Alice
1 Único
Andava pelas ruas da pequena cidade.
Sabia que tudo acabaria se renunciasse, mas onde estava a coragem?
Lágrimas escorriam de seus grandes olhos negros, para váriar.
Alice havia a pouco encontrado-se com seu amigo Alfred, também conhecido como Esperança. Ele havia novamente feito-lhe promessas de que tudo ficaria bem, mas assim que se afastou Alice chegou a sentir o impacto da tristeza voltar.
Havia se sentido tão sozinha ao cair de joelhos no terreno pedregulhoso, estes que após um tempo naquela posição começaram a sangrar. E então o céu resolveu partilhar seu choro, tornando aquela cena ainda mais melancólica para quem via.
Mas não havia ninguém para ver.
Passou por uma menina que não devia ter mais de dez anos que estava colhendo flores e imediatamente a criança deixou-as cair e abraçou-se à perna da mãe, chorando. Era sempre assim.
Tristeza parou e, após as mortais se afastarem sem sequer notar sua presença, recolheu as flores.
Ah! Como gostava das flores. Sempre tão desejadas, tão amadas. Tão felizes.
Ah! Como invejava as flores! Principalmente aquela linda e delicada flor de pétalas brancas feito neve que estava agora, assim como o pequeno buque inteiro, como ela: Murcha, triste e morta. Quem a desejaria agora?
Ao chegar em sua casa o sol já havia terminado de fazer seu curso. Deitou-se em seu jardim, encarando as primeiras estrelas que apareciam. Também invejava as estrelas, mesmo que não tanto quanto as flores. Invejava seu brilho alegre, esse brilho que a queimava por dentro e a fazia gritar assim como agora.
Céus! Não deveria ser Tristeza, e sim Inveja!
E novamente as lembranças dolorosas chegaram. Quando ela havia sido aprisionada, quando ela havia praticamente sido caçada pelos mortais, quando finalmente percebeu que metade dos outros demonios, com exceção de Esperança, não gostavam de sua presença e a outra metade nem lhe dava bola... Alice sentiria raiva daquilo tudo — e de todos!– se não estivesse ocupada demais sentindo a tristeza tornar a domina-la. Quando a escuridão tomou conta do jardim, já não sentia mais nada além do sono e do vazio.
Ergueu-se e gargalhou. Que piada!, ela, triste? Nem um pouquinho!
Era a mulher mais forte de todas, a mais poderosa e a mais linda. E a mais alegre.
Correu para dentro da casa de visual rústico, indo até seu quarto e olhando-se no espelho.
Tocou uma mecha do seu cabelo castanho-escuro ondulado, olhou desafiadora a si mesma, provocou-se, riu novamente, girou agarrando a barra do vestido branco com flores vermelhas, acordou.
É, havia sido apenas um sonho, lamentou-se Tristeza.
Um sonho bem realistico, ela admitia, afinal estava até mesmo na frente do espelho, mesmo que este se encontrasse coberto com um pano negro, diferentemente do sonho.
E, notou agora, que diferente do seu sonho, não havia um grande buque de rosas vermelhas — suas favoritas!
Ouviu um pigarro. Primeiramente pensou ser seu principe encantado, aquele que tanto invadia seus pensamentos em noites de lua, mas apagou aquele pensamento. Talvez a insanidade já tivesse lhe dominado...
Implorava à Deus para que realmente fosse alguém, e foi prontamente atendida. Alice avistou Doença na porta do quarto.
Doença era um rapaz pouco mais alto que ela, tinha cabelos louros. Tristeza nunca teve a oportunidade de ver qual era a cor de seus olhos, afinal, eles nunca haviam se falado, ela nem sequer tinha idéia do por que dele estava ali.
–Desculpe invadir sua casa do nada.
–Tudo bem. — Sorriu amigável, mas o sorriso acabou saindo triste. Maldição! — Por que veio aqui?
–Eu ia chama-la para ir ao cinema, mas você já estava dormindo, então como estava chovendo e começando a esfriar resolvi traze-la até o quarto. — atropelava as próprias palavras, Alice achou aquilo engraçado, mas não conseguiu rir. Ah, pagaria o quanto fosse para conseguir rir! — E... é, é isso. Ah sim, o buquê... é para você. — Coçou a nuca, sorrindo nervoso.
Ela olhou curiosa para o buquê de rosas.
–Elas não murcham ao serem tocadas por você? Digo... Sem querer ofender.
Ele ergueu as mãos.
–Luvas. Graças à elas nem você nem as flores murcharam. — Sorriu.
Aquilo era um elogio? Ela não sabia, nunca havia recebido um. Quem é que iria falar que Tristeza estava bonita, ou qualquer coisa do tipo?
–A propósito, você é uma gracinha quando dorme.
Certo, ela estava ficando frustada com ele. Havia se drogado?
Olhou pela janela, ainda era noite.
–Obrigada. Ainda quer ir ao cinema? — Ela arriscou perguntar.
–A sessão terminou fazem trinta minutos.
–Tenho alguns filmes. — e então completou: — E não são dramas nem trágedias!
Era bom deixar claro que não era por que ela representava a Tristeza que ela tinha que ter filmes tristes.
Ele sorriu. Por que o coração dela acelerou?
–Tem pipoca?
–O que acha que eu sou? — Ela sorriu.
Alice fez dois potes de pipoca, um para cada, e colocou um filme de terror. Tiveram que sentar bem afastados, afinal bastava um toque para que Tristeza acabasse pegando uma doença fatal. Não, os demonios da caixa de pandora não eram imortais, apenas eram imunes ao tempo. Se um morresse ou renunciasse, outro seria criado para assumir seu lugar.
Alice era uma dos poucos demonios que não renunciaram ou foram mortos; era a primeira e única representante da Tristeza.
Doença já teve um outro representante, mas este não havia aguentado o pesado fardo e renunciou. Sabe-se-lá Deus o que acontece com quem renuncia.
–Por que você decidiu me convidar naquele dia? Tem tanta mulher bonita por aí... — Perguntou tempos depois. Eles haviam começado a se falar mais e todo domingo combinavam de ver um filme ou evento.
Depois daquele encontro, Tristeza havia parado com seu estranho hábito de gritar para as estrelas, seu choro também havia díminuido um pouco, e o vazio em seu peito parecia nunca ter existido.
–Gosto de você. — Respondeu Doença, que no primeiro dia Tristeza havia descoberto se chamar Mark.
–Não me conhecia naquela época. — Retrucou encarando seus olhos verde-claros.
–Vinha te observando. Sabia, por exemplo, que gosta de rosas vermelhas, comédias--
–Por que?
–Por que eu te amava, e continuo amando.
Alice não conteu o susto, muito menos tentou esconde-lo. Seu queixo caiu duas vezes, seus olhos se arregalaram.
O que aquele doido estava dizendo? Quem amava Tristeza?
–...quê? — Podia ter ouvido errado, afinal.
–Eu te amo. — Repetiu sem hesitar.
Não era facil namorar Doença: não podiam beijarem-se e mal podiam tocarem-se.
Eles sentiam, sim, falta destes contatos, mas por mais que aquela pequena distancia fosse dolorosa, eles sabiam que tinham um ao outro.
Agora, ela não precisava invejar as flores: Podia ser tão desejada e feliz quanto elas.
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