Algumas coisas mudam, o destino não.
1 Prólogo
— Está quente.
Lucy murmurou para si mesma enquanto usava o braço para secar as pequenas gotas de suor que se formavam na testa. Ao longe, sob o barulho da agitação da guilda, as cigarras cantavam em seu coro estridente anunciando o auge do verão. Talvez fosse o momento de deixar os vestidos longos um pouco de lado e apostar em roupas mais frescas, pensou consigo mesma voltando a enfiar as mãos na água cheia de espuma da pia, retornando a louça que lavava.
Pilhas de copos e pratos se erguiam ao seu redor, mas continuava ensaboando um por um sem reclamar. Sempre ostentando um sorriso gentil nos lábios, sentia-se grata por poder substituir Mira numa função que descobriu ser muito crucial e gratificante. A albina, que por anos e anos atuou como garçonete, jamais reclamou, porque não ser igual? Agora que a mais velha havia acabado de dar à luz a seu primeiro bebê, estava curtindo férias muito merecidas. Além do mais, Lucy já vinha herdando a função há cerca de três anos. Alguns mais não fariam diferença.
Quando enfim venceu toda a louça acumulada, secou as mãos no avental e observou a Fairy Tail. Reedus, Macao, Wakaba, Raijinshu… ao mesmo tempo que vários anos já haviam passado e a idade já marcava o rosto dos homens com vincos profundos e manchinhas na pele, algumas coisas permaneciam iguais. O sorriso morreu um pouco. Na verdade, a maior mudança que impactou todas as fadas foi a ausência de um certo alguém…
Mordeu o lábio, apertando o tecido nas mãos. Ela mesma estava diferente, não apenas externamente. A idade lhe trouxe uma dose extra de juízo e responsabilidade, todos a consideravam muito pé no chão. Agia sempre com delicadeza e gentileza, cuidadosa com cada um que interagia em seus dias, fosse na guilda ou na cidade. Durante os longos expedientes no bar, aprendeu a ouvir e também a aconselhar.
Soltou o cabelo longo e loiro do rabo de cavalo e permitiu que caísse em cascata pelas costas e ombros; alisou a saia do vestido azul e o cinto grosso marrom no quadril. Sentia-se satisfeita também com sua aparência, apesar de não ter mudado muito. Os seis continuavam se destacando mas os quadris compensavam na proporção certa, dando-lhe o formato de ampulheta em conjunto com a cintura marcada. Os traços arredondados da adolescência também deixaram seu rosto, e agora tinha maçãs proeminentes e um maxilar afilado e forte. Os olhos continuavam na cor do chocolate e delineados por cílios bonitos e acentuados pelas maquiagens coloridas que costumava combinar com a cor da roupa.
Deixando os pensamentos de lado, agarrou uma bandeja e fez sua rota costumeira pela guilda removendo as louças usadas e levando para a pia. Um trabalho quase interminável, mas apreciado.
— Lucy — Macao a chamou do outro lado da guilda, acenando com a mão. Seu cabelo e bigode haviam se tornado grisalhos. — Traga uma cerveja, por favor.
Concordou com um sorriso e retornou para o balcão. Enquanto enchia uma caneca, as risadas ao redor soavam como música para seus ouvidos junto das conversas calorosas. Todos estavam felizes. Sentiu o peito apertar.
Equilibrou o copo na bandeja e entrou no corredor principal rumando para o homem para quem sorria quando a porta central se abriu. No automático, recebeu o recém chegado com um “bem vindo de volta!” costumeiro. Só não esperava a voz que lhe respondeu com um obrigado.
A guilda inteira silenciou. Lucy ficou paralisada, como se tivesse criado raízes ali mesmo. Suas mãos começaram a tremer de forma que não pode evitar que a bandeja fosse ao chão transformando o copo em milhares de caquinhos e o líquido de molhar as botas e o vestido. Virou-se devagar sem conseguir enxergar nada direito. Não pode ser, pensou.
—E aí, pessoal! Como vocês estão?
Focou primeiro nos cabelos rosados, então no cachecol branco e procurou pela tatuagem no ombro, mas este estava coberto por uma manga laranja. Entretanto, só precisou olhar o sorriso largo para confirmar que aquele homem era realmente quem estava pensando. Aquele inconfundível sorriso branco de Natsu Dragneel.
Não disse nada. Apenas saltou por cima do vidro e correu para os braços abertos do dragon slayer, sendo recebida calorosamente pelo aperto do abraço que a embalou com força, com saudade, concluiu. Assim como se lembrava, Natsu tinha cheiro de fumaça e de algo forte, amadeirado.
Se afastou apenas o suficiente para agarrá-lo pelas bochechas e puxar o rosto do rosado para próximo, olhando-o fundo nos olhos.
— É você! — exclamou emocionada. Não conseguia controlar o sorriso que chegava a deixar as bochechas doloridas.
— Voltei para a casa, Luce.
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