​O Porto de Londres rugia com o caos habitual, um amálgama de cheiros de maresia, alcatrão e cavalos, mas para Alexander, aquele era o som da derrota. Após dois anos desaparecido nos mares, o Príncipe de Gales, o explorador, o homem que não fincava raízes, finalmente regressava a uma cidade que ele tentava evitar.

​Aos trinta anos, Alexander mantinha a barba aparada rente, mas seus olhos, tão azuis e profundos quanto o oceano que acabara de cruzar, carregavam a marca de terras distantes. Ele ajustou o casaco de viagem, ignorando os olhares curiosos das damas no cais, algumas das quais ainda lembravam-se de suas escapadas rebeldes na juventude.

​— Dois anos, Alexander? — A voz de James ecoou assim que ele pisou no palácio, horas depois.

​O Rei James estava impecável em seu uniforme militar. O temperamento do pai agora estava canalizado em uma disciplina absoluta, um reflexo do punho de ferro que ele usava para governar a Inglaterra. Ele abraçou o irmão com força, mas logo o soltou para analisá-lo com severidade.

​— O reino precisava de você. Eu precisava de você. Mas vejo que as ondas ainda são sua prioridade.

​— E vejo que a coroa ainda aperta sua cabeça, irmão — Alex brincou, embora o cansaço fosse visível. — Onde estão meus pais?

​— Em Suffolk. Vivendo como camponeses ricos e felizes. Deixaram o "trabalho sujo" para nós. E Eloise está no andar de cima, com a nova pequena. Melinda está impossível, Alex. Ela precisa de alguém que a controle.

​Enquanto isso, nas terras verdes de uma propriedade sem títulos mas de solo rico, Francesca Puerto encarava a carta com o selo real da Rainha Consorte como se fosse uma sentença de morte.

​— Eu não vou, papai! — exclamou a jovem, jogando o pergaminho sobre a mesa de carvalho. — Fui ensinada a falar quatro línguas, a tocar harpa e a debater filosofia para ser babá de uma criança de quatro anos em um castelo cheio de regras?

​— Você irá, Francesca — o senhor Puerto respondeu, sem desviar o olhar das contas da fazenda. — Somos ricos em terra, mas pobres em influência. Ter uma Puerto ao lado da futura rainha é a nossa garantia de que seu irmão terá um futuro. Amanhã, ao amanhecer, a carruagem estará pronta.

​Francesca subiu as escadas furiosa. Seus dezoito anos pulsavam com uma vontade de viver que as escolas de etiqueta não conseguiram apagar. Ela era linda, com cabelos escuros que insistiam em fugir do penteado e olhos que brilhavam com uma malícia inteligente.

​Naquela noite, ela arrumou suas malas com uma ideia fixa na cabeça: se o Palácio a queria como uma Lady perfeita, ela daria a eles exatamente o oposto.

​Três dias depois, Francesca cruzava os portões do Palácio Real. Ela desceu da carruagem e, enquanto esperava ser anunciada, decidiu explorar os jardins laterais, longe dos olhos dos guardas.

​Foi lá que ela viu um homem sentado em um banco de pedra, limpando uma bússola de latão com um desleixo que não condizia com o lugar. Ele estava com as botas sujas de lama e os cabelos desalinhados pelo vento.

​— Você deve ser o novo cavalariço — disse ela, aproximando-se com um sorriso travesso, achando que encontrara uma alma livre naquele lugar engessado. — Diga-me, existe algum caminho por aqui onde as câmeras de vigilância dos guardas não alcancem? Estou planejando minha fuga antes mesmo de entrar.

​Alexander levantou o olhar, surpreso. Ele nunca vira uma Lady falar com tamanha audácia, e certamente nunca vira alguém tão hipnotizante. Ele guardou a bússola e sorriu, o mesmo sorriso que fizera James bufar de raiva durante décadas.

​— Fuga, senhorita? — ele perguntou, levantando-se e notando que a "lady" tinha uma folha seca presa no cabelo. — Mal chegou e já quer partir? O palácio pode ser uma prisão, mas garanto que o carcereiro é bem atraente.

​Francesca riu, sem saber que estava desafiando o próprio Príncipe que detestava raízes.

​— Duvido muito. Dizem que os príncipes daqui são ou muito bravos ou muito ausentes. Eu prefiro a companhia de quem tem lama nas botas.

​Alexander sentiu algo que não sentia em anos: o desejo de ficar exatamente onde estava.