Algum dia serei como eles

1 Algum dia serei como eles.


Era somente mais um dia chato naquele inferno que uns malucos chamam de emprego. Os ponteiros daquele maldito relógio possuíam uma lentidão de fazer arrancar os cabelos. Eu admito, minha esposa é bem melhor empregada que eu, logo, claramente, ganha bem mais dinheiro, porém, não é o suficiente para nos dar uma vida digna e longe de uma rotina entediante. Senão eu não estaria aqui. Esta empresa de seguros que me enfiei por pressão de alguns amigos. Uma pena o chefe ainda estar hospitalizado, apesar de eu odiar, do fundo do meu coração, aquele carrasco. Rumores apontaram que um cara extremamente forte o pegou pelo pescoço e o jogou contra várias paredes. Na realidade, nunca conheci ninguém direito aqui, mal interajo com meus "colegas". Mas seja lá quem for, teve uma coragem invejável.

E eu continuo por lá, para meu azar. Ah, eu ia me esquecendo, meu nome é Mike Petterson, muito prazer. Visto como um cara comum, mas muito vaidoso — isso é seguro confirmar, modéstia à parte. Em um certo dia de escravo... quero dizer, de trabalho (mentira, o "escravo" foi proposital), eu estava com um topete além do normal e meu terno estava mais limpo também. Pois é, eu me preocupava com minha aparência e ainda me preocupo. Toda aquela calmaria disfarçada de tédio constante. Eu confesso não ter conseguido pensar em nada quando ouvi um estrondo. Somente tremi devido ao susto depois de cair da cadeira. Meu deus, o que era aquilo, afinal? Que tipo de mente doentia criaria um monstro de metal como aquele?

Aquele bola de demolição gigante com tentáculos e garras me causou arrepios, logo de imediato, enquanto deixava rastros de destruição por onde passava disparando raios incessantemente. O prédio foi inteiramente evacuado e, para minha sorte, pude escapar ileso.

Corria como um velocista em uma corrida de atletismo em meio ao cenário caótico. Em dado momento, ocorreu aquilo que eu jamais esperava... era uma garotinha, ela parecia muito com minha filha. Sua mãe clamava para que ela corresse até ela, pois um pedaço de um prédio estava prestes a esmaga-la. No meio daquele caos, eu me perguntava: "Onde estão os verdadeiros heróis desta cidade?". Não, eu não queria presenciar mortes brutais naquela infeliz ocasião. Percebi um cara sendo arremessado a um prédio. Ele parecia estar controlando o tal robô, mas não ainda não tenho certeza. Quanto à menininha... bem, eu senti um inexplicável senso de justiça... de heroísmo... uma vontade que tocou fundo em minha alma. Eu tinha que salva-la. E assim eu o fiz. A rocha se desintegrou assim que eu a vislumbrei quando olhei para cima, colocando a menina em meus braços. Meus olhos arderam em chamas. Em outras palavras, eu disparei raios pelos meus olhos! Fragmentos minúsculos caíram como cinzas no chão. Entreguei a garotinha à sua mãe e continuei minha busca por um lugar seguro.

Não vou dizer o que passou pela minha cabeça depois daquilo. Fiquei aturdido, desnorteado, completamente perplexo. Me senti ainda mais impressionado, embora mais feliz, com a chegada de heróis... sim, eles mesmo. Eles finalmente estavam de volta. Não tem noção do quão contente fiquei quando o prefeito da cidade pôde reconsiderar a importância que os super-humanos possuem em prol da segurança. E lá estavam eles, sendo ovacionados por uma plateia imensa de cidadãos gratos. Eu estava lá, assistindo aquele momento lindo. O Senhor Incrível e a Mulher Elástica esbanjavam sorrisos sinceros, que denotavam um sentimento de vitória. E eles tiveram lindos filhos. Um garoto velocista e uma menina com poder de invisibilidade. Havia um cara entre eles, vestindo uma roupa branca e azul com um visor que não deixava ver seus olhos. Ele possuía poderes congelantes. Enfim, na minha visão era somente um ajudante que serviria como último recurso em situações extremas.

Após o que ocorreu à mim eu pude me imaginar no meio daquelas figuras icônicas. Eu demorei para acreditar que aqueles poderes pertenciam à mim, mas com o passar do tempo fui me habituando e seguiu-se uma série de descobertas. Bem, se eles tiveram filhos super-humanos e eu sendo um pai agindo como tal, significava que meus filhos também poderiam desenvolver habilidades. Até agora não demonstraram nenhum sinal, mas depois daquilo fiquei mais atento ao crescimento deles.

Eles ficaram bastante famosos, de fato. Na semana seguinte, veio o poder de ficar suspenso no ar, que depois de alguns dias evoluiu para o clássico voo supersônico. Que emoção. Durante este "treinamento", dei umas passadas na academia. Em poucos dias meu condicionamento físico estava além do que eu esperava. Minha força quadruplicou. Meus raios ficaram bem mais ardentes e pulverizantes.

Passado um mês, era chegada a hora de aceitar meu destino. Eu vi e tinha certeza que poderia fazer um bem maior pela cidade. Assim como eles, eu merecia demonstrar meu instinto heroico, como prova de minha admiração por eles. Após uma longa busca na internet, encontrei o que eu precisava. Ela era super-confiável, seu nome era Edna Moda. Foi-me entregue um uniforme perfeitamente incrível. Eu até sugeri para que ela colocasse outros detalhes, como uma capa, por exemplo. Mas não, ela foi severa quanto à isso ao gritar para mim "Nada de capas!". Eu me aquietei e aceitei, sem reclamar.

Finalmente o dia veio. Senti-me como num primeiro dia de um novo emprego. Ah, aquele uniforme... que beleza de roupa. Praticamente todo em azul escuro, com as luvas sendo pretas e um logotipo que consistia em um triângulo vermelho de cabeça para baixo. Além do meu cinto dourado, que era um tanto reluzente — e ainda é.

Pus a minha máscara preta, ajeitei meu cabelo e saí voando pelo meu bairro, no começo de uma bela manhã ensolarada. Nas ruas eu ouvia comentários de alguns garotos sobre um competidor na corrida do colégio que ganhou o segundo lugar de modo impressionante. Me veio à mente o filho do Senhor Incrível. Sim, minha super-audição começava a surgir. E é engraçado, como ninguém os reconhece. Eu apostava alto que o mesmo aconteceria comigo.

Assim que parei para respirar um pouco, pousando em um prédio qualquer, uma fumaça manchou a bela vista panorâmica que eu tinha da cidade. Obviamente, era um caso de extrema urgência. Um tremor intenso assustou várias pessoas próximas àquele ponto. O chão começou a rachar, fazendo carros e ônibus baterem e caírem. Uns edifícios começaram a ter suas vidraças quebradas. Parecia algo prestes a sair de dentro da terra.

Permaneci parado a fim de ver do que se tratava e rapidamente surgiu uma enorme máquina perfuradora rasgando o chão fortemente. Fiquei pasmo com aquilo. Dela apareceu um homem esquisitão dizendo ser "O Escavador". De repente, ouvi uma explosão, vinda do outro lado do centro da cidade. Aquela seria uma oportunidade perfeita para me aliar aos meus heróis, mas também, é claro, de poder salvar, pela primeira vez, as pessoas, agindo como um verdadeiro herói.

Não tive escolha. Um misto de sensações assolou minha mente. Um pouco de frustração e um pouco de euforia. Voei até o ponto em que a explosão ocorrera e me deparei com um cara mascarado — totalmente -, vestindo uma capa roxa e um uniforme preto. Suas habilidades resumiam-se em disparar raios e controlar a força dos ventos, ou seja, manipulação do clima.

Naquela situação, tive a ideia de meu codinome: Mikenífico. Até ri de mim mesmo por isso, mas durou pouco tempo, pois eu tinha que pousar para enfrentar aquele babaca, que se divertia, rindo maleficamente, lançando raios nos carros e nas lojas. Uma preocupação com relação ao que acontecia no outro lado me assombrava. Queria muito saber como eles estavam lidando com aquele novo monstro de metal e aquele cara estranho.

Meu primeiro super-vilão era um adversário à altura, sem querer exagerar. Tivemos um intenso confronto no meio daquela rua praticamente destruída. Meus raios fulminantes contra seus raios trovejantes. Não sei se foi por puro esforço ou sorte de principiante, mas acabei o derrotando atingindo-o bem no seu peito. Eu o queimei seriamente, e lá estava ele, caído no chão, sem se mexer.

Muitas pessoas, outrora escondidas nos carros, levantavam-se para ver o resultado da luta. Uma série de aplausos foi-me dada. Nem sei como dizer... eu ainda me acanho só de lembrar, foi deveras gratificante.

Eu só pude sorrir. Aquele cara foi levado ao hospital, mas espero que já esteja na cadeia pelo que fez. Quanto aos meus heróis... bem, eles novamente salvaram o dia. Nós salvamos. Juntos, embora em pontos distintos.

No fim daquele dia, me senti mais leve. Sou eternamente grato pelo que tenho. Pela minha esposa, meus filhos e até mesmo pelo emprego de quinta que me fornece cansaço mental todo santo dia. Bem, agora levo esta nova e boa vida. Fiquei voando pelos céus da cidade, naquele belo pôr-do-sol, com seus últimos raios me iluminando. Nem mesmo a capa fez falta, até porque a Edna mostrou-me a razão pela qual elas são perigosas.

Alívio e gratidão. Somente isto que senti naquele instante. Eu só tenho agradecer à eles. Por terem me inspirado a se tornar o herói que mereço.

Para os super-humanos ainda reclusos que leem este relato, só aconselho a ressuscitaram o herói morto dentro de vocês. Ainda não é o fim.

Não almejo me aliar à eles ou substituí-los, longe disso.

Apenas contribuir com o que tenho a oferecer para o que esta cidade realmente precisa: de heróis.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!