Alguém Melhor Que Noah Price
1 Capítulo 1
Minha noite de sexta-feira estava toda planejada. Lista de filmes para maratonar? Certa. Pipoca? Pronta. Roupas casuais e confortáveis e cabelo bagunçado? Com certeza. Luzes apagadas? Check. Me afundo no sofá de forma desleixada e com o controle remoto em mãos, estou prestes a dar play, quando ouço um barulho alto vindo do andar de cima. Era suposto eu estar sozinha em casa hoje, já que meus pais saíram para jantar e meu irmão foi para alguma festa. Fecho meus olhos e respiro fundo. Ah, não, Deus, por quê?
— Ei, Jill, sentiu minha falta? — Austin Théodore aparece como um fantasma nas escadas, sorrindo brilhantemente com um ar de inocência. — A janela do seu quarto estava aberta, então resolvi fazer uma visita, se não se importa.
— Por que você continua entrando pela minha janela? Já falei que você vai acabar se machucando. E você já não veio me visitar hoje? Tipo, umas três vezes? — Questiono indignada com o rapaz que se joga ao meu lado no sofá, rouba meu balde de pipoca amanteigada e apoia os pés calçados com sneakers pretos de couro na mesa de centro.
— Senti sua falta e resolvi vir te visitar. — Diz, mastigando a minha pipoca. O encaro com desdém. Vestia seu habitual jeans claros rasgados, uma blusa azul cinzenta com estampa de algum jogo e um casaco verde musgo padronizado por cima. Eu estava desleixada pois era uma ocasião de descanso, mas Théo sempre parecia uma bagunça. Mas uma bagunça muito bonita, me dói admitir.
Austin Théodore é um cara alto, cerca de 1,82 de altura, de porte atlético, pois faz musculação e joga basquete e um rosto muito atraente. Com o maxilar anguloso, olhos azuis safira brilhantes, nariz pequeno e reto e lábios desenhados. Seus cabelos escuros são ondulados, estavam recém cortados e caíam sobre as sobrancelhas finas, deixando-o ainda mais charmoso. Realmente, um cara bonito e que chama muita atenção das meninas, porém não a minha. Théo não faz o meu tipo. Não pela aparência, mas por sua personalidade irritante.
— Você é um sem noção, Austin Théodore. Vá para casa e me deixe em paz, quero assistir meu filme. — Reclamo, sentando-me com a coluna ereta e pegando meu balde de pipoca de volta. Théo pega mais algumas pipocas e joga na boca.
— Que filme vamos assistir?
— Você eu não sei, mas eu vou assistir Uma Linda Mulher, completamente sozinha, sem Austins me perturbando.
— Mas já vimos esse umas cinco vezes. — Théo ignora minhas indiretas diretas. Bufo em resposta e dou play no filme. Quando faço menção de pegar pipocas para comer, percebo que o balde está quase vazio. Eu mereço.
***
— Não seria melhor se aparecesse um louco da motosserra e começasse a persegui-los pela cidade? Aposto que fortaleceria o relacionamento deles como casal. — Théo especula, enchendo a boca de pipoca recém-preparada enquanto encara a TV de tela plana. Dou a ele um olhar de reprovação, tiro seus pés da mesa de centro e sento-me ao seu lado.
— Por que você sempre tem que inventar situações sangrentas como se fosse algo normal? Fala sério, estamos assistindo Uma Linda Mulher! — Protesto, tomando o balde de pipoca das mãos dele e comendo algumas também. Ele ri, ajeitando-se sobre o sofá e sentando sobre os calcanhares.
— Você só gosta desses filmes água com açúcar, meu cérebro já criou um sistema anti-tédio automático para essas situações. — Debocha. Me preparo para discutir com ele, mas sei que seria uma causa perdida. Volto a atenção para o filme que já assisti tantas vezes durante as férias escolares — várias delas com Théo — e ignoro por completo meu melhor amigo.
Ah, o irritante do meu melhor amigo, fiel confidente e companheiro para todas as horas, Austin Théodore Lester LeMontreau III, ou, se preferir, "O cara mais chato do planeta Terra". Não me entenda mal, não é que eu não aproveite a companhia dele, muito pelo contrário, meus dias sem Austin Théodore por perto são completamente sem graça na pacata Bells Corners, e no internato Ashbury College, na cidade de Ottawa, Ontário, Canadá. Entretanto, depois de tantos anos, na verdade, a vida inteira ao seu lado, cheguei a conclusão que preciso de umas férias. Férias dele.
Théo e eu nos conhecemos ainda bebês quando minha família saiu do centro, cansados da agitação da cidade e com dois bebês de três anos de idade, e compraram uma casa no subúrbio. De brinde, vieram vizinhos maravilhosos e amigáveis que moravam aqui há muito mais tempo — e tinham um bebê de três anos extremamente agitado — que logo se tornaram muito próximos de nós. E desde então, somos amigos. Já se passaram quatorze anos. Os pais de Théo se divorciaram há cinco anos, sua mãe voltou a morar na cidade natal e seu pai se mudou para a casa de seu avô paterno para cuidar dele, que está com câncer de próstata. Théo preferiu, por algum motivo, continuar na, segundo ele, "Cidade do Tédio Eterno" junto com sua avó, também divorciada.
— Jill. — Sua voz aveludada me faz lhe dar atenção novamente. — Cansei desse filme, vamos fazer algo divertido.
— Eu já estou fazendo algo divertido, estou assistindo meu filme favorito. — Falo, com a boca cheia de pipoca.
— Mas já vimos esse muitas vezes, e você sempre reclama dos meus métodos anti-tédio, está ficando realmente difícil ter algum entretenimento por aqui... — Resmunga Théo. As vezes ele age como uma criança mimada e isso me irrita muito.
— Você pode simplesmente ir embora então, afinal, você invadiu minha casa sem mais nem menos. — Respondo indiferente, voltando meus olhos para o filme e aumentando o volume da TV. Théo faz uma careta e resmunga baixinho, apoiando o cotovelo no braço do sofá e a bochecha no punho, completamente entediado. Pauso o filme, viro para ele e o encaro. — O que há contigo hoje? Está carente de atenção?
— Sim, Jillian Rose, estou carente da atenção da minha melhor amiga que simplesmente gritou comigo e me ignorou as férias inteiras. Esse é o nosso último fim de semana livre antes do fim do ano letivo e você quer ficar assistindo esse filme chato e me ignorando! — Bufa, indignado. De certa forma, ele parecia um pouco fofo com aquela expressão, mas eu estava muito irritada para olhar para isso.
— Eu cansei de falar para você ir para a casa do seu avô nessas férias, mas você insistiu em ficar. Não venha reclamar de tédio comigo, Austin, eu estou muito satisfeita com as minhas férias, obrigada.
— Você não tem o mínimo de consideração!
— Larga de ser dramático, não combina com você! Por que você não foi para Yorkshire afinal de contas? Lá é bem mais divertido do que aqui, com toda a certeza!
— Porque você não estaria lá, sua idiota! Argh, meu tio estava certo, eu tenho um péssimo gosto para mulheres. — Reclama, levantando-se e indo em direção a cozinha com raiva. Sinto meu rosto esquentar levemente com suas palavras e começo a me sentir culpada. Parando para pensar, fui bem chata com ele durante as férias, recusei quase todos os seus convites para sair e reclamei quase todas as vezes que ele veio me visitar de surpresa. De repente, me vem um grande peso na consciência.
Desliguei a televisão e fui para a cozinha. Encostada no batente, tenho a visão do Théo atacando a geladeira da minha casa sem nenhum escrúpulo — nada de anormal até aqui — resmungando baixinho, visivelmente chateado. Suspiro.
— Você sabe que você e eu temos gostos diferentes, não sabe? — Começo, sabendo que, se não tivesse cuidado, poderia acabar o irritando mais a qualquer momento. Ele não olha para mim, apenas continua montando um sanduíche e resmunga algo incompreensível.
— Você sabe também que eu tenho o direito de passar minhas férias como mais me agrada, certo? Eu sou caseira, gosto de assistir tv, ler um livro, as vezes estudar... — Explico, mas Théo estica a coluna, levanta a cabeça com os olhos fechados e suspira pesadamente abrindo os olhos de novo.
— Eu sei, desculpe. É que nós quase não passamos um tempo juntos ao longo do ensino médio, eu tenho o basquete, você o grêmio estudantil e os cursos. O único momento que podemos ficar juntos é durante as férias, e eu queria aproveitar isso. Foi mal, Jill, não quis estragar tudo. — Ele termina de montar o sanduíche e morde um pedaço. — Vou ligar para os caras, deve ter alguma festa rolando por aí.
— Mas você odeia festas... Está tão entediado assim? — Rio, com o peito apertado por tê-lo magoado. Ele acena afirmativo com o sanduíche na boca enquanto usa as mãos para abrir uma lata de refrigerante que estava escondida no fundo da geladeira, provavelmente era do meu pai.
— Qualquer coisa é melhor do que assistir esse filme de novo. — Brinca, após beber um gole do refrigerante e colocar o sanduíche de volta no prato. — Afinal, por que você curte tanto esse filme?
— O Richard Gere é bonitão.
— O Richard Gere é velho.
— Ele é um velho bonitão! E rico! — Rio novamente. Ele me encara pensativo.
— Como um suggar daddy?
— Talvez. — Ponho a mão no queixo, fingindo estar pensativa, mas com um sorriso bobo estampado na cara.
— Eu sou mais velho que você, extremamente bonitão e provavelmente mais rico que o Richard Gere, não sirvo pra ser seu suggar daddy? — Théo abre um sorriso sedutor que não surte efeito em mim. Reviro os olhos e balanço a cabeça.
— Para isso acontecer, você tem que ser muito rico mesmo para pagar todas as sessões de terapia que vou precisar por te aturar! — Brinco. Ele ri gostosamente e olha para mim de forma calorosa, fazendo-me sentir um pouco constrangida e desviar o olhar. Théo pega seu celular e digita algo, mas eu o impeço. — Não, Austin, não precisa sacrificar sua noite em festas, ok? Vamos fazer algo divertido, eu já desliguei a TV.
— Sério? — Théo me encara com seus lindos olhos azuis brilhantes, como uma criança empolgada. — Não se sinta obrigada a nada, eu meio que agi como um otário agora a pouco...
— Não, você está certo. Na verdade, você sempre age como um otário, mas...
— Ótimo, estava demorando. — Ele revira os olhos e eu sorrio.
— Olha, eu admito, dessa vez eu agi como uma otária mais do que você, eu devia ter valorizando seu sacrifício para estar comigo. Não é qualquer pessoa que abre mão de Yorkshire para estar com a melhor amiga. Obrigada, Austin Théodore, eu aprecio isso.
— Isso quer dizer que eu posso te alugar o resto do fim de semana, sem filmes chatos, só fazendo coisas realmente legais? — Seus olhos brilhavam ainda mais. Eu tive a impressão de que me arrependeria amargamente disso, mas concordei.
— Sim, sou toda sua esse fim de semana.
— Não brinca assim comigo, Jill... — Théo me encara e sorri maldosamente. Eu faço uma expressão de nojo.
— Esquece, já mudei de ideia .
— Não, não, ok, parei com isso! — Ri, empolgado novamente.
— Você devia parar com essas brincadeiras bobas, alguém pode entender errado. — Falo, me virando para subir ao meu quarto para me arrumar.
— Não da para evitar, Jill, eu sou louco por você! — Exclama, a boca cheia com o último pedaço do sanduíche. Eu reviro meus olhos e subo as escadas. Idiota. Penso. Isso não é engraçado.
Notas finais
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