Alice

1 Capítulo 1


Algumas estórias não foram feitas para conterem todo o sentido desta nossa vidinha capitalista. Alguns contos são apenas feitos para terem sentidos entre os mínimos espaços dentro de nossa cabeça, através do efeito de inúmeras drogas naturais de nosso corpo, fazendo-nos sentir e pensar.

É dentro disto que está a estória da Alice, designada com uma beleza tida como suprema e que vive dentro do Deus do Tempo e seu mileumanoitesco poder. Suas perfeitas asas de cristal poderiam refletir as cores do arco-íris até você, sua voz teria a força de te hipnotizar, assim como a qualquer outro tolo humano. Mas ainda assim ela permanece incompleta. Bonecas e borboletas já não chegam até sua alma, e seu desejo de destruição em relação à natureza era extremo. Sereias ganharam asas inorgânicas e os anjos escamas de vidro, e passaram a lamentar por sua nova condição. Alice permanecia a mesma: vazia.

Já não era a mesma dama. Músicas não eram mais ouvidas em seu quarto, e o canto dos pássaros era proibido. Tornou-se um monstro, enviado para as profundezas da escória humana. Não era mais inocente e doce; agora era monopolizadora e matreira. Ela era o que todo homem poderia desejar, e ainda assim o que todo homem temia. Agora, conservada em sua beleza eterna, nas trevas ficou aprisionada.

A auto-piedade a destruiu.

O que interessa para esse conto sobre a estória da menina Alice perpassa a vida de outra menina: Verônica. Essa jovem possuía longos cabelos negros, e já estava condenada desde seu nascimento. Sempre brincava tranquilamente nos jardins em seus belos vestidos pretos. Seria a garota mais bela se não fosse pela existência de Alice. A forma na qual agia e se vestia quase a faziam parecer nobre, mas um curto avental branco quebrava tal ilusão. Mal eles sabiam a verdade que aquele avental e vestido escondiam.

- A menina Alice desapareceu! – foi o que se ouviu durante um par de meses no castelo onde a menina morava e aos seus arredores.

Todas as pessoas daquele pequeno condado procuraram de forma insistente pela garota, e apenas no terceiro dia do terceiro mês ela foi encontrada. Ou melhor, seu corpo foi encontrado. Alice jazia fria e pura, como se nunca houvesse sido tocada pelo mal, e isso em um canto dos jardins, onde ninguém pensara em procurar. Seus olhos estavam estranhamente abertos e sua boca seca, aberta em seu último grito de desespero para manter sua vida.

O caso era como um todo estranho. A corda estava fechada em seu pescoço, apertada. Porém nenhum traço que indicasse que a morte tivesse sido provocada por enforcamento aparecia. Sua pele se tornara mais branca, como se a morte fosse da cor da neve. Seus olhos, outrora esverdeados, agora vermelhos como sangue. Seu cabelo perdera a cor do sol, e agora parecia mais alguma quantidade de palha deixada ao sol. Alice afinal perdera sua beleza.

Os pais da moça não podiam acreditar. Não era possível que a mais bela moça existente não existia mais. Era inimaginável para eles um mundo no qual ela não existisse, e provavelmente muitos eram aqueles cativados por Alice que compartilhavam tal sentimento. Quando seus olhos passaram mais uma vez pela corda que aprisionava o pescoço e a alma de sua filha, ambos partiram para as trevas, e nunca mais ninguém no condado ouviu falar dos pais de Alice.

Ninguém notou os olhos negros e brilhantes que também observaram a cena da Alice nos jardins. Olhos obviamente maldosos e cheios de desconfiança, que se afastaram depressa, parecendo satisfeitos. Alice foi enterrada no dia seguinte. E em seu caixão, sua morte continuou.

Seus olhos se abriram, e toda a escuridão a envolvia, tão hostil. Mas o escuro era quente, tão quente. A vida já não lhe importava, pois agora estava livre. Agora ela se tornara um anjo. Mergulhada na escuridão, começou a cair em um abismo infinito. Quanto mais fundo estava, mais bela se tornava. E agora parecia mais viva do que antes de sua morte. Agora era um anjo.

- Quem poderia ter me concedido tal benção? – sua voz suave e harmoniosa soou chorosa durante alguns poucos segundos, podendo apagar qualquer maldade no coração humano de quem ouvisse tal canção que era a nova Alice falar.

Algumas lágrimas desceram, porém não cristalinas como foram uma vez, e sim negras, manchando sua pele daquela escuridão penetrável apenas por ela. Sua pele tão refinada e branca e seus longos cabelos loiros não combinavam com aquela falta de paisagem. Tudo contrastava com aquelas trevas, menos suas lágrimas e seus olhos, os quais agora eram vermelhos como o sangue que passava por suas veias e artérias mortais.

Alice finalmente parara de cair. Ao redor havia inúmeros espelhos. Ao se olhar, percebeu novamente sua beleza, e a modéstia que lhe sobrara sumiu dentro da escuridão que precedera aquele local, sendo agora seus sentimentos ocupados por vaidade. Mas um segundo após a beleza desaparecera de sua imagem. Suas feições finas se tornaram grosseiras e sua face cheia de cicatrizes, assim como seus olhos perderam o brilho e seu cabelo a cor. Enfurecida, quebrou o espelho com as próprias mãos. E o sangue transformou os estilhaços em criaturas malignas, rindo da desgraça diante delas. Risadas lunáticas e ensandecidas.

- Alguém me tira daqui... Por favor... – murmurou, enquanto ajoelhava-se no chão cheio de vidro quebrado, sem forças para tentar sair dali.

Os mesmos olhos cheios de maldade que olharam o corpo de Alice anteriormente voltaram a aparecer. Agora o avental de Verônica estava manchado de sangue, e seu vestido negro intacto. A jovem que agora surgira encarou a loira, seus longos cabelos negros sendo levantados por uma brisa fria. A faca na mão da morena apontada para aquele anjo egoísta, mandando-o de novo para o abismo, porém agora cheio de luz.

A pele e cabelo do anjo se confundiam com tamanha luminosidade celeste. Seus olhos, livres de todo o mal, voltaram a ser verdes e brilhantes. Suas asas tão cristalinas quanto a água e seus lábios avermelhados. Tudo parecia outra vez normal. Porém mesmo no céu, há o inferno a espreita. Quem nasce condenado, condenado estará por toda a vida e a morte. E era isso que Alice era: uma criança condenada à vaidade, arrogância, prepotência e ao poder.

Aquela luz forte a cegou depois de algum tempo, e, cansada, adormeceu. Ao acordar, sua visão voltara. O cheiro de campo e a visão de grandes e frondosas árvores faziam-na se sentir bem. Alcançou uma macieira, e ergue-se para tentar pegar a mais vermelha das maçãs.

- Não cobices o que não é teu. Não te iludas pelas aparências. – ouviu-se uma voz, a qual ela não se importou.

Na primeira dentada que deu naquela maça, um líquido viscoso de aparência estranha escorreu de dentro da fruta. Ela pensou por um momento que era veneno, mas logo percebeu que era seu próprio sangue. Seu sangue começou a gotejar naquele abençoado chão, que aos poucos começou a se desfazer. Logo toda a paisagem derretera, transformando-se no lugar mais horrendo que o anjo poderia imaginar.

Árvores curvadas e sem folhas estavam presas naquele deserto dos mortos. Maçãs tão belas quanto a que havia se alimentado estavam jogadas embaixo dos longos galhos secos. O céu era escuro e sem nuvens ou sol, e o chão estava repleto de pessoas adormecidas contra suas vontades. Crianças adormecidas estavam presas aos galhos das árvores, com bonecas de olhos vermelhos. Por um momento tal paisagem lhe indignou, mas no segundo seguinte sua risada fria e insana se soltou, deliciada pela tristeza que emanava daquele ambiente.

- Deste lugar, assim como de qualquer outro que já passei, sou a mais bela criatura. Obviamente este lugar também pertence à minha beleza. – sua voz saiu poderosa e fria daquele anjo perdido.

Um coelho passou correndo, levando uma coroa. Ela intercedeu no momento em que viu aquele objeto afastando-se dela com o outro animal.

- Para onde levas tão requintado objeto, coelho?

- Levo para a verdadeira rainha destas terras.

- Dê-me a coroa! – ordenou com certo ar de deboche.

O coelho fez menção de seguir sua jornada. Aquela dama agarrou as orelhas do animal, e com um golpe tirou a cabeça do pobre mensageiro. Recolheu a coroa e a pôs em sua cabeça.

“Não cobices o que não é teu. Não te iludas pelas aparências.” – e a coroa se transformou em uma serpente, que se envolveu no seu pescoço como a corda que a envolvia quando foi para o mundo dos mortos.

- Entrastes em um mundo sagrado, e com o teu veneno o amaldiçoastes. Saias daqui e não retornes jamais. Que sua alma nunca encontre o caminho da paz! – proferiu a serpente.

Alice saiu dali o mais rápido possível, sendo agora a mais bela mulher e não menina. Logo estava novamente na escuridão. Adormeceu novamente, cansada.

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