Alguém tem algo a esconder
5 Má gramática da vida
Notas iniciais
"Você tem uma nova mensagem de Ana."
Notificou meu celular que estava em cima do criado mudo. Não li. Levantei da cama coçando a nuca, lembrei que não tinha aula hoje, mas contribuía todas as sextas no assessoramento aos alunos de Anatomia Humana das turmas de saúde. Tomei um banho rápido, peguei os livros ainda bocejando, me dirigindo à porta, abri a mensagem que dizia:
"Feliz aniversário, Evan.
Não ignore minha mensagem, por favor.
Lembrei daquela história que você me contou, do pássaro que achava que iria morrer sempre que o sol se escondia. E de manhã, ao acordar, ficava chocado de ainda estar vivo... então, cantava uma linda canção. Penso sobre isso quase sempre. Meus sentimentos por você têm medo do escuro, vezes pensa que vai morrer encoberto, sufocado pelo o que não foi libertado, dito, adverbializado... e de repente o sol aparece provocador, como se dissesse 'Hey, cheguei.' e me sinto idiota por mais uma vez estar me afogando. Sozinha.
Então, é isso.
Fica bem, vê se sai e faz algo pra se divertir.
Ana."
Nem estava lembrado que hoje era meu aniversário. Depois do clima tenso entre nós dois, achei que ela nem fosse se preocupar mais com formalidades.
Ana é uma moça muito pé no chão, não era a mais bonita da universidade, não colecionou troféus de melhor aluna. Não era popular, mas também não era rata de biblioteca. Os extremos estavam longe de alcançá-la. Tinha seus gostos e seus medos, era comum e por vezes me parecia tão singular. Uma moça bonita que gostava de usar vestidos vintages, cardigans e tênis oxford. Seu cabelo preto e curto, lhe dava um ar todo especial com seus óculos de grau redondos. Era gentil, tanto que me enviou tal mensagem. Mas eu não poderia respondê-la da mesma forma e intensidade. Eu sou apenas um sujeito. Um sujeito à procura dum verbo que o ligue aos seus predicados.
~*~
Evan seguiu em direção ao centro de ciências da saúde pondo seus passos ligeiramente por entre os corredores arcaicos daquela velha e referente instituição de ensino. Para ele era um dos lugares mais bonitos, admirava toda aquela antiga estrutura, sua arte e as labirínticas entradas que por vezes parecia ter a pretensão de enlouquecer a quem se perdesse no emaranhado de salas, corredores e infinitas saídas. Caminhou até a extensa sala que portava acima da entrada um letreiro consumido pelas marcas do tempo, era inevitável não notar sua idade e passar despercebido pelo gigante monumento que acompanhava a arquitetura do prédio, uma coruja com suas asas abertas, simbolizando o poder do conhecimento. Os códigos linguísticos do letreiro, codificavam em sua melhor forma gótica um extenso: "Anatomia Humana".
– Bom dia, Evan! — Disse a recepcionista da coordenação.
– Bom dia, Joana! — Deu-lhe um beijo no rosto da senhora que fazia jus à apresentação daquela recepção.
– Como está essa DTM(*)?- Ele disse apalpando por sobre os côndilos bilaterais.
– Está melhor, meu filho. — Ela o respondeu.
– Continue os exercícios, moça! — Sorriu para ela.- Onde está a lista da turma que vou assessorar hoje?- Questionou.
– No quadro de avisos, Evan. — Apontou com uma caneta em mãos.
– Obrigado. — Piscou para ela.
O lugar não era muito iluminado, a arte gótica predominava por todos os recantos. Evan passou seu dedo pelo papel recém impresso que ainda estava quente sobre o quadro de avisos.
"Turma de Anatomia Humana- Engenharia Genética — Evan."
~*~
Evan entrou no laboratório de aulas práticas em Anatomia Humana. Ele nunca era escalado para a minha turma, a universidade tinha mais de 20 monitores nesta disciplina. Colocou sua bolsa, que usava sempre por sobre o braço esquerdo, em cima de uma cadeira. Virando-se para a turma, que já esperava pela aula, todos a postos, quatro por mesa, dando-nos um educado e formal "Bom dia, meu nome é Evan.". Eu sabia que ele não curtia essa coisa de formalidade e se fosse por ele daria aulas de jeans. Contudo, estava bem vestido com uma camisa azul marinho de mangas longas, uma calça cinza e um sapato de muito bom gosto marrom. Os olhares das meninas lançaram-se em disparada quando ele virou-se para pegar as peças no armário lateral à esquerda da nossa sala.
Ele não havia me notado aqui atrás no canto da sala com mais três garotas que não conheço, acho que são desblocadas de período. Elegantemente e silenciosamente deixou sobre cada mesa dois crânios: um com as sete vértebras cervicais e outro de um feto, respectivamente.
– O cronograma de vocês me norteou acerca de quais são seus conhecimentos até este momento, daremos continuidade ao assunto sobre articulações, trago para as respectivas mesas um crânio adulto e outro um crânio fetal.
~*~
Eu tinha que admitir que Evan era muito bom em Anatomia. As duas horas de aula pareceram ter sido alteradas. O tempo voou. Evan mostrou-se profissional durante toda aula. Na condição de aluna fiz o mesmo, peguei meus cadernos sem nem mesmo os guardar e sai sala a fora sem olhar para trás. Parei para beber um pouco de água, quando ouço passos firmes no corredor.
– Preciso falar como você.- Era Evan me olhando como se eu fosse uma criança de dois anos me lambuzando com chocolate.
– Diga-me. — Encarei.
– Ana, eu devo dizer que compreendo seu carinho por mim...- Eu não deixei ele terminar.
– Sobre a mensagem? Só quis desejar um feliz aniversário.- Menti.
– E você...- O interrompi de novo.
– Sabe o que eu acho disso tudo, Evan? Não pode entrar na minha vida, sair, sumir, desaparecer e voltar quando estiver afim.- Falei rudemente.
– Como? Ana, você acha que eu estou aqui por sua causa?- Seu semblante era de surpresa.- Mas eu não sabia que você estudava aqui!
Aquilo me feriu.
– E há cinco anos atrás, por que mandou avisar que ia me esperar depois que eu saísse da igreja? E toda aquela palhaçada? — Lancei.
– Vim te pedir pessoalmente que parasse com a birra de querer encher minha caixa de e-mails, eu não ia voltar. E te dizer que você não me conhecia mais, Ana! Nós crescemos!
Necrosou o que já estava ferido segundos antes.
– Tudo bem. Descobri que sou péssima em interpretar suas idas e voltas, aparições e sumiços seus. Ou seja lá o que diabos for.- Estava arrasada.
– Não significa que eu não me importo com você!- Ele me olhou convincente.
– Evan, só me responde isso, não vou mais ocupar meu tempo pensando sobre... você alguma vez me amou? — Lancei minha pergunta suicida, pronta para me enforcar.
Evan me olhou como se eu fosse uma criança. De novo.
– Sério, isso?- Ele apoiou sua mão esquerda na parede do corredor. E eu fiz que sim com a cabeça.
– Não.
E então, retiraram a plataforma falsa que apoiava meus pés. A corda suspendeu meu corpo pelo pescoço.
*DTM: Disfunção Temporomandibular. Seu surgimento é multifatorial: idade, hábitos deletérios, mastigação inadequada, má postura ao dormir, entre outros.
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