Notas iniciais
- Olá, estou de volta! Desculpa a ausência, muita coisa aconteceu na minha vida nesse tempo, mas enfim! I'm back! - Espero que gostem e boa leitura :*

O que significava despertar? Poderia ser o recurso de um objeto barato e irritante que poria você sujeito a obrigação de realizar determinado evento no seu dia e ele começaria a partir daquele sinal. Também poderia ter um significado subjetivo, alguém acordaria dentro de si no momento exato, como os monstros das lendas. Poderia ser um fator agravante, uma lua cheia, um chamado de ordem grandiosa que faria um morto levantar-se após 4 dias sepultado. Poderia ser um acordar após a longa hibernação de inverno, ser um emergir de matéria em fusão, poderia ser uma revolução de espírito, de fé. Poderia ser uma conversão de muitos sentimentos por nada, e no meio do nada, apenas um ser sem roupas que carregasse uma carcaça em resposta à uma borracha atritada a seus sentimentos, a borracha das transformações, aquela que começa esquentando seu vértice no erro cometido/recebido e depois de uma longa revisada, notara que nada daquilo merecia ser lido, admirado, descoberto, decodificado. Então, tudo voltaria ao branco e com apenas a ponta dos dedos, poderia se sentir as marcações deixadas e novamente o atrito da borracha tentaria desesperadamente apagá-las, cada vez mais e mais, quantas vezes fosse preciso para eliminar as cicatrizes persistentes.

O meu despertar era semelhante à uma bomba relógio. Era possível ver a linha tênue entre o vazio e o preenchido de forma incomum. Eu me via caminhar sobre ela com os braços abertos e nos meus sonhos de menino, não ponderava minhas escolhas, sempre caía no infinito vazio buraco branco. A queda jamais tocava o chão, meus pertences eram arrancados de mim conforme afundava. Eu não lutava por eles apenas os via ir e como um feedback a dor das minhas perdas, da minha identidade, dos meus sentimentos se assemelhava à uma anestesia, a cura de uma dor por outra, exatamente como cortar os pulsos para amenizar dores sem posologias existentes. Mas eu não era um adolescente, nem um ser místico das lendas de horror, nem... eu já não era nada e ser nada era confortável.

Corrompido busquei meu equilíbrio, minha força foi alimentada pela descomunal chama do ódio que queima, acidifica, tempera-me as carnes. Fui guiado por caminhos negros pela perda de Lúcia, não pelas cicatrizes da superfície, mas por saber que ela se entregara pela crença de um resgate, por ter acreditado em mim. Não sei qual teria sido meu pecado de maior estrago, eu era só um copo de vidro frágil com uma turva água negra que se alastrava, naquele instante entendi que a transparência era um caminho extraordinário para não deixar pegadas em busca de uma cartola, um sotaque e um monstro real. Seria de igual para igual. Este era o meu despertar revivido todos os dias, quando meus olhos abrem-se para a graça da oportunidade dos dias.

A vida é extremista, não há meia boca eficiente, meio termo, regularidade não vem à frente de um carro alegórico, servido sem sal, servido cru.

Ser bom vai depender do contexto.

[1 ano atrás...]

– Ele me olhou com pena... quem sabe? — Disse Maria Júlia ao Psicólogo.

– Vejo que trouxe uma resposta. — Dr. Homero acrescentou. — Ou não? — Disse seguindo de uma pausa silenciosa.

– Não sei. Sonhei com os olhos de novo, mas não me parecia o mesmo olhar. — Disse a moça fazendo círculos com o seu dedo indicador contra seu joelho direito.

– Como eles se apresentaram para você recentemente, Maria Júlia? — Questionou o psicólogo.

– Ele não me viu esta noite, se ele não ver serei estuprada e morta. Doutor, não posso ser estuprada e morta, não posso! — Maria Júlia juntou suas pernas num reflexo automático ao pavor. Suas mãos tremiam ao abraçar a si própria.

– Por que ele precisa ver você, Maria Júlia? — A questionou de novo, seriamente.

– Eu preciso agradecê-lo! — A moça fechou seus olhos, buscando em sua mente a real expressão do rapaz no ocorrido passado.

– E se ele não a ver, não poderá agradecê-lo? — Interrogou Dr. Homero fazendo uma breve pausa. Sem resposta, prosseguiu: — Ou de algo lhe acontecer?

– Estou confusa. — Maria Júlia não sabia discernir qual pergunta lhe configurava mais força, então prosseguiu: — Doutor, você acha que ele lembraria? — Ela disse ansiosa pela resposta.

– Lembraria do que fez por você ou de você? — Lançou para ela.

– A verdade? De mim. — Maria Júlia parecia ter falado algo ruim ao admitir que havia desenvolvido um sentimento pelo seu salvador.

– E quais são seus planos? — Indagou o psicólogo curioso.

– Encontrá-lo a todo custo. — Seus olhos encheram-se de lágrimas.- Doutor, ele deu-me a oportunidade de respirar este momento. Ele me salvou.

– E como irá encontrá-lo, Maria Júlia? Você lembra de seu rosto? — Lançou.

– Não! Infelizmente não lembro do seu rosto, no entanto, dentro da escuridão do capuz, havia dois olhos singulares, não me questione como, é a única lembrança física que tenho. Além de sua voz, nas poucas palavras que saíram de sua boca... e de seu inesquecível cheiro de creme de barbear...hortelã. — Ela sorriu colocando para lá uma lágrima negra, denunciando que usava máscara de cílios.

– Então pretende procurá-lo com vestígios de lembrança? — Dr. Homero terminou a pergunta levantando uma sobrancelha.

– Saberei como encontrá-lo. — Maria Júlia deu um sorriso de canto. — Como uma mariposa procurando a luz.

– Maria Júlia, esta sua obsessão não já é um ato de desespero? — Questionou o psicólogo.

– O que você sabe sobre desesperos, doutor? — Ela esperou a resposta mordendo o lábio inferior.

–Sei que desespero às vezes é o pior conselheiro. — Ele disse encarando-a depois de olhar em seu relógio que o tempo acabara.

Notas finais
Sei que ficou bem curtinho, só pra aquecer mesmo. Espero que tenham gostado, kisses! :*