​Os três anos que se seguiram foram como as marés do Canal da Mancha: constantes, profundos e transformadores. Na Inglaterra, Alice não se tornou a esposa submissa que a corte francesa talvez esperasse, mas encontrou um novo tipo de força. Sob o céu cinzento de Londres e as colinas verdes de Sussex, ela se tornou o braço direito de Sofie.

​A maior mudança veio com o nascimento do pequeno Henry, o primeiro herdeiro de Marcone e Sofie. Alice, que antes mal tinha paciência para segurar um leque, descobriu uma ternura inesperada ao ninar o sobrinho. Ela ajudava Sofie na administração do castelo e nos cuidados com o bebê, aprendendo que governar também significava cuidar. Alice amadureceu; sua silhueta tornou-se mais definida, sua voz mais firme e seu olhar mais estratégico. No entanto, o fogo Tudor ainda queimava sob sua pele. Ela passava as tardes treinando arco e flecha com os soldados, garantindo que, por baixo dos vestidos de seda inglesa, ainda houvesse a mesma guerreira que deixou a França com um chute de despedida.

​Enquanto isso, em Paris, o Príncipe Lucas Petrovic preenchia o vazio deixado pela noiva com uma vida de excessos que se tornou o assunto de todos os salões. Sem Alice para desafiá-lo, ele buscou distração na libertinagem. Ficou conhecido como o "Príncipe de Copas", frequentando as festas mais exclusivas, sempre cercado por cortesãs e vinho caro. Seu corpo tornou-se mais robusto e forte, os ombros largos preenchendo as fardas militares com uma imponência que atraía todos os olhares femininos. Ele era galante, perigosamente charmoso e parecia ter esquecido completamente a promessa de castigo que Alice lhe fizera — ou assim ele fingia.

​O Retorno à França

​O dia do reencontro finalmente chegou. O porto francês estava decorado com estandartes reais, e uma multidão se aglomerava para ver o retorno da princesa inglesa. Ricardo e Katherine estavam no centro do cais, ansiosos. Lucas estava ao lado deles, ostentando um sorriso cínico e uma postura relaxada, como se nada no mundo pudesse abalá-lo.

​Quando a rampa do navio desceu, Marcone e Sofie foram os primeiros a aparecer, com o pequeno Henry nos braços de uma ama. Mas o fôlego da multidão parou quando Alice surgiu no topo da escadaria.

​Ela não era mais a menina de quinze anos. Aos dezoito, Alice era uma dama de beleza arrebatadora. Vestia um azul-celeste profundo que realçava seus olhos faiscantes. Seus movimentos eram lentos e carregados de uma dignidade real que silenciou os críticos. Ela exalava maturidade, mas o modo como erguia o queixo mostrava que o temperamento indomável permanecia intacto.

​Lucas sentiu um solavanco no peito que nada tinha a ver com a bebida da noite anterior. O sorriso de libertino vacilou por um segundo enquanto ele a observava descer. Ela estava magnífica, e ele, pela primeira vez em anos, sentiu-se desarmado sem que ela precisasse levantar um dedo.

​Ao chegar ao chão firme, Alice abraçou os reis, mas seus olhos logo encontraram os de Lucas. Ele deu um passo à frente, fazendo uma reverência exageradamente galante e beijando a mão dela com uma audácia que fez Ricardo franzir o cenho.

​— Bem-vinda de volta, minha querida noiva — murmurou Lucas, a voz agora mais grave e rouca, mantendo o olhar fixo no dela. — Devo dizer que o tempo na Inglaterra foi... generoso com você. Embora eu sinta falta daquela sua bota pesada me atingindo.

​Alice retirou a mão com uma elegância gélida, sustentando o olhar dele sem vacilar.

​— Guarde seus galanteios para as tabernas de Paris, Lucas. Ouvi dizer que você tem tido muito treino com eles nos últimos três anos.

​— Ora, Alice — ele sorriu, os olhos brilhando com um desafio perigoso. — Eu apenas estava tentando preencher o tempo enquanto esperava por algo que valesse a pena domar.

​Alice aproximou-se dele, o suficiente para que apenas ele ouvisse, o mesmo fogo de três anos atrás brilhando em seu olhar maduro.

​— Pois saiba que você vai precisar de muito mais do que charme barato e fama de libertino para lidar comigo agora. Eu não sou mais uma criança, e se você acha que esses anos te fizeram mais forte, espere até ver o que eu aprendi a fazer com quem tenta me "domar".

​Lucas riu, um som rico e baixo, enquanto o Rei Ricardo e a Rainha Katherine observavam a troca de farpas. A tensão entre os dois era quase visível, uma mistura explosiva de ódio antigo e uma atração nova e perigosa.

​O banquete de recepção prometia ser apenas o começo de uma guerra muito mais complexa.