Alianças de Sangue e Ferro
9 O Veredito de Cristal
O gabinete real era um local de decisões frias e definitivas. O cheiro de cera de abelha e carvalho antigo preenchia o ar enquanto Katherine e Ricardo aguardavam, sentados atrás da imensa mesa de trabalho. Quando Lucas e Alice entraram, ainda carregando a energia rebelde do banquete da noite anterior, o silêncio que os recebeu foi pesado como chumbo.
Ricardo levantou-se, as mãos cruzadas nas costas, e começou o discurso que mudaria o curso de suas vidas.
— Um reino não se sustenta apenas com espadas, mas com linhagens. A coroa não nos pertence para fazermos o que queremos; nós pertencemos a ela. Ontem vimos Marcone e Sofie selarem um destino, e hoje, é a vez de vocês entenderem o peso que carregam.
Katherine completou, a voz firme e sem margem para negociação:
— Para que a França e a Inglaterra sejam uma só força indestrutível, a aliança deve ser completa. Por decreto real e contrato de sangue, vocês dois estão oficialmente noivos. Assim que Alice completar dezoito anos e Lucas dezenove, o casamento será realizado.
O silêncio que se seguiu foi cortante, até ser quebrado pela explosão de Lucas.
— O quê?! — Lucas deu um passo à frente, o rosto pálido de choque. — Casar com essa... essa bárbara descontrolada? Minha mãe, você não pode estar falando sério! Ela é um desastre de etiqueta, uma afronta ao bom gosto! Eu prefiro o exílio a ter que dividir o trono com alguém que mal sabe se comportar em um baile!
Alice sentiu o sangue subir ao rosto. A humilhação e a fúria se misturaram em seu peito.
— Você acha que eu quero você, seu pavão arrogante? — gritou ela, a voz vibrando de raiva. — Eu preferia me casar com um cavalo do estábulo! Pelo menos eles têm utilidade e não ficam reclamando do brilho das próprias botas!
— Você é insuportável, Alice! — Lucas disparou, apontando o dedo para ela. — É uma criança barulhenta presa em um vestido caro!
Em um movimento impensado e movida pelo puro ódio, Alice se abaixou, arrancou um de seus sapatos de seda e o arremessou com toda a força na direção da cabeça de Lucas. O príncipe se abaixou por um triz, e o calçado bateu em um vaso de porcelana, que se estilhaçou no chão.
— CHEGA! — O grito de Ricardo ecoou pelas paredes, fazendo os dois jovens pularem de susto. O rei bateu o punho na mesa, os olhos faiscando. — Não é uma sugestão! É uma ordem! Vocês não têm escolha! O mundo está mudando, e se não estiverem unidos, serão devorados pelos nossos inimigos!
Alice começou a chorar de raiva, os soluços escapando entre os dentes cerrados. Ela olhou para o pai, depois para Katherine, vendo que não havia saída.
— Se eu tenho que me vender por essa coroa — disse Alice, a voz embargada —, então eu peço uma condição. Eu quero ir embora. Quero voltar para a Inglaterra agora e viver lá até o dia desse maldito casamento. Eu não quero ver o rosto de Lucas, não quero ouvir a voz dele, nem sentir o cheiro do perfume dele por um único segundo nesses próximos três anos!
Katherine e Ricardo trocaram um olhar pensativo. A rainha foi a primeira a assentir.
— Talvez seja o melhor. O tempo e a distância podem curar o que a convivência está destruindo.
— Pois bem — decidiu Ricardo. — Marcone e Sofie precisam ir para Londres para assumir suas funções como novos duques. Você irá com eles, Alice. Partirão amanhã ao amanhecer. Vocês terão três anos de separação. Mas no dia do seu décimo oitavo aniversário, você retornará para a França para o seu casamento.
Lucas deu as costas, o maxilar travado de tal forma que seus músculos saltavam.
— Três anos de paz — murmurou ele, amargo. — Será a única coisa boa que esse noivado me trará.
Alice limpou as lágrimas com as costas da mão, mantendo a cabeça erguida.
— Aproveite o seu silêncio, Lucas. Porque daqui a três anos, eu voltarei. E eu prometo que farei de cada dia do nosso casamento o seu inferno pessoal.
Ela saiu do gabinete sem olhar para trás, deixando o rei e a rainha em um silêncio melancólico. A aliança estava salva no papel, mas o coração dos herdeiros estava mais dividido do que nunca.
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