda estava aqui – respondeu ele.

Meu irmão queria ver se eu ainda estava aqui? Será que eu sou uma irmã relapsa?

– Olha Théo, eu sei que eu ando meio desligada do mundo ultimamente e principalmente da nossa família, mas eu prometo que vou passar mais tempo com você tá bom?

– Promete?

– Prometo.

E com isso ele foi para seu quarto e caiu em um sono profundo novamente.

Agora era vez de Anie me confrontar.

– Você está bem mesmo Ali?

– Podemos dizer que muito melhor do que um tempo atrás – o que não era uma mentira, porque ser presa por sua mãe é como se eu voltasse à adolescência.

Pelo seu olhar eu acho que ela não acreditou muito em mim, mas deixou-me tomar café da manhã em paz e depois fui me arrumar.

Minha vontade era de colocar tudo que tinha no meu guarda roupa, passar muito tempo usando as mesmas três peças de roupa é muito chato, mas seria meio estranho eu aparecer na faculdade usando todas as roupas que eu tinha então escolhi roupas que ainda estavam com etiqueta.

O tempo estava nublado e estável, escolhi um vestido cinza e uma jaqueta jeans preta junto com botas pretas sem salto.

Como tenho um cabelo completamente liso não há muito que se fazer para arrumá-lo basta escovar.

Cinco minutos antes de sair de casa recebi uma mensagem de minha mãe dizendo o seguinte:

– Querida Alice, espero que você goste da surpresa que eu e seu pai promovemos para você como presente de boas vindas.

Tudo bem eu não tenho ideia do que ela está falando, mas como se diz, louco não se contraria.

Tá bom, talvez ela não seja tão louca quando fui até a garagem para pegar meu carro encontrei um carro preto novinho em folha com o seguinte bilhete:

Alice,

Não estaremos aqui para saber se gostou, mas esperamos que goste.

– Mamãe e Papai

Bom, se ser louco me inclui dar um carro lindo novinho em folha todos os dias, eu não ligo nem um pouquinho.

E depois disso fui para faculdade com meu carro novo.

As pessoas da faculdade ficaram olhando pra mim boquiabertas, agora pensando melhor não sei se é porque eu estou de carro novo, ou porque estou de volta.

Ainda bem que as trigêmeas eram minha recepção, papai as avisou que hoje eu voltaria e como Caio estava em coma, eu não tinha praticamente ninguém como recepção. Sabe fazer amigos na faculdade é tarefa difícil, todos estão muito ocupados estudando pra não ter problemas com notas no final do ano e coisas assim.

Mas parece que tudo (inclusive minha sorte) estava para mudar, foi designada para mostrar a faculdade para uma aluna nova, adivinha quem era ela?

Flávia. É a garota que traiu a minha confiança (apesar de nunca ter confiado nela). Pelo jeito mamãe não brinca mesmo em serviço.

– O que você está fazendo aqui? Eu já notei que tem cinco alunos novos neste semestre, que por acaso só estão de olho em mim.

– Não me leve à mal estou aqui a serviço de sua mãe.

Eu comecei a dar risada.

– O que é tão engraçado?

– Você falou que está aqui a serviço de minha mãe, mas eu sei muito bem em que time você joga. Você pode ter engano minha mãe, mas a mim não. Você está jogando do seu próprio lado.

– Do que você está falando? Eu sirvo somente à sua mãe e não tenho nenhum lado.

– Não mesmo? Você acha que sou cega? Sei muito bem do seu projeto querida e suponho que minha mãe ainda não sabe, porque se soubesse já teria te colocado na Antártida.

– Não sei do que você está falando.

– Ah, não sabe! – bati palmas — vou refrescar sua memória, aquele seu planinho bem esquematizado para roubar cada centavo da minha mãe e do Tomas. Continua com amnésia querida?

Ela engoliu em seco.

– Por...porque você não contou a sua mãe?

– Porque eu sou pior que ela e para manter este segredo você vai fazer uma coisa para mim.

– Você vai manter em segredo isso?

– Por um preço, não se esqueça de quem eu sou filha.

– Qual é o preço?

Eu ri de novo, desta vez uma gargalhada alta e forte. Estávamos sozinhas no corredor, porém Flávia não parava de olhar para os lados.

– O preço é... – diminui o tom de voz porque um professor estava passando — e se você me trair, não vai ser só seu plano que vai ser desarmado mas também outra coisa.

Terminei o tour pela escola e fui para a aula.

Quando sai da escola liguei para papai para agradecer o presente e depois para mamãe.

– Você gostou do presente? – Ela perguntou.

– Gostei, mas não haja comigo como se nada estivesse acontecendo.

– Tudo bem, mas me diga, você descobriu o plano de Flávia, não?

Sério, eu não estava surpresa de ela saber, mas de repente eu me lembrei do preço, e daí eu me lembrei do “Esquadrão – Alice” e que eles poderiam ter ouvido algo e contado para mamãe. Eu odeio o “Esquadrão – Alice”.

– É, eu descobri, há algum tempo.

– O que você pediu em troca do seu silêncio?

Mas que coisa, porque ela sempre tem que estar na minha frente?

– Pedi que ela fizesse um horário de quando você saia, voltava, aonde ia, o que fazia e com quem falava, aliás, você não acha justo? Porque se bem me lembro não fui eu que coloquei um esquadrão na sua cola.

Ela deu uma gargalhada, mas logo parou de rir.

– Sinto muito por ontem eles terem estragado seu encontro com Luca.

Ah é, eu tinha me esquecido de ontem.

– Nós somos apenas amigos, mas se nem minha mãe sabe disso eu diria que você está falhando no seu papel de mãe. Aliás parece que minha presença não é mais requerida ao lado dele.

Silêncio, então eu me toquei do que a deixava sem ação, falar de suas ações maternais.

– Você não é mãe para saber o que uma passa.

– Tem razão, mas quer saber de uma coisa, eu NUNCA – enfatizei muito o nunca – chantagearia uma filha minha disso você pode ter certeza.

Mais silêncio, eu estava gostando dessa coisa de falar das ações maternais dela.

– Não fale assim comigo, você ainda é minha filha e exijo respeito – berrou ela.

– Apenas pelo laço de sangue, apenas por isso.

E desliguei o telefone. Finalmente saí do estacionamento da faculdade e fui para casa.

Meu pai estava me esperando para conversar comigo do porque eu ter sido grossa no telefone com minha mãe. Agora você leitor, me diga, qual a mulher mais feminista do mundo, ligaria reclamando para seu marido de sua filha ser grossa com ela no telefone e para ele resolver o problema? Nenhuma. Tudo bem que ele ainda é meu pai e que mamãe gosta dele e tal, mas sério, isso não faz sentido.

Falei para que fui grosseira com ela pois alguém na faculdade tinha falado sobre a morte de Caio – de novo não era exatamente uma mentira, pois alguém havia mencionado isso sim.

Ele como sempre compreendeu e disse para eu não fazer mais isso, de novo senti como se tivesse voltado à adolescência.

Então subi e lavei as mãos para o almoço.

Depois levei Théo para escola e fui fazer os trabalhos.