Alianças de Sangue e Ferro

7 Promessas e Farpa no Café da Manhã



​O sol mal havia dissipado a névoa dos jardins quando a família real se reuniu para o desjejum. O clima na mesa era uma mistura peculiar de solenidade e exaustão. Katherine e Ricardo presidiam a refeição com olhares cúmplices, enquanto Marcone e Sofie mantinham as cabeças baixas, embora o rubor nos rostos denunciasse que a adrenalina da noite anterior ainda não havia baixado completamente.

​Ricardo pigarreou, pousando o talher de prata com um estalo seco.

​— Devido aos eventos... imprevistos da última noite — começou o rei, lançando um olhar severo para Marcone —, a Rainha Katherine e eu decidimos que não há por que esperar. O casamento de Marcone e Sofie será realizado em uma cerimônia privada ainda esta semana. A aliança precisa de raízes sólidas, e parece que nossos herdeiros já começaram a plantá-las por conta própria.

​Alice, que até então estava ocupada demais saboreando um croissant, soltou uma risada sonora e debochada.

​— Casamento? Tão rápido? — Ela olhou para o irmão com um sorriso travesso. — Ora, Marcone, eu sabia que você era um diplomata dedicado, mas não sabia que estava tão ansioso para assinar o tratado com os lábios. Pobre de você, preso a uma francesa antes mesmo de aprender a pronunciar "liberdade".

​Ela então virou o olhar para a mesa, a voz subindo de tom com uma pitada de arrogância juvenil.

​— Eu, por outro lado, nunca na vida me casaria com um francês. Seria como tentar domesticar um gato de luxo: muita pose e pouca serventia.

​Katherine ergueu uma sobrancelha, o olhar gélido fixo na princesa. Alice, percebendo o deslize, imediatamente baixou a guarda e inclinou a cabeça em um gesto de respeito.

​— Peço desculpas, Majestade. Não quis ofender sua linhagem. Katherine, você é... admirável. Mas se um dia eu tiver que me casar, preferia alguém inglês. Alguém que entenda o cheiro da chuva nas montanhas e que não precise de três horas para arrumar o cabelo. Eu quero alguém parecido comigo, não um boneco de porcelana.

​Lucas, que estava em silêncio até então, soltou um bufo de indignação, largando a faca sobre a mesa.

​— Alguém parecido com você? — Lucas retrucou, o desdém pingando de cada palavra. — Que tragédia seria para a Inglaterra ter dois bárbaros correndo pelos corredores. Quem iria querer se casar com uma garota que tem mais terra sob as unhas do que bom senso na cabeça? Você deveria agradecer aos céus por estar na França, onde talvez alguém, por pura caridade, consiga suportar seu gênio insuportável.

​— Antes terra nas unhas do que perfume barato escondendo a falta de coragem, Lucas! — Alice rebateu, inclinando-se sobre a mesa. — Você é tão fútil que acho que sangra vinho em vez de sangue!

​— E você é tão barulhenta que os cavalos no estábulo têm mais classe quando relincham! — devolveu o príncipe, os olhos faiscando.

​Ricardo e Katherine trocaram um olhar longo e exausto. O rei levou a mão à testa, massageando as têmporas, enquanto a rainha apenas observava a "briga besta" com uma paciência que beirava o sacrifício.

​— Eles nunca param? — sussurrou Ricardo para Katherine, inclinando-se levemente.

​— É a música de fundo de Versalhes agora, Ricardo — Katherine respondeu em voz baixa, um leve sorriso de ironia brincando em seus lábios. — Eles se odeiam com tanta dedicação que chego a me perguntar quanto tempo levará para que esse ódio se transforme em algo tão problemático quanto o que pegamos no corredor ontem à noite.

​— Deus nos ajude — resmungou o rei, enquanto Alice e Lucas continuavam a discutir sobre qual reino tinha os melhores arqueiros, ignorando completamente que o destino deles já estava sendo traçado pelo silêncio dos pais.